Capítulo 48 — O Peso da Guerra
O PALÁCIO DO NORTE
O palácio surgia no horizonte como uma estrutura impossível de ignorar.
Localizado na região norte de Aetheryon, ele não era apenas grande — era imponente. Construído com pedras escuras e polidas, suas torres se erguiam como lâminas apontadas para o céu. Nenhum detalhe parecia ser decorativo… tudo ali transmitia poder, controle e propósito.
Ren atravessou os portões principais sem ser impedido.
Os guardas apenas o observaram.
Alguns com curiosidade.
Outros… com respeito.
A notícia já havia se espalhado.
—
Ele entrou.
O interior era ainda mais impressionante.
Corredores largos, com pilares altos sustentando o teto, iluminados por uma luz fria que parecia não vir de nenhuma tocha comum. Havia símbolos gravados nas paredes… padrões que lembravam fluxo, movimento… energia.
E então…
Ren percebeu algo diferente.
—
Salas abertas ao longo do corredor.
Dentro delas…
Pessoas trabalhando.
—
Cientistas.
—
Mesas cobertas de instrumentos desconhecidos. Frascos com líquidos que brilhavam levemente. Dispositivos metálicos conectados a estruturas que vibravam com uma energia quase invisível… mas perceptível.
Ren parou.
Observou.
Um dos cientistas estava diante de uma estrutura circular, onde pequenas correntes de energia se moviam como fios de luz, sendo puxadas, comprimidas… manipuladas.
Ren se aproximou.
— O que é isso?
O homem não se virou imediatamente. Continuou ajustando algo, girando uma pequena peça metálica com precisão… até que a energia estabilizou.
Só então ele olhou para Ren.
Um homem de aparência comum. Cabelos castanhos presos de forma simples, olhos atentos e marcados por noites sem descanso.
Mas havia algo ali.
Convicção.
— Kai.
Ren estreitou levemente o olhar.
— Kai…?
O cientista assentiu.
— É o nome que damos ao fluxo de energia que existe em tudo.
Ele se virou completamente agora, apoiando as mãos na mesa.
— Em você. Em mim. No ar. No chão. Em tudo que existe neste mundo.
Ren cruzou os braços.
— E vocês estão… estudando isso?
— Não só estudando.
O cientista apontou para a estrutura.
— Controlando.
—
O fluxo de energia dentro do dispositivo se moveu com mais intensidade.
Como se respondesse.
—
— Todo ser humano possui Kai — continuou ele. — Mas a maioria… nunca aprende a usar.
— Os guerreiros que você vê por aí… — ele fez um pequeno gesto no ar — …só estão explorando uma fração disso.
Ren permaneceu em silêncio.
Observando.
Absorvendo.
— Quando alguém luta… quando alguém usa técnicas… — o cientista continuou — …isso é Kai sendo moldado.
— Intensificado. Direcionado.
— Transformado em poder.
—
Ren olhou para a própria mão por um instante.
—
— Então… — ele disse, voltando o olhar — …tudo isso… vem daí?
— Tudo.
O cientista respondeu sem hesitar.
— Velocidade absurda. Força sobre-humana. Técnicas elementares.
Pausa.
— Tudo é Kai.
—
Ren ficou em silêncio por alguns segundos.
—
— E isso… — ele apontou levemente para o equipamento — …serve pra quê?
O cientista deu um leve sorriso.
— Para entender até onde isso pode chegar.
Pausa.
— E talvez… ultrapassar esse limite.
—
Os dois se encararam por um instante.
—
— Qual o seu nome? — perguntou Ren.
— Hoshin.
— Ren.
Hoshin assentiu.
— Eu sei.
—
Antes que Ren pudesse responder, passos ecoaram pelo corredor.
Um soldado.
— Ren.
Ele parou ao lado dos dois.
— Estão esperando por você.
—
Ren desviou o olhar de Hoshin.
Sem dizer mais nada…
Começou a caminhar.
O SALÃO PRINCIPAL
As escadas levavam a um andar muito mais silencioso.
Mais pesado.
Cada passo ecoava.
O ar era diferente.
Quando Ren chegou ao topo… encontrou.
—
Uma grande sala.
Uma mesa longa no centro.
E três figuras já posicionadas.
—
Ren caminhou até lá… e se sentou.
Sem hesitar.
—
O primeiro a falar foi um homem de aparência robusta.
Cabelos grisalhos, barba curta e um olhar duro. Seu corpo era largo, marcado por anos de batalha.
— Então foi você?
Sua voz era grave.
Direta.
— Você que declarou guerra contra Vorthal?
—
Ren não desviou o olhar.
— Ia acontecer de qualquer jeito.
Silêncio.
— Aetheryon e Vorthal já estavam se atacando há muito tempo.
— Eu só… deixei isso claro.
—
— Claro? — outro homem interrompeu.
Este era mais magro, com cabelos claros e longos, presos para trás. Seu olhar era afiado… mas carregado de arrogância.
— Aquilo era um conflito isolado.
— Controlado.
Ele bateu levemente os dedos na mesa.
— Agora a igreja está envolvida.
— E isso… — ele inclinou o corpo para frente — …é culpa de decisões impulsivas.
Pausa.
— Primeiro Eryndor.
— Agora você.
—
O ar ficou mais pesado.
—
Ren permaneceu em silêncio por um segundo.
—
Mas antes que respondesse…
—
Uma cadeira se moveu.
—
O terceiro homem se levantou.
—
Alto.
Muito alto.
Sua presença dominava o espaço.
Cabelos negros, longos até a altura dos ombros. Seu corpo era extremamente bem definido… mas não de forma exagerada. Era força pura, controlada.
Seus olhos…
Frios.
Calculistas.
—
Ele olhou para os outros dois.
— Já terminou?
—
Silêncio.
Imediato.
—
Ele então virou o olhar para Ren.
—
— Você começou isso.
A voz dele era calma.
Mas pesada.
— Então vai sustentar até o fim.
—
Ren não recuou.
—
O homem então se virou levemente, olhando de canto para os outros líderes.
— Eryndor sabe o que faz.
— Se não soubessem disso… não estariam aqui.
—
Os outros dois ficaram em silêncio.
—
Ele voltou o olhar para Ren.
—
— Diga isso ao seu rei.
Pausa.
— Diga a Eryndor… que é melhor ele pensar antes de recrutar qualquer um.
O silêncio se aprofundou.
—
— Porque a essa altura…
Ele deu um leve passo para trás.
—
— Não ter um traidor…
—
Seus dedos se moveram levemente.
—
— …já é quase impossível.
—
Um estalo.
—
E ele desapareceu.
—
Os outros dois líderes trocaram olhares breves.
Sem dizer mais nada…
Se levantaram.
E saíram.
—
Ren ficou sozinho.
—
Por alguns segundos…
Apenas silêncio.
—
Então ele se levantou.
E foi embora.
O RETORNO
As escadas pareciam mais longas na descida.
Mais pesadas.
—
Ren caminhava em silêncio.
Mas sua mente…
Trabalhava.
—
“Traidor…”
—
Ele saiu do palácio.
Sem olhar para trás.
VORTHAL — AS RUÍNAS
O vento ainda passava pelas estruturas destruídas.
Levantando poeira.
Carregando silêncio.
—
Aoi caminhava entre os destroços.
Observando.
Fingindo.
—
Ao seu lado…
Kaien.
—
— Estranho… — ele murmurou.
— Não sobrou nada.
—
Aoi se agachou perto de um pedaço de madeira queimado.
— Eles podem ter recuado.
— Ou sido evacuados.
—
Kaien cruzou os braços.
— Ou apagados.
—
Silêncio.
—
Aoi olhou para ele.
—
— Kaien…
Ele respondeu com um leve olhar.
—
— Você já ouviu falar de alguém chamado… Número Um?
—
O ar mudou.
—
Kaien parou.
—
— Onde você ouviu isso?
—
Aoi manteve o olhar firme.
— Comentários.
— Soldados.
— Nada muito claro.
—
Kaien ficou em silêncio por alguns segundos.
—
— Ele é o líder.
—
Aoi franziu levemente a testa.
—
— De verdade.
—
— Mas ninguém vê ele.
— Ninguém sabe quem ele é.
—
Pausa.
—
— Só sabem o que ele fez.
—
Aoi manteve o olhar fixo.
— E o que ele fez?
—
Kaien respirou fundo.
—
— Ele matou um ancestral.
—
Silêncio.
—
— E pegou o poder dele.
—
Aoi congelou por um instante.
—
— Pegou…?
—
— Se você mata um ancestral…
Ele olhou para o céu por um segundo.
—
— Você pode absorver o poder dele.
—
— Como uma recompensa.
—
O coração de Aoi acelerou.
—
— Então… alguém pode simplesmente…
—
— Se tornar algo além de humano.
—
Kaien completou.
—
Silêncio.
—
— E ele fez isso.
—
Aoi desviou o olhar.
—
— Mas como…?
—
Kaien deu um leve sorriso sem humor.
—
— Ninguém sabe.
—
— Ele não aparece.
— Não explica.
— Não fala.
—
Pausa.
—
— Mas com tudo que tá acontecendo…
Ele voltou o olhar para frente.
—
— Acho que não vai demorar pra ele aparecer de novo.
—
O vento passou.
—
Aoi permaneceu em silêncio.
Mas sua mente…
Estava em choque.
—
VORTHAL — CAPELA OCULTA
Escuridão.
Silêncio absoluto.
—
Uma sala enorme.
Oculta.
—
No centro…
Um trono.
—
E nele…
Uma figura.
—
Um manto negro cobria todo o corpo.
O capuz escondia completamente o rosto.
—
Passos apressados ecoaram.
Um soldado entrou.
Visivelmente nervoso.
—
— Senhor…!
Ele se ajoelhou imediatamente.
—
— Um invasor de Aetheryon atacou—
— O general Karthus…
Sua voz falhou por um instante.
—
— Está morto.
—
Silêncio.
—
— E ele…
O soldado respirou fundo.
—
— Declarou guerra.
—
Por alguns segundos…
Nada aconteceu.
—
Então…
Um som baixo.
—
Uma risada.
—
Lenta.
Contida.
—
A figura no trono inclinou levemente a cabeça.
—
Um sorriso surgiu sob a sombra do capuz.
—
— Então…
Pausa.
—
— Finalmente…
—
A voz era calma.
Mas carregava algo…
Errado.
—
— Vocês se moveram.
—
Silêncio.
—
O sorriso se alargou.
—
— Ótimo…
—
Uma leve inclinação para frente.
—
— Eu estava começando a ficar entediado.
—
Pausa.
—
— Acho que… finalmente vou poder me divertir novamente.
—
O silêncio voltou.
Mais pesado do que antes.
—