Visão embaçada. O mundo voltava em fragmentos desconexos. O chão parecia ondular sob seus pés, ou talvez fosse seu corpo que não conseguia mais entender o próprio equilíbrio. Sons chegavam distorcidos, como se atravessassem água. Vozes sobrepostas, sussurros distantes que não faziam sentido completo.
— Segura ela direito!
A frase cortou o ruído por um instante, mais nítida que o resto. Então tudo apagou de novo.
…
Um lampejo de consciência. Luzes passando em movimento. Ela sentia o próprio corpo sendo puxado, arrastado sem cuidado. O contato áspero contra o chão como se estivesse suspensa. Não conseguia abrir os olhos direito, mas percebia mudanças. O ambiente já não era mais o mesmo.
Outro apagão.
…
Dessa vez, o corpo inteiro vibrou. Bruna percebeu antes de entender: estava dentro de um carro. O som abafado do motor elétrico, quase silencioso, ainda assim presente. A vibração constante contra as costas. Pela visão turva, conseguiu captar flashes de luz entrando pela janela; postes, holoanúncios piscando em cores artificiais, tudo passando rápido demais para focar. As vozes voltaram, ainda distorcidas, como ecos quebrados.
Outro apagão.
…
Um tranco. O movimento cessou de repente. Mãos a agarraram novamente e a puxaram para fora. O ar noturno bateu no rosto dela, frio, carregado de poeira e fumaça. A visão clareou por um segundo, o suficiente para perceber sombras humanas ao redor, rostos borrados, irreconhecíveis. Então veio o impacto. Seu corpo foi lançado ao chão sem qualquer cuidado, como se fosse lixo. Caiu contra o concreto duro e a dor se espalhou.
— Beleza, bora dar a foda fora daqui! — disse uma das vozes.
Passos se afastando. Silêncio. E mais uma vez escuridão.
…
— Ai…
O gemido saiu fraco, quase involuntário. Bruna voltou à consciência lentamente, como se cada parte do corpo estivesse acordando em tempos diferentes. A cabeça latejava com uma intensidade brutal, pior do que antes. A nuca já não queimava como no porão, mas ainda havia um desconforto profundo.
— Finalmente acordou.
A voz que ouviu era familiar. Ela franziu o rosto, levando a mão até a cabeça, pressionando como se pudesse conter a dor com os dedos.
— Minha cabeça… — murmurou com os olhos ainda semicerrados.
Piscou algumas vezes forçando a visão a se ajustar, o ambiente ao redor começou a tomar forma aos poucos: um quarto escuro, simples e familiar. As paredes gastas, a iluminação fraca, o cheiro leve de álcool impregnado no ar. Tudo carregava uma sensação estranhamente confortável, apesar de tudo. Ela reconheceu. Era o apartamento de Otávio. Mais especificamente, o quarto dele; modesto, apertado, mas impossível de confundir.
— Tu foi atingida com força, garota. Não faz esforço. — disse Otávio, aproximando-se devagar.
Ela apertou os olhos tentando afastar a dor que pulsava atrás deles.
— Como eu vim parar aqui?
— Ouvi barulhos altos no corredor. Quando eu abri a porta tu tava jogada no chão desse jeito. Desci as escadas procurando por alguém, mas quando cheguei no térreo, vi apenas um carro indo embora com pressa.
— Como é que eu tô? — perguntou a mercenária de forma irônica.
— Já te vi pior.
Bruna soltou um pequeno suspiro e, com esforço, se apoiou nos braços para se sentar na cama.
— Vai me contar o que aconteceu? — Otávio perguntou, cruzando os braços, a expressão séria.
Ela passou a mão pelos cabelos antes de responder.
— Acho que me meti numa furada. Fui contratada pra um trampo simples… — fez uma pausa, como se repensasse as próprias palavras. — ou pelo menos era o que parecia no começo. No fim era uma isca.
— Isca pra você? Por quê?
— Não. — Bruna negou com a cabeça. — Não pra mim. Pra qualquer um que entrasse lá, eu acho.
— Foi aquele esquisitão todo chipado que te passou o trampo, não foi? — perguntou ainda com os braços cruzados.
— Sim.
— Qual era o trampo?
Bruna hesitou. O olhar se perdeu por um instante no chão antes de voltar.
— Explodir uma oficina no território do PCNS.
Otávio soltou o ar lentamente, como se já esperasse algo ruim, mas não tão ruim assim. Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente incomodado, e então se aproximou da cama. Sentou-se na beirada, mantendo uma certa distância, como se não quisesse pressioná-la mais do que já estava.
— O Fiador… — disse, pensativo. — Ele pertencia a algum grupo?
— Os Mancha, talvez. Não tenho certeza.
Otávio cobriu o rosto com as mãos por um instante, esfregando os olhos com força.
— O que te deu na cabeça em aceitar um trampo desses?! — a voz saiu mais alta agora. — Não tava na cara que era furada?
Bruna ergueu o olhar, já irritada.
— Aceitei o trampo porque é isso que eu faço. Eu sou um Risco, lembra?!
— E acha que fazer uma das maiores facções da cidade colocar um alvo nas tuas costas é a melhor maneira de construir tua reputação como mercenária?! — retrucou ele, virando o rosto na direção dela. — Tu ainda é só uma novata, garota.
— Eu me lembro perfeitamente de tu dizendo que pra se tornar alguém nessa cidade é necessário fazer o impossível, mesmo que isso signifique arriscar a própria vida. Ou isso por acaso é uma memória falsa?
Otávio se levantou da cama, virando-se completamente para ela. Os olhos estavam mais duros agora, carregados de algo entre preocupação e frustração.
— Por que continua com essa obsessão infantil em querer se tornar uma lenda rebelde?
— Porque é a única coisa que eu tenho, porra!
A voz saiu alta, carregada de raiva e imediatamente veio a consequência: uma pontada forte atravessou sua costela, fazendo-a se curvar levemente. Ela respirou fundo, tentando ignorar a dor.
— É a única coisa que me mantém de pé nesse inferno… — completou, o olhar caindo.
A sua raiva deu lugar a algo mais pesado, mais silencioso. Uma sombra de melancolia que ela não conseguiu esconder.
Otávio engoliu seco, desviando o olhar por um instante e respirou fundo, como se precisasse reorganizar as próprias palavras. Quando voltou a encará-la, a dureza tinha diminuído.
— Cê tem que encontrar um jeito de sair dessa, Bruna… — disse, agora com um tom mais baixo, quase cuidadoso. Soava mais como um conselho do que uma bronca.
— Não dá pra voltar atrás, Otávio.
— E por que não?
Ela levou a mão até a nuca pressionando o ponto ainda sensível.
— Porque os cuzões do PCNS implantaram a merda de um rastreador no meu pescoço.
— O que eles querem rastreando você?
— Argh… — Ela bufou. — Acho que eu vou ser a putinha deles de agora em diante. Vou ter que fazer isso se eu quiser sair dessa com vida. Não é como se eu tivesse muita escolha.
Otávio soltou um riso curto, irônico, cruzando os braços musculosos outra vez.
— Então é isso, hein? Vai finalmente largar a vida de freelancer e se juntar a um grupo de Novos Sonhos?
— Parece que sim… por um tempo.
O silêncio pairou por um segundo antes de Otávio voltar a falar, mais sério.
— E quando tudo isso acaba, Bruna?
— Quando eu transar uma bala no crânio daquele puto do Facão.
Otávio observou o rosto dela por alguns segundos.
— Vai precisar de um ferro novo. — disse por fim. — Parece que eles sumiram com a tua Andorinha. Quando te encontrei, você só estava com seu celular no bolso.
Passou a mão na nuca, pensativo, antes de continuar:
— Já que tu se enfiou nessa guerra é melhor passar no Alef. Ele vai te ajudar.
Bruna soltou o ar pelo nariz, cansada.
— Não dá pra remover o rastreador, Otávio. Ele vai me matar antes disso acontecer.
Ele balançou a cabeça em negação.
— Tô falando da tua entrada I.N.N. que tá toda arrombada. Eu te levo lá na clínica amanhã cedo pra ele remover esse encaixe velho e talvez trocar por um novo.
Bruna desviou o olhar quase que automaticamente. O gesto foi sutil, gratidão não era algo que ela sabia demonstrar com facilidade. Ainda assim, depois de um breve silêncio…
— Valeu, Otávio… por me ajudar — a voz saiu quase contida.
— Só espero que você sobreviva. — disse Otávio, já se virando em direção à porta. — Além disso, vi que tu chegou aqui sem o meu carro, então preciso de tu viva pra pagar ele. Conhecendo o PCNS, eles já devem ter desmontado minha caranga a essa altura.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Sério que tu vai mesmo me cobrar?
Otávio soltou um sopro pelo nariz, aproximando-se da porta. O sensor reconheceu sua presença e o mecanismo deslizou com um leve chiado, abrindo o acesso para outro cômodo. Ele parou no batente, metade do corpo ainda no quarto, metade já do lado de fora. A luz amarelada do teto recaiu sobre sua pele negra, criando um contraste com a iluminação fraca do quarto. Por um instante, ele ficou ali, imóvel.
— É claro que vou. — respondeu, virando o rosto por cima do ombro, um sorriso de canto surgindo. — Eu não te ensinei? Não existe caridade nas ruas.
Sem esperar resposta, ele saiu para o corredor. A porta fechou-se atrás dele, mais lenta do que ela fazia antes, o mecanismo antigo roncando Ela acompanhou com o olhar, observou as costas dele se afastando pouco a pouco, até desaparecer completamente de vista.
— Tenta descansar um pouco. — a voz dele veio de fora, pouco antes da porta se fechar por completo.
Bruna abaixou a cabeça devagar, sentindo o peso do momento cair sobre seus ombros. Seus olhos se fixaram na própria mão, os dedos ainda levemente trêmulos. Sua mente começou a vagar, puxando lembranças antigas, fragmentos de seu passado confuso, momentos que pareciam mais simples e assustadores. Havia algo reconfortante naquelas memórias e perturbador ao mesmo tempo. Um misto de calor e frio. Um sentimento de saudade se espalhou lentamente, apertando o peito de um jeito estranho. Fechou a mão em um punho leve, como se tentasse segurar algo.
— Sim. Você ensinou. — murmurou quase em um sussurro. Um sorriso pequeno, melancólico, surgiu em seus lábios cortados.