⚠️ Aviso: Este capítulo contém violência gráfica e temas perturbadores. Recomenda-se cautela.
Capítulo 5: A Presa
O vermelho era uma âncora em um oceano cinza. Uma cor tão vívida e pulsante que todo o resto do mundo parecia um fantasma desbotado. Clair o seguiu, mantendo uma distância calculada. Ela não sentia pressa. Ela aprendera que a paciência era a virtude do predador.
Ele andava de forma errática, o corpo balançando com o ritmo desordenado da embriaguez. Cada passo cambaleante era um convite — uma demonstração de vulnerabilidade. Clair o observava como um problema a ser resolvido. Analisava sua falta de consciência do ambiente, a maneira como ele se apoiava nas paredes para se equilibrar. Ineficiente. Fraco.
Ele morava em um pequeno apartamento térreo em um prédio mal cuidado. Clair esperou nas sombras do corredor oposto, o coração batendo em um ritmo controlado, não de medo, mas de antecipação. A paciência era uma virtude, mas a oportunidade era uma deusa.
Ela o ouviu antes de vê-lo, os passos pesados e arrastados, o tilintar de chaves. A porta do apartamento dele se abriu com um rangido.
Foi o momento.
Enquanto ele entrava, de costas para o corredor, Clair disparou. Três passos rápidos e silenciosos, o treinamento transformando seu corpo em um projétil. Ela atingiu a porta com o ombro, um aríete humano. A madeira pesada voou para dentro, batendo com um som oco no rosto dele.
Ele gritou, um som de surpresa e dor, tropeçando para trás, desorientado.
— O que é isso?! Que porra...
Clair não lhe deu tempo para se recuperar. Ela já estava dentro do apartamento, o espaço entre eles fechado em um piscar de olhos. Ele levantou as mãos, um gesto instintivo e inútil. A mente de Clair era um computador, processando ângulos e alvos. Ela se esquivou do seu alcance, girou sobre o pé de apoio e aplicou o golpe que havia praticado centenas de vezes no ginásio.
Seu punho, cerrado e duro, atingiu a lateral do pescoço dele, bem no nervo vago.
O corpo dele travou. O ar saiu de seus pulmões em um assobio. Os olhos se arregalaram em choque, a força o abandonando instantaneamente. Ele desabou, não como um homem, mas como um boneco de pano, a parte de trás de sua cabeça batendo com um baque surdo no chão de madeira.
Silêncio.
Clair ficou de pé sobre ele, a respiração calma, o corpo vibrando com a adrenalina da ação. O vermelho em sua visão era intenso, glorioso. Ela chutou a porta, fechando-a. O som do trinco se encaixando foi o início do verdadeiro trabalho.
***
Quando ele acordou, o mundo havia se reduzido a uma sala mal iluminada e à figura sentada à sua frente. Estava amarrado a uma cadeira de madeira, fita adesiva sobre a boca. Clair o observava do outro lado da mesa da cozinha, imóvel. Na mão dela, uma faca de combate repousava, o aço escuro absorvendo a pouca luz do ambiente. Ela estava esperando.
Os olhos dele se arregalaram, primeiro com confusão, depois com um terror primordial quando a memória pareceu alcançá-lo. Ele começou a se debater, os gritos abafados pela fita, o som gutural de puro pânico.
Clair não se moveu. Inclinou a cabeça, estudando-o.
— Você se lembra de mim? — A voz dela era calma, desprovida de raiva. Era a voz de uma pesquisadora fazendo uma pergunta a um espécime. — Eu me lembro de você. Lembro do cheiro do seu hálito. Lembro do peso do seu corpo.
Ela se levantou, contornando a mesa lentamente. Cada passo era deliberado. Ele se contorcia violentamente na cadeira, os olhos quase saltando das órbitas.
— Eu não gritei naquela noite — continuou ela, parando ao lado dele. — Percebi que seria ineficiente. Ninguém ouviria. Ninguém se importaria. É o que as pessoas não entendem sobre a desordem. Ela só prospera no silêncio.
Ela colocou a ponta da faca contra o peito dele, bem sobre o coração. A anatomia que ela estudara por meses agora era um mapa claro sob a camisa suja dele. Ele congelou, o corpo inteiro tremendo em espasmos.
— Mas o seu silêncio... — ela sussurrou, aproximando o rosto do dele. — O seu silêncio será diferente. Será ordenado.
Com a mão livre, ela segurou o ombro dele, firmando-o. Vagarosamente, ela começou a aplicar pressão. Os gritos dele se tornaram agudos e desesperados sob a mordaça.
Ela manteve os olhos fixos nos dele, frios e analíticos. Ela observou o desespero se transformar em dor, a dor em choque, o choque em um vazio que espelhava o seu. E enquanto o aço avançava, centímetro por centímetro, ela sentiu.
Uma onda de calor percorrendo seu corpo. O zumbido em sua cabeça se transformando em um rugido triunfante. O mundo cinzento explodiu em uma sinfonia de vermelho. O vermelho do sangue, o vermelho da adrenalina, o vermelho do poder absoluto. Era a sensação mais viva que tivera em meses.
A vida se esvaiu dos olhos dele, deixando para trás apenas vidro opaco. A luta cessou. O silêncio que se seguiu era limpo. Perfeito. Ordenado.
Clair se levantou, respirando fundo, a euforia recuando lentamente. Olhou para o corpo na cadeira. O vermelho vibrante já havia desaparecido. Agora, ele era apenas cinza, como o resto do mundo morto. A dose fora potente, mas curta.
O trabalho ainda não havia terminado.
Como uma leitora assídua de romances policiais, ela sabia dos erros que os amadores cometiam. Ela retirou a faca, limpando-a meticulosamente. Em seguida, começou a limpar a sala, borrifando alvejante que encontrou na dispensa, limpando cada superfície que pudesse ter tocado. Recolheu a fita, a corda. Cada ação era metódica e eficiente. Ela não estava apagando um crime. Estava restaurando a ordem.