— Me entregue o alienígena! Eu não tenho motivo para te prender “vigilante”. No entanto, eu irei considerá-lo como um cúmplice caso você tente ajudá-lo! — A garota falou em um tom agressivo, como se ela fosse um tipo de policial que estava frente a frente com dois bandidos.
Aquilo não me pareceu nem um pouco certo, já que eu e o Orion não havíamos feito nada de errado.
Ainda assim, aquela garota parecia confiante demais.
E havia outra coisa que não parecia estar certa, eu só não conseguia dizer o que era. Talvez fosse a voz dela, que parecia familiar, como se eu ouvisse aquela voz todos os dias.
Eu tentei pensar de onde eu poderia ter ouvido uma voz como a dela.
— Nem pensar! — Gritei e encarei ela diretamente, percebendo que seu rosto também era parecido com o de alguém. Não dava para eu ver totalmente o rosto dela, já que ela estava também com um capuz e, mesmo com os eventuais clarões dos raios, o rosto dela continuava escondido por sombras. — Não fizemos nada de errado!
— Exatamente, e você que me atacou e me perseguiu pela cidade inteira! — Orion completou ainda mostrando suas garras.
— Eu te ataquei!? — A voz da garota de roupas brancas estava tomada de indignação. — Eu apenas me defendi, e você ainda tentou roubar meu livro de magia!
— Mentira! — Desta vez era o Orion quem estava indignado.
Ambos começaram a trocar insultos e a falar sobre como as coisas haviam acontecido, pareciam duas crianças que tinham feito merda juntos e agora estavam tentando entregar um ao outro para o pai, para tentar aliviar a bronca que receberiam.
As coisas tinham se complicado.
Porque, pelo que eu estava entendendo, a única coisa com que eles conseguiam concordar era que eles tinham atacado um ao outro; no entanto, para o Orion era porque ele teve sua nave atacada primeiro, e para a garota era porque o gato havia tentado roubar o livro de magia dela.
Livro de magia? Era aquele livro que estava na mão dela? Só podia ser, já que o livro emanava um tipo de energia assim como meu corpo emanava ao eu usar minhas novas habilidades.
— Não importa, você ainda é procurado por seus crimes, se você tentar resistir, eu te levarei a força! — A garota perdeu a paciência totalmente por conta da discussão.
— Pode vir! — O gato rosnou partindo em direção a ela!
Assim que o gato se moveu, a garota começou a folhear as páginas, elas foram viradas rápido demais de forma quase sobrenatural, como se o livro estivesse fazendo isso por si mesmo. Os olhos da garota se fixaram em uma página em específico mesmo enquanto se mantinha atenta a Orion.
— Orion…! — Eu começo a dizer enquanto ele já tinha cortado metade da distância entre nós e ela.
Tarde demais, a garota já estava murmurando algo.
Sua voz soltou palavras que não fizeram sentido nenhum. Não é latim, não é nada que eu já tenha ouvido antes.
Um estrondo intenso ecoou pelo céu, anunciando o início da tempestade. As gotas de chuva pareceram começar a cair em câmera lenta uma atrás da outra. Dos símbolos mágicos que surgiram ao redor da garota, a energia se intensificou, unindo-se em um único ponto até se tornar uma energia elétrica que se movimentou por entre as gotas em direção ao gato.
Orion desviou utilizando a mesma energia que fazia seu corpo flutuar para impulsioná-lo para o lado, percebendo que um ataque direto vindo dela não funcionaria. A garota se aproveitou da tempestade. Os símbolos antes que estavam ao redor dela se moveram para os céus entre as nuvens acima de nós.
Eu me jogo para o lado no exato momento em que percebo um clarão logo acima de mim. O concreto abaixo de onde eu estava se parte; faíscas se misturam ao azulado da minha energia que me faz me mover por instinto para desviar das descargas elétricas. Outro raio rasga o céu, depois outro, como se as nuvens tivessem sido rasgadas à força.
Para Orion, isso estava parecendo ser muito mais complicado, e eu entendia a razão para isso. A atenção da garota estava totalmente nele, enquanto eu não estava sendo atacado diretamente pelos raios. Ela só estava tentando me obrigar a me afastar.
Orion continuava desviando dos raios. Ele estava ficando exausto. Mesmo com sua agilidade e instintos afiados, a quantidade de raios que estava sendo forçada na direção dele era insana. Eu mal conseguia acreditar que ele não tinha sido atingido ainda.
Tsk.
A garota estava ficando cada vez mais impaciente ao perceber que seu adversário era realmente habilidoso com sua agilidade. Isso explicava como ele tinha conseguido escapar dela e se esconder em meu apartamento.
Se esconder em meu apartamento.... Isso me deu um plano.
— Orion aqui! — Gritei, me movendo ainda, enquanto a chuva gelada caía sobre mim. Eles tinham se afastado mais de onde eu estava, e isso permitiu que eu pudesse me aproximar da porta, que permitiria que eu entrasse naquele prédio. Lá dentro, estaríamos seguros dos raios que estavam caindo das nuvens.
Orion pareceu ter entendido aquilo e mudou sua rota passando por cima da garota e fazendo com que um de seus próprios raios a atingisse. Ela deu um grito alto de dor e se ajoelhou.
Por um breve momento, eu vi o olhar de puro ódio começar a surgir em seu rosto enquanto uma fumaça ainda subia dela.
Talvez tenha sido um erro ter chamado a atenção de mais e desejado encontrar. E, pelo olhar rápido que ela me deu, ela me considerava um inimigo também, pois eu decidi ajudar o Orion.
Gato maldito! Ele que tinha me colocado naquela situação.... Eu devia saber que gatos pretos só trazem azar!
Descemos as escadas rapidamente. Eu pensei em fechar a porta que dava até o terraço para atrasar a garota, mas não adiantaria de nada, pois eu tive que usar minha força para arrombar a porta e a tranca tinha ficado toda estourada.
Um cachorro surgiu do nada, grande e de pelagem branca quase brilhante. Ele se jogou contra Orion com uma força absurda contra a parede, a quebrando. Por conta disso, eles acabam caindo dentro de um dos apartamentos. O interior estava escuro, então, por sorte, aquele era um apartamento vazio.
Orion abriu sua boca e o interior dela começou a brilhar intensamente, causando uma explosão que destruiu ainda mais aquele apartamento e fez com que o cachorro que estava por cima dele fosse jogado pelo teto para longe.
O apartamento se iluminou um pouco mais e a chuva começou a entrar lá dentro pelo buraco que se formou no teto. Os raios começaram a cair novamente. Orion, pensando rápido, se escondeu na escuridão e eu não pude mais vê-lo. Assim que eu tentei me mover para tentar escapar dali, como o gato tinha feito, eu percebi que a garota estava logo atrás de mim.
Eu não pude me mover. Suas mãos estavam nas minhas costas e eu podia sentir um pouco da eletricidade que saía pelo símbolo flutuando logo à frente da palma da mão dela.
A garota não precisou dizer nada.
Eu sabia que, se eu tentasse qualquer coisa, o raio se moveria instantaneamente naqueles poucos centímetros de distância entre nós e eu provavelmente viraria pó.
— Apareça ou eu vou fritar o teu companheiro aqui! — Ela falou num tom sério enquanto olhava pelo meu ombro tentando encontrar o gato na escuridão do apartamento.
Orion não respondeu, e no curto tempo que havia se passado, o cachorro de pelos brancos havia se recuperado e passado novamente pelo buraco no teto, caindo dentro do apartamento. Ele começou a farejar o local procurando pelo gato, e levantou as orelhas tentando ouvir qualquer minimo som que o felino pudesse fazer.
Nada.
O maldito gato tinha me abandonado ali.
Ouvi a garota ranger os dentes, meu corpo ficou mais tenso enquanto eu tentava me preparar para o que ela poderia fazer.
— Para onde ele poderia ter ido? — A garota perguntou para mim.
— Eu não sei. — Respondi tentando me manter o mais parado possível.
— Eon, ele está mentindo?
O cachorro se aproximou de mim e começou a me farejar, e então balançou a cabeça.
— Merda.... — Ela simplesmente abaixou a mão e o cachorro lentamente desapareceu.
Isso fez com que um pouco da tensão em mim desaparecesse e eu dei uns passos para trás depois de ter me virado para a garota. O corredor onde estávamos estava com as luzes acesas e então eu pude ver o rosto dela.
— Liz!? — O nome dela escapou inconscientemente de minha boca, ao perceber o motivo de ela ter soado tão familiar antes. Aquela garota era uma colega de classe da escola na qual eu estudava.
— Lucas…? — Ela demorou um pouco mais para se lembrar do meu nome, já que eu não era tão popular quanto ela.
No breve momento pelo qual ficamos encarando uns aos outros, Orion apareceu novamente do mais absoluto nada e então mordeu o livro que estava ainda na mão direita da garota, fazendo com que o cachorro mágico dela desaparecesse.
— Merda! — Ela gritou vendo Eon lentamente desaparecer perdendo sua aura brilhante.
Orion deu umas risadinhas enquanto correu com o livro em sua boca, ela correu até o gato, mas antes que ela pudesse o pegar ele pulou pelo buraco que levava até o terraço, sem escolha ela teve que subir pelas escadas e eu fui junto.
Não era possível ter passado mais do que um minuto até chegarmos lá, mas o gato parecia ter lido o livro inteiro...
— Porra! Não é este livro! — Ele falou irritado enquanto Liz correu em direção a ele.
O gato "segurou" o livro com sua pata, o pressionando na beirada do prédio. Se ele levantasse a pata só um pouco, o livro cairia do último andar até a calçada, que está a vinte andares abaixo.
— Não se aproxime! — Ele falou. — Você já perdeu, e eu sei que você não consegue usar sua magia sem isso.
Orion levantou um pouco a pata e o livro começou a escorrer para o lado. Com isso a garota parou de se aproximar.
— Vem cá Lucas. — Orion falou ao me ver chegar mais próximo.
Assim como ele mandou, eu segui até ele, dando alguns passos e olhando entre o Orion e a Liz, tentando entender exatamente o que iria acontecer agora.
— É verdade que eu tentei roubar seu livro antes. — Orion admitiu. — Mas foi apenas porque eu achei que era um que pertenceu a mim...
— Claro que esse livro não poderia ser o seu! Este livro foi passado pela minha família por gerações! — Liz falou encarando o seu precioso livro de magias. — Devolva ele agora! — A garota ordenou.
— Tá certo... Eu vou devolver, mas você tem que deixar eu e o Lucas partir!
— Eu posso até deixar o Lucas ir, pois você deve ter o manipulado ou o ameaçado para se juntar a você, mas de forma alguma eu deixarei você escapar de novo! — Liz falou.
Orion apenas deu risadas.
— Eu não sei o que você pensa que eu sou, mas eu não obriguei esse garoto a fazer nada. Ele que se juntou a mim assim que eu mostrei a 'ultrarrealidade' para ele!
Liz me encarou agora com suspeita.
— Eu só usei minhas novas habilidades até agora para ajudar os outros! — Falei levantando as mãos, mesmo sendo inocente; eu lembrava como a Liz podia ser um tanto intensa às vezes por conta de conviver com ela na escola, e por ser líder de turma, ela sempre teve esse olhar intenso.
Ela pareceu acreditar nisso e já tinha mencionado que eu era o "vigilante", então um pouco de rumores sobre minhas boas ações estavam se espalhando, pelo menos um pouco.
— Eu não sei o que esse gato pode ter te falado, mas ele é um mentiroso e cometeu diversos crimes e pecados, e é um dos Lordes do Universo. Se eu não o aprisionar agora, ele pode causar a destruição da humanidade!
Ultrarrealidade, Lordes do Universo, pecados e crimes.... A discussão e essa luta idiota que os dois tiveram.... Parecia problema demais. E a chuva estava apenas ficando mais forte e fria. Quanto mais eu pensava sobre aquilo mais eu desejava só voltar para casa, deitar na minha cama e dormir.
— Por que eu perderia meu tempo me importando com a humanidade!? — Orion disse. — E, apropósito, eu não preciso mais nem perder meu tempo com você, já que eu sei que esse é só mais um livro de feitiços qualquer! Não tem nada de especial nele! — O gato deu umas risadas tendo falado aquela última parte de forma cruel, já que Liz havia dito que aquele livro era especial e era passado entre a sua família por um longo tempo.
Ele deu uma patada no livro, fazendo-o cair numa poça de água no chão. A garota correu até o livro e o pegou em suas mãos. Quando ela olhou de volta para a beirada onde Orion estava, ele já havia desaparecido. Eu tinha me distraído quando ele jogou o livro na direção de Liz, que eu não percebi para onde o gato tinha ido, e, mesmo eu me apoiando na beirada do prédio para tentar encontrá-lo, ele tinha desaparecido da mesma forma que ele fez anteriormente dentro do apartamento.
Assim que Liz pegou o livro, o cachorro surgiu em um pequeno clarão. A garota ordenou que ele farejasse o gato. Com a chuva mascarando o cheiro, aquilo já seria difícil, mas, quando o gato desaparecia, assim era como se não tivesse traço algum da existência dele.
Ela não perdeu tempo e começou a se mover tentando encontrar o gato, mesmo essa sendo uma missão impossivel em uma cidade tão grande como São Paulo.