Capítulo 54 — Chamas, Sangue e Traição
O campo de batalha já não tinha mais forma.
O que antes era terra firme e organizada, agora era um cenário fragmentado, coberto por marcas de destruição, corpos espalhados e rastros de energia que ainda queimavam o ar. O céu parecia mais escuro, como se até a luz tivesse sido abafada pela intensidade da guerra.
No meio daquele caos, Ren avançava.
Ao seu lado, Takemura.
Os dois se moviam em perfeita sintonia. Não havia troca de palavras, não havia comandos — apenas instinto. Ren avançava com suas lâminas curvas, seus movimentos rápidos e precisos, cortando o espaço entre os inimigos com eficiência brutal. Takemura, logo atrás, preenchia cada abertura, cada falha, cada ameaça que surgia fora do campo de visão de Ren.
Um soldado de Vorthal avançou por trás—
não chegou.
Takemura já estava ali.
Ele desviou o golpe com o antebraço, girou o corpo e usou o próprio peso do inimigo para lançá-lo contra o chão com força. Antes que o homem pudesse reagir, um golpe seco encerrou aquilo.
Ren nem olhou.
Continuou avançando.
Outro inimigo caiu.
E mais um.
E mais um.
Mas então—
o ar mudou.
O calor aumentou de forma abrupta, quase sufocante.
Ren parou por um instante.
Takemura também.
Ambos olharam na mesma direção.
Kaien.
Ele vinha andando, lentamente, mas cada passo parecia aumentar a temperatura ao redor. Chamas percorriam seus braços como se fossem parte natural do seu corpo, e seus olhos brilhavam com uma intensidade que não existia antes.
Sem aviso, ele avançou.
A explosão de fogo que surgiu no impacto obrigou Ren e Takemura a recuarem alguns metros, o chão cedendo sob seus pés.
Kaien sorriu.
— Agora sim.
Takemura deu um passo à frente.
— Fica — disse, sem tirar os olhos dele.
Ren não respondeu.
Sabia o que aquilo significava.
Takemura avançou sozinho.
Kaien atacou primeiro, envolto em chamas, um golpe direto e destrutivo. Takemura desviou por centímetros, o corpo se movendo com uma precisão quase impossível. Ele não tinha Kai, não tinha energia visível, mas sua leitura de combate era absurda.
Outro golpe veio.
Mais rápido.
Mais pesado.
Takemura respondeu com o mínimo movimento necessário, girando o corpo e contra-atacando com um impacto direto que obrigou Kaien a recuar meio passo.
Kaien não esperava aquilo.
As chamas ao redor dele cresceram.
Ele passou a pressionar.
Sequência após sequência, ataques envoltos em fogo, o ar distorcendo com o calor. Takemura recuava, desviava, bloqueava, sempre no limite, sempre por pouco — mas nunca atingido.
Em um momento, Kaien abriu espaço e lançou uma rajada direta.
Takemura não fugiu.
Ele avançou.
Atravessou o calor, ignorando a dor, e agarrou o braço de Kaien, girando seu corpo com força e o lançando contra o chão com violência suficiente para rachar a terra.
Kaien deslizou alguns metros.
Silêncio.
E então… riu.
Se levantou lentamente.
Agora diferente.
Mais sério.
Mais intenso.
— Entendi…
Takemura ajustou a postura.
Mesmo sem Kai.
Ele estava enfrentando aquilo de igual para igual.
Mais adiante, Ren não parava.
Ele se movia entre os soldados de Vorthal como uma lâmina viva. Cada passo era calculado, cada golpe preciso. Não havia desperdício de movimento, não havia hesitação.
Mas no meio daquele fluxo—
ele viu.
Aoi.
Ela se movia entre os soldados de Aetheryon com uma velocidade diferente, mais leve, mais refinada. Seus movimentos eram quase silenciosos, sua lâmina desenhando cortes limpos enquanto fragmentos sutis de seu Kai começavam a aparecer ao seu redor.
Ao lado dela, Zareth avançava como uma força impossível de ignorar. Seus ataques eram pesados, destrutivos, cada movimento derrubando múltiplos inimigos de uma vez, abrindo espaço para o avanço de Vorthal.
— Avancem! — sua voz ecoou acima da batalha.
Aoi avançava junto.
Mas seus olhos não estavam totalmente ali.
Eles buscavam Ren.
Se aproximando.
Pouco a pouco.
Mais ao fundo, Lysera e Isamu ainda lutavam juntos.
O Kai de Lysera explodia em cortes amplos, empurrando inimigos para longe, criando espaço ao redor deles. Isamu acompanhava, suas mãos guiando o fluxo de pétalas envoltas em energia, ainda imperfeitas, mas já perigosas.
— Atrás! — ela alertou.
Isamu girou a tempo, desviando por pouco de um ataque e respondendo imediatamente, derrubando o inimigo.
Eles estavam sobrevivendo.
Mas não por muito.
No alto de uma das torres, Eryndor permanecia imóvel, observando tudo com um olhar frio.
Ao lado dele, Tan Yang acompanhava em silêncio.
— Eles evoluíram — disse Yang, sem emoção aparente.
Eryndor não respondeu.
Mas não discordou.
No campo, outros líderes de Aetheryon já haviam entrado em combate. Cada um à sua maneira, cada um demonstrando força suficiente para justificar sua posição, abrindo caminhos, sustentando linhas, impedindo o avanço inimigo.
Mas ainda assim…
não eram Eryndor.
Nem Yang.
O silêncio entre os dois na torre terminou de forma simples.
Um estalo.
Tan Yang desapareceu.
No campo de batalha, um soldado de Vorthal surgiu pelas costas de Ren, a lâmina descendo direto para sua nuca.
Ren não viu.
Mas o golpe nunca chegou.
A lâmina parou no ar.
O soldado congelou.
E então foi lançado para longe com uma força absurda, atravessando o campo como se fosse nada.
Tan Yang estava ali.
Imóvel.
— Presta atenção — disse, como se fosse algo simples.
Ren apenas o encarou por um segundo.
E voltou a lutar.
Do outro lado, Zareth viu.
E sorriu.
— Finalmente.
Ele avançou.
Direto.
Sem hesitação.
Yang apenas virou o rosto na direção dele.
E esperou.
Mas foi então que algo mudou.
Isamu mal teve tempo de entender.
Mãos o agarraram.
Soldados.
De Aetheryon.
Uma lâmina foi colocada contra seu pescoço.
— Você vem com a gente.
Ele congelou.
— O quê…?
Lysera virou imediatamente.
— O que vocês estão fazendo?!
Um dos soldados riu.
— Esse aqui?
Olhou para Isamu com desprezo.
— Traidor.
Silêncio.
— Igreja.
A palavra caiu como um peso.
Lysera olhou para Isamu.
E por um instante—
hesitou.
Isamu deu um passo, a voz falhando.
— Eu não… eu nunca—
— Anda — o soldado cortou.
A lâmina pressionou mais.
Eles começaram a levá-lo.
— Espera.
A voz de Lysera fez todos pararem.
Ela não pensou.
Não hesitou.
Avançou.
Seu Kai explodiu.
Uma única onda de energia lançou os soldados para longe com violência, abrindo espaço.
Isamu caiu no chão, livre.
Confuso.
Perdido.
— Por quê…?
Lysera não respondeu de imediato.
Apenas disse:
— Eu acredito em você.
Ele a encarou.
Sem entender.
— Você não é esse tipo de pessoa.
Ela respirou fundo.
— Agora vai.
— Eu não posso—
— VAI!
A voz dela não permitia discussão.
— Eu não ligo pro que vão dizer.
Ela o encarou, firme.
— Só sai daqui.
Isamu hesitou.
Mas algo ali…
era definitivo.
Ele virou.
E correu.
O caos da guerra o engoliu.
Ele atravessou o campo, desviando de combates, sem olhar para trás, sem pensar.
Apenas correndo.
Até o mar.
Até o barco.
O mesmo de antes.
Velho.
Instável.
Mas ali.
Suas mãos tremiam enquanto soltava as amarras.
O barco começou a se afastar lentamente.
A guerra ainda acontecia atrás dele.
Mas ele não olhou.
Não voltou.
Apenas seguiu.
No campo, os soldados que haviam sido derrubados se levantavam.
Um deles riu.
— Ela acabou de se condenar.
Outro cuspiu no chão.
— Vamos reportar.
Eles se afastaram.
Deixando Lysera ali.
Sozinha.
No meio da guerra.
E no mar…
Isamu desaparecia no horizonte.
Sem saber…
que aquilo era só o começo.