
A vila agrícola de Oakhaven estava cercada. O cheiro de fumaça e sangue misturava-se ao ar salgado vindo do Mar do Sul. Mais de uma centena de goblins avançava sobre as defesas frágeis da periferia localizada no Reino das Cidades Humanas.
Na linha de frente, o Velho Chefe da vila — um veterano de sessenta anos vestindo uma armadura de couro gasta e cheia de cicatrizes — bloqueou a machadada pesada de um goblin com sua espada longa. O impacto reverberou por seus braços, fazendo-o arfar de cansaço.
— Mantenham a formação! — rugiu o Chefe, a voz rouca pelo esforço. — Não deixem eles ultrapassarem o portão sul!
A poucos metros dali, um jovem camponês segurava um garfo de arado com as mãos trêmulas. O sangue escorria por sua testa enquanto dois goblins babando se aproximavam com sorrisos grotescos. Pressionado contra a parede de madeira de uma casa, o rapaz entrou em pânico.
— S-Socorro... Cadê os reforços da capital?!
Antes que a lâmina do primeiro goblin atingisse o camponês, uma sombra emergiu das trevas.
Kaelen surgiu com movimentos calculados. Aos dezoito anos, vestindo apenas trajes de couro ajustados e com um olhar calmo, ele cravou suas adagas com precisão cirúrgica exatamente na nuca das duas criaturas. Os goblins caíram mortos instantaneamente.
Suas mãos sustentavam uma leve trepidação pela adrenaline, mas sua postura permaneceu firme como uma rocha.
— Recue para perto do Chefe — ordenou Kaelen, a voz baixa e serena. — E mantenha a guarda alta.
Antes que o combate prosseguisse, o som suave de engrenagens arcanas ecoou. Do alto da colina, uma carruagem luxuosa parou e dela desceram dois jovens vestidos com túnicas elegantes e bordadas. Eram Magos Recrutas enviados pela cidade mais próxima. Um deles trazia um olhar arrogante e o brasão do Elemento Fogo; o outro, com o brasão de Vento, ostentava uma expressão de puro tédio.
— Que fedor insuportável... — reclamou o Mago de Fogo, cobrindo o nariz com a manga da túnica. — Mandaram a gente para um chiqueiro por causa de meros vermes verdes?
— Apenas termine isso logo — resmungou o Mago de Vento, canalizando um círculo mágico prateado ao redor dos punhos. — Tenho uma aula na Academia ao amanhecer. [Magia de Suporte: Amplitude de Vento - 5x]!
Uma rajada violenta ergueu a poeira do chão. Aproveitando o impulso, o Mago de Fogo estendeu as mãos e preparou uma esfera luminosa que cresceu monstruosamente.
— [Magia de Fogo: Bola de Fogo]!
Uma explosão devastadora devorou a horda frontal. Árvores e goblins foram reduzidos a cinzas em um clarão avermelhado e ensurdecedor. Os camponeses e o Velho Chefe olharam estupefatos para a demonstração brutal de destruição.
— Incrível... — murmurou o Chefe, aliviado. — Isso é a Magia de Guerra dos nobres!
Contudo, quando a fumaça começou a baixar, a ilusão de vitória se desfez. A explosão havia atingido cerca de vinte criaturas, mas dezenas de outros goblins emergiram das sombras dos flancos, contornando a área queimada e cercando os dois magos pelas costas.
O rosto do Mago de Fogo empalideceu instantaneamente. Um goblin saltou da vegetação, ficando a poucos centímetros de seu rosto. Toda a arrogância do nobre desapareceu, dando lugar ao pavor absoluto.
— O-O quê?! De onde vieram esses?! — gritou o Mago de Fogo, tropeçando para trás. — Faça vento! Afaste eles agora!
O Mago de Vento tentou erguer uma barreira, mas suas mãos tremiam tanto que a fórmula mágica se desfez. Uma faca enferrujada cortou o tecido caro de sua túnica.
— Eles estão muito perto! — desesperou-se o Mago de Vento. — Não consigo concentrar a mana!
Ambos recuavam de forma patética. O Chefe da Vila tentou avançar para resgatá-los, mas foi bloqueado por três goblins maiores.
— Maldição! Magos não sabem lutar corpo a corpo! — esbravejou o veterano. — Alguém ajude eles!
No meio do caos, os olhos de Kaelen brilharam em um tom prateado quase imperceptível. O ar ao redor da lâmina de sua adaga começou a vibrar em uma frequência sutil.
Magos precisam de tempo, pensou Kaelen, ajustando sua base. Guerreiros precisam de espaço. Eu só preciso de um segundo.
Kaelen disparou como um bólido. Em três movimentos fluidos e letais, cortou a garganta do primeiro goblin, esquivou-se graciosamente do machado do segundo e conjurou uma faísca invisível de ar sob os próprios pés, usando a aceleração para dar um salto triplo sobre a multidão.
Ele parou exatamente entre os magos amedrontados e os cinco goblins que avançavam. Girou a adaga tingida de sangue e encarou as feras.
— Se vocês quiserem viver... — disse Kaelen, sem olhar para trás — fiquem dois passos atrás de mim e recarreguem suas magias.
O Mago de Fogo encarou as costas daquele garoto de roupas simples com a boca aberta.
— Um camponês... me dando ordens?!
O líder do bando — um goblin gigante com armadura de ossos — investiu com ferocidade contra o garoto. Kaelen não recuou um milímetro. Ele revestiu a lâmina da adaga com uma camada transparente e densa de mana concentrada.
Com um único golpe ascendente, a adaga cortou o ar e atingiu o peito do monstro. A lâmina atravessou a armadura de osso e o couro rígido como se fossem feitos de papel.
Atrás dele, o Mago de Vento arregalou os olhos em puro choque.
Impossível..., pensou o nobre, sentindo a oscilação da atmosfera. Aquele controle de fluxo de ar na lâmina... Não é apenas força física. Aquele garoto usou Magia de Vento sem báculo ou encantamento?!
O líder dos goblins desabou e o silêncio congelou a linha de frente por um breve e precioso segundo. Os quatro monstros restantes vacilaram, encarando o cadáver de seu capitão sem conseguir assimilar como uma armadura de osso fora cortada com tanta facilidade por uma simples adaga.
Para Kaelen, esse segundo de hesitação era uma eternidade.
Sem dar margem para que as feras raciocinassem, ele avançou como uma sombra. Flexionou os joelhos, impulsionou o corpo para a frente e cravou a adaga lateralmente na garganta do segundo goblin. O movimento foi limpo, preciso e letal.
Porém, ao tentar recolher a lâmina para o próximo passo, o metal prendeu por uma fração de segundo na clavícula da criatura.
O atraso imperceptível foi o bastante. Tomados pelo choque, os três goblins restantes despertaram do transe e rosnaram em fúria. Atacando em sincronia, investiram ao mesmo tempo contra o jovem guerreiro.
Kaelen girou o corpo na poeira, esquivando-se por milímetros da primeira lâmina rústica que cortou o ar. Com um reflexo desesperado, inclinou o torso para trás e sentiu a ponta de um machado rasgar a gola de seu traje de couro, evitando a segunda investida.
Mas não havia para onde ir contra o terceiro ataque.
O último goblin saltou de cima de uma rocha, descendo uma clava pesada cravejada de pregos na direção de sua cabeça. Sem apoio nos pés e no limite do seu cansaço físico, Kaelen percebeu a trajetória perfeita do golpe. Não havia espaço para esquiva, nem tempo para erguer a adaga.
Incapaz de reverter a física da queda, ele apenas fechou os olhos.
O tempo pareceu desacelerar. Ele aceitou o destino em silêncio. Pelo menos, pensou, dei tempo suficiente para aqueles magos fúteis se reagruparem e fugirem... ou lutarem.
O impacto, no entanto, nunca veio.
Em vez do golpe esmagador de madeira e ferro, um calor ensurdecedor passou a milímetros de seu rosto. Uma claridade alaranjada rasgou a escuridão por trás de suas pálpebras, acompanhada pela pressão violenta de uma rajada de ar repentina.
Kaelen sentiu o corpo ser arremessado para o lado, voando pela atmosfera antes de rolar suavemente pela grama, totalmente fora da zona de alcance do golpe letal.
Após o desespero inicial passar, o Mago de Fogo finalmente reagira. Agora, sem a magia de suporte e amplificação de seu companheiro, ele lançou uma Bola de Fogo pura e concentrada. A esfera flamejante atingiu o goblin no ar, incinerando a criatura em um estouro seco de luz e brasas.
Simultaneamente, o Mago de Vento — percebendo que a explosão também atingiria o garoto — canalizou uma rápida rajada de ar sob o corpo de Kaelen. O impulso alterou sua trajetória no meio do salto, salvando sua vida duas vezes no mesmo segundo.
Kaelen abriu os olhos, recuperando o fôlego na terra batida enquanto observava a poeira e o fogo baixarem.
À sua frente, os dois magos nobres arfavam, com as mãos erguidas e o olhar trêmulo direcionado ao jovem guerreiro que acabara de arriscar tudo para mantê-los vivos.
No dogma da guerra em Solaria, a hierarquia era inquebrável: magos eram a elite suprema, destinados a atuar estritamente na retarguarda, protegidos por paredes de carne e osso. Se a linha de frente de guerreiros caísse, a doutrina ensinada nas Academias era simples e cruel: os magos recuavam, reorganizavam-se e aguardavam que mais camponeses e guerreiros de baixo escalão chegassem para servir de escudo humano.
A vida de um guerreiro sem magia era descartável. A de um nobre arcano, sagrada.
Mas ali, sob o céu soturno da Vila de Oakhaven, algo na engrenagem secular daquele mundo havia se quebrado.
O guerreiro cumprira seu papel até o limite, colocando o próprio corpo entre a morte e a nobreza. Porém, em vez de darem as costas e fugirem para salvar a própria pele, os magos haviam ficado.
É verdade que o Mago de Fogo agira por um misto de pânico e orgulho ferido, pouco se importando se a explosão de suas chamas acabaria por incinerar o próprio Kaelen no processo. Para ele, atingir o guerreiro era um mero dano colateral aceitável para eliminar a ameaça. Contudo, a sincronia involuntária com o Mago de Vento transformara aquele ato egoísta em uma manobra perfeita de resgate.
A rajada de ar não apenas desviou Kaelen da clava mortal, mas criou o corredor exato para que as chamas devorassem os últimos goblins que cercavam a posição.
Quando a última fagulha se apagou, restaram apenas os corpos carbonizados das feras e a poeira assentando na terra batida.
O Mago de Fogo arfava, com os punhos ainda fumegantes e a túnica suja de fuligem. Ele olhou para as próprias mãos, depois para o Mago de Vento — que mantinha os dedos estendidos em choque — e, por fim, para Kaelen, que se erguia devagar da grama, limpando o sangue da adaga no pulso.
Pela primeira vez em suas vidas, dois nobres da elite arcana não haviam apenas assistido à linha de frente morrer. Eles tínham lutado lado a lado com ela.
Kaelen respirava fundo, seus olhos rapidamente varreram o perímetro da paliçada, calculando a situação com a frieza de quem fora treinado para sobreviver.
Pela contagem rápida em sua mente, ele mapeava a área. A primeira e devastadora explosão dos magos incinerara cerca de vinte criaturas na horda principal. Ele próprio havia abatido quatro alvos — incluindo os dois que encurralavam o camponês e o líder do bando. O ataque desesperado dos dois nobres para salvá-lo levara outros três.
Mais acima, no portão sul, o Velho Chefe arfava sobre o corpo de um goblin gigantesco. O veterano, apesar do peso dos sessenta anos e da armadura gasta que limitava seus movimentos, usara cada gota de sua experiência militar para conter a invasão. Havia uma pilha de nove cadáveres aos seus pés, abatidos a golpes secos de espada longa antes que o cansaço o paralisasse.
Trinta e seis goblins estavam mortos. O problema é que o bando original contava com pelo menos cem.
— Ainda restam cerca de sessenta e quatro... — calculou Kaelen, ajustando a empunhadura da adaga.
A primeira onda havia sido contida, mas mais da metade do bando ainda se espalhava pelas sombras da Vila de Oakhaven.