Capítulo 9: A Dor
O dia na "Toca dos Livros" se arrastou sob o peso de um silêncio denso e sufocante. Clair se moveu com uma eficiência robótica, seus olhos fixos em listas de inventário, no brilho da tela do computador, em qualquer lugar que não fosse o rosto de Amanda. Cada vez que a garota tentava iniciar uma conversa, suas palavras morriam no ar frio que emanava de Clair.
Amanda, por sua vez, era um feixe de nervos. Seu riso fácil havia desaparecido, substituído por movimentos hesitantes e olhares furtivos na direção de Clair, buscando uma absolvição que nunca viria.
No meio da manhã, Clair quebrou o silêncio. Sua voz era neutra, quase casual.
— Que chaveiro fofo, Amanda. É novo?
Amanda, pega de surpresa, olhou para o molho de chaves sobre o balcão. Um pequeno gato de pelúcia cinza com olhos de botão.
— Ah, sim! Minha mãe me deu. Não é uma graça?
— É adorável — disse Clair, sua expressão ilegível. — Sabe, acho que vi um parecido numa loja de presentes aqui perto. Vou tentar comprar um no meu horário de almoço. Você se importa se eu levar o seu para comparar?
— Claro que não! — Amanda disse, aliviada com a aparente normalidade. Ela começou a destravar o anel para tirar o gatinho.
— Não precisa — interrompeu Clair, a voz suave. — É rápido. Eu levo o molho todo, sou cuidadosa. Volto em menos de uma hora.
— Tudo bem, então — Amanda sorriu, um gesto frágil, e empurrou as chaves pelo balcão. O tilintar metálico soou anormalmente alto na loja silenciosa.
Durante o almoço, Clair não foi a uma loja de presentes. Foi a um chaveiro espremido entre uma lavanderia e uma loja de consertos. O homem mal a olhou enquanto pegava o molho de chaves. O som agudo da máquina de cópia cortando o metal foi a trilha sonora de sua traição. Cinco minutos e três chaves depois, ela estava de volta à rua, o metal frio e recém-cortado pesando em seu bolso como uma sentença.
Quando voltou à livraria, ela devolveu as chaves a Amanda com um suspiro simulado.
— Não encontrei. Acho que era o último.
— Ah, que pena! — disse Amanda, genuinamente desapontada por ela. — Não se preocupe. Se eu encontrar outro, compro um de presente para você.
Clair apenas assentiu, o vazio em seu peito se aprofundando com a ironia cruel daquelas palavras.
***
À noite, a rotina se quebrou. Amanda saiu para a faculdade, lançando um "Até amanhã, Clair!" que soou mais como uma pergunta do que uma afirmação. Clair a observou ir, depois trancou a loja. Mas em vez de ir para casa, ela caminhou na direção oposta, o capuz do casaco levantado contra o vento frio da noite.
Tarde da noite, Amanda, chega em casa, bocejava enquanto procurava as chaves na bolsa.
Amanda entrou no apartamento, deixando a porta se fechar atrás de si. Nos poucos passos que deu no corredor escuro, algo maciço e pesado a atingiu na parte de trás da cabeça. Não houve grito. Apenas um baque surdo e o som de seu corpo caindo no chão.
Quando Amanda acordou, o mundo era um borrão de dor latejante e pânico sufocante. Estava em seu próprio quarto, deitada em sua própria cama. Cordas apertavam seus pulsos e tornozelos, e uma mordaça de fita adesiva arrancava sua voz. Seus olhos, arregalados de terror, focalizaram a figura parada ao pé da cama.
Clair.
Ela estava ali, imóvel, banhada pela luz amarelada do abajur. Em sua mão, o punhal parecia uma extensão escura de seu braço.
O desespero tomou conta de Amanda. Lágrimas quentes começaram a escorrer por suas têmporas, misturando-se com o cabelo. Ela se debateu, os sons que saíam de sua garganta eram gemidos de puro pavor.
Clair se aproximou, seus passos não fazendo barulho no tapete.
— Eu vi vocês — a voz dela era um sussurro que cortava o ar. — No depósito.
Ela se inclinou sobre Amanda, com uma calma terrível no rosto.
— Como você pôde? Ele era a minha única esperança. A única cor. O último pedaço de normalidade que eu tinha. E você o roubou de mim.
Clair ergueu a faca, posicionando-a sobre o peito de Amanda. Mas, pela primeira vez, sua mão a traiu. Um tremor incontrolável começou em seus dedos, subindo por seu braço. Ela segurou o cabo da faca com mais força, a outra mão se juntando à primeira, como se lutasse contra si mesma.
Amanda sacudia a cabeça, ruídos desesperados lutando contra a fita que abafava sua voz.
Seus olhos encontraram os de Amanda. Um oceano de terror e lágrimas, enquanto ruídos desesperados lutavam contra a fita que abafava sua voz. Ela viu a garota que amava torta de limão, que se emocionava com histórias de amor, que a abraçou com tanta preocupação.
Clair não conseguiu manter o olhar. Ela fechou os próprios olhos com força. Uma guerra silenciosa e violenta explodiu dentro dela — a predadora fria contra a mulher que um dia sentiu carinho.
A decisão veio como um espasmo.
Um único e rápido golpe, seguido por um grito abafado e um som úmido.
Quando Clair abriu os olhos. Viu que o vermelho vibrante de Amanda havia sumido, mas a onda de poder, a adrenalina... não veio.
Ao contrário das outras vezes, ela não sentiu nada. Nenhuma satisfação. Nenhuma ordem restaurada.
Apenas um gigantesco e retumbante vazio.
Estava terminado.
Seu olhar vagou pelo quarto, desinteressado, até que pousou em um pequeno caderno na cabeceira da cama. Um diário de couro, com uma capa de gatinhos que zombava da brutalidade da cena. Um impulso que ela não entendeu a fez estender a mão e pegá-lo.
Seus dedos, manchados e trêmulos, folhearam as páginas até as últimas anotações. A caligrafia de Amanda era redonda e apressada, as palavras se espremendo umas nas outras.
Me sinto tão culpada. Clair sempre foi tão boa pra mim, Mas eu tenho tanto medo dele. Ele me liga, aparece na faculdade... é tão insistente. Eu não sei o que fazer. Preciso superar o medo. Preciso contar tudo pra Clair.
Clair fechou o diário com um baque surdo.
Depois, fechou os olhos.
As palavras a atingiram mais forte que um soco no estômago, um erro de cálculo monumental. O mundo, que já era instável, girou violentamente, ameaçando jogá-la no abismo. A base de sua ação, a lógica de sua vingança, a pureza de sua raiva... tudo se desfez em pó.
Ela não matou uma traidora. Matou outra vítima.
Ela não restaurou a ordem. Ela executou o caos de outra pessoa.
A cor de Amanda não era o vermelho da traição. Era o vermelho do medo. O medo de Alan.
Clair abriu os olhos. O vazio não havia desaparecido; ele apenas ganhara um nome: futilidade. Ela não sabia o que pensar ou o que sentir. Sua mente, normalmente um labirinto de estratégias e análises, era agora um corredor branco e vazio. A única certeza era a necessidade primária de fugir. Fugir daquele quarto, daquele corpo, daquela verdade insuportável.
Ela enfiou o diário no bolso do casaco, a prova de seu erro colossal. Ao sair do quarto, indo pelo corredor escuro em direção à porta da frente.
Foi então que uma voz, frágil como papel de seda, veio de um dos quartos do corredor.
— Amanda, querida? Você chegou?
Clair congelou, a mão a centímetros da maçaneta. Era a avó de Amanda.
— Está tudo bem, meu anjo? Ouvi um barulho.
O silêncio se esticou, fino e tenso como um fio de navalha. Clair olhou para a porta entreaberta de onde vinha a voz. Um único segundo se passou. Um segundo em que o universo apresentou a ela uma nova escolha, uma nova complicação, um novo fio solto na tapeçaria de seu crime.
Ela ignorou.
Não houve hesitação. A predadora dentro dela, mesmo confusa e vazia, ainda sabia como sobreviver. Ela girou a maçaneta sem fazer barulho. Deslizou para fora do apartamento e puxou a porta, o clique suave da fechadura selando o ambiente como um túmulo.
Do lado de fora, no corredor silencioso do prédio, ela finalmente respirou. Mas o ar que encheu seus pulmões não trouxe alívio. Trouxe apenas o cheiro de sua própria ruína.