Capítulo 4
O cajado improvisado
Yonara contemplava uma gota de orvalho que escorria elegantemente pela folha de uma árvore que nunca vira em sua vida anterior.
Parecia uma samambaia crescendo sobre um tronco forte; flores negras adornavam seus galhos, e frutos claros como ovos de galinha pendiam entre as folhas.
Desviou o olhar da árvore após se distrair por um momento da verificação em seus status.
Já estava vestida com peles de lobo selvagem como calças e a pele branca de kelpie, que morreu na queda junto com ela, cobrindo a parte superior do corpo.
O lobo foi uma história à parte. Ainda segurava a risada ao lembrar como tudo o que aconteceu. Nem sabia quantos dias se passaram desde então.
Como nunca caçou em sua vida anterior, teve dificuldades para encontrar presas.
Mas, depois de aprender a controlar sua mana, animais começaram a se aproximar… para caçá-la.
Um deles foi um lobo atroz que a atacou de surpresa.
No susto, Yonara pegou a pedra que continha Eirwen e a arremessou no bicho.
Resultado: a pedra xingou-a por dias e ela ganhou a habilidade Lançamento de Pedra 1/22.
Manter a mana sob controle foi difícil, principalmente no começo.
Era estranho controlar algo que não existia no mundo anterior. A mana não era palpável; Yonara a interpretara como uma condição do novo corpo, não como algo extraordinário.
Mas, as longas horas de meditação deram frutos.
Eyrwen a elogiou muito por isso:
— Você tem mana suficiente para ser considerada arquimaga. Esconder isso será vital pro seu futuro.
Aprender a usar a contraparte de seu toque de cura, o Toque da Ruína, magia que causa 20% de dano ao alvo.
Útil, mas perigosa: para usá-la precisa tocar o inimigo cinco a seis vezes para matá-lo. Para uma curandeira, isso é quase suicídio.
Eyrwen sugeriu criar um cajado com itens da floresta.
Yonara duvidou que ela conseguiria criar alguma coisa até ver a pequena pedra falante transformar peles em roupas mágicas diante de seus olhos.
Depois de checar os status e ver que ainda faltava muito para o nível 2, Yonara ajeitou as peles que cobriam o corpo e se levantou.
Eirwen flutuou até seu ombro e se deixou cair ali, arrepiando-a com o toque frio.
— Pra que lado vamos? Perguntou Yonara decepcionada com os números que ainda faltavam para o nível 2.
— Acho que vi uma bétula negra crescendo morro acima anos atrás. Se estiver crescida o bastante, será perfeita. Pegue também algumas pedras de seiva desta árvore aqui; se não houver nada melhor, usarei para o núcleo do cajado.
Yonara não entendeu tudo, mas um cajado significava não precisar mais tocar no inimigo, e, portanto, não precisar se curar toda hora por que levou um golpe.
Quando começou a subir o morro, avistou um monstro enorme: uma aranha que parecia ter engolido um elefante.
— Acho melhor evitar isso! Gritou a pedra no seu ouvido.
— Ah, você acha? Eu tenho é, certeza!
— Está vendo a barra de vida dele?
— Aquela tarja vermelha em cima da cabeça? Vi, sim. O nome está vermelho… isso é ruim, né?
— Exato. Vermelho = morte na certa.
— Entendi. Vermelho = ruim.
— Ah, meus deuses, por que me mandaram uma heroína tão ignorante? Não tinha ninguém letrado disponível? Nem precisava ser estudado sabe, bastava saber o básico!
— Se quiser, é só voltar pra sua pedrinha.
— Você tem um humor bem petulante para quem passou quase cem anos quebrando pedras. Sua vida anterior deve ter sido… interessante.
— Não discordo.
Yonara se abaixou e esperou a aranha gigante passar.
Demorou meia hora ou mais, mas era mais seguro do que dar a volta e arriscar encontrar outro monstro.
Por fim, a criatura seguiu em frente e para a sua sorte, na direção oposta à que precisavam.
— Bom, estamos chegando, eu acho. Está vendo alguma árvore de galhos negros?
— Não, ainda não. Tem certeza que é por aqui?
— Faz mais de uma década, mas acho que sim.
— Ah, você acha? Yonara respondeu, incrédula.
— Não sou rastreadora, sou maga artífice de altíssimo nível.Contente-se com isso, ok?
— Bom, bom… Acho que é aquela ali.
— Ha! É aquela mesmo! Ufa, minha mente não me traiu, afinal!
Uma grande árvore de casca negra e folhas douradas erguia-se à frente.
As folhas balançavam ao vento. As cores extravagantes já não surpreendiam tanto Yonara que já começava a se acostumar com o mundo fora dos túneis de pedra.
Ela queria apenas terminar logo para acender uma fogueira em lugar seguro. Mais um dia que passava como um suspiro.
Ei
Eyrwen instruiu-a a escolher o galho mais seco e com menos folhas, nem curto ou nem comprido demais.
Todos que Yonara pegava estavam errados. Uma miríade de discussões e galhos quebrados foram necessários até a antiga maga ficar satisfeita.
Yonara soltou um sonoro suspiro de alívio quando isso aconteceu.
— Mantenha o galho levantado e pegue uma das pedras de seiva que colheu antes.
Esta bétula é nova demais, mas é o que temos.
Em meio segundo, o galho conectou-se magicamente à pedra e transformou-se num bastão com uma lanterna na ponta.
— Pronto! Agora você usa magia à distância, como prometi.
— Tá… e como uso isso? Perguntou Yonara, sem ideia do que fazer com o objeto.
— Primeiro equipe. Depois use na hora de lançar a magia. Ele modifica o alcance.
Uma tela verde surgiu:
Cajado Improvisado da Maga Antiga
Modificação de Feitiços: (a distância)
Iluminação: (iluminar ao redor)
Deseja equipar?
Yonara aceitou.
Várias telas avisaram da mudança:
Toque da Ruína → Aura da Ruína
Toque da Cura → Aura da Cura
Alcance máximo: 5 metros. Ainda um alvo por vez.
Eirwen acalmou-a: mais níveis significariam magias de área no futuro.
Yonara aceitou, por enquanto.
Dia após dia, novos ensinamentos e experiências foram vividas pela Curandeira Amaldiçoada.