Uma coisa que Benji não sabia era que um corte por uma lâmina de um Cervo Gélido na verdade guardava um tipo muito raro de veneno. Logo que o monstro foi derrotado, Aileen e os outros correram para onde eles estavam. Benji viu o rosto de Aileen ficar branco como papel e seguiu seu olhar até sua perna.
- Foi só um cortezinho de nada, não precisa se preocupar. – Benji diz tentando acalmá-la.
- Sua perna está congelando. – Ela diz sem tirar os olhos do ferimento.
- O quê? – Ele olha rapidamente para a perna, o sangramento parou e o corte começava a cristalizar. – Isso explica por que está dormente.
- Sua besta quadrada. – Aileen dá dois tapas nas costas de Benji. – Eu avisei pra nunca deixar um Cervo Gélido te atingir.
- Avisou? – Ele pergunta tentando lembrar.
- Você é muito rápido, como deixou isso acontecer, seu imbecil? – Ela pergunta dando mais tapas nele.
- A culpa foi minha, ele teve que me salvar. – Cassian diz e sua expressão demonstra uma enorme culpa.
- Não foi culpa sua. – Ela fala consolando ele. Depois vira para Benji e lhe dá mais dois tapas em suas costas. – Eu avisei que as lâminas do Cervo Gélido eram venenosas, se você não vai ler os livros pelo menos ouça quando eu falar sobre essas coisas.
- Pega uma poção de cura, rápido. – Áki diz sentando ao lado de Benji.
- Não posso curá-lo. – Aileen diz frustrada.
- O quê? Como assim? – Jiaer pergunta alarmado.
- É verdade que posso fazer poções, remédios e etc., mas sou uma bruxa, não uma curandeira, esse ferimento está além das minhas habilidades.
- Não tem um feitiço que possa usar? – Jiaer pergunta indignado.
- Se tivesse eu já teria usado. – Aileen responde visivelmente estressada.
- Não é hora para brigas. – Cassian interrompe antes que Jiaer possa dar uma resposta mal criada. – Aileen, você não consegue curá-lo, mas por acaso sabe quem consegue?
- Só conheço uma criatura capaz de curar esse ferimento, mas não sei se ele vai ajudar.
- Por quê? – Cassian pergunta preocupado.
- Por que dragões não gostam de guerreiros. – Ela responde.
- Um dragão? – Áki pergunta um pouco animado demais para o momento.
- Sim, o dragão vermelho que mora na montanha é um curandeiro. Mas temos duas desvantagens, a primeira é a que já mencionei e a segunda é que ele mora nas montanhas e é longe pra caramba. Nossa única vantagem é que o congelamento causado pelo corte avança muitíssimo devagar. – Ela explica pensativa.
- Mesmo assim precisamos tentar. – Jiaer diz.
- Eu não tinha intenção de desistir. – Aileen diz e eles trocam farpas apenas pelos olhares enquanto ela retira da bolsa o mapa da ilha. – Vamos mudar a rota para essa montanha, é onde o Dragão Vermelho vive. Mesmo que o congelamento seja lento precisamos ser rápidos, ou seja, Benji você só vai atrasar a gente, fique no acampamento. – Ela diz séria.
- Não. Não vou me separar de você. – Ele diz ainda mais sério.
- Não temos tempo pra romancinho Benji, a prioridade agora é curar você. – Jiaer diz ajudando o amigo a ficar de pé.
- Não, Aileen não pode viajar sem mim. – Ele diz sem ceder.
- O caminho inteiro é pela floresta, o máximo que pode acontecer é encontrarmos outros monstros. – Aileen diz tentando convencê-lo.
- Pessoas podem aparecer em qualquer lugar, eu vou com vocês mesmo que perca a perna.
- Isso sim seria uma viagem inútil. Venha, vamos voltar.
Ela mostra a pedra de portal e todos tocam nela, em um segundo eles se veem no acampamento novamente. Aileen leva Benji para dentro da barraca a fim de fazer pelo menos alguns curativos para atrasar ainda mais o congelamento da perna.
- Você não pode ir sozinha. – Benji fala baixinho.
- Você pode ter pelo menos 1% de confiança em mim? – Ela diz dando um nó forte na atadura fazendo ele soltar um "Ai!".
- Não é questão de confiança, é perigoso. – Ele insiste. – Você só viaja sem mim quando vai sozinha na vassoura para lugares onde não há pessoas, só assim não me preocupo muito.
- Essa montanha é muito longe, mas voando rápido seria só meio dia de viagem, e não há lugar mais seguro pra mim do que uma montanha cheia de dragões. É melhor que eu vá sozinha na vassoura, posso ir e voltar mais rápido, mas duvido que seus amigos confiem em mim.
- Ah! Que inferno! – Benji pragueja deitando na cama.
- Benji... – Ela hesita. – Confia em mim...
- Eu tenho medo. – Ele diz sentando novamente.
- Eu sei. – Benji segura Aileen pela nuca e encosta a testa dele na dela, demonstrando sua confiança e deixando Aileen aliviada.
- Eu vou convencer eles para que concordem que você vá sozinha, voando alto na vassoura a probabilidade de encontrar outras pessoas é muito baixa. – Ele diz tirando a testa da dela, e com a mão ainda em sua nuca ele diz olhando em seus olhos. – Não podemos correr nenhum risco depois do que aconteceu com as bruxas.
- Eu sei. Vou chamar os outros. – Aileen diz saindo da barraca e o lugar onde a mão de Benji estava parece muito frio após ele tê-la soltado.
Depois de uma longa e cansativa discussão, os rapazes finalmente concordam que Aileen vá sozinha até a montanha. "Em toda a ilha ninguém conhece melhor as montanhas dos dragões do que eu." Ela afirma muito segura de si. Após prometer a Benji que evitaria qualquer conflito e prometer aos outros que Benji seria, de fato, curado pelo Dragão Vermelho ela monta em sua vassoura e sai do acampamento em uma velocidade assustadora.
- Achei que voar alto também fosse perigoso. – Áki diz preocupado. – E se ela se machucar?
- Não há um único centímetro na floresta que seja realmente seguro, toda vez que saímos é um risco que assumimos. – Benji responde. “E não há pessoas voando por aí.” Ele pensa.
- Ainda acho que pelo menos um de nós deveria ter ido com ela. – Jiaer diz nervoso.
- Você está preocupado com ela? – Benji provoca.
- É claro que não! – Ele nega, mas suas orelhas vermelhas entregam a verdade.
- Achei que você fosse contra ela ir sem você, mas parece tranquilo. – Cassian diz.
- Não estou necessariamente tranquilo, mas a montanha dos dragões não é lugar para guerreiros, eu estaria mais preocupado se vocês estivessem com ela. Ela é amiga dos dragões, e antes de me conhecer morava na montanha com eles, ela estará segura lá.
- Sério!? Você morava com os dragões? – Áki pergunta tentando conter sua animação sobre a existência das criaturas.
- Sim. – Aileen responde e pode ver os olhos do menino brilhando mais que estrelas.
- Mas se os dragões odeiam tanto guerreiros, o que faz vocês pensarem que um deles vai ajudar? – Jiaer questiona.
- É uma boa pergunta. Acho que precisamos confiar nas habilidades de persuasão dela. – Benji responde.
A vassoura de Aileen é mais rápida e resistente do que parece ser e voando a toda velocidade ela chega na montanha dos dragões em meio dia. Ninguém, além de bruxas, é bem vindo na montanha, por isso não há pessoas ou criaturas estranhas ao redor, apenas dragões de todas as formas e tamanhos. Filhotes brincam rolando na grama e tossindo fumaça. Os maiorzinhos treinam o voo, alguns caem, mas logo levantam e tentam novamente. Aileen se sente confortável ali, era sua casa antes de conhecer Benji. Talvez nenhuma das tragédias dos últimos tempos tivesse acontecido se ela simplesmente tivesse ficado quieta na montanha, mas ela foi embora com Benji e tudo realmente aconteceu, porém era sempre bom voltar pra casa. Ela cumprimenta todos que vê pela frente e chega a se distrair por um momento com filhotinhos de dragões azuis.
O dragão que ela procura mora no topo da montanha, sozinho e isolado do resto, ele guarda um segredo e Aileen sabe o que é, o dragão é na verdade um humano forasteiro. Depois de deixar os filhotinhos com a mãe ela voa até o topo para encontrar o Dragão Vermelho, ele é o único de sua espécie, um majestoso e deslumbrante dragão chinês - ou pelo menos era essa a percepção de Aileen, já que ele era idêntico a um dragão chinês, - suas escamas cintilavam em um vermelho perolado, seu corpo longo mostrava-se com elegância e sempre que ele se movia era um espetáculo hipnotizante.
- Lóng? – Aileen chama na entrada da caverna. – Você está aí?
Um homem de cabelos vermelhos emerge das sombras, ele tem um rosto jovem, traços definidos e uma expressão serena que esconde grande força. Ele usa roupas tradicionais chinesas, o tecido em um vermelho vivo com padrões brancos que lembram pétalas de flores soltas ao vento. A faixa na cintura, larga e escura, exibe desenhos em espiral que se entrelaçam como correntes, mantendo o traje ajustado ao corpo com elegância. Todo o vermelho vivo, dos cabelos à roupa faz com que ele pareça fogo em meio ao frio da Ilha da Lua.
- Aileen, que surpresa boa! – Ele a recebe com um sorriso.
- Lóng, preciso da sua ajuda. – Ela diz com os olhos cheios de súplica – Preciso dos seus poderes de cura, meu amigo, ele está...
Aileen para a frase no meio ao notar um anel no dedo indicador dele, um anel idêntico ao de Benji. Ela então lembra que um dos pontinhos brilhosos no mapa ficava em uma área perto da montanha dos dragões. Por impulso ela segura sua mão para checar o anel mais de perto. Não era o amigo dela quem ele iria ajudar, mas o seu próprio.
- Aileen? O que aconteceu? – Ele pergunta preocupado.
- Você por acaso conhece o Benji? – Aileen pergunta com um nó na garganta.
- Benji? – Lóng pergunta confuso.
- Sim, Benji, Cassian, Jiaer e Áki. – Ela diz cheia de esperança.
- Como você sabe esses nomes? – Lóng parece não acreditar no que ouve.
- Todos eles estão comigo. – Ela responde eufórica. – Todos os seus amigos estão em Drei, inclusive estamos procurando os outros, mas Benji se machucou lutando contra um Cervo Gélido, então vim atrás de você sem me dar conta de que um dos pontinhos estava aqui. - Aileen diz rápido sem nem ao menos parar pra respirar.
- Espera, Benji foi ferido por um Cervo Gélido? – Lóng pergunta preocupado sem ter tempo de processar todas as informações.
- Sim, por isso vim até aqui, você é um curandeiro, só você pode ajudar a gente agora. – Aileen diz ainda segurando a mão de Lóng e agora a apertando um pouco mais.
- Preciso de um cristal da vida pra curar um ferimento feito por um Cervo Gélido. – Lóng diz mais para si mesmo do que pra ela.
- E é difícil encontrar um?
- Não são encontrados, são feitos. Precisarei ir até o vulcão mais próximo para fazer um.
- Eu vou com você. Precisamos ir o mais rápido possível, mesmo que o congelamento seja lento, o corte é profundo. – Aileen diz e Lóng assente com a cabeça.
O belo rapaz então se transfigura, da forma mais majestosa e mágica possível, em um lindo dragão vermelho e com Aileen em suas costas eles partem em busca de um vulcão. Era muito raro um dragão descer da montanha, principalmente Lóng já que ele não quer que os outros descubram que ele é um humano. Quando ele sai com Aileen os outros dragões ficam surpresos e curiosos já que Lóng muito raramente sai de sua caverna, mas ninguém os seguiu. Dragões, diferente dos linces, cuidam apenas de suas próprias vidas, sem se meter nos assuntos alheios.
- Você acha que fiz bem em deixar a montanha? – Aileen pergunta a Lóng?
- Por quê? Não gosta da vida na floresta?
- É que eu não me reconheço mais...
- Talvez você tenha encontrado quem sempre foi de verdade.
- Espero que não... – Ela diz pensativa. – Isso significaria que eu sou má e maluca. – Lóng ri do comentário.
- Maluca eu acho que você sempre foi. No entanto, você realmente mudou. – Ele diz em uma voz séria de repente.
- Como assim? – Ela pergunta.
- Sua magia antes era cor de rosa, está escurecendo. A sombra que te persegue está aumentando. Até suas roupas estão mais escuras, seus olhos.
- Não tem problema.
- O que aconteceu com as bruxas? – Ele pergunta em tom sereno, sem acusações.
- Não é importante. – Ela responde olhando para o céu.
- É mais importante do que você imagina. A escuridão em seu coração está crescendo.
- E se eu não fizer nada sobre isso?
- Irá consumi-la. – Ele diz. – Você precisa de luz em sua vida.
- Benji... – Ela diz com um leve sorriso sentindo o vento no rosto.
Já faz tempo que ela questiona a si mesma e a linha tênue entre o que é certo ou errado. Benji a ajuda a se manter com os pés no chão, mas ela não queria depender dele pra sempre e queria ser capaz de fazer as escolhas certas por si só. "A escolha certa pra mim pode parecer errada para outras pessoas. Afinal o que é realmente certo e o que é moralmente correto?" Ela tem feito essa pergunta a si mesma.
O dragão voa em alta velocidade procurando freneticamente um vulcão. Lóng é um dragão solitário, os outros na montanha tem suas famílias, mas ele vive sozinho no topo, escondido. Foi quando se aventurou pela floresta pela primeira vez, na esperança de encontrar algo ou alguém que o fizesse se sentir menos solitário que conheceu Aileen, uma bruxa estranha que vivia perto das montanhas caçando monstros e bichos esquisitos. Lóng encontrou nela o que procurava e ofereceu sua caverna para ela morar e testar seus feitiços excêntricos. Eles ficaram juntos por meses, ela guardava seu segredo e ele apreciava sua companhia. Um dia, no entanto, um guerreiro subiu a montanha a fim de matar um dragão azul, Aileen desceu para ajudar o dragão, mas acabou ajudando o guerreiro e indo embora com ele. Lóng havia ficado curioso com a partida da amiga, mas não chateado, pois ela frequentemente o visitava e agora se sentia completamente feliz por descobrir que o tal guerreiro era, na verdade, seu amigo de toda uma vida.
- Chegamos. – Lóng diz pairando acima de um vulcão. – Fique na borda entre as pedras, crie uma barreira de proteção para não se queimar.
- E você? – Ela pergunta.
- Eu vou entrar e fundir minha magia com a do vulcão para criar o Cristal da Vida.
- Cuidado para não se machucar. – Ela diz quando ele a coloca no chão.
- Não se preocupe, mergulhar em um vulcão não é nada para um dragão vermelho. – Ele a tranquiliza e então voa para dentro em alta velocidade fazendo a fumaça ao redor se dissipar por um momento.
Lóng mergulha na lava como alguém que se joga em um lago de água fresca, ele vai mais e mais fundo com a lava passando por sua pele grossa sem machucá-lo, pelo contrário, a sensação de estar envolto em lava quente dá ele uma certa tranquilidade e confiança. Chegando em um ponto quente o suficiente ele começa a nadar em círculos mais e mais rápido, logo se cria um redemoinho de lava e ele então começa a cuspir fogo até que uma esfera minúscula se forma. O fogo do vulcão junto com o de um dragão vermelho cria uma esfera alaranjada que se chama Cristal da Vida. Esse cristal tem poderes inimagináveis, é um dos mais fortes e enigmáticos artefatos mágicos da Ilha da Lua, mas independente de qualquer coisa o cristal era capaz de curar Benji.
Com um voo ainda mais veloz Lóng sobe de volta pela lava com o cristal na boca. Ao vê-lo Aileen desativa a barreira de proteção e ele simplesmente a pega e os dois saem voando até um ponto na floresta onde Lóng a coloca no chão e toma sua forma humana.
- Aqui. – Ele diz tirando o cristal da boca. – Você mesma pode usar, mas quero ir junto, quero ver meus amigos.
- Coloque aqui. – Ela diz abrindo a bolsa para ele guardar o cristal. – Não podemos voar até lá na sua forma de dragão sem revelar a localização do acampamento. Vamos na minha vassoura. Dessa vez você é quem precisa segurar firme.
Eles sobem na vassoura e Aileen usa toda a velocidade possível, mas mesmo assim demoram cerca de um dia para chegar ao acampamento. No entanto não estão nada cansados, Aileen está cheia de adrenalina e Lóng consumido pela ansiedade para reencontrar seus amigos.
- Voltamos! – Aileen diz ao entrarem no acampamento.
Cassian é o único fora da barraca sentado perto da fogueira, está escuro então ele precisa se aproximar um pouco para perceber que Aileen não está sozinha. Antes que qualquer um dos dois possa reagir Lóng se joga em cima de Cassian.
- Cassiaaaaaan!!!! – Ele grita aos prantos.
- Lo.. Lóng? – Cassian olha para Aileen confuso.
- Veio de brinde. – Ela diz indo em direção à barraca.
- Que grito foi esse? – Jiaer pergunta quando ela entra.
- Vão lá ver. – Ela diz e Jiaer e Áki saem. Logo se escuta mais dois gritos e um berro de choro incontrolável. – Eu não sabia que ele era tão chorão.
- O que... – Benji mal conseguia falar, a cristalização que começava no ferimento da perna avançava devagar, mas o frio já se espalhava por todo seu corpo.
- Voltei, moribundo. – Ela retira o Cristal da Vida de dentro da bolsa. – Toma, engole isso.
Ao engolir o cristal Benji sente que está engolindo fogo puro, o que não deixava de ser verdade. O cristal funciona instantaneamente contra o frio, mas vai levar um tempinho para curar a perna e é bastante doloroso, então Aileen usa um feitiço para que Benji durma enquanto o cristal faz efeito. E mesmo com os gritos lá fora o cansaço finalmente a atinge e sentada ao lado da cama de Benji ela adormece.