REINO DE THEA
O primeiro sinal sempre vinha com o pôr do sol.
Não era imediato. Nunca era. Começava como um calor estranho sob a pele. Black observava o céu da janela do quarto enquanto o laranja desaparecia.
Apoiou as mãos na beirada da cama, respirando com dificuldade, sentindo o corpo se preparar para algo que não queria mais aceitar. Seu corpo queimava como se estivesse preso em um quarto em chamas.
— Está começando, não está? — perguntou Petter.
Black assentiu.
Quando a primeira mancha verde surgiu em seu pulso, fechou os olhos. A pele não mudava de uma vez. Espalhava-se e subia pelos braços, pescoço e rosto. Onde antes havia pele humana, agora surgia algo áspero e frio ao toque. Estranho demais para ser seu.
Respirou fundo, tentando não demonstrar o incômodo. Petter se aproximou, segurando-lhe o braço com cuidado.
— Ainda dói? — perguntou.
— Não — mentiu.
Petter empalideceu. Sabia que era mentira. Via a expressão de dor no rosto dele, a mão apertando a cabeceira da cama, os lábios comprimidos com força e a clavícula molhada de suor.
Tocou-lhe o braço com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-lo. Já era a terceira noite em que Black estava amaldiçoado.
E ele não aguentava mais.
— Queima — continuou. — Arde. Cada músculo. Cada nervo. Às vezes eu mal consigo ficar em pé.
Petter passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Isso está acontecendo desde quando?
— Desde a noite do jantar de noivado — respondeu. — Fui até a taberna e bebi demais. Apostei até não sobrar mais nada. Ofereci dinheiro, mas ela pediu algo que eu nem sabia que podia ser tirado de mim.
Petter o encarou.
— Você foi amaldiçoado — disse, mais como constatação do que pergunta.
Ele assentiu.
— Quando nosso pai descobrir...
— Petter, por favor, não conte a ele — interrompeu. — O reino já está em puro caos.
O silêncio se instalou entre eles.
Petter sempre fora reservado. Sempre soubera guardar segredos. Mas aquele era pesado demais até para ele.
— Então precisamos achá-la.
— Como?
— Vamos a todas as tabernas dentro e fora do reino até encontrá-la novamente e fazê-la quebrar a maldição. Ela é uma bruxa e pode reverter o que ela mesma lançou.
As noites de Black passaram a ter um padrão.
Ao cair do sol, a pele verde tomava o corpo de Black por completo. Ele escondia o rosto sob capuzes, evitava luz demais e saía com Petter pelas ruas da cidade baixa. Taberna após taberna. Vozes bêbadas e cheiros fortes.
No primeiro dia, voltou à taberna onde estivera algumas noites antes. Perguntou sobre a mulher que usava roupas vermelhas chamativas, mas ninguém soube informar. O dono disse apenas que ela aparecia às vezes. Nunca ficava. Surgia quando sentia que precisava ir.
Por meio da discrição, informantes das tabernas lhe deram três nomes. Eles encontraram todas.
Mas nenhuma era ela.
Nenhuma tinha o olhar que Black lembrava.
Nenhuma reconhecia a maldição gravada em sua pele.
Continuaram assim por dias.
Ao amanhecer, voltava ao castelo cambaleando. A transformação se desfazia com violência. O verde recuava. A pele humana reaparecia e a dor vinha junto com a queimação, e espasmos. O seu corpo parecia não o aceitar de volta.
O príncipe estava mais fraco e pálido. A pondo de não conseguir levantar sua própria espada em uma luta.
Petter ficava ao seu lado todas as manhãs, segurando-o quando as pernas falhavam, trazendo água, ajudando-o a respirar até a dor diminuir.
— Não pode continuar assim — dizia sempre.
— Não posso desistir — respondia. — A lua cheia está próxima.
Ele precisava estar humano de novo para a lua cheia.
Precisava encontrar o garoto dos cabelos dourados.
Mas os dias passavam.
E nada.
O rei percebeu. Não era idiota. Conhecia os filhos como ninguém e seria impossível não perceber.
— Vocês têm saído todas as noites — comentou, durante um jantar silencioso demais. — Curioso, considerando que Petter sempre evitou esse tipo de lugar.
Petter manteve a postura firme.
— Precisávamos espairecer, meu pai.
O rei estreitou os olhos.
— À noite inteira?
O olhar pesou sobre Black.
— Ando dormindo mal — respondeu. — Caminhar ajuda.
O rei não pareceu convencido.
— Um mensageiro de Azra chegou hoje — anunciou. — O jantar de apresentação foi remarcado para o próximo mês, ao anoitecer.
O estômago de Black se revirou.
— Espero que dessa vez você não me decepcione.
O restante do jantar só não foi mais desconfortável por causa da risada das gêmeas. Não havia como tudo ser ruim com aquelas garotas agitadas.
Era véspera da lua cheia. Black já não tinha esperança e estava aflito.
Entraram na taberna onde tudo começara. Não por fé, mas por desespero.
Então ele sentiu.
O ar mudou.
O cheiro era o mesmo daquela noite. O mesmo canto escuro. A mesma mesa ao fundo.
Parou no meio do salão.
— Petter... — sussurrou.
Ela estava lá.
Sentada exatamente onde estivera antes. O capuz baixo junto com o vestido vermelho extravagante. Os dedos finos segurando uma caneca. O sorriso torto surgindo antes mesmo de ser reconhecida.
A bruxa ergueu o olhar.
— Demorou. Foi difícil me achar? — disse.
A pele de Black queimou.
Não pela maldição.
Mas pela raiva que sentia ao encarar aqueles olhos.
A mulher se levantou devagar, empurrando a cadeira para trás com um ruído baixo demais para aquele salão barulhento. Ela sabia que era ele, não precisava olhar seu rosto, ela apenas sabia. Ao chegar no homem Encapuzado ela apenas sussurra:
— Aqui não — lançando um olhar rápido ao redor. — Algumas conversas não precisam de plateia.
Sem esperar resposta, caminhou até a porta dos fundos da taberna.
Black hesitou por apenas um segundo antes de segui-la. Petter veio logo atrás.
O ar da noite estava frio. A lua ainda não havia surgido completamente, escondida entre nuvens densas. A floresta começava poucos passos depois da construção, escura, silenciosa demais.
A bruxa parou perto das árvores.
— O que você fez comigo? — perguntou Black, a voz baixa, carregada de raiva. — O que você tirou de mim?
Ela inclinou a cabeça, analisando-o como se fosse um objeto antigo.
— Nada que você não tenha oferecido — respondeu. — Você disse que me daria qualquer coisa.
— Eu estava bêbado.
— Estava disposto — corrigiu ela, com um sorriso torto. — E eu apenas aceitei meu pagamento.
A pele de Black ardia sob as roupas.
— Quebre a maldição — exigiu. — Agora.
A bruxa riu. Um som curto. Sem humor.
— Não.
Petter deu um passo à frente.
— Então por que voltou? — questionou. — Por que está aqui?
— Eu nunca fui embora, eu sempre estive aqui
— Como?
— Querido tem coisas que você não precisa entender
— O que você quer? Qual o seu preço? Ouro? Prata? Joias?
— Tudo isso eu tenho, apesar de não ser filha de um rei.
— Tem que ter alguma coisa, eu estou implorando — Petter tentava negociar.
— Ok, eu não vou quebrar a maldição, mas te darei uma chance de se livrar dela
— Como?
Ela ergueu um dedo, como se pedisse silêncio ao próprio ar.
— Toda magia precisa de uma rachadura não é mesmo — disse. — Um ponto fraco.
Black sentiu o coração acelerar.
— Qual?
Ela se aproximou o suficiente para que ele pudesse sentir o cheiro de ervas e fumaça.
— A maldição será quebrada com um beijo de amor verdadeiro.
O silêncio caiu pesado entre eles.
Petter soltou uma risada incrédula.
— Isso não é um conto de fadas — disse. — Nem uma brincadeira.
A bruxa ergueu as sobrancelhas.
— Eu sei.
Então repetiu, mais devagar, com desprezo na voz:
— A magia só pode ser quebrada com um beijo de amor verdadeiro, mas amor verdadeiro não existe.
As palavras atingiram Black como um golpe.
Ele deu um passo à frente, ignorando a dor que percorria o corpo.
— Você fala assim — disse — porque ainda não encontrou o seu amor verdadeiro bruxa.
Por um instante, algo mudou no olhar dela.
Foi rápido. Quase imperceptível.
Então o sorriso voltou.
— Então me prove — respondeu. — Quebre minha magia.
Ela puxou o capuz sobre a cabeça.
E, antes que pudessem reagir, virou-se e entrou na floresta.
O ar pareceu se fechar atrás dela.
Black deu um passo à frente, mas parou.
A bruxa havia sumido.
Não deixará rastros.
Nem esperança.
REINO DE AZRA
Naquela manhã Yellow acordou com a sensação rara de leveza.
O sol mal havia tocado as torres do castelo quando ele abriu os olhos, e por um instante esqueceu onde estava. Não havia peso no peito. Não havia culpa. Apenas a certeza simples de que aquela noite seria diferente.
Era dia de lua cheia.
Ele tomou um banho bem demorado, hoje queria estar deslumbrante. Desceu para o desjejum com um sorriso discreto, coisa que não passara despercebida pela rainha.
— Está animado hoje querido — comentou ela, servindo-lhe chá.
— Quero passear pelo reino hoje, na verdade eu quero ver o pôr do sol e a chegada da lua
— A chegada da lua? Porque não ver da varanda do seu quarto querido?
— É noite de lua cheia. Quero um ambiente diferente, preciso de um momento apenas para mim.
O rei estava ausente do café da manhã. Ele estava com os conselheiros do reino, precisavam estar preparados para um possível ataque.
— Acho que é bom para ele minha mãe, ele está sendo um bom garoto, até concordou em se casar — Disse Pie dando uma piscadinha para o irmão,
— Por favor minha mãe, prometo que volto antes do amanhecer
A rainha o observou por alguns segundos, como se ponderasse negar. Mas assentiu.
— Tem vários lugares bonitos no reino, acho que não terá problema em você ir.
Yellow sorriu de leve. Ele não poderia dizer que seu passeio seria fora do reino.
Após o café da manhã ele foi para a arena de combate, onde treinava luta corpo a corpo, arco e flecha e esgrima. De todos os deveres de príncipe que ele era obrigado a aprender, arco e flecha era um dos poucos que ele realmente gostava e era muito bom nisso.
Depois de uma manhã de treino exaustiva, ele tinha um pequeno intervalado após o almoço, antes de iniciar os estudos históricos do reino na biblioteca.
Nesse intervalo enquanto descansava, ouve-se uma batida na porta. Um dos guardas entra junto com Maxky, que trazia uma bandeja com uma xicara de chá.
— Majestade, esse aprendiz disse que o senhor pediu chá.
O garoto ficou confuso, ele não havia pedido chá algum, mas quando seu olhar cruzou do garoto ele lembrou do seu combinado.
— Sim, é chá de camomila que eu solicitei para tomar no meu descanso após o almoço.
— Entendido majestade.
— Agora pode se retirar.
O homem alto de grandes músculos assentiu e saiu. Fazendo as duas pessoas do quarto suspirarem de alivio.
— Vossa Alteza — disse, estendendo um envelope simples. — É para o senhor.
Ele nem precisava abrir para saber de quem era. O coração batia rápido enquanto ele abria o envelope.
Querido Princípe.
Sinto muito pelo seu casamento forçado. Não posso dizer que entendo, pois aqui somos livres para escolher quem amar.
Se quiser renunciar o trono, você será bem vindo aqui no vilarejo, só não é tão luxuoso como a vida no palácio.
Hoje ao cair da noite Maxky irá busca-lo e lhe trazer até mim. Não é nada prudente o príncipe andar desprotegido, sei que você tem liberdade já que o reino de Azra é seguro, mas fora do reino é diferente é sempre bom ter cautela sempre é bom.
Sobre Merlyn... Tenho algumas informações, se quiser realmente saber eu lhe conto no nosso encontro, tem coisas que simplesmente não podem ser colocadas no papel,
Hoje eu estava olhando a manhã ensolarada e lembrei de você, por isso de hoje em diante irei chama-lo de raio de sol.
Até o anoitecer.
O Principe dobrou o papel sorrindo, ele adorava o humor de Helly e a sensação de leveza que sentia com ele.
— Obrigado, Max — disse. — Vamos sair antes do pôr do sol.
O garoto sorri pelo jeito em que o príncipe o chamou e assentiu.
REINO DE THEA
Enquanto isso, em outro ponto do reino, Black não conseguia respirar direito.
O dia passara lento demais. O corpo doía mesmo sem a transformação. A mente doía mais ainda.
Hoje era lua cheia, o dia que ele escolheu para ver Lyn.
Ele não contou tudo a Petter. Não contou sobre garoto dos cabelos claros.
Quando Petter perguntou se queria sua companhia naquela noite, apenas respondeu que precisava sair sozinho e resolver algo.
Petter não insistiu. Mas o olhar dele carregava perguntas demais.
Durante o dia Black seguia sua rotina normalmente. Fazia suas refeições normalmente com sua família, exceto o jantar. O que fazia seu pai ficar cada dia mais desconfiado. Ele fazia seus treinos normais. Mesmo amaldiçoado ele queria manter sua popularidade entre os guardas reais. Black era o melhor em empunhar uma espada em todo o reino de Thea. Por mais que seu corpo estivesse fraco, ela o forçava ao máximo.
Quando o sol começou a se pôr, Black já estava afastado do castelo. O capuz baixo. O coração acelerado. Ele passou o dia todo pensando no garoto de cabelos dourados.
Será que ele estaria lá?
Será que iria querer vê-lo?
Será que... aquilo poderia ser amor verdadeiro?
A pergunta o apavorou mais do que a maldição. Um amor verdadeiro pode surgir de duas pessoas que se viram apenas duas vezes?
Será que Lyn o aceitaria quando o visse?
REINO DE AZRA
Maxky Buscou o príncipe antes de pôr do sol, ao chegar no portão de Azra, eles conseguiam passar pelos guardas serem visto. Helly o recebeu com um abraço apertado, desses que te fazem sentir seguro. O cozinheiro voltou para o castelo prometendo encontra-lo mais tarde. Eles foram até uma parte calma dos limites do reino, ambos sentaram na grama olhando o céu mudando de cor
— Então posso finalmente saber porque você precisava sair na lua cheia?
— Eu preciso encontrar uma pessoa
— Que pessoa?
— Eu não sei o nome dele, ele me falou apenas uma letra, mas ele é encantador.
— Então você se apaixonou por alguém que nem sabe o nome?
— Será que é paixão? Mesmo se for eu preciso rejeita-lo, eu irei me casar
— Com um dos príncipes de Thea. Achei que não queria esse casamento.
— Tem mais de um?
— Você não sabia?
— Não, e eu nem quero me casar, mas não tenho escolha.
O mais alto ficou em silêncio, soltou um suspiro e disse:
— Todos temos escolha Yellow
— Na verdade, eu descobri que o casamento é para juntar os reinos, pois tudo indica que Merlyn quer atacar e tomar os reinos para si. Meus pais falaram que era para renovar uma aliança antiga, mas na verdade é porque tem uma guerra chegando
— Merlyn? Isso é realmente verdade?
— Eu ouvi uma conversa dos meus pais.
— Isso é loucura
— Por isso te perguntei sobre esse reino na carta. Se você tiver alguma informação...
— Eu posso tentar descobrir. — O loiro sorriu, era bom ter alguém em quem confiar.
— Obrigado, você está sendo um bom amigo.
— Raio de sol, preciso te contar uma coisa — O mais alto suspira e continua — Eu estou tentando participar de uma seleção para fazer parte da guarda real do castelo— Isso é ótimo — Sua fala é animada
—Sério?
— Queria que fosse o primeiro a saber — O príncipe se sentiu importante para o amigo. Talvez fosse algo recente, mas as amizades começam assim, não é? Essas pequenas coisas vão formando confiança.
Ao cair da noite e com a lua cheia no céu, helly levou yellow até o local em que havia sido marcado o encontro, o amigo se distanciou, mas continuou a uma distância segura.
Os Minutos foram se passando e nada de B
Mas Yellow esperou.
Esperou com o coração aberto demais para um príncipe que aprendeu a nunca confiou em ninguém.
Esperou contando os minutos pelo movimento lento do céu.
Esperou até o frio se infiltrar nos ossos.
Algumas horas já haviam se passado e nada do homem de olhos escuros
— Ele prometeu que estaria aqui — sussurrou baixinho para si mesmo.
A lua começou a subir
Do outro lado da clareira, entre as árvores, Black estava lá.
Viu o garoto sentado sob a lua. Viu o brilho nos cabelos dourados. Viu a esperança resistindo, mesmo depois de tanto tempo.
E sentiu medo.
Não estava pronto para ser visto.
Não estava pronto para ser rejeitado.
Apenas não estava pronto.
Black deu um passo atrás.
Depois outro.
E virou-se, desaparecendo entre as sombras da floresta.
Helly tocou seu o braço.
— Você precisa voltar— disse, com cuidado.
Ele assentiu levantando devagar.
O caminho de volta pareceu mais longo. Mais silencioso. Cada passo o afastava um pouco daquilo que ele acreditara.
No fundo, não estava com raiva.
Estava triste.
Triste por ter esperado.
Triste por ter acreditado.
Triste por perceber como era fácil confiar em alguém que prometera tão pouco.
Enquanto caminhava, uma única pergunta martelava sua mente:
Como pôde acreditar na promessa de um estranho?
A lua cheia o acompanhou até desaparecer atrás das nuvens.
E naquela noite, algo em Yellow se fechou, não por completo, mas o suficiente para doer.