Aurora acordou em seu novo quarto, que era um pouco menor do que o anterior, mas todas as suas coisas estavam ali, então o tamanho não importava muito.
Ela se levantou e, após um longo banho, ouviu alguém bater à porta. Ao abrir, viu Eduardo, seu guarda mais confiável. Ele empurrava um pequeno carrinho que trazia o café da manhã de Aurora.
"Eduardo, o que você acha de se aposentar? Você já está velho, suas costas não doem?" disse ela com um sorriso preocupado, os olhos demonstrando carinho e um pouco de culpa.
Eduardo ficou observando Aurora, com os olhos quase lacrimejando.
"Não, minha princesa. Eu nunca a deixarei. Juro ficar ao seu lado até a morte."
Ele terminou fazendo uma reverência, arrancando um suspiro de Aurora, que o observava com um sorriso alegre.
'Espero que nada aconteça com ele. Eu realmente espero que aquele assassino não mate mais ninguém do meu reino', pensou Aurora, fechando a mão ao sentir a mistura de raiva e culpa. Ela era a culpada por não ter matado o assassino e, por causa disso, pessoas haviam morrido.
Mas ela não podia mostrar fraqueza. Era isso que seu pai queria: uma filha fraca e manipulável. Porém, Aurora não cairia novamente como antes.
"Eduardo, depois que eu terminar de comer, vamos sair. Tenho que ver como está o meu povo", disse Aurora, enquanto via Eduardo acenar e depois sair de seu quarto.
Ela se sentou na cama e olhou para a janela. Dali, conseguia ver uma torre com um sino que ficava em frente ao palácio.
'Espero que ele não faça nada de ruim hoje, senão eu vou ter que fazer também', pensou, um pouco receosa. Ela sentia medo de ter que ultrapassar um limite que havia prometido não cruzar, de não se deixar levar pela emoção.
Mas Aurora era amável, não fria. Ela amava as pessoas que a apoiavam.
Ao chegar à cidade, Aurora viu várias pessoas a cumprimentarem. Ela conversava com quem se aproximava, sempre com um sorriso animado.
Mas também sentia que alguém a observava. Ela sabia quem era, mas optou por agir de forma natural, para não causar estranhamento ao assassino que a vigiava. Aurora não sabia do que ele era capaz com tanta gente ao redor.
Enquanto caminhava com seus guardas, ela avistou uma biblioteca e entrou. Uma mulher se aproximou de Aurora.
"Aqui está o livro que peguei outro dia. Eu realmente gostei da história das cinco famílias de cavaleiros", disse Aurora, entregando o livro à mulher que estava à sua frente.
Ao sair da biblioteca, ela olhou para Eduardo.
"Eduardo, o que você sabe sobre as famílias de cavaleiros? Você já treinou com elas, certo?" perguntou Aurora, ao perceber o semblante triste de Eduardo.
"Sim, princesa. Eu as conheci. Era mais próximo da família Lionheart, que era a mais forte. Seu líder, Magnus, era honrado e corajoso, e seu filho, Dante, também era muito forte, mesmo eu não o tendo conhecido tão bem", disse Eduardo, olhando para Aurora, que escutava cada palavra atentamente, até que um guarda o chamou, deixando Aurora sozinha.
'Seria bom se ainda houvesse alguma família viva', pensou, um pouco triste. Sem os cavaleiros, seu reino ficava desprotegido.
Eduardo voltou com um olhar nervoso, e Aurora se sentiu um pouco preocupada.
'O que você fez?' pensou ao notar que algo ruim estava prestes a acontecer. Seu coração começou a bater mais rápido enquanto ela olhava para o guarda, que parecia tão preocupado quanto ela.
Algum tempo depois, Zephyr encontrou Aurora andando pelas ruas com seus três guardas e começou a pensar em como atacar os guardas sem que a princesa percebesse sua presença.
Até que ele notou que não havia mais ninguém por perto. Apenas a princesa Aurora e seus guardas permaneciam ali.
'Talvez eles já saibam que eu estou aqui', pensou Zephyr, observando a situação com certa curiosidade e intriga sobre como aquela habilidade da princesa funcionava.
Aurora olhou para seus guardas, e eles pararam de andar.
Ao perceber o olhar da princesa, Eduardo, um dos guardas, perguntou: "Qual o problema, princesa? Está se sentindo mal?"
Aurora passou a mão por seus cabelos longos e começou a falar com uma voz calma, mas, no fundo, estava desesperada. Tudo o que havia acontecido era culpa sua por não ter tido coragem de agir antes. Seus olhos azuis permaneciam focados; ela respirou fundo e, de forma controlada, abriu a boca.
"Ele matou os dois guardas."
Os guardas se impressionaram ao perceber que a princesa sabia que estava sendo seguida e que também tinha consciência de que dois deles haviam sido mortos.
Eduardo e os outros guardas ficaram furiosos, mas dois deles já haviam caído.
"Eu vou mandar os dois guardas atacarem ele, e vou levá-la para o castelo", disse Eduardo, desesperado. A princesa, porém, balançou a cabeça em negação; seu olhar estava mais determinado do que nunca.
"Eduardo, vocês não têm chance contra ele. É melhor não fazer nada. Se ele vier me atacar de novo, eu acabarei com ele. Essa é a única escolha que eu tenho agora."
A princesa estava furiosa com as ações de seu pai e com as do assassino, mas também consigo mesma por não ter feito nada antes.
Ela sabia que o medo que seu pai sentia de seu poder era a razão de ele ter enviado assassinos atrás dela. Então, Aurora só tinha uma coisa a fazer: mostrar que nada poderia pará-la, fazendo o próprio pai desistir da ideia de acabar com ela.
"Me deixem sozinha, e ele virá até mim", disse Aurora com um tom firme. Hoje, ela teria que terminar o que não havia terminado antes.
Os guardas ficaram surpresos com a atitude da princesa, mas acabaram acatando suas ordens. Aurora continuou andando pelas ruas, desta vez sem a escolta.
Zephyr ainda observava a princesa do topo de um telhado alto, que havia escolhido por ser um bom ponto para acompanhar tudo o que acontecia. Ao perceber que ela estava sozinha, começou a se aproximar.
Enquanto a princesa caminhava sozinha, Zephyr avançava pulando de telhado em telhado, sem fazer barulho. Correndo levemente agachado, ele acabou notando algo um tanto curioso.
Aurora parou de andar e começou a gritar.
"Eu sei que você está aqui. Apareça, assassino!"
Ela gritou com todas as suas forças, mas aqueles gritos não serviam apenas para chamar a atenção do assassino. Aurora também estava colocando para fora todo o peso que carregava no coração, raiva, medo e tristeza. Cada palavra era carregada por essas emoções.
Zephyr notou isso. Ela queria o mesmo que ele: acabar com aquilo. Ainda assim, Zephyr não entendia o motivo de ela estar tão irritada com ele. Intrigado, ele surgiu à frente da princesa com um sorriso no rosto, mas, logo em seguida, sua expressão se tornou séria.
"Como e quando você descobriu que eu estava te seguindo?" perguntou Zephyr, curioso para entender aquela habilidade misteriosa de Aurora.
A princesa o encarou com uma expressão séria e respondeu: "Eu não tenho que te dizer nada, pois você já vai morrer", com um tom de desprezo.
Zephyr retirou rapidamente sua adaga da bainha e avançou em direção à princesa. Logo em seguida, os três guardas surgiram e atacaram Zephyr. Ele desviou dos golpes e contra-atacou o mais próximo com um chute violento no pescoço, quebrando-o no processo.
Zephyr então utilizou uma de suas técnicas, eletrificando o próprio corpo, fazendo com que cada movimento parecesse um clarão rápido e devastador. Com um único soco explosivo no rosto, um dos guardas foi arremessado para longe, com sangue voando para todos os lados.
"Chega de brincar. Agora eu vou levar isso a sério", disse Zephyr com uma voz fria, olhando diretamente para Eduardo, que ainda permanecia de pé.
"Eu disse para vocês me deixarem sozinha, que eu ia acabar com tudo isso", disse Aurora, agora completamente desesperada. Ela viu Eduardo sorrir para ela, enquanto o encarava com um medo contido no olhar.
Eduardo correu em direção a Zephyr, mas, em questão de segundos, o assassino cortou sua cabeça. Ela rolou pelo chão até parar aos pés de Aurora, que viu as lágrimas caírem de seu rosto.
"Então, princesa, agora somos apenas eu e você. Espero que não haja mais ninguém para nos atrapalhar", disse Zephyr, encarando Aurora. Ele a via chorando, mas não enxergava medo, nem fraqueza em seus olhos. Aquilo era estranho para ele. Ela já deveria estar destruída, mas ainda permanecia de pé.
Aurora começou a rir.
"Hahaha… você acha mesmo que pode me vencer? Vou te mostrar por que o meu pai tem medo de mim, e vou fazer você sentir ainda mais medo", disse a princesa rindo, exalando confiança, fúria e tristeza, agora sem lágrimas nos olhos, apenas com o desejo de matar.