Capítulo 7: O Eco
Os passos de Clair na noite densa e cinzenta eram silenciosos. Ela atravessava vielas e becos da cidade, o moletom preto com o capuz levantado a transformando em uma sombra viva. Ela precisava sentir aquela sensação novamente, a adrenalina. Era uma fome, um vazio, a abstinência de uma droga que era a única coisa que a fazia se sentir real. Ela precisava daquela sensação novamente. A explosão de vermelho escarlate em sua mente.
Então, ela avistou.
Um homem de terno, carregando uma pasta de couro, saiu de um prédio de escritórios e, em vez de seguir pela avenida iluminada, cortou caminho por um beco. Um atalho. Um erro.
Clair o seguiu, a distância entre eles diminuindo a cada passo silencioso. O homem era cinza, como todo o resto. Mas à medida que ela se aproximava, sua mente faminta começou a trabalhar. Um fiapo de cor, um carmesim fraco, começou a manchar a pasta que ele carregava.
Quem é você? ela pensou, a mente analítica agora a serviço de seu vício. Um contador? Lavando dinheiro para alguém perigoso? Um vendedor? Enganando pessoas inocentes?
A cada pergunta, a cada possibilidade que ela projetava sobre ele, o vermelho se intensificava. Um pulso de cor em seu pescoço, onde a artéria batia. O brilho avermelhado em seus sapatos caros.
Ou talvez um diretor corrupto e assediador, a mente dela decidiu, a fome a fez se agarrar a uma justificativa imaginada.
A história estava completa. E com ela, a cor veio. O vermelho pulsante o cobriu por inteiro, transformando-o de um estranho anônimo em um alvo, um farol de propósito no mundo monocromático dela.
Ele estava na metade do beco. Clair correu, com um passo lateral rápido que bloqueou seu caminho.
***
O ar da manhã era frio e carregado com o cheiro de gordura rançosa da lanchonete e o odor de papelão úmido do beco. As luzes duras e brancas dos refletores da perícia lavavam a cor da cena, criando sombras longas e deformadas. John Miller agachou-se ao lado do corpo, os olhos percorrendo cada detalhe da desordem ao redor. Os peritos se moviam com uma eficiência silenciosa, seus flashes fotográficos capturando o caos em explosões de luz.
Dave Chen chegou, o som de seus sapatos no asfalto quebrando a quietude.
— Identificaram? — perguntou, parando ao lado de John.
— Julian Trevis. Corretor de imóveis. Casado. — John acrescentou, a voz grave. — Ainda não consegui falar com a viúva, está muito abalada.
— Falei com o gerente da lanchonete — disse Dave. — Segundo ele, tudo normal até o fechamento. Pedi as imagens do circuito de segurança.
John ergueu o olhar para a pequena cúpula preta na esquina do beco.
— Aquela está quebrada — Dave se adiantou, percebendo o olhar do parceiro. — Já faz semanas.
John se concentrou na cena novamente. Havia uma cadeira virada, cacos de vidro, garrafas quebradas, e marcas na parede.
— Houve uma luta, sem dúvida — disse John, a voz grave. — E das feias. Mas olhe o ferimento.
Ele apontou com uma lanterna. No peito do homem, uma única mancha escura e precisa.
— É muito parecido com o do Sinclair. Tenho certeza que a autópsia vai confirmar: uma única perfuração, limpa, sem marcas de hesitação. Provavelmente uma lâmina de gume duplo, um punhal. Um golpe perfurocortante, direto ao ponto.
***
Ao final da tarde, o céu de um cinza-chumbo finalmente se rompeu. A chuva começou fina, depois engrossou, transformando-se em um temporal. John estacionou em frente à "Toca dos Livros". Desde que reencontrara Clair, algo o puxava para lá, uma força gravitacional que ele não conseguia e nem queria entender.
A campainha soou quando ele entrou, trazendo consigo o cheiro de rua molhada. Clair o olhou de trás do balcão.
— Se continuar aparecendo assim, vou achar que está me vigiando, detetive — disse ela, um traço do antigo humor afiado em sua voz.
— Apenas garantindo a segurança da minha livraria favorita — ele respondeu, com um meio sorriso.
— E o livro? — perguntou Clair, mudando de assunto com naturalidade. — Algum veredito?
— Ainda não terminei, mas você estava certa. Estou gostando. Sabe como prender a gente.
— É a intenção — disse ela, com um brilho de satisfação profissional nos olhos. — Fico feliz que a recomendação tenha sido boa.
O sorriso de John vacilou.
— Na verdade, não é bem uma visita social. Houve outro assassinato. A algumas quadras daqui.
— Estou preocupado com você, Clair. Com sua funcionária. E principalmente... — ele hesitou —...depois do que você passou.
O ar na loja mudou. O rosto de Clair não se alterou, mas a luz em seus olhos se apagou, tornando-se opaca e dura como ardósia. Seus dedos, que ajeitavam uma pilha de livros, pararam.
Ele leu o relatório? Ele está fuçando minha vida, minha humilhação. A raiva foi um pulso gelado em suas veias.
John percebeu a mudança instantaneamente.
— Desculpe. Eu não devia ter tocado no assunto. Fui indelicado.
A máscara dela voltou ao lugar com a mesma rapidez com que caiu.
— Está tudo bem. É o seu trabalho, eu entendo. E não precisa se preocupar. Eu já superei.
John reparou em seu braço definido.
— Fazendo academia?
— Por que não me avisou que era um Interrogatório? — Respondeu com sarcasmo, mas completou — Defesa pessoal... é bom manter a mente e o corpo ocupados.
— Me desculpe novamente, eu não quis...
Clair o interrompe.
— Está ficando tarde. Vou fechar a loja.
— Está chovendo muito — disse John, olhando pela vitrine onde a água escorria em rios.
— Deixe que eu te levo em casa.
— Não precisa se incomodar.
— Não é incômodo nenhum. É o caminho. Por favor.
A insistência dele a desarmou. Lutar contra isso exigiria mais energia do que ela estava disposta a gastar.
— Tudo bem então.
No carro, o silêncio era preenchido apenas pelo ritmo constante dos limpadores de para-brisa e o som da chuva no teto. Quando ele parou em frente ao prédio dela, Clair se apressou em pegar a bolsa.
— Obrigada pela...
Enquanto sua mão alcançava a maçaneta, os dedos de John tocaram a outra, que repousavam inertes em seu colo. O toque não foi possessivo, apenas um contato leve, mas para Clair, foi como um curto-circuito em sua mente.
— Se cuida, Clair — disse ele, o olhar intenso encontrando o dela. — Tome cuidado.
Ela olhou para a mão dele sobre a sua por um longo segundo, a mente em branco. Então, como se despertasse de um transe, ela puxou a mão e saiu do carro sem dizer mais nada, batendo a porta atrás de si.
Dentro do apartamento, ela trancou a porta e se recostou nela, o som do carro de John se afastando na rua. O silêncio voltou a envolvê-la. Lentamente, ela ergueu a mão que ele havia tocado. Seus dedos estavam frios. Ela os levou ao rosto, pressionando-os contra a bochecha, e fechou os olhos. A frase dele ecoava em sua mente.