Prólogo - Como tudo começou
A noite era fria. O vento assobiava a casa, fazendo ranger levemente as estruturas. Lá fora, as ruas refletiam a luz amarelada dos postes, ainda úmidas da garoa que caíra mais cedo.
Felipe ajeitou-se na pequena escrivaninha de madeira escura, o casaco fechado até o pescoço. O frio não vinha só de fora, parecia ter tomado também o peito. O caderno diante dele estava repleto de anotações desconexas, frases quebradas, como se o papel fosse o único espaço seguro para organizar tudo o que o sufocava.
— Hunf… e pensar que tudo aconteceria dessa forma… — murmurou, apoiando o queixo na mão.
Os olhos se perderam na janela embaçada. Por um instante, tentou enxergar além do vidro, mas só encontrou escuridão.
“Minha vida era completamente diferente. Eu tinha um time, uma rotina, e… até ela. Mas bastou um momento, uma decisão errada, e tudo se perdeu. Não era só sobre o jogo. Nunca foi apenas sobre isso.”
As lembranças lhe vinham em flashes: vozes conhecidas, risadas de partidas da madrugada, o barulho das teclas e da vitória chegando. Mas agora, essas vozes pareciam distantes. Restava apenas o silêncio incômodo de um time quase desfeito e de um laço rompido.
Ele fechou o caderno e encostou a testa sobre a capa gasta. O peso da culpa ainda queimava – por ela, pela derrota, por todos os caminhos que poderiam ter sido diferentes.
Do lado de fora, ouviu risadas abafadas, passos na rua, um rádio tocando uma música antiga pela vizinhança. A vida seguia, mesmo quando a dele parecia travada.
Respirou fundo, abriu o caderno novamente e, com a mão firme, escreveu devagar:
“Apesar de tudo, continuo seguindo em frente.”
As palavras ficaram ali, soltas na página, carregadas de dor, mas também de uma estranha coragem. Ele não sabia ainda que o futuro guardava, mas estava decidido a caminhar, mesmo tropeçando.
Sorriu de leve. Não era um sorriso de alegria, mas de alguém que, apesar das perdas, se recusava a parar, um sorrido de determinação.
Porque, no fundo, talvez fosse isso que importava: continuar.