⚠️ Aviso: Este capítulo contém violência gráfica e temas perturbadores. Recomenda-se cautela.
Capítulo 12: Escarlate
O diário de Amanda se tornara o livro de cabeceira de Clair. Uma leitura diária, um ritual de penitência amarga. Seus dedos traçavam a caligrafia redonda, absorvendo os ecos de uma vida que ela mesma apagara. Havia trechos felizes, pequenas janelas para uma alma cheia de esperança, que a apunhalavam com sua simplicidade.
"O cinema hoje com as amigas foi demais! Quero um dia viajar o mundo, como o casal do filme."
E havia os outros trechos. As sementes do medo, as anotações que agora, tarde demais, formavam um mapa claro da verdade.
“Com Clair no hospital eu achei que ele fosse parar, mas ele continua me forçando.”
“Não sei como contar pra Clair, ela passou por uma situação terrível. Mas ele é tão bruto, tenho medo de engravidar.”
Clair fechou o diário com um clique suave. Não havia mais lágrimas. Apenas um deserto frio e cinzento dentro dela. Levantou-se e se arrumou para ir ao trabalho, se movendo pela força do hábito.
Ao girar a chave na fechadura da "Toca dos Livros", o silêncio a golpeou. Por um instante, ela imaginou Amanda ali, atrás do balcão, o rosto iluminado por um sorriso.
"Bom dia, Clair!"
A voz em sua cabeça era tão nítida que ela se virou. Mas não havia ninguém. A lembrança se desfez como fumaça, deixando para trás apenas o cheiro de papel velho e o peso da ausência.
Ela começou a organizar alguns livros, a necessidade de impor ordem ao caos físico era a única coisa que a mantinha funcional.
***
No final da tarde, John terminou o relatório indiciando Alan e pedindo sua prisão preventiva.
Em seguida decide ligar para Clair.
— Alô, John?
— Clair, onde você está? — a voz de John era urgente, contida.
— Trabalhando. Por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Escute Clair! Alan, ele é perigoso.
Nesse momento John escuta pelo telefone a campainha da livraria soar. E então, abafada pela distância, a voz de Alan.
— Clair! Preciso falar com você, o que está acontecendo?
O sangue de John gelou. Ele chegou. O predador estava no covil.
— Preciso desligar, John — a voz de Clair ainda era calma, o que para John era o sinal terrível de alguém tentando manter a compostura na frente de uma ameaça mortal.
— Não, Clair! Não desligue! Saia daí! — ele implorou, a voz agora cheia de desespero.
Clique.
A ligação caiu. O silêncio na outra ponta da linha foi a coisa mais alta que John já ouviu.
Ele se levantou da cadeira com um estrondo, o coração martelando. Ele estava em movimento antes mesmo de ter um plano claro, correndo para fora de sua sala. No caminho, ele discou o número de Dave, a voz tensa e ofegante.
— Dave, estou indo para a livraria da Clair. O Alan está lá com ela. Me encontre lá e peça reforço!
***
Na livraria, Clair havia desligado o celular.
— Por que você se afastou de mim Clair?
A voz dela era desprovida de qualquer emoção.
— Eu sei de tudo, Alan. Você e Amanda.
— Foi aquele detetive que te falou isso? Era ele no telefone? — a voz dele subiu, cheia de indignação. — É mentira, Clair! É um truque dele, ele quer nos afastar!
Ao ouvir a mentira, ao vê-lo usar John como um escudo para sua própria sujeira, algo dentro de Clair se rompeu definitivamente. Ela olhou para Alan, e a aura vermelha que antes o contornava agora o cobria por inteiro, uma mortalha escarlate. Ele não era mais um homem. Era um conceito. Uma cor.
Enquanto ele continuava a falar, despejando mais mentiras e acusações, Clair parou de processar as palavras. Sua mente se tornou um vazio focado. Ela se moveu, não para longe dele, mas em direção ao balcão, onde sua bolsa estava. Seus movimentos eram fluidos, calmos.
Ela abriu o zíper e seus dedos encontraram o cabo frio e familiar da faca de combate.
Alan estava no meio da loja, ainda no meio de uma frase, quando a viu. Quando viu a lâmina escura em sua mão. Ele parou de falar.
— Clair? O... o que é isso? Para que essa faca? Calma.
— Eu estou calma, Alan — disse ela, a voz um monotrilho aterrorizante. — Extremamente calma.
Ela deu um passo em sua direção.
O pânico finalmente atingiu os olhos dele. Ele deu um passo para trás, percebendo tarde demais que Clair estava bloqueando o caminho para a porta. Para a única saída.
Seu instinto o fez virar e correr para o fundo da loja, para o depósito. O lugar de seu crime. Foi um erro fatal.
Clair o alcançou em três passos. Não houve perseguição. Foi uma interceptação. Ela o derrubou com um golpe de ombro que o fez se desequilibrar e cair entre duas estantes de livros de suspense, que balançaram perigosamente. Antes que ele pudesse se recuperar, ela estava sobre ele, um joelho em seu peito, imobilizando-o com uma facilidade humilhante.
Ele olhou para o rosto dela, para os olhos que eram poços de um vazio gelado, e viu a morte.
— Por quê? — ela sussurrou, a pergunta pairando sobre ele como uma sentença. — Por que roubou a inocência dela?
— Ela... — ele engasgou, o desespero o fazendo recorrer à última e mais vil das mentiras.
— Ela quis! Ela me seduziu!
Clair colocou a ponta da lâmina fria contra o peito dele, bem sobre o coração.
— Chega de mentiras, Alan — disse ela, o rosto a centímetros do dele. — Você não é diferente do homem que me violentou.
— Clair me perdoe! Eu te amo!
Clair não respondeu. Não havia mais nada a ser dito. Suas palavras eram irrelevantes agora. O aperto em sua faca se tornou firme, a mão que tremera por Amanda agora era uma rocha.
Ela encontrou os olhos dele, que agora estavam cheios do mais puro e primordial terror. Ela não desviou o olhar. Não havia raiva em seu rosto, nem satisfação. Havia apenas a calma terrível de um propósito inevitável.
Então, com um único e fluido movimento, sem um pingo de hesitação, ela cravou a lâmina.
Ela o observou. Observou o choque tomar o lugar do terror, a vida se esvair de seus olhos, a cor vermelha que o envolvia pulsar uma última vez antes de se apagar em um cinza sujo.
Ela não sentiu nada. Nem o poder da primeira vez, nem o vazio da última. Apenas o fato físico do trabalho concluído. A aniquilação de uma cor. E o silêncio que se seguiu.
***
O silêncio na livraria era absoluto. Clair permaneceu sobre o corpo de Alan, a faca ainda na mão, o eco de sua ação se dissipando no nada. Ela não sentia nada. Nem poder, nem vazio, apenas uma ausência. Mas por baixo dessa ausência, uma fome antiga, a necessidade de sentir alguma coisa, começava a rugir novamente.
A campainha da porta soou, um som celestial e profano ao mesmo tempo.
John entrou, com a arma em punho, a porta se fechando suavemente atrás dele, havia acabado de escurecer, mas as luzes estavam apagadas. Ele a chamou, a voz tingida de preocupação.
— Clair? Está aí? Está tudo bem?
Seus olhos se ajustaram à penumbra da loja e encontraram a cena. As estantes reviradas. Ele acendeu a luz e viu o corpo de Alan no chão. Clair estava em pé, com a lâmina ainda ensanguentada em sua mão.
— Clair? Está tudo bem agora, pode soltar a faca.
Clair se virou para encará-lo. Ela não soltou a faca.
— John... — lágrimas começaram a rolar por seu rosto, mas seus olhos permaneciam terrivelmente vazios. — Por que você está aqui? Você não tinha que me ver assim.
A dor na voz dela não era de remorso pelo que fizera. Era por ele, por ele estar ali para testemunhar sua monstruosidade.
— Clair, vai ficar tudo bem — disse ele, dando um passo cauteloso para dentro, a arma firme. — Apenas largue a faca. Por favor.
Ela deu um passo em direção a ele. Depois outro.
— Clair! Pare! Eu não quero atirar em você!
Ela não parou. E quando a distância entre eles se tornou exata, uma medida que seu corpo conhecia por instinto, ela se moveu. Um giro de quadril, o braço estendido, um movimento preciso que interceptou o pulso dele. A arma voou de sua mão, caindo com um baque surdo em uma pilha de livros no chão.
John reagiu, tentando agarrar o braço dela, alcançar a faca. Mas era o que ela esperava. Clair usou o momentum dele, a força e o peso dele, contra ele mesmo. Desarmar e derrubar oponentes maiores era sua especialidade.
Ele caiu de costas no chão, o ar expulso de seus pulmões com um som oco. Antes que pudesse se recuperar, ela estava sobre ele, o joelho pressionando seu diafragma, a ponta da faca pairando a centímetros de seu rosto, imobilizando-o completamente.
— Não era pra ser assim, John — ela sussurrou, uma lágrima caindo em seu rosto.
— E não precisa ser, Clair — ele engasgou, lutando para respirar, os olhos fixos nos dela. — Você ainda pode parar.
— É tarde demais — a voz dela era um lamento quebrado. — Eu não consigo sentir mais nada. Eu me tornei um monstro.
Ele olhou para ela, para a mulher que ele conhecia por trás da predadora. Ignorou a faca, ignorou o perigo, e falou diretamente com o último resquício de humanidade que ele sabia que ainda estava lá.
— Monstro? não Clair, você é uma mulher intensa e determinada, mas está confusa, com medo, medo de si mesma. Me deixe te ajudar. Sei que ai dentro está a minha Clair de sempre, que me desafiava, que me instigava, que eu amo!
As palavras acertaram Clair direto em seu coração, ela fechou os olhos e soltou um grito, um grito de uma dor que estava contida a muito tempo.
Quando ela abriu os olhos, foi uma explosão de cores. O azul nos olhos de John se aprofundou, tornando-se um oceano. As capas dos livros nas prateleiras explodiram em vermelhos, amarelos e verdes vibrantes. A madeira das estantes ganhou um tom rico e quente. O mundo, seu mundo cinzento e morto, ganhou vida novamente, uma sinfonia de cores tão avassaladora que a deixou sem fôlego.
Foi então que o som seco de um tiro rompeu o ar.
O mundo desacelerou.
— Não! Clair! — O grito de desespero de John foi a primeira coisa que ela ouviu.
Depois, outra voz, mais distante.
— John! Você está bem?
A dor veio em seguida, uma pontada quente e aguda em seu peito. Ela piscou, o peso de seu corpo a fazendo cair para o lado, para fora de John. Mas a dor era secundária. A beleza das cores, a glória de ver o mundo como ele era, a anestesiava.
Ela caiu de costas, o olhar fixo no teto da loja, agora um branco texturizado e cheio de nuances, iluminado por flashs dançantes de azul e vermelho vindo dos carros da polícia lá fora. Ela ouviu a voz dele, seu amor do passado, seu último eco de humanidade, diminuindo, como se ele estivesse se afastando por um longo corredor.
— Clair! Fica comigo, Clair!... Clair...
A sinfonia de cores e sons diminuiu, transformando-se em um ponto de luz brilhante.
Até que tudo se apagou e terminou.