Carol puxou um banco de metal de uma das mesas do porão. O som áspero das pernas do objeto raspando no chão foi alto e estridente. Ela se posicionou bem à frente de Bruna e sentou com calma, cruzando as pernas, como se estivesse prestes a iniciar uma conversa casual ao invés de um interrogatório. Seus olhos castanhos se fixaram no rosto da rebelde.
— Bruna Lynes, não é?! — disse, inclinando levemente a cabeça. — Cê é bem corajosa de vir aqui sozinha desse jeito. Sem implante, sem armamento pesado... O que tu faria se trombasse com mais membros da gangue na entrada?
Bruna sustentou o olhar, mesmo com a dor ainda martelando sua cabeça. A luz forte fazia sua visão pulsar, mas ela não desviou. Observou Carol com atenção: o jeito controlado, a postura segura, o olhar frio. Não parecia muito mais velha que ela. Talvez tivessem a mesma idade.
— Como eu disse, fui informada que o lugar tava desprotegido — respondeu, a voz firme apesar do cansaço.
Carol soltou um leve sorriso de canto, quase divertido.
— Isso eu já sei. Tínhamos suspeita de que havia alguns traidores dentro da nossa organização. Espalhamos a informação de que a oficina iria ficar desprotegida por uma noite para algumas pessoas bem específicas. Agora que cê tá aqui, dá pra ter uma ideia de quem entregou a gente — disse, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Atrás dela, Caim observava em silêncio, o AT-MkII ainda firme na mão, mas sem pressionar tanto quanto antes.
— Quem que te contratou? Foi um dos nossos? — ele perguntou, a voz ainda carregada de desconfiança.
Bruna respirou fundo, o peito subindo com dificuldade. A cabeça ainda latejava, mas ela sabia que tinha que responder.
— Não... — começou, desviando o olhar por um segundo, hesitante em responder. — Foi um dos Mancha, talvez... Vi a tatuagem da facção no pulso dele.
— Como eu imaginei... — Carol respondeu, desviando o olhar por um instante. A mão subiu até o queixo, os dedos tocando levemente a pele enquanto ela assumia uma expressão pensativa. — Chequei seus dados e seu histórico de ligações, mas não tinha nenhum contato que ligasse à nossa organização.
O comentário caiu com naturalidade demais. Bruna franziu a testa, a dor na cabeça ainda pulsando, mas agora misturada com surpresa.
— Pera aí, cês me hackearam? Como?
Carol soltou uma risada leve, quase divertida com a reação.
— Ah, não foi muito difícil. — disse, inclinando-se um pouco para frente e explicou a situação de forma empolgada. — Quando tu entrou no porão, eu consegui te ver através de uma das câmeras escondidas que a gente tem aqui. — Ela fez um gesto vago com a mão, apontando para algum ponto invisível entre as estruturas do teto. — O lance é que ela tem um scanner na lente, que está linkado com um software que eu mesma modifiquei, que me permite analisar implantes e quaisquer aparelhos eletrônicos de qualquer um que entrar aqui.
Bruna arregalou levemente os olhos.
— Então foi tu que fez isso com meu chip?
Carol assentiu, um sorriso satisfeito surgindo no rosto.
— Pode crê — respondeu com um sorriso que não escondia o orgulho. — Mas, como eu falei, não foi muito difícil, já que cê fez metade do trabalho pra mim. Esse teu chip I.N.N. é de um modelo antigo e muito desatualizado, praticamente não tem segurança nenhuma, então a proteção dele contra invasões é muito pobre. Não foi difícil invadir a longa distância através da câmera. Uma vez hackeado, tudo que eu tive que fazer foi superaquecer ele.
I.N.N., ou Identificador Neural Nacional, era um chip neural que todo cidadão brasileiro carregava. Um implante obrigatório, integrado ao sistema do país. Funcionava como um documento de identidade, CPF, RG... tudo em um só. Também era o que permitia o acesso à Rede, às contas bancárias, aos registros pessoais e praticamente qualquer outro serviço distribuído por corporações e empresas licenciadas. Um núcleo digital ligado diretamente ao cérebro, com assinatura neural única, teoricamente impossível de falsificar. Teoricamente.
— Porra... — murmurou a mercenária, sentindo-se presa como um coelho em uma armadilha.
Carol deixou escapar um pequeno riso pelo nariz.
— Se sentindo uma idiota, né?! Se tu tivesse um chip novo e atualizado, você saberia quando eu tivesse tentando hackear ele e tu talvez, muito talvez mesmo, não estaria nessa situação agora — o sorriso que surgiu em seu rosto era sutil, delicado e amigável, mas preciso e ameaçador. — Mas já que tamo’ aqui, me chamou atenção o fato de tu ser uma mercenária bem barata e amadora. Além disso, descobri no seu histórico de ligações conversas com um tal de “Facão”. Tem algo a dizer sobre ele?
— Ele é o Fiador… o cara que me contratou pro trampo.
Fiador é como os mercenários e marginais se referem aos clientes, ou aqueles que oferecem os serviços, trampos ou missões, seja lá qual for o objetivo.
Carol assentiu devagar, demonstrando que a informação não era novidade.
— Disso eu já sei. Quero saber o que cês conversaram fora das ligações. O que sabe sobre ele?
— Não muito, na real. Acabei de descobrir que ele não gosta de contar toda a verdade com quem ele negocia — respondeu, com um leve tom amargo. — Além disso, ele flerta bastante...
— Tá achando que nós tá de brincadeira, sua puta?! — Caim explodiu, a paciência se esgotando. Ele avançou um passo, erguendo o revólver novamente, agora apontando direto para a testa dela. — Começa a falar antes que eu exploda tua cabeça!
Bruna respirou fundo, a tensão apertando o peito.
— Só o que eu sei é que ele tinha uma tatuagem dos Mancha. Eu já falei isso! — rebateu frustrada, a voz falhando levemente no final.
— Mas por que eles fariam isso? — murmurou, mais para si mesma do que para os outros. — Até onde eu sei, a gente não tá em treta com eles.
— Eu não sei. — respondeu — Como eu falei, o cara não me disse quase nada. Só me disse que aqui era uma oficina. Nem sequer mencionou o laboratório bizarro de vocês.
O silêncio se instalou por um breve momento. Caim abaixou sua arma alguns centímetros, o olhar ainda duro, mas agora menos impulsivo. Ele virou levemente a cabeça na direção de Carol.
— Acha que tem algo a ver com aquilo?
— É uma possibilidade… — ela disse baixo antes de voltar ao tom normal. — De qualquer forma, estamos rastreando as coordenadas dele, não deve demorar muito até conseguirmos encontrar algo. A essa altura, ele já deve saber que seu plano deu errado e deve estar tentando se esconder em algum buraco. Nós vamos achar ele. E enquanto isso...
Carol estala os dedos. Um dos homens que estava encostado na bancada se moveu imediatamente. Ele já vinha com uma espécie de aparelho injetor em mãos. Antes que Bruna pudesse reagir, ele segurou o pescoço dela com firmeza e aplicou a injeção.
— Ai! Que porra é essa?! — ela gritou, mais de susto do que dor.
A sensação foi como uma picada de inseto, mas, por algum motivo, não durou mais do que alguns segundos.
Carol observou a reação com calma junto a um leve sorriso nos lábios.
— Um rastreador. Pra caso tu queira sair da cidade. Uma lembrancinha nossa pra você. — disse em tom gentil, o sorriso suave demais para combinar com as palavras. — Nem tenta tirar, tá? Esse rastreador é do tamanho de um grão de arroz e, caso cê tente removê-lo sem desativar o protocolo de segurança, ele irá se romper e liberar uma toxina na área aplicada, fazendo sua carne necrosar. Como ele foi injetado no seu pescoço, se o rastreador se romper, tu morre.
— Ah é?! E se eu for num cibercirurgião? — Bruna responde tentando encontrar alguma esperança para si.
— É inútil, ele se romperá do mesmo jeito. Só é possível remover ele, sem que ele se danifique, depois de desativar o protocolo de segurança através do software linkado a ele. E nem adianta tentar hackear, eu vou saber caso tu tentar isso e eu vou fazer com que ele se auto danifique no seu pescoço. Em outras palavras, tu não pode fazer nada.
— E pra que cês querem saber a porra da minha localização? — rebateu Bruna, irritada. — Por que não me matam aqui e agora?
— Porque você vai resolver essa bagunça. Quando a gente te ligar, você atende. Quando a gente te chamar pra um lugar, você vai. Sem perguntas.
Bruna soltou um riso curto, sem humor.
— E o que eu ganho em troca? Não trabalho de graça, tá ligada?
Caim não esperou sua parceira responder. Deu um passo à frente e pressionou o AT-MkII novamente contra a cabeça de Bruna, com força suficiente para fazê-la inclinar levemente o rosto.
— Teu pagamento vai ser eu não transar uma bala nessa tua cabeça, caralho!
O metal frio encostado na pele fez o recado ficar claro.
— Cê ouviu ele... — disse a hacker, sem alterar o tom.
Ela se levantou da cadeira com um movimento fluido, quase elegante. A luz branca do porão repousava sobre sua pele negra e macia, destacando os contornos do rosto e o brilho discreto nos olhos. Seu cabelo cacheado e volumoso balançou levemente com o gesto, após ela se afastar alguns passos, já encerrando a conversa.
— Bom, acho que é isso. Vamos te ligar em breve, então fique atenta e tente não se meter em encrenca. Caim, cê já sabe o que fazer.
Carol se virou sem pressa, os outros dois homens a seguiram em silêncio, subindo as escadas que levavam de volta para a parte superior da oficina. O som dos passos foi se afastando até desaparecer por completo. Agora, só restavam Bruna e Caim. Ele ficou parado por um instante, observando-a. O revólver ainda estava em sua mão, mas logo foi guardado no coldre com um movimento firme. O clique seco ecoou pelo espaço vazio.
Sem dizer nada, Caim ergueu o braço direito. O implante metálico começou a vibrar levemente, como se estivesse despertando. Pequenos sons mecânicos surgiram. Engrenagens internas girando, peças se ajustando, pressão sendo acumulada. O braço inteiro parecia ganhar peso e propósito, como uma ferramenta sendo calibrada para um único golpe.
Bruna arregalou os olhos, o corpo reagindo antes mesmo da mente.
— Não não não não... PERA AÍ!!!!
Sua súplica foi inútil. Caim avançou um passo e desferiu o golpe. O punho metálico acertou o rosto de Bruna com força brutal, como uma marreta. O impacto foi seco e pesado. Sua cabeça foi jogada para o lado, e o mundo explodiu em um clarão branco junto a um zumbido infernal nos ouvidos. A cadeira não resistiu e tombou junto com a mercenária. O corpo de Bruna caiu no chão de concreto, o ar foi arrancado dos pulmões. A visão se fragmentou em manchas distorcidas, as luzes do teto tremendo como se estivessem derretendo. O gosto de ferro invadiu sua boca enquanto a dor latejava em ondas desordenadas.
E então, tudo escureceu.