O que mais se pode fazer quando a história de alguém chega ao fim? Se usar um pouco a imaginação, talvez, apenas talvez, pode ser que a história de outra pessoa possa começar. Ulisses Guinel de Urion se perguntava muito se esse pensamento poderia ser idiota ou se foi apenas o seu desejo se tornando realidade, durante longos anos ficava pensando qual seria a sua história e se estaria começando agora, afinal, em meio a toda aquela situação, a história que conhecia havia acabado e agora, tudo que aconteceria estaria fora dos seus conhecimentos, iria acontecer e ele nem sabia se poderia evitar, assim como havia feito todo esse tempo.
Esse lugar em que ficou por tanto tempo chegava ao fim e ele poderia seguir o seu caminho sem saber o que o futuro reservava para ele, mesmo que o seu destino, já soubesse. Esse mundo e tudo que nele estava, era apenas parte de algo que na sua vida passada pensava ser apenas o seu passatempo idiota. Sim, ele poderia ser apenas mais um personagem no enredo de uma protagonista que, ao longo de um tempo, tentou ao máximo não encontrar, mas que no final, não pode ignorar para sempre, já que em todo caso, ele era o segundo protagonista na história dela, o par romântico que ela não iria querer ou se preferir: apenas uma alavanca para ela perceber que amava o verdadeiro protagonista masculino. Tudo isso não importava, já que Ulisses nunca amou aquela garota, ele só queria sair dessa história e ter a sua própria.
Mesmo que tenha tentado com todas as suas forças sair daquele enredo, pode perceber que sempre seria puxado para o enredo daquela garota, que com o tempo, começou a odiar muito, mas que agora era apenas mais um rosto em meio a multidão, sem nenhuma importância. Bem, como ele poderia explicar para o Ulisses criança que eventualmente iria ajudar a protagonista, com o intuito de terminar a história dela e finalmente ter a sua própria? Já haviam o avisado, se aquela garota não terminasse com o enredo dela, então ele sempre estaria ligado a ela. Ele só poderia lembrar as palavras daquela divindade o avisando com uma calma que o deixava irritado: que, para ele conseguir ter o seu início, o fim tinha que chegar.
Ele nunca tinha pensado muito que em todo aquele tempo, ele nunca foi de fato o protagonista da sua própria história. Lutou muito pelo seu objetivo, completamente alheio ao que de fato significava esse início, principalmente no que dizia respeito a ele. O início era realmente o início, onde começaria sem nada, do zero, onde teria que recomeçar tudo de novo. O quão triste foi o preço da sua "liberdade"? Não havia notado algo assim até estar completamente no número zero, afinal, é assim que começa uma história, não é? Com o seu protagonista no início de tudo, o que muda é se o começo é feliz ou triste.
Como dizia a pilar da sua vida "o início é mais deprimente que o fim" e ela estava completamente certa. Ulisses dizia que entendia sem de fato entender a profundidade daquelas palavras, mas só agora poderia de fato entender, sentir e pensar sobre aquela frase tão dolorosa. Apenas agora, olhando para aquela cidade toda decorada, se tornando uma exibição de cores brilhantes e ornamentos, com faixas, guirlandas adornando toda a estrutura das casas e ruas, com as pessoas vestidas com seus melhores trajes, se reunindo na praça central ou se aglomerando na rua principal em comemoração daquele casamento, pode perceber que poderia ser o fim para uma história, mas para ele era o seu início, e Ulisses não estava tão animado quanto deveria. Podia sentir a atmosfera animada, com música e dança acontecendo ao redor, enquanto as pessoas se divertem e aproveitam a ocasião comemorativa, porém, mais do que isso, parado em meio as pessoas gritando e jogando pétalas de flores e confetes na carruagem que passava, Ulisses se sentia um tanto sozinho.
Lá estava a protagonista da história, radiante em seu vestido de noiva, ao lado do seu agora marido, acenando para todos aqueles cidadãos com um lindo sorriso. Ulisses estava com um rosto neutro, havia recebido o convite para entrar na igreja, mas acabou não indo ver o desenrolar da cerimônia, afinal, não queria dar a ideia de que agora tudo ficaria bem. Provavelmente aquela garota casada estaria se perguntando o motivo dele não estar ali na comemoração e que ainda teria esperança de encontrá-lo em meio a multidão, mas Ulisses não queria que ela lhe visse ali, olhando para ela passar pela rua, radiante pelo seu final, enquanto ele estava no início de tudo.
"Eu sei que não quer ver o meu rosto, mas eu quero ver o seu rosto!"
Foi o que ela disse uns dias atrás, quando Ulisses disse a ela para parar de agir como se a felicidade dela pudesse afastar qualquer dor em seu coração, que nem tudo era um cliché de um livro de romance. Aquela foi a última vez que ela o viu, mas para Ulisses, esse era o último dia em que ele a veria, a protagonista da história. Sabia que não a poderia culpar por seguir a história que ela nem sabia que estava, mas para ele era um alívio, já que tinha que ter alguém para culpar sem ser ele mesmo por todos aqueles que não pode proteger.
O som de todas as pessoas, da música e dos aplausos aparentemente não foi o suficiente para que aquela garota não sentisse a sua presença. No momento que ela olhou na direção dele, ela não o viu, mas pode sentir que ele estava ali, mesmo que não conseguisse provar para si mesma. No momento em que ela olhou na direção em que ele poderia estar, não o viu e isso a fez apertar a mão do marido, e mesmo que fosse um delírio da sua parte, um sorriso suave surgiu em seu belo rosto. Ele estava ali, certo? Bem, ela se agarrou a probabilidade pequena disso.
Ulisses sabia que aquela garota reconhecia sua mana e por causa disso, decidiu se afastar para que ela não o visse. Com as mãos nos bolsos, apenas se virou e saiu do meio da multidão, se afastando de toda aquela história que nunca fez parte dele, mas que o puxava por ele ser "importante" para a história de outra pessoa. Porém, agora não fazia mais parte, poderia seguir para qualquer lugar sem olhar para trás, algo que era impossível, já que não queria aqueles que lhe foram importantes. Andando pelas pessoas, Ulisses pode passar por uma barraca de maçãs, o vendedor estava atendendo uma mulher e por um momento, quis chegar mais perto, mas ao olhar para o outro lado, pode ver uma barraca de uvas.
"Gosto mais de uvas, apesar das maçãs serem maiores, as uvas vêm mais de um. A fruta é pequena, mas eu posso dividir entre as pessoas sem ter que usar uma faca para poder cortar, cada um recebe inteiro."
Sorriu ao pensar nas palavras daquela pessoa, era uma frase tão inútil, mas que ainda se lembrava como se fosse ontem, uma lembrança feliz e um tanto dolorosa. Não pode se conter, apenas andou até a barraca de uvas e comprou um cacho, andou até a praça da cidade e se sentando em um banco, olhando para todas aquelas pessoas felizes pelo príncipe herdeiro estar finalmente se casando. Para ele, nada daquilo importava, Ulisses só... só queria saber para onde iria ir agora, onde, como e quando poderia começar? Afinal, sabia qual seria o seu destino no final das contas e quando iria chegar até ele. Havia aprendido da forma mais horrível que o destino sempre se concretiza.
Porém, sabia que teria que fazer algo em relação a esse destino, porém, Ulisses já pensava nisso há um tempo. Se não fosse fugir, ao menos iria escolher com quem poderia chegar. Comendo a primeira uva, Ulisses olhou para o céu, lembrando de tudo o que tinha acontecido até chegar nesse momento, as lutas, as dores e felicidades que passaram por ele, às vezes até se perguntava se isso realmente aconteceu ou se não passava de um sonho, onde iria acordar e ver... todas aquelas pessoas que lhe eram importantes.
Era um dia bonito, de fato, mas parecia tão estranho estar um tanto deprimido em meio a tanta felicidade. Por algum motivo, se lembrou do Festival do Algodão na sua cidade natal, onde fora mais de uma vez, mas com pessoas diferentes. Essas memórias o corroíam por dentro, já que essas pessoas estavam distantes demais para poder alcançar e o pensamento disso fazia seu coração apertar, em muitas noites, sonhava em estender a mão os puxar novamente para a sua vida. Imaginava como seria se a situação agora fosse diferente. De certa forma gostava de imaginar as muitas possibilidades diferentes que poderiam ser, bem, imaginar coisas assim era culpa da sua irmã, e por algum motivo, começou a fazer a mesma coisa pelo qual fazia graça.
— O que eu faço agora?
Essa era a pergunta que estava evitando a alguns dias, já que não teve a coragem de seguir os dias normalmente desde que aquelas lutas acabaram. Antes ele sabia todos os acontecimentos, mas agora ele não sabia quem iria encontrar ou se iria deixar que a solidão o abraçasse por completo. Em meio a essa pergunta, pode perceber que as uvas haviam acabado. Os olhos de Ulisses foram na direção da grande fonte, jorrando água limpa e cristalina, logo um pensamento lhe veio ou, de certa forma, uma lembrança bem distante. Pensou que havia esquecido, mas aqui estava ele, tirando do baú uma promessa que nunca poderia se cumprir por completo. Uma promessa com alguém que nunca poderia voltar para ele, mas que ele nunca poderia esquecer.
— Eu... quero ir para a praia.
Sim, ao falar isso em voz alta, Ulisses suspirou e se levantou, começando a andar novamente. Seus passos eram tranquilos, apesar da onda de incerteza que estava em seu coração devido ao tanto de perguntas a respeito do seu futuro incerto ou em como poderia chegar naquele destino que sabia que iria chegar. Seu destino era inevitável, mas ele sabia que antes que pudesse chegar, iria ao menos aproveitar um pouco.
Olhando em volta, realmente parecia o final de um livro, o final de uma novel no qual acompanhou por tanto tempo. Na sua vida passada, nunca iria imaginar que iria entrar dentro de uma história e que viveria muitas situações com a qual teria que lidar, ou que as suas mãos estariam com tanto sangue, talvez ele fosse um monstro por ter tirado muitas vidas ao longo dos anos. Se arrependia de ter se vingado muitas vezes? Ulisses não poderia mentir, ele não estava. O velho discurso de que "a vingança não leva a nada" não poderia ser usado com ele, já que em muitas vezes que colocava em prática a vingança, sentia seu corpo mais... leve? Como se tivesse feito justiça, mesmo que tenha sido com as próprias mãos.
Ele não era o mocinho altruísta, nunca foi. Ele só queria ter uma vida normal com a sua própria história, mas aparentemente não era possível, já que a história não era dele, esse mundo fora feito para um enredo de uma pessoa em específico e infelizmente não era ele. Agora Ulisses podia sair desse enredo que nunca foi dele, poderia seguir o seu caminho, mesmo que já soubesse que todos os caminhos que poderia pegar, o levaria para algo que sempre estava escrito para ele desde o início.
Andando pela rua, ele se afastava de tudo que conhecia, de tudo que havia feito durante todo aquele tempo. Ao parar no grande portão da capital, não olhou para trás, apenas continuou andando, passo após passos, com a distância ficando cada vez maior, com o som da música ficando cada vez mais baixa. Ele não se importava com aqueles que estavam naquela cidade, naquela festa de casamento, com aquele casal que nunca foi do seu agrado, afinal, nunca ligou para os protagonistas daquela enredo no qual ficou preso por tanto tempo. Mesmo agora, pensava pouco neles, na mente dele só havia um lugar e uma situação em mente: praia e pôr do sol.
Não era muito de ir à praia, mas uma certa pessoa o fez prometer que iria, mesmo que ela não estivesse mais com ele, ao menos iria fazer o que prometeu fazer. Ele nunca foi bom com promessas, mas poderia fazer alguns sacrifícios ao longo da sua vida solitária, além disso, ver o pôr do sol com aquele mar não poderia ser ruim. Poderia ser lindo e talvez, só talvez, poderia ser… incrível.