Capítulo 2
O começo foi traumatizante.
Tentativas de abusos e o fato de não entender o que diziam eram uma dificuldade constante. A isso somavam-se as dificuldades de sua nova forma: sangramentos mensais e as dores e desconfortos abdominais que vinham junto.
Tudo foi um inferno. Um inferno que nunca acabava, pois no dia seguinte ele ainda estava vivo.
Ainda se lembrava de suas maldições. Enquanto a que afastava os outros era muito boa, a maldição da fala era péssima, pois não conseguia entender e aprender nada.
Nunca mais viu sua janela de status, exceto quando alguém vinha verificar alguma coisa.
A queimadura que fizeram em sua nuca nunca parou de sangrar. Não sangrava muito, mas sempre um pouco. Era extremamente inconveniente toda vez que lembrava da sensação do sangue escorrendo pelas costas.
Seria mentira dizer que não tentou se matar, mas a marca queimada em sua carne não o deixava continuar.
Seu ódio pelas deusas só vinha quando as adversidades se acalmavam, adversidades essas que elas mesmas haviam imposto. Era irônico: na cabeça dele, deveria odiá-las o tempo todo.
De vez em quando, soldados o mandavam curar alguém ferido. Eram as únicas vezes em que podia usar magia.
Magia. Era inacreditável demais. Tudo aquilo era inacreditável demais, o que o ajudava a não lembrar tanto delas.
Com o tempo, as pessoas foram se afastando. Só vinham buscar as pedras que ele retirava da pedreira, de tempos em tempos.
Quando começou a trabalhar, mal conseguia erguer a marreta ou sequer uma picareta. Agora as manejava com maestria, mas tinha total consciência de que o que melhorara era a habilidade, não a força.
O trabalho era árduo, mas fácil. Para alguém que andava quilômetros em busca de um banho ou um prato de comida, aquilo era uma verdadeira pechincha.
No início, era mandado para pedreiras iluminadas por grandes cristais brilhantes; nem tochas usavam para iluminar a caverna. Porém, quase todas as vezes em que retirava os cristais, eles perdiam a luz. Isso lhe rendeu muitos dos espancamentos que sofrera desde que chegara ali.
Quando viram que nada resolvia, mandaram-no para esta pedreira, a que ele literalmente vivia. Já faziam alguns anos, ele só não sabia quantos.
Esta pedreira possuía pouquíssimos cristais. A maioria estava quase apagada, e as que ainda brilhavam se apagavam assim que ele as tocava.
Mandava diversos carrinhos lotados daquelas pedras todos os dias. Às vezes, só às vezes, um carrinho contendo pão, queijo e água descia o trilho abaixo.
De todas as dificuldades sofridas até então, a maior agonia era a incerteza de quando a última maldição finalmente faria efeito. Não seria ruim morrer, afinal. Mesmo nenhum ser vivo querendo isso. E essa incerteza era esmagadora.
O velho de orelhas pontudas era sempre chamado para dar-lhe ordens. A marca o obrigava a obedecer, não importava sua vontade. Porém, fazia anos que não o via. A última ordem fora: limpar, minerar e aumentar os túneis deste lado da pedreira. Desde então, sua vida continuara exatamente assim.
Anos, não dezenas de anos, se passaram.
Soldados envelheceram e morreram. Filhos de soldados galgaram postos mais altos. E a figura mítica da mulher dos túneis ficou conhecida por todos que trabalhavam ali.
Com o tempo, foi esquecendo até das maldições e do motivo de estar ali.
Um belo dia, ou talvez uma bela noite, já que não via o céu havia muito tempo, um barulho estranho chamou sua atenção. Começou com um grande estrondo, mas logo barulhos menores se juntaram numa grande bagunça: gritos e explosões.
Antônio se aproximou de uma saída do túnel em que trabalhava; ela dava uma vista parcial da pedreira do lado oposto. O que viu o deixou boquiaberto, embora tudo ali já fosse o cúmulo do absurdo para uma pessoa comum da Terra, como lagartos enormes usados como montaria e puxadores de carga. Mas aquilo era diferente.
Monstros de diversas formas se espalhavam pela pedreira, perseguindo tudo que se movesse. Um guarda foi levantado pelas pernas por um monstro-polvo que o jogou para cima antes de engoli-lo inteiro. Monstros em forma de aves faziam rasantes, levando guardas ou arrancando suas cabeças. Era um verdadeiro caos nojento.
Antônio, ainda perplexo, não conseguia tomar nenhuma ação. Quando finalmente conseguiu, já era tarde: um monstro o havia visto. Era um cachorro gigante na frente e uma cobra do meio para trás. Parecia um basilisco sem as patas de trás.
Antônio não perdeu tempo examinando a criatura. Pôs-se a correr. Conhecia bem o local. Conseguiu ludibriar a criatura por algum tempo. Nunca correra tanto em sua vida, nem na outra.
Tentou pensar em alguma saída, mas era quase impossível. Lá fora havia muito mais monstros. Aqui dentro, não demoraria para o cachorro-serpente pegá-lo. Era horroroso como o bicho era rápido.
Lembrou-se de um rio que banhava uma junção de túneis à frente. Imaginou que, se descesse por ele, pelo menos se livraria dos monstros terrestres. Tomou cuidado para não fazer barulho.
Mas logo seus passos silenciosos viraram uma corrida alucinada e barulhenta. O medo tomara sua mente. Os pulmões pareciam que iam sair pela boca. O suor ardia nos olhos. O caminho, relativamente curto, tornou-se uma viagem sem fim.
Em dado momento, ouviu o monstro o perseguir. Não olhou para trás. Olhou apenas para o objetivo à frente.
Logo pôde ver a pequena cachoeira e o rio que seguia adiante. Pulou na água e nadou em desespero, seguindo a corrente. Sentiu as costas arderem; achou que talvez tivesse sido ferido, mas continuou nadando. Na verdade, era sua marca de escravidão sangrando novamente.
De repente, a corrente ficou mais forte. Tão forte que seu corpo foi puxado com violência. Quando subiu para respirar, viu a cachoeira.
O monstro ainda estava em seu encalço. Mas antes de pegá-lo, Antônio caiu. Não sabia a altura, mas pelo menos não morreria dilacerado por um cachorro meio cobra. Fez questão de mostrar o dedo do meio para o monstro enquanto este latia, desanimado por perder a presa.
Achou-se muito descolado por fazer isso. Até reconfortado.
Mas um dos bichos voadores o pegou das águas. Suas garras o furaram em diversos lugares. A dor era excruciante. Tentou se livrar dando socos e até mordidas nas patas da criatura, mas a galinha voadora não o soltava.
Um bicho voador maior apareceu. Antônio não viu nada além de sua sombra, e sentiu o solavanco do ataque. O maior matou a galinha gigante em pleno ar, soltando-o aos poucos. Não sabia se o sangue que lavava seu corpo era dele ou do monstro que quase o comeu.
Caindo entre as árvores, bateu mais de uma vez entre galhos e pedras. Seu corpo estava tão dolorido que desejou ter morrido.
Então, uma voz doce tocou seus ouvidos. Tinha uma tonalidade suave, quase divina.
— Olá, sobrevivente! Posso ajudá-la? Aproxime-se da água para que eu cure suas feridas. Você quer viver, não quer? Venha até mim, que abrandarei sua dor.
Antônio se levantou sobre a perna direita; a esquerda estava tão torta que nem parecia mais uma perna. Não se importou. Neste mundo existiam deuses. Se aquele deus podia curá-lo, precisava chegar à água custasse o que custasse.
No trajeto, caiu. A dor era grande demais. A partir daí, se arrastou até a beira do rio. A água estava forte. Devia haver uma cachoeira bem perto.
— Que bom que você chegou. Agora posso acabar com sua dor!
Um potro branco de olhos verdes e fantasmagóricos andava calmamente sobre as águas. Na visão de Antônio, poderia ser um deus.
O potro aproximou o focinho e o mordeu no ombro, puxando-o ferozmente para a água. Entre uma puxada e outra, relinchava de alegria por ter conseguido uma presa. Quando finalmente caiu na água, o pequeno potro começou a puxá-lo cada vez mais fundo.
A voz não era de um deus que o salvaria. Era de um monstro que acabara de enganar.
Antônio se xingou por ser tão burro.
A força da correnteza era maior que a puxada do monstro, que começava a ter dificuldades. Antônio não fazia mais força para fugir; seu corpo não obedecia. Decidiu focar em segurar a respiração o máximo que pudesse.
Até isso lhe parecia impossível.
Os dois foram puxados correnteza abaixo até uma cachoeira próxima. Antônio conseguiu subir quando, por desespero, o potro o soltou. Encher os pulmões de ar foi divino. Mas ver o abismo em que cairia era assustador.
Ironicamente, o potro caiu primeiro. O olhar de medo que fez foi reconfortante para Antônio, que cairia momentos depois.
Já era noite quando acordou ao som de uma voz velha. Tom rude e sem paciência, típico de quem tem muita idade.
Antônio abriu o olho. Só esse ato já o fazia gemer de dor.
— Ah, aí sim, ainda está vivo! Já não bastava um corpo de kelpie, um corpo humano ia ficar em decomposição por aqui. Seria muito desagradável, para dizer o mínimo.
Antônio não entendia o que lhe diziam, não por desconhecer a língua, mas por estar em uma situação tão ruim que não conseguia pensar em nada. Nem sabia de onde vinha a voz. Talvez outro monstro desgraçado.
Incrivelmente, conseguiu ficar de pé.
— Você parece estar bem mal, não é? Apesar de tudo, teve muita sorte. Se fosse um kelpie adulto, não teria a menor chance. Bom, mas aproxime-se de mim. Assim consigo ver seus status.
— Mas de onde? É outro monstro?
— Ora, não seja idiota. Está me comparando com um kelpie? Estou bem na sua frente. Além disso, se continuar sangrando assim, vai morrer de qualquer jeito.
Uma gigantesca pedra estava colocada em frente à cachoeira. Estava colocada, pois não combinava com as outras pedras da cachoeira. Antônio ficou receoso. A pedra em si era normal, mas, como tudo neste mundo, seu formato oval era peculiar; algumas letras haviam sido entalhadas nela.
— Pode mesmo me ajudar?
— Aff, aproxime-se mais. Assim vejo o que posso fazer. Venha logo, ou pelo menos morra longe daqui, por favor.
Como ela estava em meio às águas do rio, foi extremamente difícil se aproximar com o corpo em estado tão lastimável.
Ao finalmente chegar perto da pedra, ela disse:
— Mostre tela de status!
A tela que Antônio não via há muito tempo se abriu diante dele.
— Hum… deixa eu ver. Classe Curandeira Amaldiçoada de rank F? Você nem deveria estar numa floresta dessas. Bom, que seja… maldições… ui, você deve ter deixado as três bem bravas!
A pedra começou a rir.
— Tem muitas coisas interessantes nos seus status. Bom, você é uma Curandeira, não é? Não posso tirar sua maldição de escravidão, mas posso enfraquecê-la. É tudo que consigo fazer no meu estado atual. Não é muito, mas pelo menos você vai poder se curar.
— Por favor… se puder, eu lhe agradeço muito!
Antônio se ajoelharia em gratidão se conseguisse.
— Vai doer um pouco. Tenho que cortar a marca que lhe fizeram.
Uma nova dor caiu sobre Antônio. Sua nuca doeu muito.
Mas ele não esperou nada acontecer. Disse:
— Toque da cura!
Colocou a mão no peito e sentiu a dor se esvaindo pouco a pouco. Luz dourada emanou de seu corpo. Sinais de positivo saíam e sumiam no ar. Era estranho, quantas vezes usasse aquilo. Parecia um jogo!
Mas era impossível um jogo ser tão cruel assim. Antônio refletia sobre isso enquanto o feitiço ainda fazia efeito.
Teve de repetir o comando diversas vezes; o corpo estava muito danificado para a magia de cura que possuía no momento. Era a única que tinha.
Por ironia ou não, a última ferida aberta era a maldita marca feita a ferro e fogo em sua nuca.
— Toque da cura!
— Toque da cura!
— Toque da cura!
Repetiu o feitiço diversas vezes, como se não aceitasse a realidade. A maga na pedra sabia que era impossível tirar uma maldição com magia de cura, mas o deixou tentar até a mana acabar.
O que ainda não acontecera, por alguma razão desconhecida. Isso começou a intrigar a maga, que não teve tempo de verificar o status da bela menina à sua frente.
Lá pela centésima tentativa, um círculo mágico negro se quebrou na nuca da garota. Uma grande quantidade de mana se espalhou pelo local.
A pedra ficou espantada com a quantidade de mana que aquela garota emitia. Era inacreditável que alguém no nível 1 tivesse tanto poder. Começou a imaginar que as deusas a haviam amaldiçoado por medo do que ela poderia se tornar.
Além disso, aquela pessoa acabara de quebrar uma maldição usando uma mera magia de cura, algo impensável para alguém com seu nível de estudo. Se não tivesse visto com os próprios olhos, não acreditaria.
— Como? Como você fez isso?
— No meu mundo, as maldições são curadas quando alguém pede a cura com muita fé ao seu Deus. Imaginei que aqui fosse a mesma coisa.
A maga já ouvira falar disso na época de estudante: heróis invocados de outros mundos, seres que conseguiam usar o sistema de forma diferente. Suas crenças moldavam a realidade, de certa forma.
Após finalmente quebrar a maldição, centenas de telas de notificações abriram de uma só vez. Eram de formatos e cores diferentes.
Antônio ficou sem saber o que fazer.
— O que eu faço? — perguntou ele à pedra.
— Bom, as telas vermelhas são desvantagens, maldições e debuffs. As azuis são mudanças ou ganhos de status. As verdes são habilidades. As douradas, apesar de você não ter nenhuma, são ganho de nível. E por aí vai.
Antônio ouvia, mas não entendia nada. Debu o quê? Tudo era novidade.
— Pode me explicar?
A pedra pareceu recolher o ar ao redor de tanta insatisfação.
— Ah, poxa vida… não te explicaram nada quando você veio pra cá?
— Não. Apenas me prenderam e mandaram recolher pedras brilhantes.
Foi bem resumido o que Antônio contou, mas, em suma, era exatamente isso que acontecera.
— Entendi. Bom, então é melhor se sentar. Vai ser uma conversa bem longa.
O silêncio da cachoeira preencheu o ar por alguns segundos.
Pela primeira vez em anos, Antônio sentiu o peso da coleira sumir. Não era só a marca na nuca; era como se uma corda invisível que prendia sua alma tivesse sido cortada.
A pedra pareceu hesitar, como se estivesse sorrindo sem boca.