Capítulo 01 - Recomeço
Parte 2 - O jantar
Ao cair da noite, um pouco antes das dezenove horas, Felipe chegara novamente ao casarão, subiu a escadaria lateral. O frio da noite o fazia um pouco trêmulo, ele ajeitou o casaco enquanto parava diante da porta do apartamento de Marina. Bateu duas vezes, firme e esperou.
A porta se abriu devagar, revelando Marina. Ela usava um vestido simples de cor clara, um casaco por cima e uma maquiagem suave que realçava seus olhos cor de mel. Os cabelos soltos caíam naturalmente sobre os ombros e o leve rubor nas bochechas indicava tanto o frio quanto um cuidado apressado que tivera pouco antes.
Felipe sorriu de imediato. O seu perfume agradável — amadeirado e marcante, sem exagero — e misturou ao leve aroma doce vindo dela.
— Você está linda, Marina. — disse, sincero.
Ela corou discretamente, mas sorriu em resposta.
— Obrigada… você também está ótimo. — respondeu, reparando no agora corte limpo da barba e na forma como o perfume marcava sua presença. Por um instante, ficaram em silêncio, o elogio pairando no ar. Marina ajeitou a pequena bolsa nas mãos e respirou fundo:
— Vamos?
— Claro. — Felipe respondeu, descendo o primeiro degrau ao lado dela.
Os dois desceram juntos pela escadaria de madeira. O som de seus passos ecoava pelo corredor até a parte de baixo, onde se encontrava a porta da casa dos proprietários. O frio da noite contrastava com o calor que os aguardava lá dentro, e Marina sentia o coração acelerar, não apenas pelo encontro, mas pelo peso da encenação que teria início.
Felipe, percebendo a tensão no rosto dela, murmurou baixo:
— Vai dar tudo certo.
Ela apenas assentiu, tentando acreditar nisso. Então, juntos, bateram à porta e foram recebidos por um casal de meia-idade. A mulher, de cabelos grisalhos bem presos em um coque firme, trajava uma blusa de tricô bordada e trazia nos olhos claros um brilho desconfiado, sempre avaliando cada detalhe. O homem, de barba prateada impecavelmente aparada, tinha postura séria, mas não hostil; o tipo de pessoa que falava pouco, mas transmitia respeito apenas pelo olhar.
— Boa noite, jovens. — disse a mulher, com um sorriso contido. — Entrem, fiquem à vontade.
Felipe entrou primeiro, acompanhando Marina. Já na mesa posta, a anfitriã apresentou-se com formalidade:
— Eu sou Irene, e este é meu marido, Jorge.
— Muito prazer. — respondeu Felipe, educado, cumprimentando-os com um aperto de mão firme.
O jantar começou de forma tranquila, com o cheiro de ensopado de galinha se espalhando pelo ambiente. Mas logo o olhar atento de Irene voltou-se para Felipe.
— Então… você é da Bahia. Bem longe daqui. — comentou, enquanto servia o prato.
— Sim, senhora. Vim para estudar, começar uma nova fase da vida.
— Hm… - Irene pousou a concha devagar, os olhos afiados fixos em Marina. — Você, menina, sempre tão reservada… de repente traz um rapaz para dividir o apartamento. Isso me parece um pouco estranho.
Marina engoliu em seco, tentando parecer tranquila.
— Nós já nos conhecíamos antes, Dona Irene. Pela internet. Jogávamos juntos, conversávamos bastante…
— Pela internet? — irene arqueou as sobrancelhas. — Você sabe que eu não deixaria qualquer estranho sob o mesmo teto que você.
Marina respirou fundo.
— Eu confio nele.
O silêncio se alongou, até que Irene lançou a pergunta, direta:
— Então… vocês dois estão namorando?
O rosto de Marina ardeu, e antes que pudesse pensar direito, respondeu com firmeza:
— Sim… estamos.
Felipe quase deixou o garfo escorregar, mas rapidamente se recompôs, forçando um sorriso cumplice.
— É isso mesmo.
Jorge, que até então comia em silêncio, ergueu os olhos e comentou com um tom neutro:
— Namoro virtual… coisas desse mundo moderno.
Irene suspirou, mas relaxou um pouco a expressão.
— Bem, se é assim, ao menos ele não é um completo desconhecido.
O jantar prosseguiu entre perguntas triviais: Irene quis saber da família de Felipe, da Bahia, da faculdade que ele pretendia começar. Marina falava pouco, tensa com o rumo que a mentira havia tomado, mas Felipe manteve-se educado, respondendo sempre com calma.
Quando os pratos foram recolhidos, Irene voltou-se ao rapaz:
— E você, rapaz… já vai dormir hoje no apartamento?
Ele ajeitou-se na cadeira e respondeu com um sorriso respeitoso:
— Ainda não, Dona Irene. Estou ficando na casa de um amigo por enquanto. Mas pretendo me mudar o mais breve possível.
— Certo. — Irene estreitou os olhos por um instante, mas logo sorriu. — Então seja bem-vindo. Só não me arranjem confusão, entendido?
Felipe conteve o riso. Marina, vermelha, baixou os olhos.
Na saída, já no corredor silencioso, Marina soltou um suspiro nervoso:
— Eu… não tive escolha.
Felipe riu baixo.
— Relaxa. Mas olha… se me colocar em mais situações dessas, vou começar a cobrar.
Ela riu também, nervosa, e juntos subiram a escadaria de volta. O firo da noite os envolveu novamente, mas o peso do pacto recém-formado os acompanhava muito mais do que o vento gelado.
No silêncio breve que seguiu, Marina respirou fundo e falou:
— Certo… então está decidido. Você se muda no domingo. Dez da manhã está bom?
— Combinado. — respondeu Felipe, sorrindo. — Domingo às dez.
Houve um instante em que ficaram apenas se olhando, como se tentassem acreditar no rumo que as coisas estavam tomando. Marina quebrou o silencio com um sorriso contido:
— Boa noite, Felipe.
— Boa noite, Marina.
Ele então desceu pela escadaria, enquanto ela permaneceu alguns segundos observando, antes de se virar para o corredor e voltar para o apartamento.