Capítulo 46 — Ecos de um Mundo em Ruínas
O mar estava inquieto.
As ondas batiam contra o casco do barco com força irregular, como se até a própria natureza ainda reagisse ao que havia acontecido.
Eryndor permanecia de pé na proa.
Imóvel.
O vento puxava seus cabelos para trás, revelando o corte profundo que atravessava seu rosto, passando pelo olho esquerdo. O sangue já havia secado em partes, mas ainda havia marcas frescas escorrendo lentamente.
Sua respiração era pesada.
Não visível.
Mas presente.
Seu corpo… estava no limite.
E ainda assim—
Ele não se curvava.
Seus dedos seguravam a katana com firmeza.
Mas então…
Algo aconteceu.
Um leve tremor.
Sutil.
Quase imperceptível.
Sua mão… tremia.
Eryndor não reagiu de imediato.
Apenas… observou.
Seus olhos desceram lentamente até os próprios dedos.
Tremendo.
Sem controle.
Sem comando.
Sem força.
Pela primeira vez desde que deixou a vila—
Ele parou.
O som do mar continuava.
Mas dentro dele…
Tudo ficou em silêncio.
E então—
As memórias vieram.
Passos apressados.
Respirações falhando.
Dor.
Dois corpos quase caindo.
Mas ainda avançando.
Dois irmãos.
Eryndor… e Raizen.
Mais jovens.
Muito mais jovens.
Feridos.
Sujos.
Desesperados.
Eles chegaram diante da igreja.
Grande.
Imponente.
Intocável.
Raizen caiu primeiro.
De joelhos.
Sem forças.
— Eryndor…
A voz falhou.
Eryndor ainda tentou se manter de pé.
Por orgulho.
Por teimosia.
Por instinto.
Mas seu corpo também cedeu.
Eles estavam destruídos.
Mas ainda vivos.
E isso… deveria ser o suficiente.
A porta da igreja se abriu.
Um homem saiu.
Vestes sagradas.
Postura firme.
Olhar… vazio.
Raizen ergueu o rosto.
— Por favor…
Sua voz tremia.
— Nossos pais… foram mortos…
Eryndor completou, mesmo com dificuldade:
— Fomos atacados… não sabemos o que era… precisamos de ajuda…
Silêncio.
O homem os encarou.
Não com pena.
Não com compaixão.
Mas como se estivesse avaliando algo sem valor.
— Vocês não pertencem à igreja.
Raizen piscou, confuso.
— O quê…?
— A igreja não interfere nos problemas do mundo exterior.
A resposta veio seca.
Final.
Eryndor apertou os punhos.
— Nós vamos morrer se ficarmos aqui fora.
O homem suspirou.
Como alguém cansado.
— Então voltem para onde vieram.
Silêncio.
Pesado.
Raizen tentou se levantar.
— A gente não tem pra onde ir—
Mas não terminou.
Guardas surgiram.
Sem aviso.
Sem hesitação.
Eles foram puxados.
Arrastados.
Jogados.
Para fora.
Sem dignidade.
Sem cuidado.
Sem humanidade.
O portão se fechou.
E com ele—
Qualquer chance de retorno.
Raizen caiu no chão.
Respirando com dificuldade.
Eryndor…
Se levantou.
Mesmo quebrado.
Mesmo sangrando.
Ele olhou para os portões fechados.
Por muito tempo.
Sem dizer nada.
Mas naquele silêncio…
Algo nasceu.
Não um grito.
Não uma explosão.
Mas algo pior.
Algo frio.
Profundo.
E eterno.
De volta ao presente—
A mão de Eryndor ainda tremia.
Mas então—
Seus dedos se fecharam.
Devagar.
Com força.
Até parar.
Até controlar.
Até esmagar qualquer fraqueza que ainda existisse ali.
O tremor cessou.
Eryndor ergueu o olhar novamente.
Aetheryon já podia ser visto ao longe.
E então—
Ele voltou a caminhar.
A vila…
Não era mais uma vila.
Era um cemitério aberto.
Fumaça subia entre os restos das construções.
O cheiro de queimado dominava o ar.
E o silêncio…
Era pesado demais.
Kanzaki caminhava entre os destroços.
Sem pressa.
Sem rumo.
Seus passos eram lentos.
Mas firmes.
Seus olhos percorriam tudo.
Não como um líder.
Mas como um homem.
Então ele parou.
No chão—
Entre cinzas e madeira quebrada—
Havia algo pequeno.
Ele se abaixou.
E pegou.
Um brinquedo.
Simples.
De uma criança.
Chamuscado.
Mas ainda inteiro.
Seus dedos apertaram o objeto.
Com força.
Seus olhos se fecharam por um instante.
E quando abriram—
Não havia mais dúvida.
Apenas… dor.
E ódio.
Seraphiel se aproximou.
Seus passos eram calmos.
Mas sua presença—
Agora era pesada.
Diferente.
Ele olhou ao redor.
A destruição.
O silêncio.
As vidas que se foram.
E então disse:
— Agora…
Uma pausa.
O vento carregava cinzas pelo ar.
— Todos estamos em guerra.
Kanzaki não respondeu.
Apenas segurou o brinquedo com mais força.
Seraphiel então desviou o olhar para o horizonte.
— Isso não pode mais ficar isolado.
Silêncio.
E então—
— Está na hora de irmos para o continente.
O nome carregava peso.
O continente.
Onde a igreja dominava.
Onde o mundo realmente se movia.
E então—
A cena se apagou.
O barco finalmente chegou.
A madeira rangeu ao encostar no cais de Aetheryon.
Mas ninguém se moveu.
Ninguém falou.
Todos estavam olhando.
Eryndor desceu.
Seus passos ecoaram.
Lentos.
Firmes.
Sangrentos.
O silêncio tomou conta do local.
Takemura não sorriu.
Lysera não falou.
Isamu apenas observou.
Ren…
Também.
Algo estava diferente.
Não era apenas o estado físico de Eryndor.
Era…
Algo mais profundo.
Mais pesado.
Eryndor passou por todos.
Sem parar.
Sem olhar.
Até que sua voz cortou o silêncio:
— Ren.
Apenas isso.
E continuou andando.
Ren hesitou por um breve instante.
Mas seguiu.
A capela central de Aetheryon estava silenciosa.
A luz entrava pelas aberturas altas, iluminando o interior com um tom frio.
Eryndor parou no centro.
Sem se virar.
— Você voltou vivo.
Silêncio.
— Bom.
Ren permaneceu em pé atrás dele.
Sem responder.
Eryndor então continuou:
— Eu também estive em uma missão.
Uma pausa.
— Fui até a igreja.
Ren franziu levemente o cenho.
E então—
Eryndor contou.
Sem emoção.
Sem exagero.
Sem orgulho.
A luta.
A destruição.
O nome de Kanzaki.
Tudo.
Quando terminou—
O silêncio ficou pesado.
Ren respirou fundo.
E então disse:
— Eu também tenho algo pra falar.
Eryndor permaneceu em silêncio.
— Eu declarei guerra contra Vorthal.
O ar… mudou.
Lentamente—
Eryndor virou o rosto.
Seus olhos encararam Ren.
Frios.
Pesados.
— Você fez… o quê?
Ren sustentou o olhar.
— Eu declarei guerra.
Sem autorização.
Sem estratégia.
Sem pensar no todo.
Eryndor deu um passo à frente.
A pressão no ambiente aumentou.
— Ingênuo.
A palavra saiu como uma lâmina.
— Você acha que guerra é algo que se declara por impulso?
Outro passo.
— Você acha que isso é sobre você?
Ren permaneceu em silêncio.
Mas não abaixou a cabeça.
— Você ainda não entende o peso das coisas que faz.
Silêncio.
Pesado.
Cortante.
E então—
Eryndor virou de costas novamente.
— Já que foi você quem iniciou isso…
Uma pausa.
— Você vai resolver.
Ren não respondeu.
— Você irá representar Aetheryon em uma reunião com líderes das regiões próximas.
Uma pausa.
— Sozinho.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
Eryndor não disse mais nada.
E Ren…
Apenas aceitou.
A noite caiu.
O quarto estava silencioso.
Ren estava sentado.
Sua armadura parcialmente removida.
As espadas apoiadas ao lado.
Seus movimentos eram lentos.
Cansados.
Mas controlados.
Ele começou a guardar seus equipamentos.
Quando—
Algo caiu.
Um pequeno papel.
Velho.
Amassado.
Ren franziu o cenho.
Se abaixou.
E pegou.
Seus olhos demoraram um segundo para reconhecer.
Mas então…
Reconheceu.
Daichi.
Ele abriu o papel.
Devagar.
As palavras estavam gastas.
Mas ainda legíveis.
“Se você está lendo isso… então alguma coisa deu errado.”
Ren permaneceu em silêncio.
“Eu não posso te contar tudo ainda… não aqui.”
Seus olhos se estreitaram levemente.
“Mas se chegar o momento… vá para o continente.”
O coração dele… pesou.
“Lá… você vai entender.”
Uma pausa.
“Confia em mim.”
Silêncio.
“— Seu melhor amigo.”
Ren ficou parado.
O papel em suas mãos.
O quarto em silêncio.
A mente… distante.
Então ele dobrou o papel novamente.
Devagar.
Guardou.
E olhou para frente.
Seus olhos… diferentes.
Mais pesados.
Mais profundos.
Mais perigosos.
— Continente…
A palavra saiu baixa.
Quase como um pensamento.
E o silêncio…
Respondeu.