De fato, a semana começou bem diferente do habitual. Veja bem, todos os dias, quando a manhã começa, eu acordo e faço todas as minhas preparações. Essas coisas que vocês humanos também costumam fazer, sabe? Escovar os dentes, arrumar a cama, tomar um bom banho e um bom café da manhã. Ah, o café da manhã! Minha refeição favorita do dia. Hoje por exemplo foram quatro torradas com manteiga, uma com geleia de morango e um copo duplo de café com leite, sem açúcar. Nada melhor para começar o dia. Depois, sigo para iniciar meu turno no nosso centro de distribuição de passagens diárias, ou como preferimos chamar, o CDPD.
Cheguei cinco minutinhos mais cedo, como já é de meu costume, para ter um tempo para analisar minha lista do dia, me programar e ver por onde vou andar hoje. Ora, eu sei, é difícil para vocês, e acaba se tornando difícil para mim também, entende? É um trabalho ingrato, mas tenho que ver o lado bom disso tudo, certo? Digo, me anima um pouco mais começar o dia já sabendo se vou passar pelas belas paisagens da Itália, ou talvez pelas movimentadas ruas de Nova Iorque ou, quem sabe, acabar parando perto das gigantes pirâmides do Egito. Enfim, são essas coisas deixam o trabalho mais leve, como deve ser. Não que eu não goste do que faço é claro, mas as vezes pode ser um pouco... difícil.
Ao chegar no salão principal, uma sala ampla com diversas mesinhas pequenas de madeira velha e muita gente ocupada demais para reparar em minha presença, fui direto até nosso encarregado, Eugene. Ele estava, como sempre, sentado no mesmo banquinho surrado, atrás da única mesa enorme do ambiente, uma mesa de madeira rústica que destoa do restante das pequenas mesas antigas. Talvez, se não fosse pelo radinho exageradamente alto tocando músicas exageradamente velhas, ele passaria despercebido atrás das pilhas e mais pilhas de papéis preenchidos com nomes, horários e listas que estavam sendo cuidadosamente organizados. Eu sabia que, em poucos minutos, uma dessas folhas seria entregue a mim para iniciar minha jornada do dia.
— Bom dia, Eugene! A pilha tá aumentando cada dia mais, hein? Aposto que, em poucos meses, se mantiver esse ritmo, vai precisar de uma mesa maior... Mas e aí, já saiu a minha lista?
— Opa! Dia, Fred! Nem me fale cara, está ficando cada dia mais complicado bater a meta... Mas é, sua lista já saiu, e você teve sorte. Sua carga está bem menor do que de costume, o que é até estranho, já que estamos com mais e mais papéis por aqui — respondeu ele, abaixando um pouco o volume do rádio. — Quarenta e duas passagens e você está liberado! Mas não posso te entregar ainda, parece que tem novidade para você. Veio do departamento superior, sabe como eles são...
Certo... uma novidade. Tá aí uma coisa que achei que não teria mais depois de tanto tempo de serviço.
Bem, já que estamos aqui parados esperando, vamos aproveitar esse tempinho para que eu possa me apresentar um pouco melhor, mas, principalmente, apresentar o que faço. Eu sou o que vocês conhecem como Morte e a minha função é acompanhar e auxiliar no processo da passagem. Sim, isso mesmo, A Morte. Mas não, não se assuste! Não sou uma entidade super maligna nem nada do tipo. Apenas faço parte de mais um dos vários departamentos que pertencem ao vasto reino do além. Estamos aqui para cuidar e manter a ordem nas coisas por aí embaixo. Nascimentos, mortes, dia, noite, o clima... tudo é a gente que controla, e bem, no fim, meu trabalho é apenas um trabalho como qualquer outro.
O CDPD cresceu muito nos últimos séculos, graças à população da Terra, que também não para de crescer, e, com isso, acabamos ficando sobrecarregados. No começo, quando fui designado há mais ou menos quinhentos anos, éramos apenas eu e Eugene. Hoje já somos quase vinte e, de tempos em tempos, uma carinha nova aparece por aqui.
Digo "carinha" para facilitar a compreensão, pois, no nosso mundo, não temos exatamente um rosto. Somos espectros e somos vistos da maneira que vocês esperam que a gente seja. Para alguns, somos um velho amigo esperado há tempos. Para outros, somos piores do que seu pior inimigo. Tudo depende. E ainda existem aqueles, que são a grande maioria na verdade, que nem sequer nos notam até o último momento.
E, antes que me perguntem, por que acredite, eu escuto muito essa pergunta e já adianto que não, eu não sei o que há do outro lado. Não sei para onde vocês vão, ou o que acontece depois. Meu trabalho apenas é levá-los até Pedro, nosso porteiro dos mundos, e cabe a ele decidir o destino final de cada um de vocês. Assim que chegamos naquele corredor final, nos separamos. E, dali em diante, já não é mais a minha parte.
Agora, voltando para Eugene e sua mesa exageradamente grande, descobri rapidamente qual era a minha “novidade”, e admito: me surpreendeu bastante.
— Fred, vem cá por favor. A ordem é para que você acompanhe e treine esse nosso amiguinho aqui — disse Eugene, apontando para uma figura que apareceu sem eu notar ao meu lado. — Ele começou hoje como estagiário, pelo que entendi.
— Como assim, estagiário? Pelo que sei, não temos treinamento por aqui, temos? Deve haver algum engano. Todos que entram já chegam sabendo o que fazer...
— É, mas é o que diz aqui. Não tem muitas explicações, veja. — Eugene me entregou um pequeno papel que, convenhamos, não tinha um aspecto muito oficial. “Você irá acompanhar o Fred (CDPD – registro 02) hoje. Ass.: M.”
— Mas aqui não diz nada sobre eu treiná-lo, Eugene. — Tentei esconder minha insatisfação com minha tarefa, mas acho que o tom levemente alterado da minha voz me entregou. — E quem é esse tal de M? Certeza que isso veio do departamento superior mesmo? Não é pegadinha do Pedro ou do pessoal do nascimento? Eles adoram fazer essas coisas... lembra do caso das fruteiras? Foram quase três dias até percebemos que era coisa deles.
— Não, dessa vez é sério. O senhor M. quase nunca entra em contato com nosso departamento, então certamente é algo importante. Na verdade, que eu me lembre, é a primeira vez que recebo algo assinado diretamente por ele. Enfim, vocês deveriam partir logo... já estão dois minutos atrasados. E se o departamento superior descobrir... bem, você sabe como são.
É Eugene, eu sei como eles são...
E, com isso, aqui estou eu, saindo para meu turno com um estagiário me acompanhando de perto e sem ter a menor noção do que fazer com ele. Segui para o elevador que nos levaria até a Terra, é um elevador interconectado entre nosso reino e o mundo de vocês. Como ele funciona eu não sei dizer, mas sei que facilita muito a nossa vida para chegarmos até vocês.
Sempre gostei muito do meu trabalho e, mesmo depois de tanto tempo, ainda gosto. Mas gosto ainda mais de executá-lo sozinho. Todo o processo costuma ser um momento delicado. Estando sozinho, fica mais fácil me conectar com a pessoa, entender seus dilemas e anseios naquele momento e tentar fazer com que tudo aconteça da melhor forma possível. Simplesmente não sei como vou fazer isso com um estagiário me acompanhando.
Enquanto revisava minha lista (a primeira passagem, seria do dia seria no México) o elevador chegou. Ele segurou a porta para mim, não tinha espera pois já estávamos atrasados e, ao entrarmos, um silêncio estranho e pesado preencheu o espaço.
Foi então que, pela primeira vez, ele olhou diretamente para mim e disse:
— Então... como tudo começou?