A aula estava completamente insuportável.
Eu não entendia nada do que o professor de matemática falava. Eu nunca conseguia me concentrar normalmente, mas com o fantasma estando na sala e rindo o tempo todo, tornava a situação enlouquecedora. Quanto mais o Bruninho se frustrava por não conseguir entender o conteúdo, mais o fantasma parecia se divertir.
O Bruninho era o nerd da turma, então, se nem ele estava conseguindo entender o que o professor estava passando no quadro, significava que a coisa estava feia mesmo. Mas também ele devia estar frustrado pelo que havia acontecido pouco antes das aulas começarem.
Ele foi insultado pelos valentões e até mesmo empurrado, eu acho que um deles deu até um chute nele. O garoto nem tinha percebido, mas parte das costas do uniforme dele estava suja com terra vinda do sapato imundo do valentão.
Balancei a cabeça tentando ignorar e até mesmo voltei meu olhar pela janela, olhando o céu azul sem nuvens alguma.
Mas não dava para ignorar.
A escola era um lugar verdadeiramente injusto.
Um monte de adolescentes que nem se gostam são forçados a conviver uns com os outros, obviamente isso daria conflito! A sociedade adulta já entra em conflito consigo mesma, e a escola é basicamente um tutorial para a vida adulta, então amontoar um monte de jovens que não sabem o que querem da vida tornaria o local um caos de brigas bobas.
E não era apenas na minha escola, todas as escolas em qualquer outra cidade, estado ou até mesmo país eram assim. Na antiga escola onde eu estudei o ensino fundamental era assim também.
Logo no primeiro ano do fundamental eu aprendi que na escola havia uma herarquia de três camadas, os valentões, os que não se destacavam e os esquisitos.
Eu sempre estive no meio dessa hierarquia, sendo um dos que não se destacavam. Eu tinha notas que estavam sempre na média. A minha aparência nunca chamou muita atenção. Eu nunca fiz nada esquisito que pudesse manchar minha reputação e, além disso, eu era amigo de infância do Alexandre.
Alexandre já era completamente diferente de mim. Ele era alto, ruivo, popular com todo mundo, praticava esportes e sempre teve um físico bom, e, mesmo tendo dificuldades em certas coisas, ele conseguia manter suas notas boas. Isso tudo o colocava no topo da hierarquia junto com os outros valentões, mesmo que ele nunca tenha feito nada estúpido com pessoas que estavam abaixo dele, a não ser que ele tenha sido provocado.
Só houve umas duas vezes em que eu vi ele entrar em confusão. Na primeira vez, foi com um outro valentão. Eles tiveram uma luta no meio do corredor e ambos levaram uma suspensão, no entanto o Alexandre foi considerado um herói pois ninguém gostava do outro cara pois ele ficava dando em cima de qualquer garota, mesmo as que já estavam em um relacionamento, já na segunda vez ninguém sabia direito o motivo, mas ele acabou atacando um garoto que era considerado como um nerdola e o garoto até mudou de escola no final.
Depois desse último incidente, eu nunca vi o Alexandre se envolvendo em mais nada, provavelmente porque, se ele acabasse sendo levado para a coordenação da escola, ele seria expulso.
O Bruninho era o nerdola, estando abaixo de todo mundo na hierarquia. E às vezes para você ser colocado abaixo de todo mundo na hierarquia podia acontecer pelo motivo mais estúpido possível: sua aparência, seus gostos, sua forma de agir.
Qualquer coisa que fugisse um pouco do padrão poderia te colocar na mira dos valentões, e isso transformaria sua vida num inferno, e ninguém se importaria ou faria algo para impedir.
Até mesmo eu nunca tinha feito nada até agora…
Eu só estava pensando em fazer algo, pois eu tinha habilidades sobrehumanas…
Provavelmente, se eu não tivesse, eu apenas fingiria que não era problema meu e seguiria em frente para não me colocar na mira de ninguém.
"Covarde!" Pensei comigo mesmo, e esse pensamento me irritou profundamente, pois era a mais pura verdade.
O sinal do intervalo tocou e, de um a um, os alunos começaram a se levantar de suas cadeiras para irem comer alguma coisa ou só para aproveitar o tempo livre. Eu me levantei também. O Alexandre já tinha saído. Nos 15 minutos livres, ele gostava de ir jogar futebol com os outros na quadra, e eu ouvi ele já fazendo aposta com alguns outros colegas de que ele iria ganhar a partida.
O Bruninho ficou na mesa dele e eu pensei em ir conversar com ele e falar que eu queria ajudar ele com qualquer problema que ele pudesse ter, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Liz se aproximou de mim. Eu tinha me distraído tanto com essa outra situação que eu acabei esquecendo dela e que eu tinha prometido ajudar.
— Lucas, eu descobri algumas coisas… — ela falou baixinho, parecendo olhar em volta, e então segurou minha mão e começou a me puxar para fora da sala.
Eu dei uma olhada rápida para o Bruninho antes de atravessar a porta.
O fantasma ainda estava em cima dele, parecendo ter ficado maior e mais pesado enquanto abraçava o garoto. Não sei se foi a minha imaginação, mas o fantasma deu uma piscadinha para mim, provavelmente para me provocar, tendo percebido que eu tinha o visto e era o único que poderia fazer alguma coisa, mesmo não sabendo como eu poderia ajudar.
O garoto ficou sozinho na sala de aula.
— Liz... O Bruninho...
— Eu sei. Tem um Sentimental assombrando ele. — A garota falou enquanto continuava me arrastando pelos corredores.
— Sentimental?
— É um tipo de espírito que se forma quando uma pessoa tem um sentimento intenso por tempo o suficiente. — Ela explicou sem parar de caminhar. — Ele já está com este sentimental desde o ano passado. Como líder de turma, eu tentei ajudar ele, mas eu não posso ajudar diretamente. Ele mesmo teria que lidar com seus próprios sentimentos.
Eu caminhei tentando manter o ritmo dos passos dela, mas ela estava sendo bastante rápida e basicamente me puxou para cima das escadas até o terceiro andar, onde ficava a biblioteca. Mas meu pensamento ainda estava em como ajudar ele.
Ter ouvido que esse fantasma tinha surgido por conta de sentimentos fortes me fez perceber que talvez eu pudesse assustar os valentões que viviam implicando com ele e assim ele voltaria a se sentir melhor.
A verdade é que eu não sabia exatamente o que o Bruninho estava sentindo, e mesmo que eu soubesse, eu acho que as coisas ainda aconteceriam de forma ruim como aconteceu.
Entrei na biblioteca, junto da Liz.
Ela me explicou um pouco sobre as descobertas que ela tinha feito em relação aos livros mágicos e sobre qual o Orion poderia estar procurando. Enquanto isso, o Bruninho estava na sala de aula.
Todo mundo tinha saído e esquecido de ele, o garoto estava sozinho... Não, ele tinha uma companhia, mas era o pior tipo possível.
O fantasma estava o tempo todo falando no ouvido dele.
— Todos te odeiam. Eles estão lá fora falando mal de você pelas costas! — O Sentimental ficou falando aquelas coisas no ouvido do garoto. Apenas ele podia ouvir o que fazia com que essa voz se misturasse muitas vezes com os próprios pensamentos dele.
— Todos eles acham que você é nojento, um porco imundo.
Aquilo não era tudo.
O Sentimental também fazia o garoto se sentir desconfortável, apertando e puxando seu cabelo como se alguém estivesse fazendo isso, mesmo que o garoto estivesse sozinho. Isso o estava tornando cada vez mais paranoico.
Um suor frio escorreu pela testa dele.
O garoto odiava ficar sozinho, e quando estava com outras pessoas daquela escola, ele também entrava em pânico.
Ele tentou ignorar por alguns minutos, mas depois de um tempo ele se levantou e decidiu ir beber agua para ver se isso poderia o acalmar nem que fosse só um pouco, ele abriu a porta da sala desesperadamente e tentou chegar o mais rapido até o bebedouro, por conta da sua pressa ele não prestou muita atenção e quando ele se virou ele esbarro diretamente com um grupo de garotos mais alto do que ele.
— Olha por onde anda seu merdinha! — Um dos valentões falou achando que quem tinha esbarrado nele era um dos calouros por ser mais baixo que ele.
No entanto, ao perceber que era o Bruninho, o garoto alto abriu um sorriso.
— Na real, eu tava te procurando mesmo. Eu esqueci em casa meu dinheiro pra comprar um lanche. Você vai me emprestar um pouco. — A voz dele era cheia de deboche, deixando óbvio que ele estava mentindo e só queria humilhar e roubar o garoto.
Os olhos do Bruninho se arregalaram ao ouvir aquilo. No ano passado, isso acontecia quase todo dia. Ele sempre precisava pagar pelo lanche desses caras e sempre ficava sem dinheiro para nada, e a única vez que ele reclamou acabou levando um soco no estômago e sendo chamado de baleia por ser gordo e "não querer dividir".
Pensar sobre os abusos que ele já tinha sofrido no ano passado mais o medo do que iria acontecer naquele momento e o que estava por vir fez com que o Sentimental começasse a rir, uma risada que ecoou pela escola inteira e que apenas três pessoas foram capazes de ouvir.
Uma risada tão malvada e nojenta que fez eu querer arrancar meus ouvidos, então eu nem sei o medo e desespero no qual o garoto estava passando naquele momento. Eu simplesmente corri para fora da biblioteca, ignorando a explicação que Liz estava me dando e percebendo que algo estava errado. Ela me acompanhou.
Quando chegamos até a origem da risada, eu pude ver o Bruninho no chão. Ele tinha levado um soco e, agora jogado no chão, ele estava prestes a levar um chute. O valentão apenas parou quando ouviu nossos passos se aproximar e um dos seus parceiros disse que quem estava vindo era uma das líderes de turma.
— Por que você não briga com alguém do seu tamanho? — Falei sem pensar, estando pronto para socar aquele garoto.
Liz me segurou, impedindo que as coisas ficassem mais feias.
O valentão apenas deu uma risada olhando para mim. Ele era definitivamente mais alto, mas eu já tinha lutado contra adultos nas semanas passadas. Enfrentá-lo não seria problema algum!
— Ele começou primeiro esbarrando em mim e me mandando calar a boca. — O valentão falou e então cuspiu na cara do Bruninho, que ainda estava no chão se estremecendo de dor por causa do soco. E dessa vez ele não estava mentindo, o Bruninho tinha gritado para calarem a boca, mas o que ele queria silenciar era a risada do fantasma e não os valentões.
Ele nem tinha percebido o que fez até ter levado o soco na cara e ter caído no chão.
— Não importa quem começou.
Liz tomou o controle da situação com seu olhar afiado. Eles eram alunos de outra turma, mas ela tinha poder sobre eles. Se ela fizesse uma denúncia, eles poderiam ter sido suspensos.
Então, ela disse que fingiria que aquilo nunca aconteceu, mas que eles precisariam ajudar ela a levar o Bruninho até a enfermaria, pois o nariz dele estava sangrando e provavelmente tinha sido dislocado por causa do soco. Eu ainda acho que deveríamos ter feito algo a mais, e eu poderia ter ensinado esses caras a não mexerem com mais ninguém.
O Bruninho também parecia estar pensando igual a mim, pois o olhar dele era de puro ódio. Eu conseguia sentir uma furia crescendo nele.