A República, naquela manhã
O som do despertador é só detalhe. Não dá para dormir direito naquela república. A casa principal e as dos fundos, tudo de madeira, rangendo. O barulho de manhã é infernal. Tomás já se ferrava de cansado quando lutava com gente normal. Como seria sua vida quando entrasse para o Circuito de Proto-Humanos? Aquela categoria de lutas onde só gente esquisita entra?
Enquanto colocava suas calças para ir tomar café, lembrou que uma vez assistiu a uma luta de Proto-Humanos e tinha o tal do Pata Queimada, um cara com fantasia ou implante de pelo de rato na pele, lutando contra… um doido que dizia que era um alienígena que caiu em Pelotas. Sabe, origem muito específica pra justificar uma doideira.
Só gente estranha, mas pagava mais. Ele tinha decidido enfrentar essa, o quão mais difícil deve ser trocar soco com uns estranhos assim para ganhar o dobro? Claro que nada. Nunca perdeu uma luta contra gente normal, não ia ser contra gente esquisita que perderia. Uma flauta desafinada e um tambor sem ritmo tocam lá da cozinha. O barulho irritante aumenta com a proximidade e Tomás se pergunta se não deveria abandonar a cafeína só para evitar esse tipo de convívio.
— Essa cara de cansado aí, meu? Dando o cu a noite inteira, viadão? — pergunta Jairo Jorge
—Nada de palavrão à mesa, Seu Jorge! — Responde Dona Amélia — Além disso, Tomás é um menino educado, gosta de meninas. Não que seja errado meninos gostar de meninos.
— Importante, Dona Amélia, é o equilíbrio entre os polos em um casal. Se o cara tiver energia feminina e o outro masculina, pronto. — Diz Ulisses, que tira a flauta da sua boca para falar.
— Energia o que? Fala que nem gente, piá de merda. — Responde Jairo Jorge.
— Sem palavras de baixo calão, Jairo! — Fala Dona Amélia.
— Ok, tudo bem, família. — Diz Bianca pela primeira vez, enquanto repousa as mãos sobre o tambor.
— Nós não somos uma família, Bianca. — Reclama Tomás.
— Claro que somos! O mundo é uma família, nossa pequena comunidade é uma família. — Afirma Bianca.
— Verdade, minha querida orquídea, apesar dos desacordos, somos como uma família. Moramos juntos, comemos juntos. Vocês são como netos para mim. — Dona Amélia responde.
— E aproveitando que estamos em família… temos notícias a contar. Uma nova pessoa está vindo! — Anuncia alegremente Ulisses.
— Uau, como tu já sabia, bichinho? Eu nem tinha contado ainda. — Responde Bianca, suas bochechas brancas ficam rosadas, nervosa com o grande acontecimento sendo revelado dessa forma.
— Como assim, meu amor? Estou falando de mim! Eu, Fernando Ulisses, agora sou uma nova pessoa! Quero anunciar que eu abandonei completamente o curso de Teatro! Agora, vou para a escola da vida!
— Ahn? — Bianca se assustou em decepção.
— Haha! — Jairo Jorge riu da fala e da reação.
Paft! Tomás simplesmente espalmou o próprio rosto
— Que bom, querido, eu acho… — e Dona Amélia disse qualquer coisa que pudesse ser simpática.
— A gente não conversou sobre isso… — comenta Bianca preocupada, esfregando a mão sobre a barriga.
Ulisses, espantado com a falta de parabenizações por sua coragem, responde:
— Eu queria fazer uma surpresa, pensei que tu fosse ficar feliz por mim, amor, me apoiar…
— Que merda, hein? — Comenta Jairo Jorge.
— Poxa vida, Seu Jorge, dia poxa vida em vez de que merda!
— Ah ta bom. Poxa vida. Eu não estudei porque não podia, daí virei taxista, mas pelo menos aprendi a dirigir, arrumar cano, sei me virar. Aí tu abandona os estudos, que já iam ser uma bosta pra ganhar dinheiro?
— Ha, esse daí não precisa se preocupar. A mesadinha do papai tá sempre em dia. — Comenta Tomás.
— Aah, não, gente. Já disse para vocês que não quero mais depender do meu pai. É por isso que saí, vou começar minha própria companhia de arte de rua. — Responde Ulisses.
— Mas o Seu Thiago vai investir em ti, não vai? No teu negócio? — Pergunta Dona Amélia.
— Não, vou começar do 0! Só eu, o apoio da minha amada, que espero que deixe a biologia também por mim, e nosso talento de música e teatro. — Diz Ulisses.
— E por que abandonar a faculdade nesse processo? — Questiona Tomás.
— Porque meus professores não me compreendem, não me apoiam e não reconhecem meu talento. Meu pai me deu até o final do ano para iniciar um negócio realmente promissor ou pegar um emprego no escritório de contabilidade do meu irmão. Se não, ele não vai mais me dar nenhum centavo.
Uma cadeira se arrasta com força. Bianca se levanta e sai, passando a porta dos fundos para o terreno de trás da República, e se dirige à casinha em que mora com Ulisses.
— Tu tá fodido. — Fala Jairo Jorge, rindo.
— Palavrões, seu Jorge!
Ulisses fica olhando para Bianca enquanto ela se afasta, incrédulo com a reação. A tensão do local cresce com o barulho irritante do celular de Tomás tocando. Ele pega sua xícara de café e vai para o quarto atender a ligação.
— Sim, Verônica?
— Irmão, tu tem um tempinho? Me encontra na Rosa Branca? A patroa me mandou fazer umas entregas e precisa de uma ajuda.
— Bah, só porque é pra ti…
Passeio com Verônica
A Cidade Baixa é o bairro boêmio de Porto Alegre. Antigamente, era onde ficavam os quilombos e desde então há uma disputa pelo espaço. Todo mundo sabe que é onde acontecem as festas populares, o carnaval de rua, pessoas de baixíssimas a média renda fazendo barulho e bebendo. Ao mesmo tempo, apesar da barulheira secular e dos imóveis caros, pessoas que querem uma vida mais tranquila insistem em se mudar para lá e exigir que as autoridades dispersem as confusões.
Tomás está parado em frente a uma casa branca com detalhes magenta, em especial no marco da porta. Algumas mulheres saem e entram, e o cumprimentam de diversas formas, mas sua reação é sempre a mesma. Pequeno sorriso e aceno com a cabeça.
Uma jovem ruiva e de sardas no rosto, usando jeans e camiseta de banda, sai da casa. Ela carrega nos ombros uma jaqueta de couro com escamas e em cada mão um capacete, sendo um dele verde-musgo com detalhes brilhantes vermelho.
— Jaqueta legal.
— Gostou? Feito do couro do jacaré que a gente pescou mês passado. Aproveitando, por que tu fica dizendo para as pessoas que tu quem matou o bicho?
— Porque fui eu… obviamente.
— Hmm, quem pulou na água atrás dele?
— Tu caiu tentando fazer pesca magnética! E teria caído outras vezes se eu não tivesse te segurado.
— Não me arrependo, encontrei umas coisas da hora no rio aquele dia. E eu pulei porque vi o jacaré. E quem foi pra cima dele?
— Tu não tava enxergando nada!
— Quem subiu nas costas dele?
— Onde está a dificuldade?
— E quem enfiou uma katana no crânio dele?
— Era uma katana feita de aço de alta qualidade e tu teve sorte de atravessar e prender na terra embaixo do bicho, daí ele ficou cravado, nada demais.
— Eu mesma encomendei a espada com base em um desenho que recuperei numa expedição uma vez. Meu orgulho, é o mínimo de uma colecionadora super competente como eu. E aí, o que tu fez enquanto eu matava o jacaré?
— Pulei na água e cravei de novo a katana! Tu ficou na margem contando vantagem e não viu que o bicho tinha se soltado. Se não fosse eu, tu não teria feito nada. Eu quem matei o jacaré, eu quem salvei tua vida, eu quem te ajudei a coletar o aço dessa katana, eu quem…
— Bla, bla, bla, sempre assim. Olha, Tomás, tu é muito chato. Se eu não fosse tua melhor amiga, aliás, única, tu não teria nenhum contato com mulher ou qualquer ser humano. Nem as puta da tua mãe te aturam e olha que se esforçam. Aliás, tu precisa de uma namorada pra ver se fica menos chato.
— A Srta. Rosa não é minha mãe.
— Ah, whatever, mas tu é o preferido dela. Toma aqui — Verônica entrega o outro capacete para ele. — Era do meu ex, pode usar.
— O que aconteceu com ele mesmo?
— Foi demais atrás do que eu trabalhava e, bem, o Submundo não é lugar para gente como ele. Agora, sobe na lambreta, temos muitas caixas para entregar hoje. — Diz Verônica montando na lambreta e apontando para que Tomás também subisse.
— Eu queria saber como tu consegue andar com esse tipo de carga em plena luz do dia, a céu aberto, e não temos problema nenhum com outras facções ou de romper o Véu da Ignorância. — Questiona Tomás subindo na moto.
— Esse é um dos truques que tu aprende quando é uma marmota e uma colecionadora ao mesmo tempo. Justamente por estarmos tão expostos à superfície que estamos mais seguros. O único tipo de pessoa que sabe que tipo de coisa uma marmota carrega é gente do Submundo, que nem nós, e tentar roubar uma carga nessas condições aumenta muito o risco de expor os objetos às pessoas da Superfície e ninguém quer ser responsável por isso.
— E o que estamos entregando hoje, mais especificamente?
— Ah, umas doses de XPTO, um lobinho de pelúcia e… aquele baú ali, que é melhor não abrir.
— Nada pesado, viagem segura, por que tu precisava da minha ajuda?
— Eu não preciso da tua ajuda, a Srta. Rosa ME pediu ajuda contigo, para evitar que tu fizesse merda.
— Que tipo de merda estamos falando? — Tomás coça o queixo.
— A tua estreia hoje no Circuito de Proto-Humanos, na primeira partida de tentativa de ingresso, contra o Ferroada.
— Foi ela quem deu a ideia, escolheu o adversário e marcou a luta. Não tem por que ela se preocupar.
— Ela tá preocupada porque tu é burro e vai fazer isso de uma forma burra. O Ferroada é um cara com o dobro da tua altura, espinhos e aros de metal saindo pelo corpo todo, deve ter usado um XPTO, ao menos um comum, de melhoria de habilidades físicas, e tem basicamente uma lança de aço em cada braço.
— Caguei, venço em dois tapas. — Tomás dá de ombros.
— Tapa na tua fuça. Para de ser estúpido. Encomendamos um XPTO para ti, reforçado, que vai te dar ao menos mais agilidade e força para tuas piruetas. Queríamos te dar um XPTO Avançado, mas vai saber o que botam nessas merdas e tu ia dificultar ainda mais.
— Eu não preciso de drogas para vencer, Verônica. Eu só preciso da minha força e habilidade. Ninguém venceu de mim até hoje.
— Tá bom, Proerd. Mas ao menos para não morrer precisa.
Verônica desacelera e para a lambreta na frente de um edifício super-moderno, alto, com portaria eletrônica sofisticada. O portão da garagem abre para entrarem. Os dois descem, a menina ruiva aponta para uma das caixas na parte de trás da lambreta, Tomás pega. Se dirigem ao elevador.
— Comprar pelúcias pelo Submundo é o tipo de coisa que ninguém acreditaria se alguém dissesse que é algo que acontece.
— Não é qualquer pelúcia, Tomás. É um Fenrir de pelúcia feito em uma edição especial no começo das coleções de criaturas nórdicas diretamente na Rússia, durante a União Soviética, e dizem que tem pêlos de lobo reais costurados.
Os dois entram no elevador.
— E como tu conseguiu isso?
— Estava em uma máquina de pegar bichinho em um posto de gasolina antigo no Morro dos Namorados lá na Zona Sul.
Os dois saem do elevador, se dirigem a uma porta e Verônica aperta a campainha.
— Sabrina? Verônica aqui, entrega do Grupo Roseiral.
— E tu quem foi lá buscar?
— Claro, são 3 chances por pessoa, 1 vez por ano, e eu sou a melhor coletora desse tipo de objeto. Ao menos do nosso grupo e entre vários em Porto Alegre…
— Mas Verônica, se é algo tão valioso assim, por que simplesmente não apenas quebra o vidro da máquina de bichinho e pega? Tu já roubou e fez coisas muito piores.
Enquanto Tomás falava, a porta se abriu. Uma jovem com pele pálida, olhos violeta, loiro quase prateado, e roupa preta estava ali parada olhando para eles. Apesar de bonita, seu olhar era gélido, acertando a espinha de todos e dando a sensação de estarem no ar condicionado -7º. No ombro dela, uma harpia brasileira com olhar penetrante e intimidador, mas que, na verdade, era um bicho de pelúcia com uma presença desconfortável. A moça colocou a mão no braço de Tomás, o olhou de forma fixa e direta, e disse.
— Um conselho, moço. Jamais encare a máfia dos bichinhos de pelúcia. Encara um cartel de drogas, mas jamais tente burlar ou quebrar uma dessas máquinas. — Em seguida, ela olhou para as próprias mãos, cheias de cicatrizes, e, então, para Verônica e para a caixa. — É isto?
— É, sim, Sabrina. Vi que tá curtindo a Harpia também. Aliás, a Srta. Rosa disse que fora, informações, e fornecer quartos da Rosa Branca e da Rosa Negra para a troca de objetos, não faremos mais coleta e entrega de pacotes. — Disse Verônica, entregando a caixa.
— Aah, que pena, o serviço de vocês é tão bom… Eu já estava com o próximo na lista.
— Sem problemas, pau no cu dela. Eu mesma faço o serviço, pode tratar diretamente comigo. Meu número tu já tem. — Respondeu Verônica.
— Claro, vou te chamar quando eu quiser um bichinho novo. — Sabrina se virou para Tomás com olhar bem fixo e um sorriso de canto de boca. — Obrigada por tudo. — E se virou para entrar.
No elevador, Tomás comenta.
— Não sei se foi uma ameaça ou o flerte mais macabro que já vi.
— Os três.
Subindo na moto, Tomás pergunta.
— O que tem nessa bosta?
— O XPTO é uma substância que mistura o fungo que pegaram no foguete da Nasa, naquela missão em Cassino há um século, com um líquido verde. Não sei os detalhes, mas tu alimenta o bicho, injeta no teu corpo, tuas próprias células absorvem o fungo e pum, harder, better, faster, stronger.
— E aparentemente é bem popular, considerando a caixa bem cheia.
— Às vezes misturam coisas extras, chamamos de XPTO Avançado. Quando inventaram, era super popular. Todo grupo tinha um Proto-Humano assim, era que nem NFT, Bitcoin… algo super valorizado em marketing. Mas tem seu uso de fato.
O passeio continua até fazerem todas as entregas e Verônica deixar Tomás na frente da República. Ela entrega a ele uma pequena caixinha.
— Sério, Tomás. Essa edição especial de XPTO pode mudar o resultado na tua luta.
— Eu já disse que não vou usar essa merda. Eu não preciso disso, nunca precisei de coisas assim.