Capítulo 44 — Onde Até Deuses Sangram
A vila já não parecia mais a mesma.
O chão, antes firme, agora era um campo marcado por rachaduras profundas, crateras e cicatrizes recentes. As estruturas ao redor tremiam a cada novo impacto, e o ar… o ar estava pesado, carregado de energia, como se cada respiração fosse mais difícil do que a anterior.
No centro de tudo aquilo—
Kanzaki e Eryndor.
Ainda de pé.
Ainda lutando.
Mas agora…
Sangrando.
A batalha havia deixado de ser uma dança perfeita.
Agora era sobrevivência.
Os movimentos já não eram apenas belos — eram brutais.
Pesados.
Carregados de intenção real de matar.
Kanzaki avançou primeiro.
A entidade divina ainda pairava atrás dele, seus movimentos perfeitamente sincronizados, suas lâminas de luz acompanhando cada gesto do homem que a invocara.
Quatro espadas cortaram o ar ao mesmo tempo.
Eryndor desviou das duas primeiras.
A terceira passou raspando por seu ombro, abrindo um corte superficial, mas suficiente para arrancar sangue.
A quarta—
Ele bloqueou.
Mas dessa vez…
Kanzaki não recuou.
Ele avançou junto com o impacto.
Empurrou.
Girou o corpo.
E então—
Com um movimento extremamente preciso, calculado no limite—
Desarmou Eryndor.
A katana de Eryndor foi arremessada para longe, girando no ar antes de cravar-se no chão a vários metros de distância.
Um silêncio estranho caiu por um instante.
Era o tipo de momento em que, em qualquer outra luta—
Seria o fim.
Mas não ali.
Não contra ele.
Eryndor não recuou.
Não hesitou.
Ele… avançou.
Sem arma.
Sem defesa.
Apenas com o próprio corpo.
Kanzaki percebeu no mesmo instante.
E preparou o contra-ataque.
Mas Eryndor já estava perto demais.
O primeiro soco veio direto.
Cru.
Kanzaki levantou uma das lâminas para bloquear—
Mas no momento do impacto—
Os raios explodiram.
A energia elétrica envolveu o punho de Eryndor no exato instante do golpe, ampliando a força de forma absurda.
Kanzaki foi empurrado para trás.
Seus pés arrastaram no chão.
Mas antes que pudesse recuperar o equilíbrio—
Outro golpe.
Eryndor não dava espaço.
Cada soco era acompanhado por descargas elétricas violentas, estourando contra o corpo de Kanzaki, queimando, rasgando, forçando sua defesa a um limite completamente diferente.
Kanzaki tentou responder.
As espadas se moveram.
A entidade divina atacou junto.
Mas Eryndor…
Estava mais rápido.
Muito mais.
Ele se movia entre os golpes.
Deslizava.
Se inclinava.
Desviava por centímetros.
E quando encontrava uma abertura—
Punha tudo naquilo.
Um soco no abdômen.
Outro no rosto.
Um terceiro nas costelas.
Cada impacto fazia o corpo de Kanzaki recuar.
Cada descarga elétrica deixava marcas visíveis.
A luta havia perdido qualquer resquício de elegância.
Agora era… violência pura.
Mesmo assim—
Kanzaki não caiu.
Ele respirou fundo.
Forçou o corpo a reagir.
E então—
Mudou o ritmo.
Em vez de recuar…
Ele avançou.
Aceitou o próximo golpe.
O punho de Eryndor veio direto em seu rosto, carregado de eletricidade—
E Kanzaki não desviou completamente.
Ele deixou o golpe passar de raspão.
O suficiente.
Porque naquele exato instante—
Ele contra-atacou.
A lâmina descreveu um arco curto.
Rápido.
Preciso.
E atingiu.
O corte atravessou o rosto de Eryndor.
Do lado esquerdo.
Pegando diretamente o olho.
O sangue jorrou.
Eryndor foi forçado a inclinar a cabeça para trás.
Por um breve instante—
Sua visão falhou.
Mas ele não parou.
No mesmo movimento—
Ele respondeu.
O soco veio com tudo.
Sem hesitação.
Sem controle.
Sem limites.
A eletricidade acumulada em seu punho explodiu no momento do impacto.
O golpe acertou Kanzaki em cheio.
A força foi devastadora.
O corpo de Kanzaki foi lançado para trás como se tivesse sido atingido por uma explosão.
Ele atravessou parte do chão, rolando, quebrando pedras, levantando poeira antes de finalmente parar.
Silêncio.
Pesado.
Lento.
A poeira começou a baixar.
E no meio dela—
Dois homens.
Feridos.
Exaustos.
Mas ainda… de pé.
Kanzaki apoiou uma das espadas no chão para se levantar.
Sua respiração estava irregular.
Sangue escorria de sua boca.
Seu corpo já não respondia com a mesma precisão de antes.
A entidade divina atrás dele tremia levemente.
Instável.
Como se também estivesse sentindo o peso daquela batalha.
Do outro lado—
Eryndor.
Sangue escorria pelo lado esquerdo do rosto.
Seu olho…
Fechado.
Destruído pelo corte.
Mas o outro—
Ainda estava lá.
Fixo.
Intacto.
E queimando.
Ele cuspiu sangue no chão.
E deu um passo à frente.
Sem recuar.
Sem hesitar.
Kanzaki observou.
Por um instante…
A tensão diminuiu.
Não porque a luta havia acabado.
Mas porque ambos entenderam algo naquele momento.
Algo simples.
Mas absoluto.
Eles estavam diante de alguém… digno.
Kanzaki respirou fundo.
E então falou.
A voz cansada.
Mas firme.
— …Você sabe lutar.
Não foi um elogio vazio.
Não foi provocação.
Foi reconhecimento.
Um guerreiro reconhecendo outro.
Por tudo que haviam trocado ali.
Por tudo que haviam suportado.
Por tudo que ainda estavam dispostos a arriscar.
Por um breve instante—
O caos pareceu se afastar.
Mas Eryndor…
Não respondeu da mesma forma.
Ele se levantou completamente.
Endireitou o corpo.
Mesmo ferido.
Mesmo sangrando.
Mesmo com metade da visão comprometida—
Sua presença continuava… esmagadora.
Ele limpou o sangue do rosto com as costas da mão.
E então olhou diretamente para Kanzaki.
Sem emoção.
Sem suavidade.
Apenas verdade.
— Isso…
Uma pausa.
O ar pareceu pesar novamente.
— …só acaba quando eu decidir que acabou.
Silêncio.
E a guerra entre os dois—
Ainda não tinha terminado.