- Você precisa de mais magia de cura? – Aileen pergunta na manhã seguinte quando Benji sai do banho.
- Não, misturar poções de cura com a água na banheira foi uma jogada de mestre!
Aileen veste um vestido inteiramente preto de crochê que ela mesma havia feito com lã superfaturada comprada na Ilha da Folha. O busto justo, de decote em “V”, realça sua silhueta com firmeza contida, enquanto as mangas longas em formato de sino se abrem suavemente, lembrando pétalas escuras que caem até os punhos. A saia em camadas assimétricas, desce em ondas leves, mais curta na frente e alongada atrás, criando um movimento fluido a cada passo. Um corset de couro marrom escuro envolve sua cintura, nele ficam amarradas várias bolsinhas com coisas variadas como poções diversas e remédios, qualquer coisa útil em uma caçada ou viagem pela ilha. O toque final da roupa é o capuz preto que a ajuda a cobrir os longos cabelos vermelhos e se esconder em cantos escuros da floresta fria quando necessário. Aileen sempre havia sido vaidosa, independentemente de qual mundo se está, ela sabe que a maneira como se apresenta molda a percepção das pessoas sobre ela, então mesmo nesse lugar estranho ela ainda tirava um tempo para cuidar de sua aparência.
- Onde está sua espada? Está segura? - Aileen pergunta ao enfiar seu livrinho de feitiços na bota.
- Tá aqui. - Benji levanta a mão esquerda mostrando um bracelete em formato de espada ao redor do pulso.
- Olha só quem cedeu à minha magia! - Aileen diz vitoriosa, mesmo andando cheia de penduricalhos ela sempre foi adepta à praticidade.
- Não posso negar que foi extremamente útil. Além do mais, não andar com ela em tamanho normal chama menos atenção. – Ele fala aceitando a derrota.
- É o que eu sempre disse... – Ela o provoca.
- Sim, sua alteza sempre está certa e esse pobre plebeu sempre está errado. – Ele se curva fazendo uma reverência.
- Melhor assim! – Aileen diz com o nariz muito em pé.
Ao sair da barraca eles se deparam com os três rapazes usando os utensílios de cozinha e fazendo algo na fogueira.
- Bom dia! - Benji diz animado.
- Bom dia! - Cassian responde.
- O que estão fazendo? – Aileen pergunta analisando o que havia dentro da panela.
- Já que vocês deixaram a gente ficar aqui essa noite, achamos que o mínimo que poderíamos fazer pra agradecer seria preparar uma refeição. – Cassian diz colocando ingredientes dentro da panela.
- Uau! Vocês devem ter comprado isso na Ilha da Folha, cheira bem e tem uma cor normal. - Aileen diz com água na boca e os olhos brilhando. – E pensar que vocês tiveram que comer o ensopado do ódio ontem.
- Nunca comemos a comida dele antes. Não sabia que ele sabia cozinhar. – Cassian explica.
- Ele não sabe! Tiveram sorte de não terem sido envenenados. – Aileen diz lembrando da última vez em que sua alma quase saiu do corpo depois de comer uma refeição feita por Benji.
- Ei! Isso só aconteceu duas vezes. - Benji tenta se defender.
- Só? - Aileen pergunta sarcasticamente.
- De qualquer forma, - Jiaer interrompe a discussão, - nossos mantimentos estão acabando. Não passamos por nenhum vilarejo até aqui, precisamos comprar comida para a viagem.
- Devem ter se embrenhado muito na mata pra chegar até aqui sem passar por Arkhûn. - Benji diz mais para si mesmo do que para os outros.
- Arkhûn é o vilarejo com o maior mercado da Lua. Também é o único que aceita dinheiro, a moeda de troca realmente importante aqui não é ouro ou prata. - Aileen explica.
- E o que é a moeda de troca? – Áki pergunta enquanto descasca uma batata.
- Matéria-prima. Qualquer coisa que seja realmente útil, couro, peles, minério, esse tipo de coisa. Benji e eu vivemos da caça, então vamos à Arkhûn com frequência. Não precisam se preocupar com comida ou remédios para a viagem, tenho tudo que precisamos aqui. – Aileen diz passando a mão em suas bolsinhas penduradas no cinto.
- Tá, mas viajar pra onde? - Áki pergunta. – Não temos nenhuma pista de onde meu irmão pode estar.
- Ele é seu irmão de sangue? – Aileen pergunta e Áki assente com a cabeça. - Isso pode ser útil se o feitiço de radar não funcionar.
- E como é esse feitiço? – Mesmo que Jiaer não confie nela ele ainda está desesperado para encontrar o amigo.
- Eu notei que vocês quatro usam um anel igual no dedo do meio da mão direita, isso é tipo um anel de amizade que todos têm? – Ela pergunta.
- Sim, nós compramos na época da escola, cada um tem o seu. – Benji explica.
- E esse cara...? – Aileen tenta lembrar o nome do rapaz.
- Jo'an. - Benji diz.
- Isso! Ele estava usando o dele?
- Sim. – Cassian responde com firmeza.
- Ótimo! O feitiço de radar funciona se vocês tiverem algo físico, palpável que compartilham, se não tivessem o anel eu ia tentar usar o sangue do garoto, então acho que estão com sorte! – Aileen diz sorrindo, indo em direção à barraca.
Benji dá um sorriso sem graça enquanto os rapazes o olham desconfiados. Aileen volta com um pergaminho de couro nas mãos enfiando ele nos braços de Benji. Com um graveto ela começa a desenhar um círculo no chão, ao redor do círculo ela escreve palavras desconhecidas para os rapazes recém-chegados. Após terminar de escrever o feitiço na terra Aileen senta no centro do círculo e, fazendo um gesto com a mão, ela pede o pergaminho de volta. Ao colocá-lo no chão e abri-lo, ela revela um mapa detalhado de todas as três ilhas de Drei.
- Um mapa? Quando tentamos comprar na Folha eles disseram que não existiam mais mapas de Drei, os piratas roubaram todos. - Cassian diz se aproximando para ver melhor.
- Não entre no círculo. - Aileen o para. - Agora preciso de todos os anéis, por favor. - Ela diz estendendo a mão.
- Piratas não andam por aqui, compramos o mapa em Arkhûn. - Benji explica.
Ela coloca os quatro anéis em cima do mapa, um em cada canto. Sentada, ela cruza os braços e as pernas e fecha os olhos. O feitiço consiste em usar um objeto para localizar outro usando a conexão afetiva deles. Aileen não estava realmente procurando Jo'an, estava procurando o quinto anel do grupo de amigos. Ela recita o mesmo feitiço que está escrito no chão em Elkarin, a antiga língua de Drei.
Aquilo que está entrelaçado deve ser encontrado
Aquilo que está escondido deve ser avistado
E seu paradeiro deve ser detectado
O feitiço escrito no chão faz a magia se espalhar por todos os lados procurando o objeto. Ela sabe que está funcionando quando começa a levitar junto do mapa. Ao abrir os olhos, antes azuis, agora emitem uma luz lilás e com a magia transbordando em seus olhos ela localiza cinco pontos no mapa.
- Ué? – Aileen olha para o mapa intrigada.
- O que foi? – Benji pergunta, nenhum deles podia ver os pontos de luz do mapa, pois não usavam magia.
- Existe a possibilidade desse anelzinho ter sido quebrado em cinco partes e estar espalhado por aí? – Aileen pergunta analisando o mapa.
- É um anel bem pequeno e de aço comum, o que alguém faria com um pedacinho dele? O que você está vendo? – Benji pergunta.
- Há cinco pontos no mapa, o que significa que deve ter cinco partes do anel ou cinco anéis, mas não faz muito sentido já que precisa ter uma conexão afetiva com o objeto...
- Os outros... – Cassian começa a dizer.
- Você não acha que... – Jiaer diz olhando para Cassian.
- Algum de vocês pode terminar uma frase, fazendo o favor? – Aileen diz ainda flutuando no ar.
- Se há cinco pontos no mapa isso quer dizer que o resto do grupo está em Drei. - Benji diz nervoso.
- Vocês estão em alguma seita? Sei lá, grupos e anéis e etc.
- Nós tínhamos uma banda na época da escola, e nós encontramos duas vezes por ano pra tocarmos juntos em um bar da nossa cidade natal. – Benji explica.
- Espera, para tudo. Você está me dizendo que tem oito amigos? OITO? Vocês! Pessoas adultas? E vocês se encontram pessoalmente no mesmo lugar ao mesmo tempo duas vezes por ano? – Aileen pergunta em completa descrença.
- Sim...? – Benji responde.
- Que tipo de adulto tem oito amigos e ainda por cima consegue juntar todo mundo ao mesmo tempo? – Aileen está absurdamente chocada.
- Podemos focar no que importa? Se nossos amigos estão aqui temos que ir atrás deles. – Jiaer diz ansioso.
Aileen, visivelmente chateada, tira uma caneta de dentro de uma das bolsinhas do cinto. É uma caneta de luz, era como se tudo o que ela escrevesse se tornasse uma placa néon, ela havia comprado em uma loja de itens mágicos em Arkhûn e não usava outra coisa para escrever desde então. Com a caneta de luz Aileen marca os cinco lugares no mapa para que todos possam ver. Voltando para o chão e fechando os olhos novamente ela desfaz o feitiço de radar e quando abre os olhos o brilho lilás já havia sumido. Entregando o mapa a Benji ela volta para a barraca, sua saúde ainda está debilitada da batalha do dia anterior, ela estava exausta e antes que conseguisse alcançar a cama ela perde as forças e desmaia caindo no chão.