Kaelen varreu os arredores da vila com o olhar e sentiu o peito comprimir. A poucos metros dali, no meio da fumaça, o Velho Chefe encontrava-se isolado.
Aquele homem era Garth. Mais do que o líder de Oakhaven, Garth fora seu mestre de armas e sua figura paterna — o homem que o acolhera e o ensinara a empunhar uma adaga há quinze anos, quando os pais de Kaelen foram massacrados na linha de frente durante a última grande invasão.
Agora, Garth estava em apuros.
Cercado por oito goblins armados com lâminas enferrujadas e machados rústicos, o veterano de sessenta anos fincou os pés na terra batida. A armadura de couro gasta rangia a cada respiração desajeitada.
— Venham, vermes! — rugiu Garth, desferindo um golpe horizontal com sua espada longa.
A lâmina cortou a garganta do primeiro monstro, mas a guarda do velho mestre abriu-se por uma fração de segundo. Um goblin menor aproveitou a brecha e cravou uma adaga em sua coxa esquerda. Garth rugiu de dor, caindo sobre um dos joelhos, mas retaliou instantaneamente com um soco armado que esmagou o crânio do agressor.
Mesmo sangrando e com a visão turva pelo suor, Garth lutou com o desespero de quem protegia sua própria terra. Girou sobre os calcanhares, parou um machado pesado no ar e usou a guarda da espada para degolar o terceiro. Em uma sequência violenta de estocadas e golpes secos, o veterano entregou tudo o que lhe restava de vigor físico. O último dos oito goblins tombou aos seus pés.
Arfando ruidosamente, Garth apoiou o peso do corpo na lâmina fincada no chão. A coxa sangrava copiosamente e seu braço esquerdo mal respondia. Ele estava no seu limite absoluto.
Foi quando a vegetação ao redor se agitou novamente. Das sombras da periferia, surgiram mais quinze goblins. Os olhos amarelos das criaturas brilhavam ao notar o estado lamentável do guerreiro humano. Formando um círculo lento e cruel, as feras fecharam o cerco contra o velho exausto.
A poucos metros dali, Kaelen e os dois magos recém-chegados não tinham tempo para digerir a vitória anterior.
— Maldição! Eles não param de surgir! — esbravejou o Mago de Fogo, ajustando a túnica suja de fuligem. Seus olhos se encontraram com os do Mago de Vento em busca de uma resposta. — O que o Mago Chefe Draven estava pensando ao nos mandar para cá sem uma tropa de apoio?! Cael! — chamou o Mago de Fogo, tentando impor firmeza. — Foco! Temos que sair daqui vivos!
Cael piscou, virando-se para o companheiro enquanto a névoa do choque se dissipava de sua mente.
— Estou de volta, Valen — respondeu o Mago de Vento, a voz recuperando a sobriedade. — Vamos voltar à tática inicial!
No dogma arcano de Solaria — a região mais próspera e nobre do reino —, a estrutura mágica baseava-se em quatro Escolas Principais. Enquanto as prestigiadas cidades aristocráticas dominavam a Magia de Guerra através das Escolas de Fogo e Água, a Escola de Vento servia como o centro vital de suporte e amplificação de mana. À parte de todas, a Escola do Sagrado permanecia sob o monopólio absoluto da Igreja: uma ordem restrita exclusivamente aos humanos, guardiã de magias raras e feitiços de cura inalcançáveis para os demais.
Toda essa estrutura sustentava uma hierarquia inquebrável de quatro níveis. No degrau mais baixo ficavam os Magos Alunos, seguidos pelos Magos Recrutas — jovens lançados ao campo de batalha para provar seu valor. Acima deles figuravam os Magos Chefes, encarregados de administrar o contingente e traçar as estratégias de guerra. Por fim, no ápice absoluto de cada pilar, existia apenas um único Mago Mestre para cada elemento: os detentores do poder supremo nas Escolas de Água, Fogo e Vento.
Tomado pelo pavor, Valen virou-se para Cael:
— Preciso de mais mana! Se eu usar uma magia normal agora, não vou aguentar a segunda onda! Preciso da sua magia de suporte!
A Magia de Vento, no sistema do reino, raramente era utilizada para destruição direta na linha de frente. Sua verdadeira essência e valor militar residiam nas fórmulas de suporte: a capacidade de manipular as correntes de ar para acelerar aliados, criar barreiras invisíveis e, acima de tudo, potencializar geometricamente a densidade e o alcance dos outros elementos. O vento alimentava o fogo, tornando a magia destruidora de um parceiro exponencialmente mais rápida e devastadora.
Cael, mantendo o olhar frio apesar da urgência da situação, entendeu a mensagem instantaneamente. Ele fechou os olhos por um segundo, alinhando seu fluxo arcano.
— Cale a boca e prepare seu feitiço — respondeu Cael, cruzando os punhos enquanto um brilho prateado e denso voltava a envolver seus braços. — Vou te dar o impulso necessário.
— Não ataquem! — a voz de Kaelen cortou o ar como uma lâmina.
Antes que Valen e Cael pudessem disparar o feitiço combinado contra os quinze goblins que cercavam o portão, Kaelen avançou e segurou os braços dos dois magos. O movimento foi bruto e rápido. Ele puxou os cotovelos dos nobres para cima, rompendo o alinhamento dos círculos mágicos. O fluxo de mana se desfez em um sopro de faíscas inúteis e fumaça.
A reação foi imediata. Tomado pela fúria, Valen puxou o braço com violência e desferiu um tapa seco no rosto de Kaelen. A força do golpe estalou no ar, virando o rosto do garoto para o lado.
— Se coloque no seu lugar, seu camponês imundo! — esbravejou Valen, os olhos queimando de raiva enquanto a túnica ajustada balançava. — Em que lado você está?! Nós estávamos prestes a exterminar quinze de uma vez!
Kaelen limpou um fiapo de sangue no canto do lábio. O olhar permaneceu gelado, focado no campo de batalha.
— O Chefe da Vila, Garth, está preso no meio deles. Se essa magia for arremessada, o impacto incineraria o velho junto com os monstros.
Valen soltou uma risada sarcástica, apontando para a cena trágica mais adiante.
— Ficou cego?! Ele está ferido, no limite e cercado por quinze feras! Aquele velho não vai sobreviver de qualquer jeito. Usar a vida dele como isca para eliminar quinze alvos é uma troca estratégica perfeita.
Valen virou-se para Cael, buscando a validação do companheiro mago. Cael hesitou por uma fração de segundo. Seus olhos encararam a figura encurvada do veterano, mas a frieza da doutrina arcana falou mais alto.
— O guerreiro lutou bem e está cumprindo o seu dever — respondeu Cael, de forma métrica e distante. — Essa é a nossa melhor oportunidade tática. Não podemos desperdiçá-la.
— Garth é a razão dessa vila ainda estar de pé — rebateu Kaelen, dando um passo à frente com a adaga em riste. — Eu vou até lá tirá-lo do caminho. Não ataquem até que ele esteja em segurança.
Enquanto a discussão esquentava, uma mudança estranha na atmosfera do combate fez com que os três congelassem.
Os quinze goblins não avançaram para o abate. Em vez de trucidar o velho exausto que se apoiava pesadamente no cabo da espada longa para não cair, os monstros se entreolharam e começaram a recuar lentamente. Eles abriram um corredor no cerco, curvando as cabeças em um gesto quase animalesco de submissão.
Pela abertura, o restante da horda que se escondia nas sombras começou a emergir. E à frente deles caminhava uma figura massiva.
Era um goblin de porte gigantesco, quase da altura de um humano adulto, com a pele verde-escura coberta de pinturas rústicas de sangue seco. Em suas mãos enormes, ele carregava dois machados de guerra pesados. Mas o que fez o sangue de Garth congelar foi o rosto da criatura: uma cicatriz funda e grotesca rasgava o olho esquerdo do monstro, indo da testa até a mandíbula.
A visão fez o coração do veterano falhar uma batida.
Há quinze anos, durante o massacre devastador que destruíra a linha de frente de Oakhaven e tirara a vida dos pais de Kaelen, fora Garth quem enfrentara aquele mesmo monstro. Naquela época, mais jovem e no auge de sua forma física, Garth conseguira desferir o golpe que cegara o olho da fera, forçando o recuo dos invasores e salvando o garoto.
Agora, o destino os colocava frente a frente outra vez.
Garth arfava ruidosamente, a coxa sangrando sem parar, os braços trêmulos e a visão turva de cansaço. Quinze anos atrás ele fora forte o bastante para prevalecer. Hoje, enfraquecido, sem forças e cercado, o velho sabia que a história não se repetiria.
Garth entendeu o recado no mesmo segundo em que a fera deu um passo à frente.
Sem desviar o olhar de Garth, o goblin de cicatriz ergueu o machado esquerdo de forma repentina e cravou a lâmina no peito de um goblin menor que estava distraído, parado logo à sua frente. A criatura caiu sem emitir um som. Com um movimento bruto, a fera puxou o machado de volta, limpando o sangue no próprio braço verde, e apontou a lâmina empoeirada diretamente para o peito do veterano. O rosnado baixo que seguiu fez o resto da horda emudecer instantaneamente.
O líder queria uma revanche e não aceitaria interferências. Garth não tinha certeza se o monstro guardava a memória exata daquele confronto de quinze anos atrás ou se apenas reconhecera a postura do guerreiro que lhe arrancara o olho, mas o significado daquele gesto era cristalino.
Só um dos dois sairia vivo daquela terra batida. E e as chances, ele sabia com cruel clareza, não estavam nem um pouco a seu favor.
Com o corpo pesado, a coxa rasgada sangrando sobre o couro e o braço esquerdo quase inútil de dor, Garth firmou os dois pés no chão. Respirou fundo o ar impregnado de fumaça, ajustou os dedos no cabo da espada longa e ergueu a guarda. A morte podia estar ao seu alcance, mas ele não entregaria a cabeça sem antes fazer a fera sangrar novamente.
Valen olhou de canto de olho para Kaelen, um sorriso debochado e tenso cortando seu rosto sujo de fuligem:
— Se você quer morrer junto com o velho, a sua chance é agora. Vai lá e ajude ele!
Em seguida, o Mago de Fogo virou-se para o companheiro, o olhar queimando em desespero:
— Cael, essa é a nossa chance! Vamos canalizar toda a nossa força em um único golpe e acabar com todos esses vermes enquanto eles estão distraídos com a luta do velho!
Cael encarou Kaelen com frieza, o tom de voz livre de qualquer compaixão:
— Nós vamos disparar. Se você estiver lá no meio, vai morrer junto.
— Quanto tempo eu tenho para tirar o Garth de lá? — perguntou Kaelen, os músculos do corpo tensionados como mola.
— Três minutos — respondeu Cael, seco.
Sem perder mais nenhum segundo, os dois nobres fecharam os olhos e começaram a canalizar a mana acumulada. As auras de vento e fogo voltaram a se erguer, ruidosas e instáveis. O tempo começara a correr.
Kaelen entendeu a cruel matemática daquele momento. Se Garth caísse, a vila e todos os seus moradores seriam os próximos. Os magos estavam dispostos a tudo por uma única chance de evitar a destruição completa do lugar e conter o massacre.
Disparando contra a terra batida, Kaelen correu em direção ao cerco.
Para seus olhos treinados e atentos, o tempo pareceu desacelerar. Ele via a dança macabra em câmera lenta: cada investida do líder goblin contra o exausto veterano. Garth desviava por milímetros, mas cada esquiva deixava um novo corte raso na pele. A criatura não estava tentando vencer rápido; ela estava brincando com sua presa.
Sem força no braço esquerdo, Garth mal conseguia sustentar o peso da espada longa. Ainda assim, o velho mestre recusou-se a recuar. Com os dentes cravados no lábio sangrento, manteve a lâmina erguida na direção da fera.
O goblin avançou em um bote brutal. Com o machado direito, golpeou a espada de Garth, arremessando a lâmina humana contra a poeira. Com o machado esquerdo, desferiu um corte diagonal rápido na face do veterano, rasgando-lhe a pele logo acima do olho — uma ferida espelhada e cruel, idêntica àquela que a fera carregara por quinze anos.
Garth caiu pesado sobre os dois joelhos. O braço sem força pendeu ao lado do corpo, inútil.
O líder goblin parou a um passo do guerreiro caído. Ergueu os dois machados banhados em sangue para o céu e soltou um urro ensurdecedor de vitória, imediatamente acompanhado pelo coro gutural de dezenas de goblins ao redor.
Foi tudo rápido demais. Não havia se passado sequer um minuto.
A metros dali, a visão de Cael ficou subitamente turva. Ele calculara três minutos de suporte, mas no segundo quarenta e cinco o esgotamento de sua reserva mágica atingiu o limite. O brilho prateado do vento estalou e desfez-se no ar.
Nesse mesmo instante, o choque da realidade atingiu o Mago de Vento: mesmo com a potência máxima, eles nunca conseguiriam varrer todos aqueles goblins com um único golpe. Eles estavam completamente acabados.
Na Academia, a ordem de marcha era clara: uma missão simples para conter um bando de, no máximo, vinte goblins em uma vila periférica. Como tudo saíra tanto do controle? Como o Mago Chefe Draven pudera cometer um erro de cálculo tão grotesco no relatório tático?
Sem a amplificação de vento para estabilizar a mana, a magia de Valen falhou logo em seguida. As chamas que se acumulavam em suas mãos apagaram-se em uma nuvem de fumaça preta. O Mago de Fogo caiu de joelhos, arfando, incapaz de sustentar a conjuração por mais tempo.