Capítulo 63 — O Preço do Ego
O som… demorou a voltar.
Primeiro veio o vazio.
Depois… o eco distante da destruição.
Pedras caindo.
Madeira queimando.
O crepitar do fogo se espalhando entre ruínas.
E então… o silêncio voltou.
Yang abaixou lentamente a mão.
Os escudos que ainda resistiam… se desfizeram em partículas de luz azul, desaparecendo no ar como poeira.
E quando desapareceram…
A verdade apareceu.
Nenhum soldado de Vorthal.
Nenhum.
Nem Aoi.
Nem Kaien.
Nem Zareth.
Nem Shizuna.
Nada.
Era como se… nunca tivessem estado ali.
O campo… agora era só de Aetheryon.
Ou melhor…
O que restou dele.
—
Eryndor se moveu.
Com dificuldade.
Seus joelhos cederam por um segundo antes dele conseguir se levantar entre os destroços. Sua respiração estava pesada, irregular.
Ele ergueu o olhar.
E viu.
Torres… caídas.
Construções… reduzidas a pedaços.
Corpos.
Dezenas.
Centenas.
Espalhados como lixo.
O fogo se espalhava sem controle.
O céu ainda carregava o resquício roxo da explosão.
Seus olhos… se abriram mais.
A boca… entreaberta.
Sem palavras.
Sem reação.
Por alguns segundos…
O rei de Aetheryon… não era nada.
Apenas um homem… olhando o próprio mundo destruído.
Um passo.
Outro.
Lento.
Como se o corpo não acompanhasse o peso do que via.
“...isso…”
“…foi necessário?”
“…isso foi…”
“…vitória?”
Nada respondeu.
E então—
Passos.
Yang.
Ele passou ao lado de Eryndor.
Sem olhar para ele de imediato.
Mas sua presença… era pesada.
Diferente.
Fria.
Quando finalmente virou o rosto…
Seus olhos não tinham mais diversão.
— Você disse que estava pronto para essa guerra…
Uma pausa.
O vento passou entre eles, carregando cinzas.
— …então observe.
Eryndor não respondeu.
Não conseguiu.
— Esse é o preço…
Yang deu mais um passo, já passando por ele.
— …do seu ego.
Silêncio.
Eryndor permaneceu imóvel.
Seus olhos… perdidos.
Fixos em tudo o que havia sido… apagado.
—
Mais abaixo…
Ren respirava.
Com dificuldade.
Seu corpo doía.
Cada músculo… pesado.
As marcas haviam desaparecido.
Restava apenas o cansaço.
E o vazio.
Ele abriu os olhos.
Lentamente.
E viu.
Destruição.
Por todos os lados.
Não havia mais batalha.
Não havia mais inimigos.
Não havia mais… nada.
Apenas… fim.
Ele tentou se levantar.
Se apoiou no chão.
Falhou.
Tentou de novo.
Conseguiu.
Mesmo cambaleando.
Mesmo sem força.
Ele ficou de pé.
E olhou.
“…isso…”
“…foi por quê…?”
Sua respiração falhou por um segundo.
Mas ele continuou.
Um passo.
Outro.
Sem direção.
Sem foco.
Apenas… andando entre os mortos.
—
Lysera se moveu.
Um gemido baixo escapou de sua garganta.
Seu corpo doía.
Muito.
Mas ela estava viva.
Seus olhos abriram… lentamente.
E quando viu…
Ela congelou.
Aetheryon… destruída.
Completamente.
Seu peito apertou.
Mas então—
Seus olhos mudaram.
Determinação.
Ela sabia.
Se ficasse…
Morreria.
Ou pior.
Ela se forçou a levantar.
Suas pernas quase cederam.
Mas ela… correu.
Não rápido.
Não bonito.
Mas correu.
Entre corpos.
Entre destroços.
Sem olhar para trás.
Sem parar.
Mesmo com dor.
Mesmo com sangue escorrendo.
Ela… desapareceu.
E ninguém viu.
—
Ren continuava andando.
Sem rumo.
Sem reação.
Até que…
Ele parou.
Algo… chamou sua atenção.
Entre corpos.
Entre sangue.
Entre pedaços de pedra…
Um corpo.
Imóvel.
Mas… conhecido.
Os olhos de Ren se arregalaram.
— …não…
Seus pés se moveram antes mesmo do pensamento terminar.
Ele correu.
Tropeçou.
Quase caiu.
Mas continuou.
— …NÃO!
Ele chegou.
Caiu de joelhos ao lado do corpo.
Takemura.
Sem um braço.
O corpo completamente destruído.
Queimaduras.
Cortes.
Sangue.
Muito sangue.
Mas…
Ainda respirando.
Fraco.
Quase inexistente.
— …tá… tá tudo bem… — Ren disse, desesperado, segurando o corpo dele — você… você aguenta… você sempre aguenta…
Takemura abriu os olhos.
Com dificuldade.
Mas abriu.
E… sorriu.
Fraco.
Gentil.
— …garoto…
A voz falhava.
Mas ainda era… dele.
— …Ren…
Ren tremia.
— Não fala… não fala… eu vou dar um jeito… eu—
Takemura soltou um pequeno riso.
Baixo.
Quase sem ar.
— …você viu aquilo…?
Seus olhos… brilhavam pouco.
Mas brilhavam.
— …eu consegui…
Uma pausa.
Sua respiração falhou.
— …eu… despertei meu Kai…
Um sorriso mais leve.
Mais… satisfeito.
— …não sabia… que ia gastar tanta energia… haha…
Ren abaixou a cabeça.
— PARA! — a voz dele quebrou — para de falar isso! Você vai ficar bem!
Takemura o olhou.
Com calma.
Com… aceitação.
— …chega… garoto…
Silêncio.
O fogo ao redor crepitava.
— …uma última coisa…
Ele respirou com dificuldade.
Cada palavra… custava.
— …eu deixei um… presente…
Ren levantou o olhar.
Os olhos vermelhos.
— …por ter treinado comigo…
Takemura fechou os olhos por um segundo.
— …tá na… capela principal…
Ren apertou mais o corpo dele.
Silêncio.
Takemura abriu os olhos pela última vez.
E olhou… diretamente para ele.
— …lembra do que prometemos…?
Ren congelou.
— …não deixa… isso… ser em vão…
Uma pausa.
Um último suspiro.
— …Ren…
Um sorriso.
Fraco.
Mas verdadeiro.
— …obrigado…
E então…
Nada.
O corpo… relaxou.
A respiração… parou.
O brilho… sumiu.
Ren ficou imóvel.
Por um segundo.
Dois.
Três.
— …não…
Sua voz saiu baixa.
Negando.
— …não… não… não…
Ele segurou o corpo.
Apertou.
— NÃO!
O grito ecoou pelas ruínas.
Cru.
Quebrado.
Desesperado.
— LEVANTA!
Seus olhos se encheram.
As lágrimas caíram.
— VOCÊ PROMETEU!
Sua voz falhou.
— VOCÊ… VOCÊ NÃO PODE…!
Silêncio.
A resposta… não veio.
E então…
Ren caiu.
Abraçando o corpo.
Tremendo.
Chorando.
Sem controle.
Sem força.
Sem nada.
Agora…
Ele segurava o corpo…
De quem um dia…
O chamou de filho.
E pela primeira vez desde então…
Ele quebrou.
Completamente.
—