— Como assim? Como tudo o quê começou?
— Tudo isso... Digo, do seu trabalho, do que você faz... Como você começou nessa área de passagens. — Ele me olhou com firmeza, demostrando um interesse genuíno. Não parecia uma daquelas perguntas feitas só para puxar assunto — ele realmente queria saber mais sobre.
— Calma lá, vamos com calma, tudo no seu tempo. Como é mesmo seu nome? Não posso ficar te chamando de “estagiário” o dia todo, né não?
Ele hesitou por um momento, prestes a responder, mas a porta do elevador se abriu. Havíamos chegado ao nosso primeiro destino. Fomos recebidos por um vento seco e quente, que gruda na pele como poeira. Estávamos em uma propriedade de uma zona rural qualquer no interior do México, no meio do nada. À nossa frente, uma longa plantação de milho se estendia até tocar o horizonte, e bem ao fundo, um homem, nosso homem, manobrava um trator antigo com certa dificuldade.
— Texas? — arriscou Lúcio.
— Não... interior do México. — Consultei a lista que Eugene havia me entregue. — Jonas Santana, quarenta e sete anos. Trabalha sozinho desde que o pai se foi. Planta milho, cuida da mãe já bem idosa, de três dúzias de galinhas e de um cachorro chamado Ramón, seu melhor amigo e fiel escudeiro, mas que, por acaso do destino, hoje não o seguiu até o campo.
Começamos a andar pelo caminho que cortava a plantação, a cada passo ficávamos mais perto de Jonas, e a cada passo o calor nos esquentava cada vez mais a nuca.
— Desculpe não ter me apresentado lá em cima, foi tudo tão corrido. Meu nome é Lúcio, mas pode ser estagiário ainda, se preferir, você é o chefe.
— Que bobagem, claro que não! Prazer, Lúcio, eu sou Fred, como você já sabe. Espero que aprenda bastante comigo hoje. Não sei exatamente como vou te ensinar, mas... vou tentar fazer o meu melhor. Agora, primeira lição... só observe, tá? Qualquer dúvida pode me perguntar depois que tudo acabar.
Eu não queria correr riscos logo de cara, era a primeira passagem do dia, e eu não tinha noção do quanto Lúcio sabia, ou não sabia. Se tem uma coisa que aprendi nesses séculos, é que cada passagem conta — e as primeiras do dia dizem muito sobre como será o resto dele. Começar bem, ajuda a manter bem as coisas.
Ele assentiu, e seguimos em direção ao homem do trator.
— Achei que encontraríamos alguém em casa, não no meio do mato — comentou Lúcio, franzindo a testa.
— Ah, nem todo mundo tem o luxo de uma cama para se despedir. Alguns partem no campo, outros no trânsito, outros nem percebem. Mas todos têm seu momento.
— E... o que aconteceu com ele? Ele parece bem.
— E está. Mas não por muito tempo.
Jonas, estava, como em todos os dias, tentando tirar aquele gás a mais de seu velho trator, que já deveria ter sido aposentado a muito tempo. Ele tinha acabado de “concertar” o trator que já o deixava na mão desde o verão passado, cada semana um problema diferente, muitos sinais. Mas Jonas era teimoso. Nesse dia, o cabo do acelerador já muito remendado estava instável e, ao tentar manobrar numa descida suave, forçou demais e o eixo cedeu. Um estalo seco cortou o ar, forte, rápido como um galho partindo.
O trator tombou para o lado, e Jonas tombou junto com ele. Impossibilitado de se mover com o peso do trator sob seu corpo, não havia muito que Jonas podia fazer naquele momento, nem mesmo chamar por ajuda. Centenas, talvez milhares de pés de milho estavam entre ele e o ser humano mais próximo, e nem mesmo seu fiel escudeiro estava perto para acompanhar seus últimos momentos.
Nos aproximamos calmamente. Não era preciso ter pressa. O tempo, para nós, já não seguia o ritmo do relógio. Estávamos no limiar — aquele intervalo invisível onde a vida começa a soltar as amarras do corpo.
— Certo, agora preste atenção, Lúcio. Esse tipo de passagem é mais comum do que se pensa. Acontece em um instante. Às vezes, a pessoa nem percebe que se foi. O impacto confunde, e o espírito leva segundos, às vezes minutos, para entender o que aconteceu.
— E a gente... só espera?
— Sim. Ainda é um momento da vida. O fim, mas ainda é dela. Nosso trabalho começa depois. Nunca antes. Só intervimos quando tudo já terminou. Somos instruídos a interferir o mínimo possível na vida, pois é uma parte que não nos pertence.
A poeira começou a assentar, revelando o corpo de Jonas imóvel, mas com uma expressão serena. Um leve brilho começou a se formar acima dele — uma presença translúcida que, aos poucos, se erguia até abrir os olhos.
— Ramón? — ele disse, olhando ao redor. Mas logo seus olhos cruzaram com os meus.
— Não, Jonas. Não é o Ramón.
Me aproximei, mantendo a calma no tom, e sorri com gentileza.
— Chegou a hora.
Ele hesitou. Tocou o próprio rosto, olhou para o trator tombado e então abaixou a cabeça.
— Sabia que seria um desses dias... Só não pensei que fosse hoje.
— Quase ninguém pensa. Mas você foi tranquilo. Sem dor. Foi... limpo.
Jonas assentiu. Depois olhou para trás, contemplando a plantação como se quisesse fixá-la na memória uma última vez. Então virou-se para mim de novo, com um traço de preocupação nos olhos.
— E o Ramón? — perguntou. — Ele vai... ele vai ficar bem?
Suspirei brevemente.
— Ele vai sentir sua falta, sim. Por um tempo, vai procurar seu cheiro pela casa e esperar seu retorno no portão. Mas... sua mãe vai cuidar bem dele, e ele também vai ajudar muito a sua mãe, não se preocupe. E, quando chegar a hora dele, vocês se reencontram. Isso eu posso te garantir.
Jonas fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, parecia mais leve. Me estendeu a mão. Segurei. E ele partiu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— E então? — perguntei.
— Não foi o que eu esperava... foi mais... humano, eu acho.
Sorri.
— É isso que vou tentar te mostrar. Cada passagem tem seu tempo, sua cor, seu silêncio. Não é só uma tarefa, Lúcio. É uma travessia. E a gente, bem... a gente não leva — a gente acompanha.
A luz ao nosso redor começou a mudar. O cenário do campo mexicano começou a se esvanecer como tinta lavada pela chuva. O elevador surgiu em nossa frente e logo estaríamos em outro lugar, para outra despedida.
Lúcio ainda estava em silêncio, olhando para onde Jonas estivera segundos antes. A expressão no rosto dele não era nem de tristeza nem de choque. Era algo mais próximo de... respeito.
— Ele era simples — disse, enfim.
— A maioria é. E são os mais simples que mais nos ensinam, se a gente souber prestar atenção.
O silêncio voltou, mas durou pouco. Lúcio virou-se para mim com aquele mesmo olhar insistente de antes.
— Tá... mas e você? Como começou tudo isso?
— De novo essa pergunta, rapaz?
— Ué, você desviou antes. Jogou o "qual é seu nome" e fugiu do assunto. Quero saber, entender o que você sabe. Não tinha estágio na sua época? Não tinha alguém tipo você?
Suspirei, mas com um sorriso.
— Não. Na minha época não tinha nada disso. Nenhum Fred para me dar instruções, nenhum elevador simpático, nenhum Eugene tagarela me entregando fichas, já que até ele começou também no mesmo dia que eu. Tive que aprender no susto.
— Sério? Mas como você sabia o que fazer?
— Recebi um manuscrito. Uma única página. Papel fino, com uma letra quase ilegível — parecia ter sido escrito às pressas por alguém que estava morrendo no meio do processo de escrever. Só dizia algo como:
"Você será o escolhido, não, você já é. Vá até onde for chamado. Veja, espere, acompanhe. Você saberá o que fazer."
— Só isso?
— Só isso.
— E você foi?
— Fui. Não sabia nem por onde começar. Eu tinha medo até de olhar alguém nos olhos... vai que a pessoa partia só de susto. Mas fui. E fui melhorando. Cada passagem me deixava um pouco mais preparado para a próxima.
— E você lembra da primeira?
— Lembro e esqueço de várias primeiras. Tem aquela primeira em que percebi que sabia o que estava fazendo. Aquela primeira em que senti algo parecido com compaixão. Aquela primeira em que entendi que eu também mudava, mesmo sendo quem eu sou. Mas a que me marcou mesmo foi... Galileu Galilei.
Lúcio arregalou os olhos.
— O Galileu?
— O próprio. Um senhor cabeça dura, debochado e míope. Ele já estava bem doente, na época. Cego, cansado. Mas seu quarto parecia resistir ao tempo. Havia livros empilhados, instrumentos de metal e vidro, e manuscritos rabiscados à luz de velas trêmulas. Era o caos de um gênio, perfeitamente organizado na mente de seu criador. Quando me viu, mesmo com os olhos brancos feito neblina, riu.
— Riu?
— Sim, riu. Respirava com esforço, mas riu por um bom minuto e então finalmente disse algo como “Enfim, um rosto novo. Só espero que não me peçam pra renegar a morte também.” — Sorri ao lembrar. — E então comentou que tinha visto demais durante a vida. Disse que olhar para o céu era o mesmo que cutucar Deus com um graveto. E que, apesar de tudo, valeu a pena cada bronca que levou por isso.
— Ele sabia que você era... você?
— Sabia. Aqueles olhos não viam mais o mundo, mas viam muito além. Disse que me esperava desde a Inquisição. E pediu pra ser enterrado longe da Igreja. Eu disse que tentaria. — Dei de ombros. — Não consegui é claro. Colocaram ele lá dentro mesmo, com todas as pompas. Mas pelo menos consegui atrasar um pouco. Achei digno.
Lúcio riu, balançando a cabeça.
— É estranho pensar que você começou... meio perdido, como eu estou.
— Todo mundo começa assim, Lúcio. Até a Morte precisa aprender. A diferença é que, no nosso caso, a evolução é lenta. Muito lenta. Mas acontece.
Ele ficou em silêncio, absorvendo as palavras.
O elevador tremeu suavemente — estávamos chegando ao nosso próximo destino.
— Agora vamos. Temos uma senhora para visitar.
— Uma senhora?
— Sim. No sul do Brasil. O nome dela é Olívia.
— Vai ser tranquilo?
— Espero que sim. Ela merece.
O elevador parou, as portas começaram a se abrir, e a luz da tarde ensolarada nos recebeu do outro lado.