Capítulo 01 - Recomeço
Parte 04 - Novo Lar
O apartamento ainda carregava os resquícios da noite anterior com Susi, embalagens amassadas, almofadas fora do lugar, copos sobre a mesa. Marina, mesmo sonolenta, tentava organizar tudo enquanto Felipe, recém-chegado com suas malas, ajeitava algumas coisas no sofá.
Uma das malas, mais pesadas, escorregou de cima do estofado e bateu no chão com um som abafado. A tampa se abriu e, entre algumas roupas dobradas às pressas, uma foto deslizou até parar perto dos pés de Marina.
Ela se abaixou institivamente e a pegou. Era uma foto antiga, meio amassada nas bordas. Mostrava três jovens juntos, alguns sorrindo, outros sérios, todos com headsets de computador, como se fosse o registro de um campeonato online.
Marina não teve tempo de observar muito, mas reconheceu o brilho de cumplicidade que existia entre eles. No verso da foto, havia apenas uma anotação simples, escrita com caneta preta: “Equipe WOLFS - juntos até o fim”.
Antes que Felipe percebesse, Marina recuou, colocou a foto de volta dentro da mala e fechou a tampa rapidamente.
— Desculpa! Eu… eu deixei cair sem querer. — disse, nervosa.
Felipe, distraído em ajeitar outra bagagem, nem desconfiou.
— Relaxa, não tem problema.
Marina sorriu de leve, mas o pensamento ficou preso: “quem eram aquelas pessoas?”
O apartamento ainda parecia carregado da energia bagunceira de Susi. Restos de embalagens estavam largados na mesa, algumas roupas jogadas pela sala, e Marina suspirava toda vez que se deparava com mais uma xícara esquecida em algum canto. Após a saída triunfal da amiga, Marina ficou sozinha com Felipe.
Ele havia trazido poucas coisas, mas o suficiente para transformar aquele espaço em um novo lar: uma cama simples, uma escrivaninha ainda embalada e um guarda-roupa desmontado que ocupava boa parte do corredor. A cada martelada ou barulho de parafuso, o eco percorria o apartamento inteiro.
Marina, tentando disfarçar o nervosismo, decidiu preparar algo para o almoço. Nada muito elaborado, um simples macarrão rápido com molho a bolonhesa. Ainda assim, talvez pela pressa ou pela distração, o molho queimou e grudou no fundo da panela e logo o cheiro se espalhou pelo apartamento.
Felipe saiu do quarto, rindo baixinho a ver a cena:
— Rapaz… achei que tinha um incêndio aqui. Tá tudo certo?
Marina reclamou, mexendo a colher de pau como se quisesse brigar com a panela.
— Eu só queria fazer algo decente no primeiro dia que você tá aqui. Mas acho que vai ser delivery mesmo…
Ele sorriu de canto, sem querer deixa-la mais sem graça.
— Olha, pelo menos você tentou. Isso já conta pontos.
(Extra - Incêndio, ou quase) Um cheiro forte se espalhou pelo casarão.
Seu Jorge, sentado na poltrona da sala, ergueu o nariz, franzindo a testa:
— Irene... você tá sentindo isso? Parece incêndio!
Dona Irene, com a calma de quem já estava acostumada, nem se levantou.
— Deve ser a Marina de novo, Jorge. Ela vive queimando alguma coisa.
Ele resmungou algo, mas logo deixou passar. No fundo, já sabia que a esposa tinha razão.
No fim, pediram uma pizza, e o clima ficou mais leve. Comeram sentados no sofá, as caixas abertas em cima da mesa de centro ainda bagunçada.
Durante a tarde, Marina seguiu arrumando a sala e lavando a louça acumulada na noite anterior. Felipe ficou quase todo o tempo no quarto, montando sua escrivaninha e encaixando as peças do guarda-roupa. Às vezes, ela passava pela porta e via ele sentado no chão, tentando entender o manual de instruções com uma expressão concentrada.
— Tá conseguindo montar isso sozinho? – ela perguntou em certo momento, apoiando-se no batendo da porta.
Tô, mas acho que o cara que fez esse manual tinha raiva da humanidade. – Ele respondeu, erguendo uma peça de madeira com cara de dúvida.
Marina riu, sincera.
— Bem-vindo ao mundo adulto.
As horas passaram devagar, cheias de pequenas conversas sem rumo: de onde vinham, como era a cidade, as diferenças de sotaque. Marina ainda tropeçava em certas palavras ao falar com ele, meio tímida. Felipe, por sua vez, parecia mais à vontade, embora percebesse quando ela ficava nervosa e mudava de assunto para deixa-la mais confortável.
(Extra - Ligações) - O sol da tarde entrava pela varanda enquanto Felipe ajeitava os últimos livros na pequena escrivaninha. O celular vibrou, era Thiago ligando.
— E aí, já tá de boa aí no apê novo? — perguntou Thiago, com a voz animada.
— Mais ou menos... ainda montando as coisas. Mas tá tranquilo.
Do outro lado, Rafael gritou:
— Só não esquece de treinar, Lahkir! A gente não vai aliviar depois!
Felipe riu, e despediu-se dos dois.
Pouco depois, o celular de Marina tocou, era Susi.
— E aí, amiga, como tá sendo a vida de recém-casada? — provocou, rindo.
— Que recém-casada, Susi! — Marina respondeu, segurando o riso. — Você devia ter ficado pra ajudar a arrumar a sua bagunça.
— Ah, mas eu não queria atrapalhar a lua de mel de vocês — retrucou Susi, rindo alto.
Marina ficou em silêncio por um segundo, corando sem perceber, antes de resmungar:
— Você não presta...
E desligou antes que Susi pudesse zoar ainda mais.
Quando a noite chegou, a casa estava minimamente organizada. O quarto de Felipe já tinha uma cama e o guarda-roupa montado, mesmo que meio torto. Marina serviu um café simples na sala, e os dois ficaram conversando até tarde, ouvindo o som distante da rua lá embaixo.
Era apenas o primeiro dia, mas já havia ali um fio de convivência sendo tecido, cheio de tropeços, risos nervosos e pequenos gestos que, com o tempo, se transformariam em algo maior.
A noite se estendia tranquila sobre o casarão. A iluminação amarelada da rua entrava pelas frestas das janelas, lançando desenhos irregulares nas paredes do apartamento. O silencio, depois de um dia inteiro de arrumações e conversas, parecia estranho, mas ao mesmo tempo reconfortante.
Felipe estava deitado em sua nova cama, o corpo cansado pela mudança. Olhava para o teto, ouvindo o som distante de carros passando e o vento batendo contra as janelas. Apesar do cansaço, o sono custava a chegar. Era a estranheza de estar em um novo lugar, mas também a sensação de que algo estava começando de verdade.
Naquele mesmo instante, Marina, em seu quarto, terminada de secar os cabelos depois de um banho demorado. A água quente tinha ajudado a relaxar os músculos, mas a mente ainda fervilhava. Pensava em como seria dividir o espaço com alguém que mal conhecia, mesmo que tivesse uma boa impressão dele. A ideia do “namorado de mentira” ainda lhe parecia absurda, mas ao mesmo temo… funcionava. Dona Irene tinha aceitado.
Ao sair do banheiro e caminhar pelo corredor com uma toalha enrolada nos ombros, ela notou uma fresta de luz escapando pela porta entreaberta do quarto de Felipe. Movida por uma curiosidade quase involuntária, Marina se aproximou em silêncio.
Pela abertura, conseguiu vê-lo: Felipe estava sentado diante da nova escrivaninha, apoiando o queixo sobre a mão esquerda, enquanto a direita segurava uma caneta imóvel sobre um caderno de capa gasta. O olhar dele estava fixo nas páginas em branco, profundo, como se carregasse o peso de lembranças ou pensamentos distantes.
Marina ficou alguns segundo observando aquela cena, como se tivesse espiado sem querer um pedaço íntimo demais da vida dele. Antes que fosse notava, recuou, respirando fundo e voltando para o próprio quarto.
Deitou-se, mas aquela imagem não saía da cabeça: Felipe sozinho, escrevendo, com um olhar que parecia misturar saudade e dúvida. Algo nele, percebeu, ia muito além do que deixava transparecer nas conversas banais daquele dia.
E assim, com pensamentos diferentes, cada um se deixou levar pelo silêncio da noite, enquanto a nova convivência dava seu primeiro passo.