Os dias pareceram ter começado a se passar muito mais rápido do que eu desejava; antes mesmo de eu perceber, as férias já tinham acabado e eu tinha que voltar para a escola. Liz não entrou em contato comigo, o que significava que ela não tinha encontrado nada sobre o Orion, ou talvez ela até se tivesse esquecido de mim.
Suspirei decepcionado.
Não com ela. Eu estava decepcionado comigo mesmo; eu devia ter feito mais naqueles últimos dias, mas eu acabei gastando a maior parte dos meus últimos dias de férias assistindo filmes e anime.
Nada muito especial, afinal, eu só estava tentando me distrair durante o dia, enquanto durante a noite eu estava saindo para explorar a cidade e tentar ajudar pessoas de qualquer forma que eu podia. Às vezes eu também gostava de ficar só deitado nos terraços dos prédios observando o espaço.
Aquela batalha espacial que estava acontecendo próximo à Lua ainda continuava e eu não sabia quem estava ganhando ou perdendo.
Eu me perguntei quem estava certo ou errado naquela guerra. Tem lado certo e errado em guerras?
Bem e mal.
Tinha que ter, né?
Eu estava com o celular na minha mão e estava vendo o que as pessoas estavam publicando nas redes sociais.
Era mais ou menos o de sempre. Desde que eu fui mordido pelo gato, eu comecei a conseguir perceber certas coisas que pareciam erradas. Era como um tipo de pressentimento.
Quando eu via certas postagens, elas pareciam estranhas, como se tivessem algo a mais nelas. Eu comecei a perceber isso em filmes, séries, animes e principalmente propagandas.
Eu podia ver claramente o que eram mensagens subliminares entre posts que pareciam totalmente normais.
Assim como eu podia ver fantasmas em certos lugares e como eu conseguia sentir quando uma pessoa estava possuída. Possessão era algo bizarro. Quando eu lutava contra alguns dos bandidos, eles tinham uma aura opressora ao redor deles, e era geralmente porque eles estavam possuídos por algum espírito maligno.
De qualquer forma, certas postagens na internet davam o mesmo sentimento opressor. Na verdade, às vezes, pela internet era até mais poderosa a intensidade desta sensação.
— Quem diria que a internet poderia ser tão ruim assim?
Eu sei que o que eu estava falando era óbvio, já que pessoas na internet podiam falar um monte de merda e criar o máximo de caos possível, gerando energia negativa.
— Que merda, eu tô começando a parecer um maluco. — Falei comigo mesmo soltando meu celular e deixando ele cair na cama.
Eu me levantei já tendo perdido tempo demais com aquilo, logo, as aulas iriam começar e eu não tinha me arrumado ainda. Eu precisava tomar um banho e comer alguma coisa e me preparar para pegar o ônibus até a escola.
Enquanto eu estava de baixo do chuveiro, percebi que, na verdade, eu não precisaria mais pegar o ônibus, sendo que eu me moveria muito mais rápido correndo por entre os terraços dos prédios do que o ônibus, que seguia a pior rota possível.
Aconteceu que, de qualquer forma, eu peguei o ônibus para chegar à escola; eu ainda tinha que parecer ser uma pessoa normal, e eu tinha prometido à Liz que eu iria tomar cuidado para não me expor demais.
Sair quase toda noite para agir como um vigilante já era perigoso e usar minhas habilidades durante o dia para fazer algo simples como chegar na escola era estúpido demais. Além disso, não era um grande problema eu perder meu tempo no ônibus porque, de qualquer forma, eu não queria passar mais tempo do que o necessário na escola.
Ninguém merece sofrer tanto assim.
Eu caminhei entre o oceano de adolescentes quando cheguei na escola. Os corredores estavam lotados, cada um andando junto com seus colegas para chegar às suas salas. Aquela era a maior escola da cidade, então era um verdadeiro caos na maior parte do tempo.
Muitos dos calouros sempre se assustavam com isso, mas agora que eu estava no último ano, já tinha se tornado normal. Mas talvez eu estivesse com uma expressão de surpresa quando eu vi que alguns dos alunos ali estavam sendo assombrados por fantasmas, e um desses que estava sendo assombrado era um muleque da minha turma.
Orion tinha me falado que fantasmas perdiam as forças quando eram ignorados, mas eu tinha parado para pensar um pouco e isso não fazia sentido algum. Pessoas normais não conseguiam ver fantasmas, então fantasmas nem deveriam existir, já que todos estavam sempre ignorando eles constantemente.
— Ei, bruninho, como você tá? — Falei caminhando até ele depois de ter desviado de um monte de gente.
Ele olhou para mim. Foi bastante rápido, mas a expressão dele, que estava bem fechada, mudou para algo mais alegre.
Eu sabia que era uma expressão falsa, tinha algo o incomodando. Olhei para cima. O fantasma tinha uma forma humanoide, mas nenhuma característica.
Fantasmas eram como um manequim transparente que ficava flutuando ao redor da pessoa afetada enquanto suas mãos e braços se moviam pelo corpo da pessoa, abraçando-a.
Era perturbador.
— Eu estou bem, só com um pouco de sono... — O garoto meio gordinho falou, tentando manter o sorriso falso no rosto.
— Ei, Lucas, não perca tempo com esse nerdola! — Um garoto alto passou ao meu lado e passou o braço em volta dos meus ombros, me puxando para longe do bruninho.
Eu tentei resistir um pouco, mas quem fez aquilo era meu amigo Alexandre. Eu sabia por que ele estava fazendo isso: se enturmar com o Bruninho podia me colocar como um alvo, já que o Bruninho e alguns outros alunos eram alvos principais dos valentões da escola, pois eles nunca faziam nada para se defenderem.
Alexandre não queria que eu acabasse me tornando um alvo também.
Ainda assim, talvez eu pudesse fazer algo para livrar o Bruninho do fantasma que o estava assombrando.
Quando o fantasma ouviu que eu estava sendo puxado para longe pelo Alexandre, ele se contorceu, não de dor, mas de felicidade, como se tivesse sido tomado por uma onda de prazer pelo fato de saber que minha intenção era exorcizá-lo.
Isso me irritou profundamente, eu teria que fazer algo. O universo, tentando colocar ainda mais lenha na fogueira, fez com que o Bruninho esbarrasse sem querer justamente em dois garotos que eram o dobro do tamanho dele, mesmo todos nós sendo da mesma turma.
Os valentões começaram a xingar o garoto.
Meu sangue ferveu vendo aquilo, igual sempre acontecia antes, mas, diferente de todas as outras vezes, eu podia fazer algo agora. Eu tinha aprendido a lutar nessas últimas semanas, e esses garotos não seriam nada comparados aos bandidos que eu já tinha enfrentado.
Alexandre segurou meu braço.
— Não vale a pena. — Alexandre falou e, assim que ele disse aquilo, um alarme alto tocou, indicando que todos deveriam ir para suas salas o mais rápido possível, pois as primeiras aulas do ano estavam começando.