Capítulo 55 — Ruptura
O campo de Aetheryon já não era mais um campo.
Era ruína viva.
O chão estava marcado por cortes profundos, crateras abertas e corpos que já não se moviam. O ar carregava o cheiro metálico do sangue misturado à fumaça densa que subia de construções destruídas ao redor. O som da guerra não era mais organizado — era caos bruto, gritos desconexos, aço colidindo, energia rasgando o espaço.
E, ainda assim…
A guerra só estava começando.
Aoi
A respiração dela estava irregular.
Curta.
Pesada.
O peito subia e descia rápido demais enquanto seus olhos percorriam o campo. Tudo estava errado. Aetheryon não estava cedendo. Muito pelo contrário.
Eles estavam resistindo.
E no meio de tudo aquilo…
Ela sentiu.
Antes de ver.
Antes mesmo de virar o rosto.
A presença.
Ela parou.
Seu corpo travou por um segundo — mínimo, mas suficiente.
Então virou.
E encontrou.
Ren.
De pé, entre corpos caídos, segurando suas duas lâminas curvas. O sangue escorria pelas mãos dele — não só dos outros… mas dele também. Seus olhos estavam fixos nela, imóveis, frios.
O mundo ao redor deles continuava gritando.
Mas entre os dois…
Silêncio.
Aoi engoliu seco, ajustando a postura.
— …Então você também veio.
A voz dela saiu mais firme do que ela realmente estava.
Ren não respondeu de imediato.
Ele deu um passo.
Lento.
— Você ficou mais forte.
Simples.
Direto.
Sem emoção.
Aquilo atingiu mais do que qualquer golpe.
Os olhos de Aoi se estreitaram.
— …E você continua o mesmo.
Uma pausa.
— Só que pior.
O vento passou entre os dois, carregando cinzas.
Então—
Ren desapareceu.
O impacto
A lâmina de Aoi subiu por instinto.
O choque veio na mesma fração de segundo.
Ela conseguiu bloquear.
Mas o impacto… não.
O corpo dela foi arrastado para trás, os pés cavando o chão enquanto faíscas e fragmentos de Kai explodiam ao redor.
Ren não parou.
Ele girou o corpo, a segunda lâmina vindo em um ângulo impossível.
Aoi desviou por milímetros.
Sentiu o corte passar rente ao rosto.
Ela respondeu.
Um arco de luz pálida surgiu da sua katana — o Kai lunar se manifestando como um brilho suave, mas cortante.
O golpe avançou.
Ren inclinou o corpo.
A lâmina passou.
Ele estava sorrindo.
O sangue
Sem aviso.
Sem hesitação.
Ren girou uma das lâminas… e cravou no próprio abdômen.
Aoi travou.
Por um instante.
A lâmina entrou.
O som foi seco.
O sangue escorreu imediatamente.
Mas ele não gritou.
Não hesitou.
Ele puxou a espada para fora lentamente, o vermelho cobrindo o metal.
E então…
O Kai respondeu.
O sangue não caiu.
Ele se elevou.
Flutuando ao redor da lâmina… vibrando.
A energia tomou forma.
Instável.
Viva.
Aoi recuou um passo.
— …Você ficou louco?
Ren inclinou levemente a cabeça.
— Não.
O sangue começou a se expandir, se estendendo como fios finos, pulsando.
— Eu só parei de me segurar.
E então ele avançou.
Takemura
Mais ao fundo do campo—
O impacto de um corpo sendo arremessado contra o chão ecoou.
Takemura deslizou alguns metros antes de parar, apoiando-se com uma mão.
Ele respirava pesado.
O ombro estava queimado.
A roupa rasgada.
Mas seus olhos…
Firmes.
À frente dele, Kaien girava lentamente os ombros, o fogo dançando ao redor de seus braços.
O Kai dele não era estático.
Era agressivo.
Chamas densas, quase líquidas, escorrendo pelos punhos e subindo pelos antebraços.
— Você ainda tá de pé? — Kaien sorriu, genuinamente animado — Eu gosto disso.
Takemura cuspiu sangue de lado.
— Eu ainda nem comecei.
Antes que Kaien respondesse—
Dois soldados de Vorthal avançaram pelos lados.
Takemura não virou o rosto.
Ele sentiu.
Seu corpo se moveu antes do pensamento.
Um giro.
Um corte.
Um passo.
O segundo caiu antes de entender.
Ele voltou a encarar Kaien.
— …Agora sim.
Kaien avançou.
O fogo explodiu.
O primeiro golpe de Kaien foi brutal.
Um soco direto envolto em chamas comprimidas.
Takemura não bloqueou.
Ele desviou por centímetros.
Entrou na guarda.
O joelho subiu.
Acertou o abdômen.
Kaien foi empurrado para trás.
Mas não parou.
Girou no ar.
Chamas explodiram ao redor.
O chão rachou no impacto.
— Você luta bonito… — Kaien disse, sorrindo — Mas isso não vai te salvar.
Takemura avançou de novo.
Mais dois soldados surgiram.
Ele não recuou.
Lutava contra Kaien…
E contra todos.
Seus movimentos eram limpos.
Precisos.
Cada golpe calculado.
Mesmo sem Kai…
Ele dominava o campo ao redor dele.
Um guerreiro.
De verdade.
Shizuna
Mais distante—
O ar congelou.
Literalmente.
Soldados de Aetheryon pararam.
O chão abaixo deles começou a se cristalizar.
Então—
Explodiu.
Fragmentos de gelo rasgaram o espaço, atravessando armaduras, interrompendo avanços.
Shizuna caminhava.
Calma.
Serena.
Mas seus olhos…
Afiados.
O Kai dela não era caótico.
Era absoluto.
Gelo puro.
Condensado.
Refinado.
Cada passo deixava marcas congeladas no chão.
Ela ergueu a mão.
O ar ao redor se contraiu.
E então lançou.
Lanças de gelo surgiram do nada.
Precisão cirúrgica.
Sem desperdício.
Ela parou.
E olhou ao longe.
Aoi.
E Ren.
— …Então chegou a esse ponto.
Zareth
Do outro lado—
Uma explosão rompeu uma fileira inteira de soldados.
Não foi fogo comum.
Era mais denso.
Mais pesado.
O impacto vinha antes da chama.
Zareth caminhava entre os corpos.
Cada passo dele fazia o ar vibrar.
Seu Kai não era só destruição.
Era pressão.
Força condensada.
Bruta.
Um soldado tentou atacar pelas costas.
Zareth nem virou.
O corpo do soldado foi esmagado contra o chão por uma onda invisível.
Ele continuou andando.
Os olhos procurando.
— …Yang.
A Torre
No alto.
Distante do caos.
Eryndor observava.
Imóvel.
Os olhos percorrendo cada detalhe da guerra.
Ren.
Aoi.
Yang ainda parado.
Zareth.
Shizuna.
Lysera—
Ele parou nela.
Por um segundo.
O olhar mudou.
Frio.
Mais do que antes.
Ela estava viva.
Lutando.
Depois de tudo.
Depois de trair.
Ele não disse nada.
Mas o maxilar tensionou.
Eryndor… não desceu.
Ainda não.
Lysera
Ela já sabia.
Desde o momento que fez aquilo.
Cada golpe que ela dava agora… era sem volta.
Um soldado de Aetheryon avançou.
— TRAIDORA!
Ela desviou.
Contra-atacou.
Cortou.
Mas não parou.
Outro veio.
E mais um.
Ela lutava contra Vorthal…
E contra Aetheryon.
Sozinha.
O Kai dela explodiu em torno do corpo — lâminas de energia surgindo em arcos rápidos, violentos.
Mas seus olhos…
Não eram de raiva.
Eram de decisão.
— Eu escolhi isso…
Ela murmurou.
E continuou lutando.
E então—
O chão da guerra afundou.
Um impacto absurdo.
Soldados de Vorthal foram lançados ao ar como folhas.
Yang estava ali.
No meio.
Sorrindo.
— Finalmente.
Ele ergueu a mão.
E o ar explodiu.
Não era visível.
Mas era sentido.
Uma pressão absurda esmagando tudo ao redor.
Soldados caindo.
Kai sendo desfeito.
Corpos sendo arremessados.
Ele girou o corpo.
E avançou.
Sem técnica elaborada.
Sem arma.
Apenas…
Força.
Pura.
De volta — Ren e Aoi
Aoi mal conseguia acompanhar.
O sangue ao redor de Ren não era estático.
Ele se movia.
Atacava.
Defendia.
Se moldava.
Ela desviou de um golpe—
Mas outro veio de um ângulo impossível.
O sangue virou lâmina.
Cortou o ombro dela.
Ela recuou.
Ofegante.
— Você… perdeu tudo mesmo, né?
Ren parou por um instante.
A cabeça inclinou levemente.
— Eu perdi o que não importava.
Ele avançou de novo.
Mais rápido.
Mais pesado.
Mais frio.
A lâmina veio direto.
Aoi ergueu a katana.
O impacto fez o chão rachar.
Os olhos dos dois se encontraram.
De perto.
Muito perto.
E ali…
Não era só luta.
Era tudo o que veio antes.
Tudo o que foi quebrado.
Tudo o que nunca mais seria igual.
O sangue ao redor de Ren pulsou.
A lua nos olhos de Aoi brilhou mais forte.
E então—
Eles avançaram juntos.