
Ano 4000 após a vitória contra os Troias.
A humanidade mudou.
Aprendemos com nossos erros…
e, acima de tudo, aprendemos a não lutar entre nós.
Para evitar novas guerras internas, o mundo foi dividido em 11 províncias, separadas pelo mar, e uma única capital: Valtheris.
Cada região é governada por um conde.
Acima deles, existe apenas um, o Rei Humano.
Aquele que não protege apenas o mundo dos Troias…
mas também de nós mesmos.
E ainda assim, todos os territórios cercam um único ponto.
Um lugar que nenhum mapa ousa ignorar.
Deur van Vrees.
O ponto onde o submundo toca a superfície.
A maior fortaleza já construída pela humanidade.
Nenhuma criatura entra.
Nenhuma criatura sai.
Ou… pelo menos, é o que acreditamos.
Mas hoje, por um momento, o mundo volta seus olhos para outro lugar.
A capital.
Valtheris.
A Academia Vart abre seus portões.
Todos os anos, cada província envia três jovens, os mais promissores, para se tornarem parte do exército humano.
Aqueles que lutarão na linha de frente contra o que vive abaixo.
Mas este ano…
algo mudou.
Foram abertas dez vagas por província.
Um número que nunca havia sido visto.
Um número que não precisava ser explicado…
porque todos entenderam.
A humanidade não está em paz.
Ela está se preparando.
A pergunta é:
Para se defender…
ou para atacar?
No trem de Vart, a maior locomotiva do mundo humano e a única capaz de conectar todas as províncias, os vagões estavam mais cheios do que o normal.
No vagão de Noctyra, os calouros permaneciam sentados, vestindo longos casacos pretos com bordas douradas e vermelhas, que iam até as pernas. No peito direito, uma estrela de quatro pontas amarela, envolta em vermelho, o símbolo da Academia Vart.
Entre eles, estava Kael Riven.
Um jovem de aparência fraca.
Pele pálida.
Corpo magro.
Cabelos pretos e longos.
Olhos escuros, cercados por olheiras profundas.
Suas mãos tremiam levemente.
Enquanto todos ao redor conversavam ou observavam a paisagem, Kael estava perdido em pensamentos…
ou melhor, sendo encarado.
— Nossa… que desgraça… como eu fui parar nessa situação…
Os olhares continuavam. Alguns curiosos. Outros… claramente incomodados.
— Não era pra eu estar aqui…
Ele fechou a cara, os olhos quase marejando.
— Como isso foi acontecer justo com um inútil como eu…
Olhou ao redor.
Ainda estavam olhando.
“Eu vivia tranquilo em Noctyra… minha família nunca teve dinheiro… então eu comecei a bancar o rebelde. Me metia em confusão… e sempre tinha alguém pra me bater e ganhar fama.”
Ele coçou a cabeça.
“Pensando bem… eles me pagavam bem pra apanhar… será que isso conta como prostituição…?”
Ele balançou a cabeça rápido.
Isso só fez piorar.
— Esquisito… — sussurrou uma voz feminina.
Kael congelou.
“Meu Deus… fui eu que fiz cara feia?”
Sem pensar, ele bateu com as duas mãos no rosto.
— SE RECOMPONHA!
O grito ecoou pelo vagão inteiro.
Silêncio.
Todos olhando.
Kael ficou rígido.
Duas garotas começaram a rir.
“Por que eu fiz isso…? Tudo culpa daquele gordo safado…”
Seu rosto se contorceu.
“Era só pra eu apanhar como sempre… mas aquele desgraçado teve dor de barriga no meio da luta! Saiu correndo com as calças sujas… e eu virei o vencedor!”
Sua expressão ficou ainda mais estranha.
— Cruz credo…
— Que coisa feia…
Os comentários surgiam ao redor.
“Quando eu voltar pra Noctyra… aquele gordo me paga…”
— ATENÇÃO! — a voz no rádio cortou tudo. — Estamos chegando à capital. Preparem-se para o desembarque.
Algum tempo depois…
Kael desceu do trem, espreguiçando-se, braços erguidos e olhos fechados.
— Não deve ser tão ruim viver aqui… — suspirou — Tudo que eu quero agora é uma cama… confortável… onde eu possa dormir por meses… não, anos…
BAM!
Ele esbarrou em alguém.
Os dois caíram no chão.
— Nossa, foi mal—…
Kael abriu os olhos.
E travou.
A garota à sua frente era… linda.
Cabelos brancos, curtos.
Pele pálida — pálida demais.
Olhos azuis.
— Seu idiota, olha por onde anda—…
Ela parou.
Kael estava… babando.
— Desculpa! — ele se levantou rápido, estendendo a mão, tremendo — Eu posso te ajudar?
— Que feio.
Ela fez uma cara de nojo.
Kael franziu o rosto… ficando pior ainda.
— Ei, idiota! Volta aqui! — ela gritou.
Mas Kael já estava sendo puxado.
Caim Ambravel.
Cabelos loiros, corpo robusto, expressão irritada.
Ele arrastou Kael até um beco.
— Seu idiota, como você veio parar aqui? Não era pro Garie ter vencido?
Kael fechou a cara.
— Aquele gordo teve dor de barriga no meio da luta! Eu tava apanhando como sempre, aí do nada ele saiu correndo!
Caim suspirou fundo.
— Isso é péssimo… faz anos que Noctyra não ganha nada… e quando temos chance… você aparece…
Ele começou a sacudir Kael.
— Não esquenta! Eu vou dar um jeito de voltar!
Caim parou.
— Nem pense nisso. Aguenta até pelo menos três alunos serem expulsos. Não nos envergonhe… ou eu vou…
Ele sussurrou algo.
Kael congelou.
Então gritou.
— COMO VOCÊ OUSA, SEU MONSTRO!
Caiu no chão, chorando.
— Cruz credo… que cara feia — disse Caim.
Kael abraçou as pernas dele.
— NÃO FAZ ISSO! Lembra quando você queria conquistar aquela garota? Eu dei em cima dela só pra você me bater e sair como herói!
Caim levou a mão à cabeça.
— Só… fica quieto.
— Pra você é fácil! Olha pra mim! Eu sou magro! Fraco! Sou tipo um osso jogado pra cães!
Caim suspirou.
— Eu cuido de você. Só não cause problemas. Em troca… 20 Divy.
Kael parou de chorar na hora.
Levantou.
Secou o rosto.
E sorriu.
— A gente pode fechar em 50?
Caim fechou a cara.
Algum tempo depois…
Kael caminhava pela capital, contando dinheiro.
— 47… 48… 49… 50…
Um sorriso enorme se abriu em seu rosto.
Finalmente.
Kael Riven estava em Valtheris.