Após analisar as armas dos novos companheiros de viagem, Aileen fica animada para vê-los em ação. Claro, ela prefere uma viagem segura e sem muitos empecilhos, mas cada um carrega uma arma formidável. Jiaer usava sabres de lindas lâminas feitas de jade verde que cintilavam e brilhavam mesmo na escassa luz da floresta – que, segundo ele, eram inquebráveis e poderiam cortar uma montanha ao meio, - ele carrega ambos nas costas e ela pensa que combina muito mais com a roupa refinada que ele usa agora.
Aileen sempre foi o tipo de pessoa que sabia a importância da aparência, ela sabe que as pessoas tratam as outras de maneira diferente de acordo com a forma que elas se apresentam, independentemente do lugar, a sociedade sempre se importa com a aparência. Ela também acredita que uma roupa bem feita passa a sensação de autoconfiança e era exatamente isso que se precisava ter para sobreviver nas cidades de Drei.
Cassian leva uma espada estilo medieval com punho cuidadosamente trabalhado, envolto em metal quente e harmonioso, e adornado por gemas azul-turquesa que se destacam como pontos de serenidade em meio sua intensidade. Sua lâmina, que a primeira vista parece comum, pode se transformar em fogo vivo, ardendo em tons de vermelho, laranja e dourado, com chamas que se contorcem e dançam à medida em que ele brande a espada. Sua presença impõe respeito, não pelo temor, mas pela certeza de um poder ancestral, luminoso e absoluto, que não precisa ser demonstrado para ser reconhecido.
Mas a arma que realmente chamou à atenção de Aileen havia sido o arco que Áki carrega. A corda, que é como um fio de ouro repousa em seu ombro enquanto o arco, que descansa em suas costas, parece ter saído direto de um conto de fadas, inteiramente feito de ouro, embora pareça bastante leve, é como uma obra de arte esculpida pelos deuses. Sua estrutura dourada parece viva, como se fios de luz tivessem se entrelaçado até formar curvas elegantes e afiadas, lembrando ao mesmo tempo uma arma e uma joia. Nas frestas do metal brilham pedras de tom verde-água, translúcidas como fragmentos de cristal marinho. Áki é um arqueiro do vento e por isso não carrega flechas, ele pode manipular o fio para soltar flechas invisíveis capazes de atravessar o ar em completo silêncio. Não que Aileen acredite que ele seja de muita ajuda, mas as armas são moldadas a partir do coração dos forasteiros, e o coração de Áki parecia lindo.
Eles avançam floresta adentro devagar, é preciso muita cautela pra andar pela floresta escura. Se Aileen estivesse sozinha chegaria em Arkhûn em um dia, todos os seres mágicos e até mesmo a própria floresta estão em harmonia com sua magia, ela não corre perigo algum, mas com os outros é diferente, os bichos, as árvores e até mesmo o ar rejeitam guerreiros. Sendo um arqueiro Áki está mais seguro, mas mesmo assim Benji o mantém o mais próximo possível para protegê-lo caso necessário.
- Ai, tô cansada, cancela a viagem. – Aileen diz dando um suspiro exagerado.
- A gente não andou nem cinco metros. – Benji diz já sabendo que ela reclamaria de ter que andar por dias até chegar à cidade já que Aileen é uma grande preguiçosa.
- Pois parece que andei cinco mil quilômetros.
Dito isso, ela enfia a mão em sua bolsinha procurando algo e com um sorriso de satisfação ela tira da pequena bolsa uma vassoura e a arremessa contra o chão, no entanto a vassoura apenas flutua e Aileen senta de lado e vai flutuando, voando e rodeando o grupo fazendo os rapazes rirem de toda a situação. Aileen também ri e sente que ter mais amigos pode não ser tão ruim se eles conseguirem se divertir juntos.
- Que barulho foi esse? – Jiaer diz em alerta ao ouvir um farfalhar de folhas dentre os arbustos.
- É só o Bruno, não precisa se preocupar. – Aileen diz voando baixo em sua vassoura.
- Olá, bruxa. – Uma voz grave soa de dentro do escuro da floresta.
- Olá, Bruno! – Aileen responde descendo da vassoura com um pulinho.
- Ouvi dizer que agora você é a única Bruxa da Lua. – Ele sai para a luz, suas quatro patas são pesadas deixando marcas profundas na grama.
- Isso é... Um lince gigante? – Áki pergunta surpreso.
- Você com certeza gosta de uma fofoca, ein Bruno. – Aileen diz cruzando os braços e encarando a criatura que é pelo menos 10 centímetros mais alta que ela, o que tecnicamente não seria muita coisa já que Aileen tem um metro e cinquenta de altura, mas um lince desse tamanho realmente parece gigante.
- Eu apenas ouço o que os ventos trazem, - o lince continua, - as árvores contam histórias, até mesmo a terra em que pisamos fala conosco.
- Pois eu acho essa uma floresta bastante fofoqueira. – Aileen responde.
- Para onde vai com tantos guerreiros? Não tem medo do que pode encontrar? – O lince pergunta.
- Uma florzinha não te contou? - Benji pergunta sarcasticamente e Bruno o responde com um grunido.
- Vamos pra Arkhûn, por que não me dá uma carona? Assim posso descansar minha vassoura. – O animal se curva deixando que Aileen monte nas costas dele.
- Por que ela é a única bruxa agora? Existiam outras? – Jiaer pergunta.
Ele observa Benji e Aileen se entreolharem como quem esconde grandes segredos. E talvez eles escondam. Logo não será mais possível esconder o que aconteceu na manhã do dia em que se reencontraram.
- Se você não ouve a floresta, qualquer coisa que eu disser será inútil, você não entenderá. – A voz de Bruno fica ainda mais grave ao dizer isso e talvez até um pouco feroz.
- Vamos nos concentrar em procurar nossos amigos, isso é tudo o que podemos fazer agora. – Benji diz tentando mudar de assunto.
- Procurando pessoas em Arkhûn.... imprudente. – O lince diz não como um aviso, mas como um lembrete.
- A gente sabe que tem muitos bandidos e vigaristas de todas as espécies lá, mas não pode negar que é o melhor lugar na Lua para colher informações. – Benji explica.
- A floresta é mais confiável que qualquer humano.
Dito isso, Bruno pula para o escuro da floresta se embrenhando na mata com Aileen nas costas. Alguns segundos depois ela volta voando em sua vassoura.
- Ele está estressado! Ele detesta guerreiros. Enfim, vamos continuar. – Ela diz voando um pouco mais alto, mas mantendo a mesma velocidade que o grupo.
- Por que ele não gosta de guerreiros? – Cassian pergunta.
- Guerreiros tendem a caçar criaturas mágicas como ele pra vender por preços abusivamente caros, seja qual for a moeda de troca. – Benji responde.
- Mas Aileen disse que vocês vivem da caça, e o lince parecia gostar dela. – Agora Áki é quem está curioso.
- Aileen e eu caçamos animais comuns, não criaturas mágicas. Também procuramos ingredientes difíceis de encontrar, como ervas e raízes que servem para muitas coisas, às vezes Aileen fica com tudo e às vezes vendemos. Tem sido assim por um bom tempo. As criaturas mágicas meio que automaticamente simpatizam com ela por ser uma bruxa e me toleram já que estou com ela.
- Você até mencionou algo do tipo antes. – Jiaer diz lembrando da discussão que tiveram antes – Mas não imaginei que a Miss Preguiçinha fosse tão influente.
Ele aponta para Aileen que havia montado na vassoura com uma perna de cada lado, debruçado o corpo com os braços e pernas pendurados e a cabeça descansando no cabo da vassoura enquanto ela dorme tranquilamente.
O grupo anda por quilômetros até o cair da noite. A floresta já é escura o suficiente durante o dia, e à noite vira um breu, é quase impossível e extremamente perigoso viajar durante a noite na floresta da Ilha da Lua.
- Vamos voltar para o acampamento. – Benji diz aos amigos.
- Certo! – Aileen responde acordando ao ouvir a palavra "acampamento".
- O quê? – Os outros perguntam todos de uma vez sem entender nada.
- Como assim voltar pro acampamento, estamos há um dia de distância de lá. – Cassian pergunta um tanto indignado com a sugestão de voltarem.
- Andamos pra caramba hoje e agora você quer voltar? – Jiaer também pergunta.
- Calma gente, eu vou explicar. Aileen me dá a pedra, por favor. – Benji pede estendendo a mão para ela.
Aileen, ainda meio dormindo pendurada na vassoura, tira uma pedra de dentro da meia e a entrega a Benji. A pedra branca, que tinha o formato de um hexágono, era entalhada com o desenho de uma lua cheia e uma frase escrita em Elkarin ao redor dela.
“O bom filho a casa torna”
- Essa é uma pedra de portal. Nós usamos ela pra voltar ao acampamento sempre que viajamos, mas ela também funciona ao contrário. Pensem assim, é como se fosse um jogo e a pedra salva o progresso do jogador. Nós podemos voltar ao “menu principal”, no caso o acampamento, e depois continuar "jogando". Voltamos para esse exato ponto usando a pedra. Dormir no acampamento é mais seguro, é protegido com magia. – Benji explica.
- Então por que a gente trouxe tanta coisa dentro dessas bolsinhas se íamos voltar pra lá? – Áki questiona.
- Bem, é essencial estarmos preparados para qualquer coisa. Agora se juntem aqui.
Enquanto Áki, Cassian e Jiaer chegam mais perto, Benji tira Aileen da vassoura e a joga por cima do ombro, ela dorme tão profundamente que nem ao menos percebe a ação. A vassoura volta sozinha para dentro da bolsinha na cintura de Aileen como se tivesse vida própria.
- Ela tá bem? – Cassian pergunta vendo Aileen no ombro de Benji como um saco de batatas.
- Sim. Essa aqui, deu nove da noite apaga automaticamente. Se bem que nem precisa de horário, em qualquer oportunidade que tiver ela dorme. Agora todos encostem pelo menos um dedo na pedra. – Benji diz estendendo o braço com a pedra na palma da mão.
Todos encostam na pedra e Benji usa a magia de Aileen em sua mão direita para que a pedra funcione. Todos voltam para o acampamento ficando um pouco desnorteados com o acontecido.
- Não podemos usar essa coisa pra levar a gente direto pra cidade? – Jiaer questiona.
- Não é assim que funciona, a função principal dela é trazer a gente de volta pra cá. De novo comparando com um jogo, é como ir descobrindo um mapa, a pedra só nos leva até onde já foi “descoberto”. - Benji diz entrando em sua barraca para pôr Aileen na cama.
- Mas vocês não já usam essa pedra? Não deveria saber o caminho para a cidade? – Cassian pergunta quando ele sai da barraca.
- Essa é nova, a que já sabia o “mapa” se perdeu.
- Como você usou a pedra? - Cassian pergunta. - Ela tinha o mesmo brilho lilás de quando Aileen usou magia.
- Na verdade... - Benji hesita, ele tinha esquecido de esconder esse detalhe. – Aileen colocou um feitiço em mim, na minha mão direita pra ser mais específico e esse feitiço permite que eu use alguns itens mágicos como essa pedra de portal.
Ele responde da forma mais resumida possível, não podia contar toda a verdade, mas também não queria mentir. Aileen realmente havia colocado um feitiço nele, só que a história era muito mais complicada e longa do que seus amigos podiam imaginar.
Benji pode falar o que quiser e da forma que quiser, Cassian o conhece bem demais para saber que ele esconde alguma coisa, mas achou melhor não perguntar, Benji o contaria quando se sentisse seguro o suficiente para isso. A amizade deles sempre havia sido assim, um tendo paciência e respeito com o outro. Eles eram melhores amigos desde que nasceram, passaram por poucas e boas juntos no decorrer da vida e agora Drei estava colocando essa amizade à prova, no entanto Cassian não ia deixar nem mesmo um universo diferente destruir a amizade que eles passaram toda uma vida construindo.
- A propósito, como vocês viajaram até perto do bosque? Deveria estar um breu. – Benji pergunta.
- E estava, a gente dormia em turnos. – Cassian responde.
- Respect! – Benji diz dando um tapinha no ombro do amigo.
Na manhã seguinte, depois de um bom banho e de se trocar para roupas limpinhas, Aileen sai da barraca cedinho e para sua surpresa, Jiaer já está acordado cozinhando algo na fogueira.
- Isso tá com cheiro bom. – Ela diz se aproximando.
– Não mais do que você. – Ele responde encarando ela.
- O quê? – Ela pergunta surpresa.
- Você está cheirosa. – Ele diz se aproximando dela. Jiaer não era muito alto, mas era alto o suficiente para ela se encolher quando ele chega muito perto. – Por que você cheira tão bem? Não é perfume, é outra coisa...
- Como assim? – Ela pergunta segurando as duas tranças grossas que fez nos cabelos bem na frente do nariz e o aroma de sândalo a lembrou de que realmente estava com cheirinho de banho tomado.
- Você tomou banho! Onde? – Ele diz a segurando pelos ombros de repente.
- AH?! - Ela solta um gritinho de susto e então tenta segurar o riso.
- Você tá rindo? Onde diabos vocês tomam banho se nem saem daquela barraca minúscula? – Ele pergunta parecendo mais uma criança fazendo birra.
- Eu também quero tomar banho. – Ele diz com as orelhas ficando vermelhas como pimenta e Aileen não pode evitar rir.
- Certo, vou mostrar pra vocês, mas antes tenha em mente que esse tipo de coisa demora a ser feita então não posso ir na sua barraca e fazer isso agora.
- Isso o quê?
- Calma, você vai ver.
Os outros saem de suas barracas, inclusive Benji e encontram Jiaer sacudindo Aileen pelos ombros enquanto ela ri. Ao ver o olhar azedo de Benji na direção deles, Jiaer a solta e desvia o olhar.
- A gente perdeu alguma coisa? – Cassian pergunta.
- Não exatamente. Jiaer só tá aqui fazendo birra porque quer tomar banho. – Aileen responde ainda rindo um pouco.
- Não é só ele, a gente também quer, não tem um único lago limpo nessa ilha, tudo parece pântano lamacento. – Áki diz.
- É claro que tem lagos limpos, isso aqui também não é um lixão. – Benji diz tentando defender sua ilha.
- Você também tá cheiroso. – Jiaer diz chegando por trás de Benji de repente.
- Que susto cara! – Ele diz desviando do amigo.
- Tá bom, chega. Vai todo mundo tomar banho mesmo até porque não quero andar por aí com catinguinha. Sigam-me. – Aileen diz.
Todos se entreolham quando ela aponta para a entrada da barraquinha minúscula. Benji também faz um gesto para que entrem. Ao entrar na barraca os três rapazes ficam boquiabertos, um quarto enorme se estende diante deles. Um lado do quarto claramente pertencia a Benji, as coisas meticulosamente arrumadas e um conceito minimalista, já o outro lado realmente refletia a aura de uma bruxa aventureira, livros se amontoam no chão perto da cama já que a estante está lotada. Prateleiras repletas de todos os tipos de coisas, como pedras mágicas, garrafinhas para poções, e uma prateleira inteira dedicada a "ingredientes secretos" segundo dizia a etiqueta nos vários potes expostos. Mais na frente um enorme guarda-roupas de madeira mantinha todas as roupas chamativas e extravagantes dos dois habitantes da barraca.
No fundo, uma grande mesa de madeira, repleta de papéis e pergaminhos todos arrumados e catalogados, fica ao lado da porta que leva ao banheiro. Dentro uma grande banheira com água ainda quente se mostra aconchegante e irresistível. A Ilha da Lua é um lugar frio e um banho quente é muito desejado. No banheiro também há prateleiras com produtos para banho, e a fonte do aroma delicioso que Aileen e Benji emanavam. Os três observavam tudo calados e visivelmente chocados.
- Benji não tem tantas roupas assim, então me deem suas roupas, vou usar um feitiço de limpeza e elas vão ficar novinhas. – Aileen diz quebrando o silêncio.
- Pode fazer isso nas nossas barracas também? – Áki pergunta com os olhos brilhando.
- Não é tão fácil, mas posso ir dando um jeito aos poucos. – Aileen diz e Áki pula em cima dela para um abraço.
- Eu vou primeiro. – Ele diz e ninguém recusa o pedido do caçula.
Após estarem todos devidamente banhados e alimentados eles voltam à floresta. Benji e Aileen estão ainda mais em alerta, pois o trecho da viagem agora seria onde o perigo ia realmente começar e eles sabiam disso.