Capítulo 58 — Aqueles que não caem
O som da guerra… voltou.
Mas diferente.
Mais pesado.
Mais distante.
Como se algo tivesse mudado no próprio ritmo do campo.
E mudou.
Ren
A lâmina ainda estava lá.
Atravessando.
Imóvel.
O corpo de Ren permanecia parado, sustentado apenas pela própria força — ou pelo que ainda restava dela.
Aoi não soltou a katana.
Mas suas mãos tremiam.
Os olhos fixos nele.
Esperando reação.
Qualquer uma.
Mas não veio.
Por um instante…
Parecia mesmo o fim.
O vento passou entre os dois.
Carregando cinzas.
Silêncio.
E então—
Um som.
Baixo.
Quebrado.
Um riso.
Aoi congelou.
A lâmina ainda estava dentro dele.
Mas o corpo… começou a se mover.
Devagar.
A cabeça inclinou para o lado.
O sangue escorria pelo queixo.
Os olhos… mudaram.
Não era mais foco.
Não era mais controle.
Era… vazio.
E algo além disso.
— …Você…
A voz saiu falhada.
Mas havia algo nela.
Algo errado.
Aoi tentou puxar a katana.
Não conseguiu.
O corpo de Ren travou a lâmina.
Como se… não fosse mais um corpo comum.
O chão ao redor começou a vibrar.
Leve.
Depois mais forte.
O sangue que escorria dele não caía normalmente.
Ele parava.
Oscilava.
Como se estivesse preso a algo invisível.
Aoi recuou um passo.
Instinto puro.
— …Ren?
Ele levantou o rosto.
Devagar.
E sorriu.
Mas não era um sorriso humano.
Era largo demais.
Torto demais.
Vazio demais.
E então—
Ele puxou o próprio corpo para frente.
A lâmina atravessou completamente.
Saiu pelas costas.
O sangue jorrou.
Mas ele não caiu.
Aoi recuou mais um passo.
Agora sem controle.
Sem entender.
— …Era pra você ter morrido…
Ren inclinou a cabeça.
Os olhos fixos nela.
E então—
A mão dele subiu.
E agarrou o próprio rosto.
Com força.
Os dedos pressionaram a pele.
E então—
Marcas começaram a surgir.
Como fissuras.
Linhas escuras se espalhando pelo corpo, partindo do peito… se ramificando pelo pescoço, pelos braços… subindo até o rosto.
A presença dele…
Mudou.
O ar ao redor ficou pesado.
Denso.
Irrespirável.
Aoi tentou se mover.
Não conseguiu.
O corpo não respondia.
Não por cansaço.
Por medo.
Ren soltou o rosto lentamente.
Os olhos… agora estavam mais fundos.
Mais escuros.
Mais… distantes.
E então—
Ele deu um passo.
E desapareceu.
Impacto
Aoi não viu.
Não teve tempo.
A mão surgiu direto no pescoço dela.
A força foi absurda.
Ela foi erguida do chão sem esforço.
Os pés não tocavam mais nada.
Os olhos se arregalaram.
As mãos tentaram puxar o braço dele.
Não adiantou.
— …Você disse que acabou?
A voz dele estava diferente.
Mais grave.
Mais distorcida.
Como se não fosse só dele.
Ele apertou.
Mais.
E então—
Jogou.
O corpo de Aoi atravessou o campo, batendo no chão, rolando entre destroços e parando apenas ao colidir com restos de uma estrutura.
Ela tentou se levantar.
Falhou.
Cuspiu sangue.
A visão falhando.
E então—
Ele já estava lá.
De novo.
Parado.
Olhando.
Como um predador.
Yang
Do outro lado do campo—
O impacto entre os três era absurdo.
Shizuna avançou primeiro.
A katana cortando o ar em uma sequência precisa, lâminas de gelo surgindo junto com os movimentos.
Zareth veio logo atrás.
Pressão pura.
Força bruta.
Yang… não recuou.
Ele desviou do primeiro golpe com um movimento mínimo de cabeça.
O segundo… ele bloqueou com a mão.
O gelo quebrou no contato.
Zareth entrou.
Um soco carregado de pressão.
Yang recebeu.
O chão afundou.
Mas ele não saiu do lugar.
— É isso?
Ele sorriu.
E então se moveu.
Rápido demais.
Desapareceu.
Reapareceu entre os dois.
Um movimento.
Só um.
Zareth foi lançado para o lado.
O impacto abriu o chão.
Shizuna tentou reagir—
Yang já estava nela.
A mão agarrou o braço dela.
Com força absurda.
O som foi seco.
Deslocamento.
Ela tentou resistir.
O gelo explodiu ao redor—
Mas Yang puxou.
E lançou.
O corpo dela atravessou o campo, rolando violentamente.
Ele virou o pescoço.
Calmo.
— Vocês são fortes.
Um passo.
— Mas ainda estão aprendendo.
Eryndor
O olhar dele estava fixo.
Lysera.
Ela já tinha percebido.
Sentiu antes de ver.
Eryndor estava vindo.
Não correndo.
Caminhando.
Mas cada passo dele parecia encurtar a distância de forma impossível.
Lysera virou.
E correu.
Fuga
Ela desviava de golpes.
De explosões.
De corpos caindo.
O coração acelerado.
A respiração falhando.
Ela não olhava para trás.
Não precisava.
Sentia.
Ele estava vindo.
Sempre.
Mais perto.
Um corte passou ao lado do rosto dela.
Outro soldado caiu.
Mas ela não parou.
Não podia.
Não agora.
Não assim.
Takemura
O corpo já não respondia direito.
A lança caiu.
Os dedos falharam.
O sangue escorria sem parar.
A visão… turva.
Mas ele ainda estava de pé.
À frente—
Kaien.
Inteiro.
Respirando firme.
A katana ainda queimando.
— …Acabou.
Dessa vez não era provocação.
Era fato.
Kaien avançou.
Sem pressa.
Sem hesitação.
O primeiro golpe veio.
Takemura tentou bloquear.
Tarde.
O impacto atravessou.
O corpo dele foi jogado.
Rolou.
Parou.
Tentou levantar.
Não conseguiu.
Kaien se aproximou.
Mais um golpe.
Mais.
Mais.
Cada ataque era pesado.
Brutal.
Sem pausa.
Takemura não conseguia mais reagir.
Só… suportar.
Até que—
O corte veio.
Limpo.
Direto.
O braço.
Separado.
O sangue explodiu.
O corpo travou.
Caiu.
Dessa vez… sem força.
Sem resposta.
Kaien parou.
Respirando fundo.
O fogo ainda queimando ao redor da lâmina.
— Agora acabou.
Ele ergueu a katana.
Preparando o golpe final.
Takemura…
Riu.
Baixo.
Quase inaudível.
— …Demorou…
Kaien franziu o cenho.
— O quê?
Takemura levantou levemente o rosto.
Os olhos… ainda vivos.
— Eu tava esperando isso.
O mundo pareceu desacelerar.
O ar mudou.
Leve.
Mas presente.
A luz.
Surgiu primeiro… fraca.
Quase imperceptível.
No corpo dele.
Nas feridas.
No sangue.
Como um brilho… vindo de dentro.
Kaien hesitou.
Por um instante.
Erro.
Movimento
Takemura desapareceu.
Não foi rápido.
Não foi um avanço.
Foi… ausência.
Ele simplesmente não estava mais ali.
Kaien reagiu—
Tarde.
Atrás dele.
Uma presença.
E então—
Impacto.
Um chute.
Direto.
Na lateral do corpo.
Mas não era só força.
Era luz.
Explodindo no contato.
Raios se expandindo do ponto de impacto, rasgando o chão, abrindo uma cratera, lançando Kaien a metros de distância como se fosse nada.
O som veio depois.
Um estrondo absurdo.
Takemura de pé
Ele estava lá.
De pé.
Um braço a menos.
O corpo coberto de sangue.
Ferido.
Queimado.
Mas…
De pé.
A luz ainda fluía ao redor dele.
Não como explosão.
Como presença.
Os olhos… calmos.
Firmes.
Vivos.
Ele respirou fundo.
E então—
Ergueu o rosto.
Olhando na direção de Kaien.
Que começava a se levantar… entre os destroços.
Takemura sorriu.
Gentil.
Como sempre.
Mas diferente.
— Agora sim…
Ele ajustou a postura.
Mesmo sem um braço.
Mesmo destruído.
— Vamos terminar isso.