O urro do líder goblin ecoou pela clareira, acompanhado pelo grito histérico da horda. Na terra batida, Garth mantinha a cabeça baixa, a respiração entrecortada e o sangue quente escorrendo pelo corte recém-marcado no rosto. O machado do monstro começou sua trajetória descendente, cortando o ar num golpe brutal destinado a decepar a cabeça do veterano.
Kaelen avançava em desespero, mas acabou tropeçando na terra acidentada. Ao olhar rapidamente para trás, viu a cena lamentável: um dos magos estava caído sem forças na poeira, enquanto o outro permanecia de joelhos, encarando as próprias mãos vazias com os olhos arregalados. Não havia ajuda vindo dali.
Ao voltar o olhar para a frente, o peito de Kaelen congelou. O machado do monstro já estava descendo rumo ao pescoço de Garth.
Então, o céu se partiu.
Antes que a lâmina de ferro tocasse a pele do veterano, uma coluna colossal de fogo e mana descendente despencou do alto, caindo diretamente sobre Garth e o centro absoluto da horda.
A onda de choque foi devastadora. Valen e Cael arregalaram os olhos, paralisados pelo terror e pela incredulidade. O calor abrasador rugiu tão forte que a pressão do ar empurrou os dois recrutas para trás. Não era uma magia de suporte ou um feitiço comum de linha de frente; era uma manifestação puramente destrutiva de um nível que eles jamais haviam testemunhado na Academia.
A incineragem foi instantânea. O líder goblin e todos os monstros no cerco imediato desapareceram no centro da coluna de chamas. Os poucos goblins que estavam na periferia do cerco foram envolvidos pela rajada térmica; correram por apenas alguns segundos enquanto seus corpos eram consumidos vivos, emitindo gritos agônicos até tombarem como brasas negras sobre a terra.
E no epicentro daquele massacre infernal estava Garth. Quando o fogo finalmente se dissipou, o que restou no centro da cratera foi apenas cinza densa e poeira escaldante. Não havia vestígios, não havia rastros. O velho mestre simplesmente deixara de existir.
Lábios trêmulos e pálidos, Cael e Valen lentamente ergueram a cabeça rumo ao céu, buscando a origem daquele poder avassalador.
Pairando sobre as nuvens de fumaça, uma carruagem mágica ornamentada flutuava em silêncio. Sobre a plataforma frontal, uma figura imponente observava o campo de batalha com absoluto desdém.
O homem vestia um manto negro decorado com bordados em fio de ouro e ombreiras rígidas de nobreza militar. Em sua mão direita, sustentava um cajado arcanum de ébano, coroado por um cristal elemental em chamas vivas — um artefato cujo valor superava o orçamento inteiro de várias vilas como Oakhaven. Seu olhar era gelado, desprovido de qualquer traço de humanidade.
Aquele era o Mago Chefe Draven.
Caído na terra batida pela onda de choque, Kaelen instintivamente ergueu os braços, cruzando-os sobre o rosto para se proteger.
Por estar a poucos metros do epicentro da explosão, o impacto foi avassalador. O ar quente e denso queimou seus pulmões por um segundo, enquanto uma onda de calor escaldante atingia a pele desprotegida de seus antebraços e da face. A sensação era de ter sido empurrado para a boca de uma fogueira gigantesca. A poeira e o estalar da fumaça cobriram seu corpo, e o cheiro de carne queimada tomou conta do ambiente.
Com os braços ainda trêmulos e a pele ardendo, ele abaixou lentamente a guarda. A poeira que baixava revelou apenas a cratera negra onde, um segundo atrás, Garth enfrentava o líder goblin.
Nada restou. Apenas cinzas flutuando no ar sufocante.
Valen e Cael sabiam que os Magos Chefes possuíam um poder devastador, algo ensinado desde o primeiro dia nas Academias de Solaria. Mas testemunhar aquela força bruta de perto — ver a terra derreter e uma horda inteira ser pulverizada em um piscar de olhos — era uma experiência que transcendia qualquer teoria. Era um abismo aterrorizante entre o que eles eram e o que aquela figura representava.
Ruidosamente, as rodas banhadas em runas da carruagem mágica tocaram a terra batida. A condução pousou sem produzir um único solavanco.
Draven desembarcou. Sem esboçar qualquer reação, o Mago Chefe caminhou na direção dos dois recrutas. Seus passos eram lentos, firmes e ecoavam com uma autoridade sufocante sobre a poeira quente.
Engolindo a dor e o pavor, Valen e Cael se esforçaram ao máximo para se colocarem de pé. O corpo de ambos tremia pelo esgotamento de mana.
Draven parou a dois passos dos jovens. Seu olhar gelado e cirúrgico analisou cada detalhe: a postura vacilante, as roupas destruídas, o sangue e a poeira impregnados na pele nobre.
A opressão daquele silêncio durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade. Os recrutas sabiam exatamente o que aquele olhar significava. Era a mais pura e fria desaprovação.
Sem alterar o tom de voz, desprovido de qualquer calor humano ou curiosidade, Draven abriu a boca e pronunciou uma única palavra:
— Relatório.
Valen vacilou, desviando o olhar para o chão em pura vergonha e pavor. Cael, no entanto, deu um passo à frente, forçando a voz firme a sair apesar dos dentes cerrados pela dor na ferida.
— O relatório tático fornecido pela Academia continha um erro grave, Mago Chefe — começou Cael, com a respiração curta. — A estimativa inicial era de uma infestação secundária de vinte alvos ou menos. No entanto, fomos emboscados por uma horda de pelo menos uma centena de goblins.
Draven não piscou. Cael prosseguiu, ajustando a postura militar:
— O líder da vila, um guerreiro chamado Garth, usou seu conhecimento do terreno para isolar o bando principal. Planejamos usar a distração dele para canalizar um feitiço de eliminação massiva no centro do agrupamento inimigo. Porém... nossas reservas de mana atingiram o limite crítico antes da conclusão da fórmula de suporte. Não fomos capazes de desferir o golpe.
Draven ergueu levemente o queixo. O olhar de desdém fixou-se no Mago de Vento.
— Garth? O chefe da vila? — a voz de Draven soou suave, gelada e desprovida de qualquer inflexão. — Ah, sim. Aquele velho guerreiro que já estava praticamente morto quando cheguei e executei minha magia. Ele cumpriu sua função. Morreu com a honra que cabe a um guerreiro: servindo de escudo na linha de frente para que a magia do reino pudesse triunfar.
As palavras do Mago Chefe ecoaram como estaladas de chicote pelo ar.
A poucos metros dali, a poeira e o calor nem sequer haviam baixado. Kaelen, com os braços queimados pela onda de choque e as lágrimas cortando o rastro de cinza em seu rosto, colocou-se de pé. O desespero e a raiva cega tomaram conta de cada fibra de seu corpo.
Ignorando a dor, as queimaduras e a presença aterradora da carruagem nobre, o garoto disparou. Ele correu na direção dos magos com os dentes cravados no lábio sangrento, os olhos fixos na figura de manto negro que acabara de reduzir a vida de seu pai de criação a uma "honra de isca".
A fúria cega impulsionava os passos de Kaelen. Ele correu em direção a Draven empunhando a única adaga de caça que lhe restava — a outra havia sido arremessada para longe pela onda de choque da explosão. As lágrimas cortavam a fuligem em seu rosto queimado, mas seus olhos estavam fixos na figura de manto negro.
No meio da corrida, sem perceber consciente do que fazia, Kaelen canalizou instintivamente uma densa corrente de mana de vento sob as solas dos pés.
O ar comprimiu-se e disparou.
Kaelen projetou-se para cima num salto impossível para qualquer humano comum, cortando a nuvem de fumaça e pairando no ar por um segundo eterno, com a lâmina de ferro erguida para degolar o Mago Chefe.
Draven notou a ameaça. Seus olhos frios moveram-se levemente para o lado, acompanhando a trajetória do garoto no ar.
Porém, o Mago Chefe não se mexeu. Não ergueu o cajado, não deu um passo para trás e sequer piscou. Sua expressão permaneceu gélida, tratando o ataque desesperado do jovem como nada mais do que o vôo fútil de um inseto.
No interior da carruagem mágica, uma nova figura emergiu silenciosamente. Suas vestes traziam o mesmo corte aristocrático do uniforme de Draven, mas com detalhes bordados em um tom de verde-oliva e prateado.
Cael arregalou os olhos. Em sua mente, as peças do que acabara de acontecer se encaixaram instantaneamente. O feitiço que incinerou Garth e a horda não fora um ataque comum; a coluna de fogo descera com uma velocidade e uma pressão atmosférica colossais. Aquele golpe devastador fora amplificado por magia de vento.
Ao lado de Draven, estava o Mago Chefe de Vento: Zephyr.
Enquanto Kaelen se projetava pelo ar com sua adaga, Zephyr sequer alterou a postura. Ele apenas ergueu levemente a mão direita, com os dedos entreabertos em um gesto preguiçoso.
O ar ao redor de Kaelen congelou instantaneamente.
O garoto parou no meio do salto, ficando suspenso a dois metros do chão como se tivesse sido atingido por uma parede invisível. A adaga escapou de suas mãos, caindo na poeira. Em seguida, Kaelen levou as duas mãos ao próprio pescoço, o rosto assumindo um tom roxo enquanto seus olhos se arregalavam em puro pavor.
Ele não conseguia puxar o ar. Nem um único resquício de ar.
Cael assistia à cena paralisado pelo choque. Aquilo não era um feitiço comum de impacto ou repulsão. Zephyr havia isolado o vácuo ao redor da cabeça de Kaelen, drenando absolutamente todo o oxigênio daquela pequena esfera de espaço. Era a técnica do Anel de Vácuo, um feitiço de nível Mestre que exigia um controle de área e uma precisão microscópica quase inalcançáveis — manipular o elemento não para criar uma tempestade, mas para apagar a própria vida em silêncio.
Mesmo no topo da hierarquia das Academias, entre os próprios Magos Chefes, contavam-se nos dedos os que possuíam uma sintonia fina tão absurda sobre o elemento. Era uma magia que ultrapassava os limites da arte arcana tradicional e beirava a perversidade pura — vista por muitos como uma técnica proibida, um método silencioso de tortura concebido não para derrotar um inimigo em combate, mas para infligir o desespero mais profundo. A vítima não morria por sangramento ou impacto; morria sentindo o próprio peito colapsar em agonia, impotente, sem conseguir sequer soltar um último grito de socorro.
Debatendo-se no ar sem ter onde apoiar os pés, Kaelen sentia os pulmões queimarem como se estivessem cheios de brasas. As lágrimas de dor e fúria secavam instantaneamente em seu rosto, enquanto sua visão começava a se apagar em sombras.