Capítulo 6
Finalmente a dungeon!

Yonara ainda tremia.
A respiração descompassada ecoava nas paredes úmidas e viscosas do corredor.
O ar da dungeon cheirava a mofo, enxofre e algo podre, como se a própria pedra exalasse a morte de incontáveis criaturas.
Ela tentava manter a concentração no corredor escuro à frente, iluminado apenas pelo brilho esverdeado das runas pulsantes e pela luz tênue do seu “Cajado Improvisado da Maga Antiga”.
Eyrwen repousava em seu ombro esquerdo, fria e silenciosa.
A maga antiga esperava. Queria ver se a aprendiz se acalmaria sozinha ou se seria melhor chamar-lhe a atenção.
Foi a primeira opção.
Yonara encostou-se na parede pegajosa, que grudava nas costas como teias vivas.
Com mãos trêmulas, ajeitou o chapéu de bruxa que ganhara de Eyrwen: peles de lobo atroz, kelpie e aranha gigante, tons escuros de cinza, preto e azul-marinho, com uma pena dourada da bétula negra na lateral.
Achava-o bonito. Estiloso. Um símbolo de quem ela se tornara.
Tocava-o como talismã precioso.
Ajeitou também as calças de pele de lobo reforçadas com escamas de kelpie, a túnica de couro endurecido tingida de verde-musgo e o cinto onde pendia o cajado, agora polido e entalhado com runas que brilhavam fracamente.
Esperava o habitual sarcasmo — “Arruma isso direito, sua desleixada!” —, mas o silêncio de Eyrwen era pior que qualquer xingamento.
As lembranças da primeira batalha ainda queimavam.
Tudo começara poucas horas antes, ao cruzarem o portal de entrada: uma arcada de ossos fossilizados que rangia como um grito.
Cinco caramujos modificados surgiram das sombras. Do tamanho de bois, comchas reforçadas por placas metálicas dos experimentos dos elfos negros de Katimandurval.
Corpos viscosos giravam como pneus desgovernados em direção à maga, deixando trilhas de ácido que corroíam a pedra.
Yonara canalizou tudo numa única Aura da Ruína.
A luz roxa acertou os caramujos em sequência, um após o outro.
Três caíram mortos, conchas rachadas e corpos derretendo em poças borbulhantes.
Os outros dois sobreviveram, mas suas barras de vida já piscavam em vermelho.
Eyrwen explicara durante o treinamento:
“Quando um ataque zera a vida de uma vez, o sistema do mundo rola o chamado Teste de Resistência Mortal. Quanto mais complexa a magia, maior a chance de falha. E esses aberros foram feitos para sobreviver ao inferno.”
Usou sua estratégia favorita: invocar a Aura Venenosa (8% de dano por segundo, 30s) + Aura de Declínio de Condição (diversos debuffs organizados em um combo).
“Aprendi essa última me curando das cólicas”, pensou Yonara com um riso amargo. “Quem diria que minha maldição viraria arma?”
Os caramujos, lentos e envenenados, giravam desajeitados.
Dois disparos precisos de Aura da Ruína estouraram suas conchas como melancias podres.
O prêmio foi: +300 EXP, 15 moedas de prata, 3 cascas modificadas e 2 ácidos de monstro.
Tudo que caiu no chão foi guardado na bolsa rudimentar de 10 slots que Eyrwen criou.
De volta ao presente, Yonara limpou o suor da testa.
O tremor diminuiu.
— Nada mal pra uma ex-mendiga que há sete anos mal sabia segurar um cajado.
Eyrwen finalmente falou, sarcástica como sempre:
— Mas, sério, Yonara? Aura de declínio pras cólicas? Você é mais criativa… do que eu pensava.
Yonara deu um meio sorriso, ajeitando a pedra no ombro.
— Funcionou, não foi? E me ajudou no combate.
As runas piscaram mais forte. Um rugido gutural veio do fundo do corredor.
Yonara apertou o cajado.
“Juntar 43 níveis não foi fácil. Será que estou pronta pro que vem aí?”, refletiu enquanto suspirava.
Seguiu em frente, pois nem nesta nem noutra vida ficar parado rendera alguma coisa. Salas e combates vinham sem grande esforço, mas cobravam total atenção. Qualquer deslize e seu HP era comido sem dó pelos danos dos monstros.
Num corredor que dava para uma grande sala estranhamente silenciosa, ela parou.
Sem monstros. Sem armadilhas ativas. Tudo muito suspeito.
Apenas esqueletos de aventureiros antigos: magos, guerreiros e ladinos jogados ao chão.
Eram corpos corroídos, carbonizados, petrificados.
— Posso usar esta sala pra aprender alguma coisa, não acha?
Eyrwen demorou a responder. Parecia perdida em pensamentos.
— Sim. Nunca é tarde pra uma magia nova. Apenas vá!
Yonara tinha provisões e poderia ficar na dungeon por dias, mas, claro, não queria abusar da sorte. Ficou realmente intrigada, especialmente com a petrificação.
Eyrwen explicou:
— Debuff raro e poderoso. O alvo vira pedra por séculos, até a rocha ceder ou alguém reverter ou quebrar. Alguns magos usavam para hibernar ou esconder itens, mas é perigoso. Afinal, é preciso confiar em quem vai te libertar.
Yonara sentiu Eyrwen incomodada. Achou que o assunto da petrificação fosse sensível para ela, então mudou de assunto rápido.
Experimentou botas dos esqueletos mais novos para saber se alguma servia ou estava em bom estado. No quinto par, achou um que servia. Velho e feio, mas melhor que nada.
Um corpo petrificado chamou sua atenção: um humano de capuz de ladrão, rodeado por névoa escura de uma magia ainda ativa.
Estava gritando e pedindo misericórdia quando virara pedra. Podia-se ver isso pela posição patética em que se encontrava.
Yonara tocou a névoa.
Os dedos petrificaram levemente; as unhas viraram pedra. Ela sentiu o frio, o medo.
Tentou curar a unha e nada aconteceu.
Eyrwen riu:
— Lembra quando você se cortava de propósito para aprender Aura de Cicatrização e Sangramento?
Yonara sentou-se e começou a testar tudo: Cicatrização, Desintoxicação, Aquecimento, Resfriamento, Anti Paralisante…
Nada.
Quando insistiu em Aura da Cura, Eyrwen cortou:
— Use a cabeça, não força bruta. Você tem uma mana absurda… e uma cabeça de macaco!
Yonara ficou emburrada, mas seguiu testando outras combinações.
Eyrwen desceu do ombro e rolou pela sala, perdida em memórias ativadas por aquela disposição de corpos.
Centenas de anos atrás, a jovem e requisitada Eyrwen conhecera um mago vermelho Rank C focado em debuffs.
Bonito e heroico, ela se apaixonara perdidamente em pouquíssimo tempo.
Os dois passaram a servir o Lorde dos Monstros da época em sua luta para libertar os monstros dos humanos e deter o avanço dos demônios.
Durante suas incursões, o mago vermelho encontrou um grimório antigo que juntava debuffs num miasma capaz de destruir exércitos.
Assim nasceu o “Senhor das Maldições”, general do antigo Lorde dos Monstros, a única força que desafiara as deusas e o demônio Balorath sem precisar temer seus exércitos.
Eyrwen criara o cajado mais poderoso de sua carreira para seu amado.
Mas o preço do grimório começara a corroer a mente do mago, tornando-o cada vez mais violento. Com isso, ela começara a se afastar cada vez mais.
Não só por ela mesma, mas a pedido do próprio amado.
A última notícia que tivera dele, anos depois, foi que ele havia sido encurralado pelo Exército Sagrado das Deusas Trinas e desaparecera.
Mágoas e lembranças belas encheram a pequena pedra. Naquele momento, se tivesse olhos, choraria copiosamente.
Yonara tirou-a dos devaneios com uma tela brilhante:
Nova Habilidade Aprendida!
Aura de Petrificação: Transforma o alvo em pedra por até 10 minutos (1 alvo, 5 m).
Cura de Petrificação: Remove petrificação (1 alvo, 5 m).
Testou num aventureiro petrificado. Primeiro tentou despetrificar sua espada quebrada e depois um escudo redondo. Com a confiança adquirida, voltou-se para um aventureiro petrificado.
Sua estátua estava em ótimo estado, então Yonara pensou que era o mais seguro para tentar.
Concentrou a mana no cajado e lançou a magia.
Aos poucos a estátua começou a se dissolver em areia e o homem começou a gritar, como se ainda estivesse correndo do que quer que o houvesse petrificado. Quando viu que não havia nada para correr, gemeu de alívio.
Olhava ao redor com surpresa enquanto tirava a areia das roupas.
Quando se deu conta de Yonara, olhou para ela com um olhar estranho.
— Você foi o anjo que me salvou? Está sozinha numa dungeon perigosa dessas?
Yonara não entendeu nada do que ele disse, mas seu olhar dizia tudo. Era o pior olhar que já vira, pior que qualquer coisa da vida passada.
Ele tentou tocá-la, mas ela o empurrou, notando que a Aura de Repulsa não funcionara.
As deusas disseram: “nenhuma ajuda será frutífera”, mas não disseram que afastariam quem quisesse fazer mal.
— Não tenho ideia de quanto tempo fiquei preso aqui, mas…
O homem gargalhou, abençoando a sorte de acordar com uma beldade solitária.
Jogou a espada quebrada no chão e avançou sobre ela, agarrando-a em seguida. Era forte, bem mais forte fisicamente que a maga.
Yonara conseguiu soltar um dos pulsos e, com o cajado, o acertou na cabeça. O dano não foi muito alto, mas o fez levar as mãos à cabeça para verificar se havia sangrado.
— Ah, sim… adoro isso. Quanto mais resistir, melhor. Estamos sozinhos neste inferno de labirinto.
Ele não só não parou como ficou ainda mais excitado com a atitude de Yonara.
Ela imaginou por um segundo que um desgraçado daqueles havia entrado em seu paraíso e lhe tirado tudo na vida passada.
Não pensou duas vezes antes de descarregar uma sequência de magias no ser nojento à sua frente: Aura da Ruína, Venenosa, Sangramento, Declínio de Condição…
Em segundos, o homem caiu de joelhos, pernas traídas, sofrendo de diversos debuffs que nem conhecia. Avisos cegavam sua visão, mas ainda o deixavam ver o olhar de Yonara.
Ele reconheceu aquele olhar. O mesmo que recebera diversas vezes em sua vida de bandido: o olhar de nojo puro.
Na sequência de magias que seu corpo recebia, a última lançada foi a Aura de Petrificação.
Seu corpo começou a esfriar de uma maneira que ele conhecia muito bem, e aquilo o levou à loucura.
O homem começou a berrar e a pedir perdão. Era uma cena horrorosa, mas felizmente estava perto do fim. Conseguiu gritar mais uma vez antes de seu corpo finalmente virar pedra novamente — agora, sabe-se lá por quanto tempo.
Yonara esperou terminar com expressão gélida. Tremia, lembrando de coisas de sua vida passada.
Eyrwen rolou até ela depois de tudo.
— Você está bem? Não é a primeira vez que um homem tenta te violentar, não é?
Demorou a responder.
— Não… mas dessa vez foi diferente. Não sei o porquê. Só foi…
Eyrwen entendeu. Conhecia a história de Antônio.
Yonara cuspiu no chão, tentando tirar o gosto amargo da boca.
Pegou a pedra de qualquer jeito e a colocou no ombro. A pequena pedra xingava de todos os modos possíveis.
— Hora de terminar a dungeon — disse ela, cortando os xingamentos da mestra.
Um silêncio estranho a tomou depois de dizer aquilo. Começou a andar e ainda cuspia de tempos em tempos, até o asco passar.
Eyrwen voltou a xingar, e mais salas e mais monstros apareciam diante delas.
A nova magia era útil, mas exigia teste constante. Mesmo com o personagem de Yonara tendo 15% de chance de afetar o status do inimigo com debuffs, a petrificação parecia ser mais difícil de quebrar a resistência inimiga.
Após matar besouros gigantes com antenas feitas de ferro forjado, deparou-se com uma porta de pedra que superava dez vezes sua altura.
Feita de rocha pura e imponente.
Uma coisa era óbvia: aquela porta não fora feita por humanos, nem para humanos.
Yonara sentia o peso do ar denso, o cheiro de enxofre, podridão e sangue metálico. As runas esverdeadas sussurravam segredos antigos nas paredes úmidas. A luz fraca do cajado projetava sombras dançantes.
— Sala de chefe! — disse Eyrwen de forma séria.
— Se entrar, não sai até matar o chefe ou morrer.
— Que tipo de chefe é? Tem alguma ideia?
— Nenhum que tentou me ajudar viveu pra entrar aqui. Mas, pelos monstros de Katimandurval… espere o pior.
— Ajudou muito, obrigada! — ironizou Yonara, erguendo o polegar.
— Só sendo sincera, ora bolas.
Yonara riu baixo.
Sem Eyrwen, estaria morta há sete anos.
Ajustou o chapéu de bruxa e caminhou até a porta colossal.