“Eles te odeiam.”
“Você é menos do que um inseto para eles.”
“O Lucas apenas te ajudou para impressionar a Liz! Você viu quando os dois saíram da sala de mãos dadas? Ele tem um romance com ela e só faz coisas para parecer melhor para ela!”
“Felando da Liz. Ela deveria trazer justiça para todos os indefesosa fez um acordo com aqueles demônios!”
“Ninguém ajudaria um porco imundo igual a você!”
Aquela voz do Sentimental estava constantemente na cabeça do Bruninho. De tempos em tempos, eu olhava para ele durante a aula e podia ver que a assombração estava sussurrando no ouvido dele, e a expressão de ódio em seu rosto não havia mudado.
A unica coisa de diferente é que em seu nariz agora estava um curativo, e alguns dos outros colegas de turma tinham feito alguns comentários e piadinhas maldosas sobre ele ter se machucado sozinho.
A atmosfera da aula estava pesada, mas a maioria das pessoas naquele lugar não conseguia sentir isso, e a professora de história simplesmente continuou falando sobre o conteúdo.
Liz também conseguia sentir que o Bruninho estava diferente de antes, e agora o Sentimental era mais visível e poderoso. O garoto percebeu que eu estava o observando e eu senti como se uma pressão absurda tivesse sido colocada sobre mim.
Ele estava com ódio de mim, pois eu não tinha ajudado o suficiente antes? Mas eu tinha mandado aqueles valentões parar. O mesmo olhar de ódio dele caiu sobre a Liz. Era porque ela não entregou os valentões para o diretor?
Mesmo que ela tivesse entregado eles, o máximo que aconteceria era eles levarem uma advertência ou suspensão e depois, quando ele voltasse, tornaria tudo pior para ele, pois o considerariam como culpado, mesmo eles tendo trazido aquilo para si mesmos…
Mas vendo pelo lado do Bruninho, eu entendia por que ele ficaria frustrado e irritado com nós dois. Afinal, não precisávamos passar pelo que ele passava todos os dias. O fato da Liz ser líder de turma a tornava intocável para qualquer um, e eu era apenas mais um dos que se mantiveram quietos por anos.
— Eles são tão ruins quanto aqueles demônios que sempre te fazem sofrer. — O Sentimental sussurrou no ouvido do Bruninho.
O garoto apertou a caneta dele com força no caderno e a puxou, rasgando a folha onde ele estava escrevendo.
Ninguém pareceu perceber isso.
— Eles são tão culpados quanto os demônios...
— Eles merecem pagar. — Dessa vez quem falou foi o próprio Bruninho, sua voz saiu quase como um sussurro, baixo o suficiente para apenas o Sentimental conseguir ouvir.
— Sim! — O Sentimental falou com um sorriso. Aquela coisa terrível nem conseguia esconder que tava tentando segurar suas risadas.
— Volte seu ódio para eles! — O Sentimental disse finalmente em um tom alto o suficiente para que eu e a Liz pudessemos ouvir.
Mesmo estando no meio da aula e a professora mandando para todos prestarem atenção no quadro e para o que ela estava escrevendo nele.
Eu e a Liz viramos nossa atenção para o Bruninho e o fantasma.
O que o Sentimental disse foi quase que uma ordem para o garoto, pois ele acenou com a cabeça e então se levantou.
O que aconteceu em seguida foi rápido demais para eu entender enquanto acontecia.
Foi só um instante e então eu estava no chão, minhas costas tinham doído por um momento, e meu rosto estava doendo como se uma pedra tivesse sido jogada em mim.
Ao abrir meus olhos, eu percebi que eu estava no lado de fora, podendo ver o céu alaranjado da tarde e o buraco na parede e janela pelo qual eu fui jogado, e, parado logo entre o buraco, estava o Bruninho olhando para mim…
Ele parecia um monstro principalmente quando deu um grito que soou como um rugido e se voltou para dentro da sala de aula. Enquanto eu estava me levantando, ouvi os gritos dos meus outros colegas de turma.
"Ele enlouqueceu!" Eu ouvi uma garota gritando quando eu pulei pelo buraco novamente para dentro da sala de aula, o lugar tinha virado uma confusão então ninguém nem notou o que tava acontecendo. O Bruninho estava atacando qualquer um enquanto gritavam que era culpa de todos.
O Alexandre tentou parar ele de atacar mais alguém, porém o Bruninho apenas segurou ele com força torcendo seu braço.
— É tudo culpa de pessoas como você!!! — O Bruninho rugiu aquilo com uma fúria enquanto empurrava o Alexandre para o chão.
Alexandre tentou se soltar e isso quase fez com que seu braço fosse deslocado do ombro.
— Bruninho! — Falei correndo até ele e o segurando pelo seu uniforme e o empurrei para o lado, fazendo-o cair, para que ele não ferisse o Alexandre ainda mais. Isso deu a oportunidade para o Alexandre se levantar e se afastar.
No entanto, o Sentimental, que parecia estar o controlando, me atingiu com um soco, me jogando novamente contra a parede a raxando e quebrando outra janela. Aqueles socos estavam doendo como se eu tivesse sido atingido por um caminhão.
Se ele atingisse qualquer outra pessoa com aquela força e furia, provavelmente ela morreria.
— Meu nome é Bruno, não essa merda de Bruninho! — Ele gritou com ódio daquele apelido, todos chamavam ele assim então eu nunca questionei se isso o incomodava.
— Saiam daqui! — Liz falou junto da professora pedindo para que todos os alunos se afastassem para que não fossem feridos também.
Assim que todos estavam do lado de fora, a Liz pegou da mochila dela o seu livro de feitiços.
— Morra, Lucas! — O Bruno gritou, tentando me atingir com um soco. Dessa vez que eu vi o golpe dele se aproximando, eu consegui desviar e revidar com um chute entre as pernas dele.
Mesmo o garoto estando recebendo um buff por conta da sua furia, mais a vantagem de estar sendo assombrado por um Sentimental que o deixava com habilidades sobrenaturais, um chute bem dado entre as pernas pararia qualquer garoto.
O Sentimental começou a rir do Bruno, que estava de joelhos no chão e tinha levado suas mãos até a virilha quando respirava fundo, tentando fazer a dor parar.
— Patético! Até com o meu poder, você é fraco! — A assombração falou rindo dele. — Não se preocupe, eu vou me livrar desses dois e então você pode ir ter sua vingança!
O Sentimental se virou para mim lentamente, ainda rindo, como se aquilo tudo fosse apenas um espetáculo divertido demais para ser interrompido. Minha cabeça bateu na parede com força, minha visão ficou turva por um instante, e um gosto metálico tomou minha boca.
Eu tentei acertar um soco naquela coisa, mas meu braço atravessou o corpo dele como se fosse fumaça. Em resposta, senti um impacto violento no estômago, forte o suficiente para me tirar do chão. Fui arremessado contra as carteiras, que se quebraram ao meu redor.
— Não adianta! Apenas magia pode atingir o Sentimental. — Liz falou folheando o livro rapidamente enquanto também prestava atenção na situação.
— Você acha mesmo que é diferente deles? — O Sentimental sussurrou, surgindo bem à minha frente.
— Você viu tudo por anos… e não fez nada. — Dessa vez foi o Bruno que falou, ele já tinha se recuperado e agora estava indo na direção de Liz. — Eu achei que você poderia ter feito algo..... NÃO, VOCÊ TINHA QUE TER FEITO ALGO!
Liz engoliu em seco.
Era verdade: como líder de turma, ela deveria ter feito algo, e eu, como um colega de classe, também poderia ter tentado ajudar de alguma forma.
— Eu tentei! — Liz disse, irritada por estar sendo culpada, finalmente parecendo ter encontrado um feitiço.
Liz rapidamente leu as palavras que estavam escritas na pagina aberta.
O chão tremeu.
Símbolos começaram a se formar ao redor dos pés de Bruno, o piso escuro da sala se partiu em alguns pequenos buracos onde as runas mágicas estavam. Antes que ele pudesse dar mais um passo, correntes de energia surgiram se enrolando por ele e então partindo até o Sentimental que estava próximo.
O Sentimental tentou escapar, mas, mesmo sem as correntes, o Sentimental estava ligado ao Bruno e não poderia fugir para muito longe. As correntes se enrolaram no sentimental e começaram a ser puxadas até o garoto.
— Eu tentei! Mas eu não posso fazer nada se você não consegue controlar seus sentimentos! — Liz gritou e intensificou a sua magia sobre as correntes, fazendo com que elas se enrolassem mais ainda no Bruno e no Sentimental, fazendo com que ambos fossem puxados um ao outro.
— MENTIRA! — O garoto começou a fazer força, conseguindo empurrar as correntes que começaram a falhar em algumas partes.
Ele era forte, e qualquer coisa que nós falávamos para ele apenas o irritava mais, fazendo com que o Sentimental se tornasse mais forte e, por consequência, o Bruno também estava ficando mais forte ainda.
Segurei a corrente a puxar tentando fazer o máximo e puxar para que ele não escapasse, novamente a Liz começou a folhear o livro buscando por outro feitiço.
— Bruno, eu sei que a gente não fez nada.... Eu quero pedir desculpa por causa disso. — Falei de forma honesta, mesmo enquanto puxava a corrente que estava apertando o corpo dele e o maxucando, se eu deixasse ele escapar ele iria acabar causando mais destruição e aquela furia incontrolável poderia matar alguém.
E pela forma como ele estava suando e agindo, o coração dele não iria aguentar por muito tempo.
Ele era apenas um adolescente normal, toda aquela energia sobrenatural do Sentimental era extrema de mais.
— Você acha que uma desculpa vai resolver mesmo!? — Ainda tomado pela raiva contra nós dois, o Bruno usou todas as suas forças e conseguiu arrebentar as correntes que o prendiam.
Estando livre, ele partiu na direção da Liz. Ela tentou escapar, porém ele foi muito mais rápido e a atingiu, fazendo com que ela passasse por cima de umas mesas e caísse no chão, batendo a cabeça com força.
— Liz! — Corri até ela. Ela estava desacordada, mas ainda respirando.
Bruno olhou com desgosto para mim, que estava abaixado ao lado de Liz.
— Você só se importa com ela porque ela é a única garota que te deu atenção, mas quando eu estava no chão ninguém nunca me ajudou! — Ele pressionou os punhos com força. — Quando ela tentou me "ajudar" ela ficou falando que eu tinha que aprender a controlar meus sentimentos e essas merdas!
Ele bateu a mão em uma das mesas, fazendo com que ela se partisse ao meio.
— TUDO QUE EU FIZ FOI CONTROLAR MEUS SENTIMENTOS E ISSO SÓ FEZ COM QUE EU SOFRESSE MAIS AINDA!
Ele ainda estava pressionando seus punhos com tanta força que suas unhas se afundaram na palma da sua mão; o sangue começou a escorrer lentamente, pingando no chão.
— E por causa disso você quer descontar tudo o que você passou em quem nunca esteve diretamente envolvido no seu sofrimento!? — Me levantei, meus olhos estavam focados diretamente nele.
Eu não sei se ódio era o que eu sentia… Não inteiramente, eu estava só incomodado pela forma como ele estava pensando.
— Ninguém fez nada, e por causa disso são todos tão culpados quanto os valentões!
— Então você também é culpado pela sua própria situação! — Dei um passo para frente.
Ter falado aquilo não era uma boa. Eu estava só colocando mais gasolina num incêndio que já estava muito mais intenso do que deveria.
— Você tentou enfrentar os valentões em algum momento!? Não, né? Agora nesse exato momento você tem força para lutar, mas você decidiu atacar a mim e a Liz primeiro!
— Eu.... Eu vou ir atrás deles assim que eu derrotar você!
— Vai porra nenhuma! — Falei, me movendo rapidamente até ele, assim como ele tinha feito comigo há alguns momentos, eu dei um soco nele. Meu punho brilhou em um azul intenso.
Eu senti como se estivesse socando uma parede de aço, mas eu não desisti e continuei pressionando meu punho contra ele até o fazer ser arrastado para trás. O priso embaixo dele trincou e deixou um rastro conforme ele foi empurrado para trás.
— Fraco! — Ele gritou passando a mão no rosto, não tinha o ferido. Mas esse não era um problema; eu não queria machucá-lo de verdade.
— Igual a você! — Falei, os golpes que ele tinha acertado em mim doiam, mas não tinha ferimento algum em meu corpo. — Eu não te ajudei antes, e eu não sei como te ajudar, mas eu também não posso deixar você ferir quem é inocente!
Avancei até ele mais uma vez, dando um soco nele que ele aguentou sem se defender e revidou com um outro soco. A cada soco que eu dava, ele rebatia com outro. Mas eu percebi que ele estava ficando cada vez mais fraco, mais cansado.
Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha redonda do Bruno.
Ele estava cansado, desesperado, e nós estávamos lutando um com o outro sem entender verdadeiramente o motivo um do outro.
Foi isso que me fez perceber o erro que Liz tinha cometido ao tentar ajudar ele.
— Me acerta o mais forte que você conseguir! — Falei parando meus golpes.
Isso surpreendeu o Bruno. O garoto moveu o punho, mas parou um pouco antes de me atingir, apenas alguns centimetros do meu rosto.
— Apenas faça! — Gritei.
Quando a Liz tentou ajudar o Bruno ela tinha falado que ele deveria controlar as emoções dele. O que aconteceu é que o garoto não controlou nenhuma de suas emoções. Ele apenas as suprimiu, escondeu dentro de si todo esse ódio e raiva, e, em troca, ele estava apenas sentindo pena de si mesmo e medo.
Ele nunca colocou o ódio para fora, e em vez disso ele começou a odiar a si mesmo.
Esse ódio próprio criou o Sentimental que o estava assombrando.
— Nada do que aconteceu é sua culpa... E eu sei que você sente ódio de tudo e de todos, mas se você acabar machucando ou matando qualquer outra pessoa, você vai destruir sua vida permanentemente. — Falei, me preparando para levar o golpe dele.
— Você viu que eu aguentei todos os golpes, então você pode me atingir com toda sua fúria!
Outra lágrima escorreu pelos olhos dele, e então outra e mais uma…
Eu não sabia se aquilo ajudaria verdadeiramente ou não, mas eu entendia que se você segurasse seus sentimentos de verdade por tempo de mais isso poderia te destruir internamente, então mesmo que um soco dele doesse pra porra eu era o unico que poderia aguentar.
— Tá. — O Bruno falou. — Mas eu não quero me sentir igual a um covarde, igual àqueles caras que atacam pessoas indefesas, então eu quero que você lute também! — Ele limpou o rosto de suas lágrimas.
Eu concordei com ele.
— Certo.
Não sei quanto tempo a luta durou, mas quando acabou nós dois estávamos caídos no chão dando algumas risadas sem conseguir lutar mais.