Capítulo 50 — Pressão Antes da Guerra
Vorthal — Dia 2
O som de aço cortando o ar era constante.
Seco.
Repetitivo.
Incansável.
Aoi avançava mais uma vez.
Seu corpo já não respondia como antes. Os músculos tremiam. A respiração estava irregular. O suor escorria pelo rosto, caindo no chão de pedra já marcado por dezenas… talvez centenas de golpes.
Mesmo assim—
Ela não parava.
— Mais uma vez.
A voz veio atrás dela.
Calma.
Controlada.
Aoi virou levemente o rosto.
Ali estava ela.
Shizuna.
De pé, com postura perfeita, como se não tivesse se movido um centímetro desde o início.
Seus olhos analisavam cada detalhe de Aoi.
Cada erro.
Cada hesitação.
— Você está lenta.
Aoi apertou o cabo da katana.
— Eu já treinei por horas…
— E ainda não é suficiente.
Direta.
Sem suavizar.
Shizuna deu um passo à frente.
— Guerra não espera seu corpo acompanhar.
— Ou você força ele a evoluir…
Ela parou a poucos metros.
— Ou você morre com ele.
Silêncio.
Aoi respirou fundo.
Seus olhos mudaram.
Mais firmes.
Ela avançou novamente.
Dessa vez mais rápida.
Mais agressiva.
O golpe veio lateral—
Shizuna desviou com um movimento mínimo.
— Previsível.
Aoi girou o corpo, tentando corrigir—
Shizuna tocou levemente sua lâmina.
E isso foi suficiente.
A katana de Aoi desviou completamente da trajetória.
— Seu corpo ainda pensa demais.
Shizuna recuou.
— Você quer vencer alguém mais forte que você.
Os olhos dela ficaram mais atentos.
— Mas ainda luta como alguém que tem medo.
Aoi parou.
Respiração pesada.
Silêncio.
Por um segundo…
o rosto dela mudou.
Ren.
A lembrança veio como um corte.
A velocidade.
A brutalidade.
Aquela energia negra.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu não tenho medo…
Baixo.
Quase inaudível.
Shizuna ouviu.
— Então prove.
Aoi abriu os olhos.
E avançou de novo.
Mais rápido.
Mais forte.
Mais desesperado.
O treinamento…
continuava.
Outro campo — Vorthal
O cenário era completamente diferente.
Barulhento.
Pesado.
Violento.
Dezenas de soldados treinavam juntos.
Golpes.
Impactos.
Quedas.
E no centro—
Zareth.
Imóvel.
Observando.
— Mais rápido.
Sua voz ecoou.
Um grupo avançou ao mesmo tempo contra ele.
Espadas.
Lanças.
Ataques coordenados.
Zareth não recuou.
Não desviou.
Ele simplesmente levantou a mão.
E então—
O ar ao redor dele mudou.
Uma pressão invisível.
Pesada.
Como se o espaço estivesse sendo esmagado.
Os soldados travaram.
Por um instante.
E foi o suficiente.
Zareth se moveu.
Rápido demais.
Um passo.
Um giro.
Um impacto.
Corpos foram lançados para trás como se não pesassem nada.
Outro tentou atacar por trás—
Zareth nem olhou.
A energia ao redor dele pulsou—
E o soldado foi jogado contra o chão com força brutal.
Silêncio.
Os restantes hesitaram.
Zareth caminhou lentamente.
— Se isso é o máximo de vocês…
Seus olhos ficaram mais frios.
— Então vocês vão morrer antes de chegar em Aetheryon.
Kaien, entre os soldados, respirava pesado.
Mas…
sorria.
— Isso sim é treino…
Ele limpou o sangue do canto da boca.
— Finalmente algo de verdade.
Zareth parou.
Olhou para todos.
— De novo.
Sem descanso.
Sem pausa.
O treinamento… continuava.
Aetheryon — Campo de Treinamento
O som era diferente.
Mais focado.
Mais direto.
Ren avançava com velocidade brutal.
As duas espadas curvas cortavam o ar em sequência, criando uma pressão constante, agressiva, quase impossível de acompanhar.
Takemura sorria.
— Isso!
Ele bloqueou um golpe e respondeu com outro ainda mais forte.
— Sem hesitar!
As lâminas se chocavam em sequência.
Movimentos rápidos.
Sem espaço.
Sem pausa.
Ren girou o corpo, cruzando as duas lâminas em um ataque simultâneo—
Takemura bloqueou… mas foi forçado a recuar meio passo.
— Hah…
Ele sorriu.
— Tá melhorando de verdade.
Ren não respondeu.
Apenas avançou de novo.
Mas então—
— Já chega.
A voz cortou o momento.
Os dois pararam.
Viraram o rosto.
Tan Yang.
Ali.
Parado.
Observando.
Takemura soltou um leve suspiro irritado.
— O que foi agora…
Yang caminhou alguns passos à frente.
— Ele não precisa apenas disso.
Seu olhar foi direto para Ren.
— Força física sem controle… só acelera sua queda.
Takemura soltou uma risada curta.
— Ah, entendi.
Ele apoiou a espada no ombro.
— Veio roubar meu aluno?
Silêncio.
Alguns soldados ao redor ficaram tensos.
Lysera, à distância, estreitou o olhar.
Isamu também percebeu.
— Ele não devia falar assim…
Takemura continuou.
— Porque se for isso, pode esquecer. Aqui quem—
Yang olhou para ele.
Só isso.
Seus olhos…
brilharam.
Por um instante.
E então—
Takemura foi lançado.
Sem aviso.
Sem movimento.
Seu corpo atravessou o campo em velocidade absurda, arrastando poeira e ar, até colidir violentamente contra uma estrutura de pedra.
O impacto ecoou.
Silêncio total.
Os olhos de Yang voltaram ao normal.
Como se nada tivesse acontecido.
Ren ficou imóvel.
Surpreso.
— …
Yang voltou o olhar para ele.
Calmo.
— Isso…
Uma pequena pausa.
— É o Kai.
O vento passou entre os dois.
— Bom…
Seus olhos se fixaram em Ren.
— O meu Kai.
Silêncio.
Ren ainda tentava processar.
Yang deu um leve passo à frente.
— Você tem poder.
— Mas não sabe usar.
Ele estendeu levemente a mão.
— Quer aprender?
Uma pergunta simples.
Mas pesada.
Ren demorou um segundo.
Então—
— Quero.
Direto.
Sem hesitar.
Yang assentiu.
— Então venha.
Os dois se posicionaram.
À distância—
Takemura se levantava, com dificuldade.
Irritado.
Mas… em silêncio.
Outro ponto — Aetheryon
Lysera e Isamu estavam sentados próximos ao campo secundário.
Ao redor deles, outros soldados treinavam.
Mas o clima ali era mais… calmo.
Por um momento.
— Você acha que vale a pena?
A voz de Isamu saiu baixa.
Lysera olhou para ele.
— O quê?
— Tudo isso.
Ele olhou para o campo principal.
— Guerra… morte… gente que nem sabe por que tá lutando.
Silêncio.
— Civis…
Ele respirou fundo.
— Pessoas que não têm nada a ver com isso.
Lysera ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não.
Direta.
Isamu olhou para ela.
— Não vale.
Ela cruzou os braços.
— Mas isso nunca impediu guerras de acontecer.
O vento passou entre eles.
— A diferença…
Ela olhou para o campo.
— É quem sobrevive pra contar o que aconteceu.
Isamu abaixou o olhar.
Pensativo.
Capela Principal — Aetheryon
O ambiente era pesado.
Eryndor estava à frente.
Os outros líderes estavam ali.
Valdrik.
Helvar.
Discussões.
— Se eles atacarem pelo norte—
— Não, o sul é mais vulnerável—
— Você está ignorando completamente—
— Chega.
A voz de Eryndor cortou tudo.
Silêncio.
Mas então—
Valdrik falou.
— E sobre o que Yang disse?
O clima mudou.
— Sobre traidores.
Helvar cruzou os braços.
— Vai ignorar isso?
Silêncio.
Eryndor não respondeu imediatamente.
Seus olhos ficaram mais frios.
Mais profundos.
— A reunião acabou.
Simples.
Direto.
Sem espaço para discussão.
Os líderes se entreolharam.
Mas não insistiram.
Saíram.
Um por um.
A porta se fechou.
Silêncio.
Eryndor ficou sozinho.
Por alguns segundos.
Então—
— Entrem.
A porta se abriu.
Alguns soldados.
De confiança.
— Investiguem todos os hóspedes.
Sua voz era baixa.
Mas pesada.
— Todos.
Uma pequena pausa.
— Incluindo…
Seus olhos ficaram mais profundos.
— Ren.
— Isamu.
Os soldados assentiram.
Sem questionar.
E saíram.
Corredores de Aetheryon
Passos.
Silenciosos.
Precisos.
Portas sendo observadas.
Presenças sendo rastreadas.
O clima…
mudando.
A guerra estava chegando.
Mas algo mais…
também.
Algo interno.
Algo oculto.