Era 2 horas da madrugada, e a Bárbara esperava numa cadeira na sala de espera da delegacia do centro, aguardando para entrar e relatar o ocorrido na frente do hospital. Ela ficava roendo os dedos enquanto olhava para o nada.
— Bárbara, me escuta, tá tudo bem. Você não vai ser presa. Ninguém vai acreditar que uma mulher, com apenas um soco, foi capaz de quebrar a mandíbula de um morador de rua em pedaços.
Diz o Sub, sentado ao lado dela, de pé, andando de um lado para o outro, como se também estivesse ansioso. Ele chega e se senta ao lado de Bárbara. E some, de uma maneira que parece ter se fundido com ela, tornando-se uma só.
Henrique chega sem que as duas percebam.
— Oi, Bárbara, posso conversar contigo? — disse, inclinando a cabeça para o lado.
Ela se levanta e o segue, passando por corredores e entrando em uma porta. Lá havia uma sala pequena; no centro, uma mesa retangular de metal, com um caderno aberto e uma garrafa. De cada lado da mesa, uma cadeira, posicionadas uma de frente para a outra.
— Preciso mesmo entrar numa sala de interrogatório? Eu nem estou algemada.
Ele entra na sala.
— Você não está, por que não precisa. Você está como testemunha ocular do que aconteceu. Sente-se, por favor. — Ele se senta na cadeira e aponta para a outra.
Ela entra, fica insegura, fecha a porta e se senta.
— Poderia se apresentar, por favor? — diz isso pegando uma caneta do bolso e começando a escrever no caderno à sua frente.
— Meu nome é Bárbara Ribeiro, tenho 23 anos. Hoje é meu aniversário.
— Qual é a sua ocupação?
— Trabalho como perita na polícia, formada em Química há um ano.
— Tá, eu não sei ser formal com esse tipo de coisa. — Ele olha para ela com uma expressão de dúvida, beirando a confusão. — O que aconteceu nesta noite? O que foi aquilo? Comece do começo, por favor.
O Sub de Bárbara aparece atrás dela no momento em que ele termina de falar, com sua máscara, com a intenção de fazer uma massagem no ombro dela.
Henrique olha para aquilo e toma um susto.
— Quem é você? Como entrou aqui?
Os dois se levantam ao mesmo tempo. A cadeira de Henrique arranha o chão, o som ecoa na sala pequena. O ar parece ficar mais pesado. O Sub de Bárbara leva as mãos à máscara… e a retira lentamente. Henrique engole em seco. Seus olhos vão de uma para a outra, comparando traços, expressões.
— Isso aconteceu! Ela surgiu! Eu não sei o que está acontecendo comigo! — A voz de Bárbara falha. Ela começa a chorar, o corpo tremendo. — Eu não queria ter matado aquele cara!
Henrique se aproxima devagar, como se estivesse lidando com um animal assustado. Estende a mão para tocar o ombro dela, mas o Sub interrompe.
— Você não vai encostar nenhum dedo nela, seu merda.
A voz é idêntica à de Bárbara… porém mais grave, mais fria. Henrique levanta as mãos, tentando manter a calma.
— Calma. Eu só quero ajudar.
— Foda-se. Eu faço isso melhor do que você.
O Sub contorna Henrique sem desviar o olhar dele, pega a garrafa de água sobre a mesa e a coloca na mão de Bárbara.
— Senta. Respira. — Bárbara obedece o Sub quase automaticamente.
Henrique observa cada movimento, pasmo. Então se agacha ao lado dela, mantendo distância.
— Bárbara… você sabe o que é isso? O que é ela?
— Eu não sei! — ela responde, soluçando. — Eu vou ser presa?
— Não. Não vai. Vai dar tudo certo. — Diz Henrique.
Mas a hesitação na voz dele entrega que nem ele acredita totalmente nisso. Ele se levanta de repente e sai da sala.
O corredor parece mais escuro do que antes. Ele vai direto ao sistema de monitoramento da câmera interna. Suas mãos pairam sobre o teclado por um segundo… então ele desliga a gravação e apaga o último arquivo. A tela fica preta.
Enquanto isso, o Sub ainda está ali, acariciando os cabelos de Bárbara com uma delicadeza inquietante.
— Escute ele. Vai dar tudo bem. Confie no que a gente está dizendo.
Bárbara fecha os olhos, respirando com dificuldade.
— Não é sobre confiar… é ter…
As duas falam ao mesmo tempo:
— Medo.
— Eu sei que é medo — diz o Sub, a voz agora mais baixa. — Eu vim de você. Eu também estou sentindo.
Bárbara a encara, com os olhos vermelhos.
— Mas como?
A porta se abre. Henrique entra e se senta lentamente na cadeira. No exato momento em que ele ergue o olhar, o Sub dela começa a se dissipar, como fumaça atravessada por luz. Em segundos, desaparece no ar.
O silêncio volta a dominar a sala.
Henrique respira fundo.
— Eu também tenho isso.
Ele mantém os olhos fixos nela.
— Muitos chamam de “Sub”, onde esse poder vem do subconsciente. Eu chamo o meu de… “Olho nos Olhos”.
Nisso, olhos em volta de bolhas como as de sabão e de tamanho, com uma cor esverdeada aparecem flutuando por volta de Henrique.
— Eu consigo enxergar a visão de animais e controlar eles por um tempo quando consigo atingir algum deles com minha habilidade…
Bárbara olha, tentando entender, com o rosto meio corado de chorar.
— E agora?
— Agora você vai me explicar direito o que aconteceu naquela noite, desde o começo.
Ela fica em silêncio por um momento, respira fundo e fixa o olhar em um ponto qualquer, tentando lembrar de tudo.
— Eu… eu acho que fui atacada. Por alguém que tinha algum tipo de habilidade… parecia gravidade, sei lá. Como se o ar ficasse pesado, me esmagando.
— Gravidade? — ele franze a testa. — Você tem certeza disso?
— Não tenho certeza de nada! Só sei que depois do acidente eu acordei em um lugar completamente diferente. Não era aqui. Parecia… outro mundo. Tipo um mundo paralelo.
Ele fica em silêncio por um segundo.
— Um mundo paralelo? Você lembra como foi parar lá?
— Não. — Ela balança a cabeça. — Eu simplesmente apareci. E foi lá que aqueles caras me atacaram pela primeira vez. Eu nem entendi o que estava acontecendo… Aí eu desmaiei.
— E depois?
— Depois eu acordei no hospital. Como se nada tivesse acontecido. Mas depois, quando eu saí de lá… eles me encontraram de novo.
— Como?
— De alguma forma conseguiram me rastrear e logo apareceram. E, dessa vez, eu revidei. Usei esse poder ao meu favor e... matei duas pessoas. — Ela começa quase a voltar a chorar. — Eu vou ser presa?
Henrique olha para ela, tentando entender o que vai fazer.
— Você não vai ser presa. O caso possivelmente vai ser fechado. Não tem nenhuma prova de que você matou aqueles dois. Você está como testemunha, alguém que testemunhou a briga de um assalto que deu errado por três viciados.
— Mas quais são as provas de que foi um assalto que deu errado? — ela pergunta, mais calma agora, analisando a situação como uma perita. — Vocês me encontraram com a mão ensanguentada. Sangue de um dos mortos. Como explicam isso?
— Eram três homens, certo?
— Sim.
— Um deles fugiu. Quando chegamos, todos viram que havia um terceiro envolvido. Ele já está sendo investigado.
— Então vão jogar toda a culpa nele?
— Não é isso. — Henrique suspira. — Você é perita, Bárbara, deixa isso de lado. Você é uma de nós agora. Não tem nada a temer. Fica tranquila.
— Agora eu sou uma de “vocês”? — Ela ri, vendo a ironia. — Você acha mesmo que eu vou cair nesse papo?
— Bárbara… confia em mim. Por favor. — Ele passa as mãos pelos olhos por um instante, pensando. — Faz o seguinte: vai para casa. Sua mãe já está te esperando lá na frente.
— Henrique, eu não consigo acreditar em você. Depois daquilo… da ameaça. Só porque eu fui investigar onde você não devia mexer, você me ameaçou.
— Eu sei… e peço desculpa. — Ele suspira. — Eu só não sabia outra forma de te manter longe de um caso que envolve gente como a gente, gente com capacidades assim.
Os dois ficam em silêncio por alguns segundos. Nem se olham mais. Henrique encara o teto antes de perguntar:
— Você acreditaria se eu te dissesse que existem pessoas com superpoderes?
— Não. — Ela solta uma pequena respiração. — Sempre me considerei alguém que não acredita em nada sobrenatural… bom, até hoje.
Nesse momento, um senhor negro, que devia ter cerca de 1,90 m, vestindo smoking e gravata-borboleta, abre a porta.
— Detetive Henrique, caso encerrado. Libere a perita Bárbara agora.
Ao terminar de falar, Bárbara se levanta e passa por ele. Nem se despede, ao cruzar a porta, sente um leve cheiro de vinho misturado com algo cítrico. Ela fecha a porta atrás de si e estranha a presença de alguém vestido de forma tão formal para aquele horário da noite.
— Delegado, ela é uma de nós.
— E daí detetive? — ele retruca. — Eu saio do baile de formatura da minha filha e, de repente, meu celular começa a apitar com notificações de um duplo homicídio em frente à Santa Casa. Que diabos aconteceu?
— Senhor, por favor, sente-se.
Ele se senta. A cadeira parece pequena demais para o seu tamanho, o que cria uma cena quase cômica.
— Comece logo. Eu tenho mais o que fazer.
— Ela ficou em coma por alguns dias. Quando acordou, disse que foi parar em um lugar paralelo ao nosso. Lá, encontrou os dois falecidos… e o suspeito.
— E o “sub” dela?
— É alto. E extremamente poderoso. — Henrique respira fundo antes de continuar. — Parece uma cópia dela, mas com consciência própria. Eu ainda não sei exatamente qual é a habilidade dele, nem até onde vão suas capacidades… mas uma coisa é certa: ele é muito poderoso.
— Na recepção estão esperando ela com a notícia de um atestado de 14 dias, esse é o tempo que eu vou te dar para ficar de olho. Então... fique de olho nela, vai me mandando mensagem.
— O senhor não consegue usar o seu “Cais”?
No passado, antes de se tornar detetive da polícia, Henrique era apenas um jovem comum que cursava engenharia agronômica. Ele morava em uma pequena cidade do interior, cercada por fazendas e grandes lavouras. Foi justamente nessa cidade que Sérgio apareceu para investigar um caso de assassinato que estava intrigando a polícia local. Naquela época ele ainda era detetive — hoje em dia já se tornou delegado.
Alguns anos antes disso, Sérgio havia sofrido um grave acidente de carro junto com sua esposa. O acidente aconteceu durante a noite, em uma estrada quase vazia. O carro perdeu o controle e capotou várias vezes. Sérgio sobreviveu, mas sua esposa infelizmente não resistiu.
Ele ficou inconsciente por vários dias no hospital. Quando finalmente acordou, percebeu que algo nele havia mudado. Foi depois desse acidente que Sérgio despertou uma habilidade especial que ele chamou de “Cais”. Com esse poder, ele consegue fazer algo parecido com sair do próprio corpo, como se sua consciência pudesse vagar livremente por outros lugares. Nesse estado, ele consegue observar ambientes, investigar locais e até escutar conversas sem ser visto.
Durante a investigação do assassinato naquela cidade, Sérgio estava hospedado em um hotel simples que ficava de frente para uma grande plantação. Foi então que ele notou Henrique pela primeira vez. Mesmo com o sol forte e um calor de cerca de 31 °C, Henrique trabalhava na lavoura como se o calor não afetasse.
Aquilo chamou a atenção de Sérgio.
Usando seu Sub, ele passou a observá-lo de longe. Foi então que percebeu algo ainda mais estranho, Henrique parecia ter uma conexão incomum com os animais. Pássaros pousavam perto dele sem medo, pequenos animais apareciam ao redor da plantação e ficavam próximos, como se sentissem seguros ali. Era quase como no filme da Branca de Neve, onde os animais se aproximam naturalmente da princesa.
Na terceira noite naquela cidade do interior, os dois finalmente se conheceram em uma das instalações da fazenda por causa da investigação. Durante a conversa, Henrique acabou descobrindo mais sobre suas próprias habilidades e também sobre o poder de Sérgio.
Com o tempo, Sérgio acabou se tornando uma espécie de tutor para ele. Os dois criaram uma forte ligação, e Henrique inclusive ajudou Sérgio a aprofundar sua investigação no caso.
Percebendo o potencial do jovem e preocupado com seu futuro, Sérgio decidiu ajudá-lo. Ele financiou seus estudos e, mais tarde, o ajudou a entrar na polícia como detetive, para que Henrique pudesse trabalhar ao seu lado e auxiliá-lo sempre que fosse necessário.
Assim voltamos ao presente.
— Henrique, eu tenho mais o que fazer, só fique de olho nela. Observe cada passo. Use o “Olho nos olhos”. A cada dois dias, quero informações.
Henrique faz uma expressão de tédio, claramente de saco cheio. Ainda assim, já estava acostumado com esse tipo de pedido. Era algo comum, de tempos em tempos, ordens assim apareciam. Depois que Sérgio se tornou delegado, essas exigências ficaram cada vez mais frequentes.
Sérgio, que já estava quase atravessando a porta, para por um instante e lança um último olhar sério por cima do ombro.
— Comece a ficar de olho nela a partir de agora.
E então ele sai da sala. Henrique se levanta, ajeita alguns papéis junto com seu caderno debaixo do braço, pega as chaves no bolso, apaga a luz e sai em seguida, trancando a porta.