Capítulo 47 — Ecos do Vazio
O mar estava silencioso.
A embarcação avançava lentamente pelas águas de Kaelthar, cortando a superfície com um som baixo e constante. O vento era frio, mas não agressivo — apenas o suficiente para manter tudo em movimento.
Ren permanecia de pé na proa.
Imóvel.
Seu olhar estava fixo no horizonte, mas não havia nada ali que realmente prendesse sua atenção. Era só um ponto distante… vazio.
O que o prendia… estava dentro dele.
A lembrança ainda era recente demais.
A lâmina.
A voz.
Aoi.
Ele fechou os olhos por um breve instante.
Não de dor… mas de irritação.
— Tsc…
Virou levemente o rosto, como se quisesse afastar aquilo à força.
Mas não adiantava.
As palavras dele ainda ecoavam.
O que ele disse.
O jeito que disse.
E, principalmente…
A forma como ela ficou em silêncio.
—
Ren abriu os olhos novamente.
Frio.
Controlado.
Sem hesitação.
— Não importa…
A voz saiu baixa, quase inaudível.
— Ela escolheu.
O barco continuava avançando.
E, ao longe… terra começava a surgir.
O ponto de encontro.
A reunião.
O próximo passo.
Ren ajustou o manto sobre os ombros e desceu lentamente da proa, caminhando em direção ao interior da embarcação.
Sem olhar para trás.
AETHERYON — CAMPO ABERTO
O vento ali era mais forte.
Cortante.
Um campo aberto se estendia diante da fortaleza de Aetheryon. O chão era seco, marcado por pegadas, cortes e cicatrizes de treinamentos e batalhas passadas.
Diversos soldados estavam reunidos.
Entre eles:
Isamu.
Lysera.
Takemura.
E, à frente de todos…
Eryndor.
Ele estava de pé, com os braços cruzados, observando cada um deles em silêncio. Sua presença, por si só, já era suficiente para manter todos atentos.
Ninguém ousava falar.
Até que ele começou.
— A partir de agora… — sua voz era firme, sem esforço — …não existem mais fronteiras seguras.
O vento passou entre eles.
Ninguém se moveu.
— Vorthal já se moveu.
— A igreja… também.
Ele descruzou os braços e começou a caminhar lentamente à frente dos soldados.
— Isso não é mais um conflito isolado.
— Isso… é guerra.
Um leve murmurinho tentou surgir… mas morreu antes de ganhar forma.
Eryndor parou.
Seus olhos passaram por cada rosto.
Pararam brevemente em Takemura.
Depois em Lysera.
E então… em Isamu.
Por um segundo a mais.
— Aetheryon não recua.
Sua voz desceu, mais pesada.
— Aetheryon não negocia.
Mais um passo.
— E Aetheryon…
Ele parou completamente.
O silêncio ficou ainda mais denso.
— …não perdoa.
O ar parecia mais pesado.
— Qualquer um que pisar em nossas terras…
Sua mão deslizou lentamente até a empunhadura da katana.
— …tem permissão para ser executado.
Silêncio absoluto.
Sem gritos.
Sem comemorações.
Apenas entendimento.
Takemura sorriu de lado, claramente satisfeito.
— Finalmente…
Lysera manteve o olhar firme, mas havia tensão em seus olhos.
Isamu… apenas absorvia.
Sem reação exagerada.
Mas entendendo.
Aquilo… era só o começo.
MAR DE VORTHAL
Outro barco.
Diferente.
Pesado.
Carregado.
Um batalhão inteiro de soldados de Vorthal avançava pelas águas, em direção à antiga ilha da igreja.
Entre eles…
Aoi.
Ela estava sentada próxima à lateral da embarcação, com o olhar baixo, apoiando os braços sobre os joelhos.
Quieta.
Mais do que o normal.
Seus olhos estavam distantes.
Pensando.
Repetindo.
As palavras de Ren.
De novo.
E de novo.
—
— Você tá estranho.
A voz veio ao lado dela.
Aoi ergueu levemente o olhar.
Um garoto estava ali.
Aproximadamente da mesma idade.
Cabelo escuro, levemente bagunçado, com algumas mechas caindo sobre os olhos. Sua postura era relaxada demais para um soldado em missão.
Mas seus olhos…
Eram atentos.
Observadores.
— Muito quieta — ele continuou, apoiando-se na madeira do barco ao lado dela. — Pra alguém que acabou de entrar, você parece carregar um peso velho.
Aoi o encarou por um instante.
Medindo.
— Só tô focada na missão.
Ele soltou um leve riso pelo nariz.
— Todo mundo aqui tá.
Ele estendeu a mão, sem cerimônia.
— Kaien.
Ela olhou para a mão por um breve momento… antes de ignorar o gesto.
— Aoi.
Kaien não pareceu se importar.
Recolheu a mão como se aquilo fosse completamente normal.
— Primeira vez numa missão dessas?
— Não.
Resposta rápida.
Seca.
Mas não convincente o suficiente.
Kaien inclinou levemente a cabeça.
— Hm.
Silêncio.
Mas não desconfortável.
— Você não é daqui, né? — ele disse depois de alguns segundos.
Aoi não respondeu imediatamente.
— Sou.
— Não parece.
Ela virou o rosto lentamente para ele.
— E você parece saber muito.
Ele deu de ombros.
— Só presto atenção.
Mais um silêncio.
O mar continuava avançando.
— Relaxa — ele disse, olhando para frente agora. — Não tô tentando te expor nem nada.
Pausa.
— Só não gosto de ver gente quebrada indo pra missão.
Aoi travou por um segundo.
Mas não deixou transparecer.
— Eu não tô quebrada.
Kaien deu um pequeno sorriso de lado.
— Ainda.
—
O barco começou a desacelerar.
Terra à vista.
A ilha.
Ou o que restava dela.
A ILHA
O desembarque foi silencioso.
Estranhamente silencioso.
Sem resistência.
Sem guardas.
Sem sinais de vida.
Os soldados de Vorthal avançaram em formação, atentos… esperando qualquer tipo de emboscada.
Mas nada veio.
Aoi desceu do barco por último.
E então…
Ela viu.
—
Ruínas.
—
Casas destruídas.
Estruturas quebradas.
Marcas profundas no chão… como se o próprio solo tivesse sido rasgado.
A antiga igreja…
Não existia mais.
Apenas destroços.
Cinzas.
Silêncio.
—
Aoi parou.
Seu corpo travou por um segundo.
Seu olhar percorreu cada pedaço daquele lugar.
Cada detalhe.
Tentando entender.
Tentando negar.
—
Onde estavam todos?
—
Nenhum corpo.
Nenhum sobrevivente.
Nada.
Era como se…
Eles tivessem simplesmente desaparecido.
—
— Que porra aconteceu aqui…?
A voz de um soldado ecoou atrás.
Baixa.
Confusa.
Até os mais experientes estavam tensos.
Isso não era normal.
Nem em guerra.
—
Aoi apertou levemente os punhos.
Seu coração começou a acelerar.
Mas seu rosto…
Continuava frio.
Controlado.
—
“Não demonstra.”
—
Mas sua mente…
Já estava longe.
—
Kanzaki…
Seraphiel…
A vila…
—
Ela engoliu seco.
— …
Kaien apareceu ao lado dela novamente, agora sem o tom leve de antes.
Ele também estava sério.
— Isso não foi uma batalha comum.
Aoi não respondeu.
—
“Eles… morreram?”
—
“Ou…”
—
“Algo pior?”
—
Ela respirou fundo.
Controlando.
Segurando.
—
Mas por dentro…
O caos já tinha começado.
—
O vento passou entre as ruínas.
Levando poeira.
Silêncio.
E perguntas sem resposta.
—
Aoi manteve o olhar fixo à frente.
Mas, pela primeira vez desde que chegou em Vorthal…
Ela não sabia o que fazer.
—
O que aconteceu aqui?
—
E mais importante…
Quem fez isso?