O castelo de Merlyn nunca dormia de verdade.
Mesmo à noite, tochas permaneciam acesas, e o som distante de passos ecoava pelos corredores de pedra negra.
Nissan caminhava sem pressa, daquele jeito sedutor.
Usava um vestido escuro e justo ao corpo, porém simples demais para alguém que todos temiam e era exatamente isso que a tornava perigosa. Os guardas se afastavam ao vê-la passar. Nenhum ousava barrá-la. Nenhum ousava falar.
Ela não precisava de título.
Seu nome era suficiente.
As portas da sala do trono estavam abertas.
O rei Jhon, do reino de Merlyn, estava sentado sozinho, observando mapas espalhados aos seus pés com fronteiras riscadas e territórios marcados. Ele planejava seu próximo passo.
Quando Nissan entrou, ele ergueu o olhar e sorriu.
Ela não fez reverência.
E não precisava.
Caminhou até ele e sentou-se em seu colo com naturalidade, como se aquele fosse seu lugar desde sempre. O homem sério passou o braço por sua cintura sem pensar, deixando alguns beijos em seu ombro.
— Está feito, querido — disse ela, apoiando a cabeça em seu peito.
O rei suspirou, aliviado.
— Então funcionou?
Nissan sorriu de canto.
— A maldição foi lançada como planejado. O príncipe Black não poderá se casar.
Jhon franziu o cenho, intrigado.
— Você tem certeza? Nada pode dar errado.
— Absoluta. — Ela ergueu o rosto para encará-lo. — Ele se tornou algo que nem ele pode aceitar. O jeito que ele me olhou... o desespero em seus olhos.
Nissan estava orgulhosa. Observou Black por semanas, esperando a oportunidade perfeita para executar seu plano. Sabia que ele era instável e nunca fugia de uma aposta. Sabia que, quando alterado, ele se achava o melhor e mais poderoso.
O rei passou os dedos pelos cabelos dela, pensativo.
— Você sempre disse que Azra e Thea unidos seriam um problema. Mas é realmente necessário tudo isso? Como tem tanta certeza de que eles querem se unir para tomar Merlyn?
— Querido, nada se esconde da minha magia — respondeu Nissan com tranquilidade. — E também tenho meus seguidores fiéis. Posso afirmar com toda a certeza que ambos os reinos querem o seu trono.
— E se o príncipe se casar? — perguntou o rei.
Nissan riu baixo.
— Ninguém casaria o filho com um monstro.
Do outro lado do corredor, Gus não respirava.
Ele havia parado ali por acaso, ou pelo que ainda acreditava ser acaso.
O irmão mais novo do rei sempre fora invisível demais para ser levado a sério. Sempre ouvira mais do que falava. Sempre estivera nos cantos errados, nos momentos certos.
E agora, tinha ouvido a conversa mais cruel de sua vida.
A maldição do príncipe Black.
O estômago de Gus se revirou. Ele não reconhecia mais aquele homem sentado no trono. Era diferente do irmão presente e divertido com quem crescera. O sorriso que antes era constante havia sumido, dando espaço apenas a uma expressão rígida.
Desde a chegada dela...
Ele recuou devagar, o coração martelando no peito, e só virou para correr quando teve certeza de que não havia sido visto.
Ao chegar em seu quarto, o garoto não sabia o que fazer. Andava em círculos no meio do aposento, pensando em uma solução.
Ele só pensou em uma.
Fugir.
Aquele não era mais o seu lugar. O homem no trono não era mais seu irmão. Seu pai havia morrido havia poucos meses. Então, o que lhe restara?
Nada.
Ele não tinha mais nada. Até o lugar que sempre fora seu refúgio agora era totalmente desconhecido. Não podia mais chamar aquilo de lar.
Atravessou os portões do reino antes do amanhecer, montado em um cavalo que não era seu. Conseguiu juntar algumas roupas, água e comida para se manter durante a viagem. Levou também um pouco de ouro e algumas joias. Pegou a espada que ganhara de seu pai quando completara quinze anos e deixou o resto para trás, sem hesitar.
Sua fuga, de certo modo, foi fácil. Alguns empregados do palácio o ajudaram.
Ele já havia decidido para onde iria. Não sabia se seria bem recebido, mas precisava tentar.
A viagem foi longa. Depois de três dias e duas noites, cruzou as fronteiras de Thea.
Foi encontrado por alguns guardas perto da estrada principal.
— Sou Gus, príncipe de Merlyn.
— Você está muito longe de casa, príncipe.
— Preciso falar com o príncipe Black.
— O que você quer com o príncipe?
— É um assunto pessoal..., mas que ele precisa saber é pelo bem do seu reino.
Os guardas hesitaram por um tempo, mas decidiram o levar até o seu príncipe.
Quando Gus o viu, soube que estava fazendo a coisa certa. Os olhos de Black carregavam tristeza e desespero.
Black não sabia ao certo o que aquele garoto queria consigo, ou se era confiável mais o levou para um lugar privado, onde poderiam conversar com tranquilidade.
— Meu nome é Gus Walter — disse, em voz baixa. — Sou o irmão mais novo do rei Jhon e o príncipe mais novo de Merlyn.
Black o encarou, tenso.
— Por que você está aqui?
— Porque eu fugi do meu reino.
— Pelos deuses... isso é traição.
— Não é — respondeu Gus. — Não depois do rei ter enlouquecido.
— Como assim?
— Eu sei sobre a sua maldição e posso te contar tudo o que sei.
Black empalideceu.
O príncipe fugitivo falou sobre tudo que ouvira no castelo e sobre Nissan e suas maldições.
Quando terminou, o silêncio que se seguiu foi pesado demais para ser ignorado.
Black fechou os punhos.
— Então não foi falta de sorte. Aquela bruxa maldita — murmurou.
— Você já ouviu falar dela, não é?
— Na verdade eu não sabia o nome da mulher que avia me jogado essa maldição, eu achava que Nissan era apenas uma lenda.
Gus iria responder, mas foi interrompido pela figura do homem alto à sua frente.
— Petter? O que faz aqui?
— Ouvi boatos de que alguém de Merlyn estava com você, e vim correndo.
— Não estamos em perigo. Na verdade, o príncipe Gus trouxe algumas informações.
Petter finalmente fixou o olhar no garoto de olhos azuis como o céu e pele bronzeada. Encarou-o por alguns segundos, fascinado por sua beleza.
Após uma longa conversa, ambos passaram a discutir o que fazer.
Abrigá-lo ali significava contar a verdade ao rei.
Contar a verdade ao rei significava revelar o segredo de Black.
Black não dormiu naquela noite e nem conseguiu dormir durante o dia. Não por causa da maldição, já que o sol ainda estava alto demais para isso, mas porque agora ele sabia da verdade.
Cada lembrança da taberna voltou a sua mente, cada aposta feita, tudo parecia muito fácil, cada palavra da bruxa, tudo tinha sido calculado. Ela planejou cada ação.
Gus foi acolhido no castelo de Thea ainda antes do amanhecer. Não como prisioneiro, mas como convidado dos príncipes. Black, observava o garoto de Merlyn em silêncio, enquanto o mesmo caminhava pelos corredores com cautela, como quem pisava em terreno instável que a qualquer momento poderia ruir.
Ele se via nele, já sentiu essa sensação de estar totalmente inseguro e fragilizado.
Na noite do dia seguinte uma reunião foi convocada com urgência. O rei e a rainha chegaram com o semblante sério demais para aquela hora do dia. Quando os príncipes entraram junto de Gus, o rei percebeu de imediato que não se tratava de um assunto comum. Já que ali em sua frente estava um dos príncipes do reino que o ameaçava.
O rei encarou o garoto ruivo que nitidamente estava nervoso, enquanto ele fazia uma reverência respeitosa ao rei e a rainha.
A mulher achou que seria melhor uma conversa fora do palácio, não estava se sentindo confortável e precisava de ar puro, então convidou todos para a estufa, um lugar seguro e sem risco de qualquer outra pessoa ouvir.
— Comecem — ordenou o rei com a xicara de chá dado pela esposa.
Black sorriu, por mais sério que fosse o assunto, achou a cena bonita. Não importa a situação, o rei sempre é respeitoso.
O mais velho respirou fundo e iniciou a conversa.
Não poupou detalhes. Falou da noite do noivado, da fuga de Black, da transformação, das dores que vinham ao anoitecer e sumia ao amanhecer, os motivos das saídas sorrateiras a noite de ambos. Falou também das apostas e da maldição da feiticeira.
Black manteve o olhar baixo durante toda a conversa. Quando terminou, o silêncio caiu pesado sobre a sala e o rei foi o primeiro a se mover.
— Aquela... — na sua voz tinha raiva. — Aquela feiticeira ousou tocar em meu filho?
A rainha levou a mão ao peito, pálida.
— Leia querida, você está bem? — O rei acalmou-se ao ver o estado de da rainha
— Por que não nos contou antes? — perguntou ela, com a voz tremendo.
— Porque eu sabia que causaria exatamente isso — respondeu Black, erguendo o olhar pela primeira vez. — Olha o seu estado minha mãe.
O rei Josh fechou os punhos.
— Se o rei de Merlyn souber disso, podemos fazer algum acordo. Se ele souber o que essa feiticeira fez.
— Não acho que seria o certo. — Interrompeu Gus, pela primeira vez desde que entraram na sala.
Todos se viraram para ele.
— Jhon já sabe da maldição — Ele se pronunciou pela primeira vez. — Ele tomou Nissan como sua rainha
O rei o encarou por longos segundos, imóvel.
Como um rei poderia se submeter a tomar uma feiticeira como rainha
— Continue.
Gus assentiu.
— Meu irmão não é mais o mesmo desde a chegada dela. Nissan não apenas lança feitiços, ela planta ideias e divide opiniões. Provoca alianças e depois as destrói. A maldição em Black não foi um ato isolado e sim planejado para evitar uma possível aliança com Azra. Ela o faz pensar que toda a magia que usa é para o bem do reino.
A rainha Léia respirou fundo.
— Então estamos lidando com uma guerra que ainda não começou.
— Já começou — corrigiu Black, a voz baixa. — Só não com espadas, mas com mentiras e magia.
— Depois da morte do rei Sebastian, Jhon ficou perdido, foi quando ele começou a sair e um certo dia ele a trouxe até o palácio, desde então ela nunca saiu. Sempre cheia de planos para fazê-lo sempre estar no poder.
Eles discutiram algumas possibilidades por horas. Estratégias e até possíveis riscos. O problema maior sempre voltava ao mesmo ponto.
Nissan.
Como detê-la?
— Nissan disse que apenas o amor verdadeiro poderia quebrar sua magia
— Isso é loucura, ela acha que estamos em um conto de fadas? — Questionou o rei.
— Existe outra maneira — disse Gus, depois de muito ouvir em silêncio.
Petter arqueou a sobrancelha.
— Está cheio de soluções hoje, príncipe.
Gus desviou o olhar por um segundo, quase constrangido, mas continuou.
— Em Azra, existe mesmo a famosa fonte encantada ou é apenas uma lenda? — Ele olhou diretamente para Black. — Dizem que magias antigas reagiam àquela água.
O rei franziu o cenho.
— Você está sugerindo que levemos meu filho até Azra para mergulhar em uma fonte que não sabe ao certo se é encantada?
— Sei que é algo incerto, mas na situação que se encontram agora, qualquer fio de esperança deve ser agarrado.
— Você está correto
— Se me permitem perguntar rei Josh, o reino tem mesmo contato com Azra? Estão planejando se aliar?
— Na verdade temos um casamento arranjado entre os príncipes Black e Yellow.
Black sentiu o estômago revirar. Ele havia esquecido sobre o casamento.
— Entendo, não sabia que ambos os reinos eram tão próximos a ponto de unirem famílias.
— Como estamos revelando os segredos, acho juntos todos saberem o motivo. Principalmente você meu filho — Rei Josh desviou o olhar da xicara para Black.
— Motivo?
— O casamento é uma aliança, ele é o selo de paz entre Azra e Thea. Quando soubemos dos planos de Jhon achamos melhor nos unir, assim teríamos mais chances de sobreviver a um ataque direto. Como sabem o reino de Merlyn não está em uma situação financeira boa, e Azra não é tão bom em combates diretos, já que sempre viveram em plana paz.
— Ambos saem ganhando. Então o jantar de apresentação é a ocasião perfeita. — Completou o ruivo.
— Não posso ir — disse o príncipe — O jantar foi marcado ao anoitecer.
— Então solicite que mudem o horário — respondeu Gus, simples. — Marquem durante o dia.
O silêncio que se seguiu foi de espanto.
— Azra jamais aceitaria — murmurou a rainha.
— Aceitarão se acharem que Black está doente — completou o ruivo. — Levem o próprio médico real. Eles oferecerão um, mas vocês recusam educadamente. É protocolo, não é nada suspeito.
Petter piscou, incrédulo.
— Quantos anos você tem mesmo?
— Dezenove — respondeu Gus. — E passei a vida inteira ouvindo reuniões que, achavam que eu não entendia.
Black observou aquela cena com atenção.
Pela primeira vez desde a maldição, algo diferente se instalou em seu peito.
Não esperança.
Mas possibilidade.
— Se isso der errado... — começou o rei.
— Precisamos ao menos tentar — disse Gus. — Porque Nissan acredita que controla todos os movimentos. Ela não espera cautela. Ela espera desespero.
Black fechou os olhos por um instante.
Talvez nem tudo estivesse perdido, mas uma coisa era certa
A feiticeira não era lenda.
E já não estava mais nas sombras.