Capítulo 3: O Vazio
O frio foi a primeira coisa que a trouxe de volta. Um frio cortante que se infiltrava em sua pele nua, vindo do chão de cascalho sob ela. Depois veio a dor — uma sinfonia dissonante de contusões latejantes, cortes ardentes e uma dor profunda e oca em seu âmago. Clair abriu os olhos. Acima, um céu sem estrelas, uma vasta escuridão indiferente. Estava sozinha.
Ela se sentou lentamente, cada movimento uma agonia. O mundo estava silencioso, exceto pelo som do vento em árvores distantes. Eles a haviam deixado como lixo na beira de uma estrada que não levava a lugar nenhum. A humilhação era um gosto amargo em sua boca, mais forte que o de sangue.
Um par de luzes surgiu na distância, crescendo firmemente. Por um instante, o pânico ameaçou romper a névoa em sua mente. Ele voltou. Ela ficou imóvel, um animal congelado no brilho dos faróis. Mas o veículo era um caminhão, e ele diminuiu a velocidade, parando ao lado dela.
— Moça? Você está bem? — A voz de um homem, grossa de preocupação.
Clair não respondeu. Apenas olhou para ele, seus olhos vazios. A ajuda havia chegado, mas a salvação já não era mais possível.
***
O hospital cheirava a antisséptico e a um desespero silencioso. As luzes fluorescentes no teto zumbiam, banhando tudo em uma luz branca e impiedosa que não deixava sombras. Clair estava sentada na beira da cama, vestindo uma bata azul-claro que parecia feita de papel. Uma policial, sentada em uma cadeira ao lado, anotava em um bloco.
— E você disse que não conseguiu ver o rosto dele claramente? — perguntou a oficial, a voz paciente, praticada.
— Estava escuro — respondeu Clair, seu tom de voz plano, sem inflexão. — Ele era grande. O carro era escuro. Um sedã, antigo.
Ela falava como se estivesse ditando uma lista de compras. Os fatos eram apenas dados, desconectados de qualquer emoção.
A porta do quarto se abriu com um estrondo. Alan.
Seu rosto estava devastado. Os olhos vermelhos e inchados, o cabelo desgrenhado, a dólmã de chef amassada. Ele parecia ter envelhecido dez anos desde a manhã. Ele parou por um segundo, o olhar percorrendo os hematomas visíveis no rosto e nos braços dela, e um som quebrado escapou de seus lábios.
— Clair...
Ele se moveu para a cama, ignorando a policial, e caiu de joelhos ao lado dela, pegando sua mão. A pele dele estava febril.
— Meu Deus, Clair. Eu... eu sinto muito. Eu devia ter fechado a loja. Eu devia...
A voz dele falhou, engasgada em um soluço. Ele enterrou o rosto no colo dela, seus ombros tremendo. Clair olhou para o topo da cabeça dele, para a forma como seus dedos se agarravam à sua bata. Ela não sentiu nada. Nem conforto, nem pena, nem amor. Apenas uma curiosidade distante, como se observasse uma exibição de emoção em um museu.
Ela não o tocou. Sua mão permaneceu inerte na dele.
A policial fechou seu bloco de anotações, um gesto final que parecia absurdamente banal.
— Tudo bem, Clair. Por enquanto é só. Um detetive entrará em contato nos próximos dias. Tente descansar.
A policial saiu, deixando um silêncio pesado entre Clair e Alan. Ele ainda estava ajoelhado ao lado da cama, segurando a mão inerte dela.
— Clair, por favor... diga alguma coisa — ele sussurrou, olhando para ela, o rosto molhado de lágrimas.
Ela encontrou o olhar dele. Alan. Sua âncora. Seu porto seguro.
Pela primeira vez desde que acordara naquele inferno, algo rompeu a névoa.
No rosto devastado dele, em meio ao cinza que engolia o quarto, uma cor vacilou — um azul pálido, quase inexistente. Não era o azul do céu de outono que ela lembrava, mas uma lembrança distante, uma emoção enfraquecida.
Ela piscou, tentando entender. As paredes, a luz, o lençol... tudo seguia cinza. Morto.
Só Alan tinha cor.
Um azul trêmulo, como se pudesse desaparecer a qualquer instante. Não era calor, nem vida — era apenas o eco delas.
E então Clair percebeu.
O mundo havia perdido as cores.
Tudo o que restava era ele — e aquele pequeno ponto azul, frágil demais para sobreviver num lugar que já não respirava.
— Eu preciso de um copo d'água — disse ela, a voz quase um sussurro.
Era a única necessidade que seu cérebro conseguia registrar, enquanto seus olhos permaneciam fixos na única cor que restava em seu mundo.
***
Três dias se arrastaram em um borrão de exames, perguntas e um sono sem descanso, assombrado não por pesadelos, mas por um vazio branco e silencioso. O médico deu-lhe alta com uma pilha de receitas e panfletos sobre grupos de apoio, suas palavras sobre "cura" e "processo" soando como um idioma estrangeiro.
Alan a levou para casa, tratando-a com a delicadeza de quem segura um pássaro de vidro. Ele a ajudou a se sentar no sofá, colocou um cobertor sobre seus ombros e preparou um chá. Cada gesto era carregado de um amor desesperado que não encontrava lugar para pousar.
— Você precisa descansar, meu amor — disse ele, a voz suave. — Fique em casa por algumas semanas. Eu cuido de tudo. Da loja, de você...
Clair olhou para o apartamento. Cada canto, cada livro perfeitamente alinhado, parecia zombar dela. Era um palco de uma vida que já não era sua.
— Não. Eu vou trabalhar amanhã.
— Clair, não. Você não pode. Você precisa de tempo...
— Eu preciso de ordem, Alan — ela o cortou, a voz sem emoção, mas com um fio de aço.
— E a livraria é o único lugar que tem isso. Eu vou amanhã.
Ele a encarou, vendo a determinação da mulher que ele amava, mas havia algo diferente em seus olhos. Ele não discutiu mais.
***
No dia seguinte, Clair se vestiu com cuidado. Escolheu roupas de gola alta e mangas compridas para esconder os hematomas. A maquiagem era como uma máscara para cobrir uma máscara emocional, além de esconder as olheiras e o tom pálido de sua pele.
Quando entrou na "Toca dos Livros", Amanda correu para abraçá-la, os olhos cheios de lágrimas de alívio e preocupação.
— Clair! Meu Deus! Eu fiquei tão preocupada! O Alan me contou... mais ou menos. Você está bem?
Clair aceitou o abraço, o corpo rígido. Deu leves tapinhas nas costas de Amanda — um gesto aprendido, não sentido.
Por um segundo, algo dentro dela quis retribuir o afeto, mas a sensação escorregou como areia pelos dedos.
— Estou bem, Amanda. Obrigada pela preocupação.
Ela se afastou, a distância entre elas se tornando um abismo.
No rosto de Amanda havia um azul tênue, quase dissolvido no ar — uma lembrança do que a cor um dia significou.
— Mas... você devia estar em casa! Descansando! — insistiu a garota, a voz cheia de uma sinceridade que soava estridente aos ouvidos de Clair.
— O trabalho ajuda a manter a mente ocupada — respondeu Clair, sua voz um monotrilho calmo. Era uma frase que ela tinha ouvido em algum lugar. Parecia certa.
Durante o dia, Clair trabalhou com uma eficiência assustadora. Sua máscara social estava no lugar. A empatia carismática fora substituída por uma polidez excessiva. Ela ainda recomendava livros, mas suas sugestões eram baseadas em lógica, não em intuição.