Na frente do bar, numa das mesas da esquina, está a família por parte de tio, irmão da Geovanna, o Márcio. Ele tem o rosto marcado pelo tempo, cabelo grisalho e curto. Veste uma blusa vermelha e ainda bem animado aos 54 anos. Ao lado dele a sua namorada, sorri com facilidade, sempre sorridente e sempre duas caras.
O cabelo escuro, cacheado, preso de lado, combina com a blusa rosa e com o jeito “simpático”. Perto deles, o primo da Bárbara, o Miguel, que observa tudo com um sorriso aberto. É jovem, tem o cabelo escuro, curto e levemente ondulado. Usa uma blusa cinza e parece tranquilo, sem pressa.
Bárbara e sua mãe vão até eles, atravessando a rua. Dava para ver de longe, pela rua, as nuvens rosas do pôr do sol dando seu último suspiro. Nisso, chegando perto, aqueles que estavam sentados na mesa se levantam para abraçar aquela que quase perderam.
— Oi, minha filha, como está?
Chega o tio abraçando ela.
— Estou bem.
— Eu e sua tia fomos te visitar ontem de manhã.
Com isso, sua tia se levanta e vai até ela abraçá-la.
— Eu também fiquei com muita saudade!
O primo veio atrás para cumprimentá-la, mas não houve abraço. Não eram próximos, não cresceram juntos e ele era três anos mais velho. Não foi tão importante para ela ou para ele essa falta de carinho.
Após vários cumprimentos, logo se sentaram, se acomodaram e logo veio um atendente ver os pedidos. Avisou que, para qualquer bebida ou drink, era para ir ao bar na parte de dentro.
— Nossa, Ge, não sei como aguentou.
— Como assim, Mari?
— Não sei como aguentou. Não sei como eu ficaria no seu lugar se fosse com meu filho...
Ela fazia uma cara de cínica, mas todos ali já estavam acostumados.
— Nem eu sei como. Fiquei, acho que, dois dias sem dormir na frente do hospital.
— Sim, entendo.
Vinha o tio se intrometer, fazendo uma piada sem graça:
— Se Bárbara não estivesse aqui hoje, é realmente um sinal de que o mundo quer ver ela sozinha.
E começou a dar risadas de uma piada falha. Ao tentar mudar de assunto, a tia vinha:
— E essa blusa azul, não é a que eu te dei no seu aniversário de 42 anos? Tá conservada.
— Devo admitir que não uso muito…
Depois desse começo de conversa, todos ali pegam o celular e começam a mexer neles. Mas o primo da Bárbara se levanta e se senta ao lado dela.
— Ei… você quer alguma coisa pra beber?
Ela olha para ele por um instante, se perguntando se poderia beber.
— Não sei ainda… acho que vou lá dentro pegar o cardápio.
— Quer que eu vá com você?
— Pode ser.
Ela se levanta devagar, ajeitando o casaco, e ele acompanha logo atrás. Os dois atravessam o pequeno espaço entre as mesas, enquanto o som de conversas e risadas se mistura com o barulho de copos sendo colocados no balcão.
Ao entrar, a luz muda, alaranjada; um lugar mais quente, com cheiro de bebida e comida, toma conta. Bárbara passa os olhos pelo ambiente, como se procurasse algo além do cardápio.
Miguel pega um dos menus apoiados perto do balcão e estende para ela.
— Aqui… tem pouca coisa.
Ela pega, aproximando um pouco mais, lendo por cima.
— Nossa… até me ajudou, tendo pouca opção.
Ele dá uma risadinha baixa.
Por um instante, os dois ficam em silêncio, lado a lado, enquanto ela analisa as opções.
— Você não está com calor usando esse casaco?
— Não, estou de top por baixo.
— Mas mesmo assim, ainda está de calça e vestida toda de preto. Só com isso eu mesmo estaria suando até virar um sorvete derretido.
— Não! Eu estou bem, mas estou usando isso porque ainda não fui pra casa e só tinha roupa antiga na casa da minha mãe.
— E você está bem?
— Sim, estou melhorando de pouquinho a pouquinho.
Os olhos voltam ao menu.
— Vou pedir uma margarita, mas vou pedir pra pôr licor de abacaxi!
— Abacaxi?
— Sim, qual é o problema? Depois de eu quase morrer eu deveria experimentar coisas novas!
— Entendi, mas só acho que não vai ficar bom… eu acho.
— E você? O que vai pedir?
— Uma tradicional caipirinha… vou pedir ali no balcão prometo não esquecer seu licor, pode voltar na mesa, eu já já vou.
Então ela o deixa ali no balcão, esperando ser atendido, e volta para sua cadeira na mesa. Sua mãe começa a dizer coisas sobre ela, mas ela não consegue entender de primeira.
— O que tem eu?
O tio fecha a cara e a tia olha pro lado. Enquanto a mãe dela olha para ela.
O clima muda de repente, pesado, como se o ar tivesse ficado mais denso.
— O que estava passando pela sua cabeça? — a mãe começa, a voz baixa, mas carregada. — Depois de tudo?
Bárbara franze a testa, ainda sem entender completamente o tom.
— Do que você tá falando?
— Das vezes que você quase morreu! — a voz sobe, cortando o ambiente. — Você acha isso normal? Sumir, não dar notícia, se colocar em risco desse jeito?
Algumas pessoas nas mesas próximas começam a olhar de canto.
— Eu não me coloquei em risco! — Bárbara rebate, mais rápido do que pretendia.
— Não se colocou? — a mãe solta uma risada seca, sem humor nenhum. — O que você chama, pelo o que você passou? Responsabilidade?
Bárbara cruza os braços, o maxilar travado.
— Você não sabe de tudo.
— Eu sei o suficiente pra saber que você é irresponsável! — a mãe dispara, sem hesitar. — Sempre foi! E eu fui uma idiota de deixar você sair de casa achando que ia dar conta!
O golpe fica no ar.
Bárbara pisca, como se aquilo tivesse acertado mais fundo do que queria demonstrar.
— Então é isso? — ela diz, a voz mais baixa agora, mas firme. — Você queria que eu ficasse lá pra sempre?
— Eu queria que você estivesse segura, sem correr riscos!
— E eu queria respirar! — Bárbara explode, inclinando-se pra frente. — Você não entende isso? Eu tava sufocada lá!
A tia mexe no cabelo, claramente desconfortável. O tio encara a mesa, evitando interferir.
— Sufocada? — a mãe repete, indignada. — Eu sempre te dei tudo!
— Tudo o quê? Controle? — Bárbara retruca. — Você decide tudo por mim! O que eu fazia, pra onde eu ia, com quem eu falava… eu não podia nem—
Ela para por um segundo, tentando se conter, mas não consegue.
— Eu não podia ser eu!
O silêncio pesa por um instante.
A mãe aperta os lábios, os olhos brilhando, mas sem ceder.
— E olha onde isso te trouxe. Sozinha, correndo perigo.
Bárbara solta uma respiração trêmula, segurando a raiva.
— Pelo menos foi escolha minha, eu sou perita, trabalho num lugar seguro!
— Um lugar onde tem loucos e porcos usando armas!
Nesse momento, Miguel se aproxima com as bebidas nas mãos, olhando de um lado pro outro, percebendo a tensão imediatamente.
— É… aqui — ele diz, hesitante, colocando os copos na mesa.
As duas se calam na hora.
Bárbara desvia o olhar, pegando o copo sem encarar ninguém. A mãe também olha para outro lado. Bárbara vira o copo, bebendo tudo de uma vez e, ao terminar, faz uma careta, pois se arrependeu de pedir licor de abacaxi, que dava um gosto estranho, quase amargo.
— Eu vou pedir outro drink.
— Quer que eu— dizendo por impulso.
— Não fica aí Miguel.
Ela se levanta e vai para dentro. Fica pensando no que aconteceu, se estava errada em algo para que a mãe guarde tanto rancor.
Ela chega até o balcão, se senta, da uma olhada novamente no cardápio, mas logo pede uma caipirinha, dessa vez sem adicionar nada. Olha para o lado e vê um senhor alto sentado ao seu lado. Ele vestia um poncho, usava boina preta e óculos escuros, tinha barba e cabelo grisalho.
Ele percebe que está sendo olhado, olha, e ela já volta o olhar para frente novamente.
Na parede, havia um espelho que dava para ver tudo o que tinha atrás. Ela via que a parte de dentro não estava tão cheia como o lado de fora.
Quando recebe a bebida, toma um gole. Nisso, começa a encarar o espelho; ainda estava com vergonha por o senhor ao lado dela tê-la olhado.
Olhando para o lado de fora um homem que usava roupas simples, com um casaco jeans verde e cabelo liso penteado para trás, até passando por detrás das orelhas, entra devagar, vinha encarando o homem que estava ao lado de Bárbara. Ele puxa algo debaixo da blusa, como se fosse tirar uma arma. Vendo isso, ela empurra o idoso para o chão, ficando meio que em seu lugar, e recebe um tiro na cabeça.
Ela cai com tudo no chão.
O rapaz que tinha como objetivo atingir o velho não hesita, e continua a ir atrás.
O pessoal que estava na parte de fora olha para cena de dentro e começam a gritar, e os que estavam presentes dentro do lugar só começam a correr desesperados, a família da Bárbara se levantam e vão ver a situação, ao Geovanna ver o corpo da Bárbara no chão, não parou de gritar o nome da filha e o tio a segurando para que ela não fosse até ela.
O velho que estava no chão levanta, em sua mão, algo como um cristal roxo emergindo com formato de pirita. Ele lança esse cristal improvisado, mas o atirador defende pondo o braço na frente, não surtindo nenhum dano.
Cinzas aparece de pé, fica por cima de Bárbara e faz ela se despertar, nisso ela se levanta com um pulo, ainda com o buraco de bala na cabeça, a mãe dela vê a situação e começa a passar mal, de choro foi para uma confusão de sentimentos.
Bárbara quando caída no chão, havia ficado entre eles dois, quando ela se levanta ela fixa uma base, o de jaqueta verde se surpreende e fica parado olhando para ela.
Ele com sua guarda baixa, ela aplica uma rasteira e logo levanta o senhor que ela tinha empurrado. Ela ergueu as mangas do casaco até o cotovelo e nisso dando tempo para o que está atacando se levante novamente.
— Quem caralhos é você?
— A puta que te pariu não é.
O senhor que estava atrás diz:
— Moça, mais calma.
— Essa cara acabou de atirar na minha cara! E você tá pedindo pra eu ficar calma?
O rapaz avança, e Bárbara lhe dá um soco na barriga. Ele aguenta. Apenas a roupa rasga e, de forma estranha, parece que seu corpo é feito de camadas, de peles de tons de peles diferentes, sem sangue.
Ele se desespera, como se tivesse sido descoberto. Enfurecido, recarrega a arma e atira, atravessando a testa de Bárbara que acerta a perna do idoso que estava logo atrás dela. O senhor manca e cai, enquanto Cinzas aparece, puxando aquela linha do peito de Bárbara e saltando sobre o atirador. Ela começa a socar no rosto dele antes de sumir; nesse momento, Bárbara avança para dar um chute na cabeça do homem.
— Bárbara! — Henrique aparece por trás e a puxa para longe.
— Quê? Caralho, o que você está fazendo aqui, porra?
— Tentando te salvar!
Nesse meio tempo, a interrupção do Henrique dá ao atirador a oportunidade de correr. Henrique segura a Bárbara, mas consegue escapar e vai atrás do atirador, então Henrique tenta ajudar o senhor, que agoniza de dor no chão.
Bárbara corre, saindo do bar e descendo pela esquina onde a família dela estava. Ela passa por eles, nem os enxerga, e segue reto. Os parentes olham para aquilo abismados, vendo a cena em que ela está com dois buracos de bala na cabeça, correndo atrás de algo que parece um monstro.
A mãe dela, de pé, olha a filha correndo atrás da “coisa”, tenta entender o que está acontecendo. Nisso, o primo tenta correr atrás dela também.
— Não vai, Miguel! — diz o pai, numa tentativa de impedir.
O atirador começa a se despir enquanto corria; pedaços de pele caem dele, como se estivesse trocando de pele, se remontando.
Miguel tenta alcançar Bárbara, de algum jeito, ela está muito mais rápida que um humano normal. Ele cai no asfalto de tanto correr, enquanto ela continua.
Com o corpo mudando de forma, o homem começa a correr de quatro, como se fosse um animal.
Eles já correram duas quadras; até esse momento, as feridas na testa de Bárbara se regeneram.
Um carro vem pela esquerda e atropela os dois.
— Bárbara! Você está bem? — pergunta Henrique, dentro do carro.
Era uma Ford F-1000, com a parte de trás fechada, vermelha.
Henrique desce da caminhonete e vai até Bárbara ver se ela está bem.
Ela estava dura, morta novamente, mas a Cinzas aparece por detrás dele, agacha-se e puxa o fio branco através do tronco. Bárbara levita ficando quase de pé no ar e nisso revirando os olhos com o corpo se distorcendo, voltando ao normal.
Ela recobra a consciência e cai no chão.
— Onde ele está?
Henrique a ajuda a levantar ela e olham ao redor, o atirador tinha fugido.
Henrique ajuda e leva ela até o carro, quase sentando no banco do carona ela vê aquele senhor de boina no banco de trás do carro.
Henrique dá a volta e entra.
— Quem é ele? — Diz ela balançando a cabeça na direção do rapaz.
— Não sei, mas tive que ajudar.
Então o senhor que estava deitado se senta.
— Meu nome é Francisco.