Prólogo
A respiração de Alan é um ritmo constante na quietude do quarto. Lenta, profunda, inconsciente. Clair observa, analisa. Cada inspiração, uma pequena onda no silêncio. Sua mão se move por conta própria, os dedos traçando os contornos dos cabelos castanhos dele. Um gesto gentil, uma memória muscular de um tempo em que o toque era simples.
Ele é a única cor neste quarto, neste mundo cinza. Um azul pálido e frágil contra um universo de cinza.
A mão dela desliza para baixo, lenta, predatória. Para no vale de seu pescoço. Os dedos se abrem, pairando sobre a pele quente, o pulso batendo sob a superfície.
Tão fácil...
A pressão teria que ser exata, consistente. Haveria uma luta, claro. Mas breve.
Eu sentiria algo?
É então que a cor vacila. O azul frágil se apaga, substituído por um pulso de vermelho vivo em sua garganta, tão intenso que cega.
Clair recua como se tivesse tocado em brasa, a mão puxada de volta contra seu próprio peito. O coração dispara, um pássaro em pânico. Ela aperta a mão traiçoeira com a outra, a sensação não era de perigo vindo dele.
O perigo era ela.
Capítulo 1: O Prisma
SEIS MESES ANTES
Clair acorda com o cheiro de café fresco, uma promessa que a puxa suavemente do sono. No apartamento limpo e meticulosamente organizado, a luz da manhã entra pela janela da cozinha, pintando o chão de branco. Ela encontra Alan de costas, já vestido com seu uniforme de chef, movendo-se com uma economia de gestos que transforma a simples preparação de café em uma arte.
— Sabia que você ia acordar — diz ele, sem se virar. — Seu sexto sentido para cafeína é infalível.
Ela o abraça por trás, apoiando o queixo em seu ombro e inalando o cheiro dele misturado com o do café.
— Meu sexto sentido para chefs talentosos é ainda melhor.
Alan se vira, o sorriso em seu rosto é a coisa mais genuína que ela conhece. Ele a beija, um toque que não é urgente, mas cheio de história e segurança.
— Só por isso, você ganha a primeira xícara. Mas não se acostume.
Enquanto saboreiam o café, sentados à pequena mesa da cozinha, Clair observa a forma como o sol da manhã ilumina a poeira dançando no ar.
— O Sr. Henderson apareceu ontem no final do dia — comenta ela, o tom casual.
— Ah, coitado. Como ele está?
— Exatamente como estava há um mês — ela dá um gole no café. — Apegado àquela casa como se fosse um mausoléu. Dei a ele um livro sobre jardinagem para mantê-lo ocupado.
— Isso foi legal da sua parte, Clair.
— É uma solução temporária. O que ele precisa é de um bom corretor de imóveis e de um terapeuta, não de um livro sobre rosas. Mas as pessoas preferem se afogar em sentimentalismo a tomar uma decisão lógica.
Alan sorri levemente, um gesto familiar.
— Você e sua lógica. Talvez o sentimentalismo seja tudo o que ele tem agora.
— Talvez. E a Amanda quase chorou com a "história de amor". Disse que era "romântico".
Clair revira os olhos sutilmente, um gesto que só faz na privacidade de sua casa.
— Ela é uma garota doce — diz Alan. — Vê o mundo de uma forma mais... simples.
— Simples é uma forma gentil de dizer isso. Ingênua seria mais preciso.
***
Caminhando para o trabalho, Clair se permite um momento para apreciar a manhã. O céu tem aquele azul profundo e claro de outono, e as folhas das árvores do parque variam do amarelo-ouro ao vermelho-ferrugem.
As cores são tão vivas, tão nítidas. Ela sempre gostou de como o mundo parecia mais definido nesta época do ano.
Na Padaria Doce Pão, o cheiro de açúcar e fermento a envolve como um abraço. A Sra. Almeida, a dona, a cumprimenta com um aceno de cabeça.
— Bom dia, Clair. A torta de limão para a sua menina?
— Exatamente, Sofia. A favorita dela.
Enquanto espera, um homem de meia-idade, com o rosto vermelho de impaciência, eleva a voz para a jovem atendente no balcão.
— Pela terceira vez, eu pedi o croissant sem amêndoas! Você é surda ou só incompetente?
A garota recua, os olhos marejados.
— Desculpe, senhor, eu vou trocar...
Clair se vira lentamente. Sua voz, quando fala, é calma, mas corta o murmúrio do lugar como vidro.
— Com licença. Acho que o senhor se enganou. Esta é uma padaria, não o palco para o seu melodrama matinal.
O homem a encara, pego de surpresa.
— E quem é você para se meter?
Um sorriso fino, sem calor, toca os lábios de Clair.
— Alguém que valoriza a competência. E esta moça é extremamente competente, o que me leva a crer que o erro talvez não tenha se originado deste lado do balcão. A impaciência costuma ser prima da desatenção.
A lógica fria e a exposição pública o desarmam. Ele fica boquiaberto por um segundo, o rosto passando de vermelho para um tom manchado de roxo. Resmunga algo ininteligível, joga o dinheiro no balcão e sai batendo a porta.
Clair se vira para a Sra. Almeida e a atendente, a máscara de boa vizinha deslizando de volta ao lugar.
— Peço desculpas. Fui um pouco ríspida. Detesto grosseria gratuita.
— Ríspida? Você foi magnífica, Clair! Obrigada — diz a Sra. Almeida, entregando a caixa com a torta. A jovem atendente também agradeceu, ainda trêmula, mas com um olhar e sorriso de pura gratidão.
***
A campainha da porta da "Toca dos Livros" soa suavemente quando Clair entra. O cheiro de papel e madeira polida é o seu perfume preferido. O silêncio é preenchido apenas pelo farfalhar de páginas. Ordem.
Amanda já está lá, sua funcionária de confiança que sempre abre a loja, o cabelo loiro preso em um coque bagunçado, concentrada em organizar uma pilha de novidades.
— Bom dia, Amanda. Trouxe um suborno para garantir que o trabalho hoje seja doce.
Amanda se vira e seus olhos se iluminam ao ver a caixa.
— Torta de limão! Clair, você não precisava! Você é a melhor!
O dia transcorre em seu ritmo familiar.
Ao final da tarde, a luz dourada entra pelas janelas, alongando as sombras das estantes. A loja está vazia.
— Pode ir, Amanda. Já deu o seu horário.
— Tem certeza? Ainda falta essa estante!
— Tenho certeza absoluta — diz Clair, com um sorriso gentil. — Pode deixar que eu termino, vai logo ou vai se atrasar pra faculdade.
Amanda pega sua bolsa e vai até a porta, hesita e volta.
— Clair, posso te perguntar uma coisa rápida?
— Claro.
— Se um dia eu precisasse de ajuda… tipo, ajuda de verdade… você me ouviria sem julgar?
Clair sorri, um sorriso caloroso.
— Eu já julguei o mundo inteiro hoje. Você está segura comigo.
Amanda ri, aliviada.
— Obrigada Clair.
O pedido de socorro passou despercebido.
Clair gira a chave na fechadura, o som metálico ecoando no silêncio. A livraria, seu reino, agora está vazia. Ela está sozinha, cercada por sua ordem. O silêncio a envolve, reconfortante como sempre. Ela olha para fora, para as luzes da rua que começam a se acender, pintando o asfalto molhado com tons de laranja e branco. Um último olhar para as cores vibrantes da cidade antes de se entregar à quietude de sua fortaleza de papel.