CAPÍTULO 3 – ENTRE CORDAS E SEGREDOS
Parte 1 - Silêncio e mal-entendidos
O despertador do celular vibrou em algum ponto distante, abafado sob uma pilha de roupas. Marina demorou alguns segundos para compreender onde estava. As pálpebras pesadas, a boca seca, o gosto amargo ainda persistindo da bebida da noite anterior. Abriu os olhos devagar, levou alguns segundos para perceber que não estava em seu quarto. Um frio percorreu-lhe a espinha. Sentou-se devagar, sentindo o tecido macio de uma blusa larga que não era sua, até o travesseiro tinha um cheiro que não lhe pertencia — perfume amadeirado, misturado ao leve aroma de sabão em pó — apenas então percebeu: estava no quarto de Felipe, deitada sobre a cama dele, vestindo apenas calcinha e uma camisa masculina de botões.
Confusa, ela pegou o celular para ligar para ele, mas ouviu o toque vindo do quarto. Seus dedos tremiam levemente, misturando ansiedade e curiosidade. Ela se aproximou, encontrando o celular de Felipe sobre a escrivaninha, sinal de que ele havia esquecido.
O quarto permanecia silencioso, a rotina intacta, e Marina permaneceu ali, parada, segurando a blusa de Felipe fechada sobre si, tentando organizar pensamentos e emoções antes que o dia começasse de fato.
O coração disparou. “Não… não pode ser”, pensou, tentando recompor a memória da noite. A última lembrança era vaga: risos altos, a música baixa no fundo, o copo de bebida na mão e… um beijo. Sim, havia beijado Felipe. O resto era um borrão.
Passou as mãos pelo próprio corpo como se buscasse respostas. O perfume dele impregnava a blusa, e isso a deixou ainda mais atordoada. Rapidamente puxou o cobertor sobre as pernas, tentando se cobrir, como se o gesto pudesse apagar qualquer possibilidade do que imaginava ter acontecido.
Apavorada, correu os olhos pelo quarto. Não havia sinal de Felipe. A cadeira estava encostada à escrivaninha, cama desarrumada — mas nada além dela ocupava aquele espaço. O relógio de pulso marcava quase nove da manhã.
Reuniu coragem e saiu do quarto. O corredor estava silencioso, apenas os estalos ocasionais da madeira sob seus pés. Na cozinha, encontrou a mesa posta de forma simples: uma caneca limpa, uma garrafa térmica de café ainda morno, um saco de pão com fatias de queijo e presunto embalados ao lado e, um pequeno bilhete escrito à mão.
“Saí cedo pro trabalho. Café pronto. Desculpa por não ficar para ajudar com a bagunça. Volto à noite. Se cuida. — F.”
Marina segurou o papel com firmeza, lendo e relendo. A simplicidade daquelas palavras lhe trouxe tanto alívio quanto angústia. Ele havia saído cedo, pensara nela o bastante para deixar café pronto, mas… não dizia nada sobre a noite anterior. Nenhuma resposta, nenhum esclarecimento.
Apertou o bilhete entre os dedos, sentindo o coração apertar. “nada além disso? Só… café e um recado?
“Não rolou nada?”, questionava-se em silêncio. Mas e o beijo? E o calor que lembrava tão bem? A blusa que a cobria não era prova suficiente de que havia algo mais?
O vapor subia da caneca, preenchendo a cozinha com um aroma reconfortante. Ainda assim, cada gole parecia amargo demais. O apartamento parecia maior na ausência dele, e o silêncio se tornava opressor. Marina deitou-se de bruços no sofá, abraçando o próprio corpo. Não sabia o que a perturbava mais: o medo de que realmente nada tivesse acontecido… ou o desejo secreto de que tivesse acontecido tudo.
Horas depois, quando já tentava distrair-se arrumando a sala o celular vibrou com mensagens no grupo. Era inevitável.
***Susi:*** “E aí, casalzinho? Dormiram bem?”
O rosto de Marina corou na hora. Hesitou em responder, mas os três pontinhos logo apareceram na tela.
***Felipe:*** “Não rolou nada demais.”
Respondeu Felipe rapidamente pela versão web do app, pois havia esquecido seu celular em casa.
Thiago mandou um emoji de gargalhada, Rafael respondeu com um “kkk”. Susi, como sempre, não perdeu a chance:
***Susi:*** “Fraco… se fosse comigo, não escapava.”
Marina largou o celular no sofá, apertando os olhos. A vergonha a consumia, mas junto dela vinha outra sensação, mais incômoda, mais difícil de encarar. Uma ponta de decepção.
Se não havia acontecido nada, porque a blusa dele estava em seu corpo? Por que a lembrança do beijo era tão nítida? E, pior ainda… porque parte de si desejava que Felipe estivesse mentindo?
Essas perguntas acompanharam Marina pelo resto do dia. Tentou se ocupar com pequenos afazeres — organizar a sala, lavar a xícara do café, abrir um livro que não conseguiu ler além da primeira página — mas nada afastava o nó em sua garganta. No fim, rendeu-se ao cansaço. Deitou-se no sofá, prometendo a si mesma que seria apenas um cochilo.
Quando abriu os olhos novamente, levou um susto. O relógio da parede marcava dez da noite. Havia dormido quase a tarde inteira. Só então percebeu que não estava descoberta: uma coberta leve repousava sobre ela, com o mesmo perfume discreto que já aprendera a reconhecer. Felipe havia estado ali, silencioso, atencioso, cuidando dela sem que notasse.
Sentou-se devagar, ainda sonolenta, e percebeu um detalhe na mesa da cozinha: um prato separado, coberto por uma tampa de vidro. O cheiro de comida fresca denunciava o cuidado.
Marina caminhou até o quarto dele. A porta estava apenas encostada. Espiou com cautela e viu Felipe já deitado, adormecido de lado, a respiração calma preenchendo o silencio do ambiente.
Ficou ali, observando por alguns segundos, com a vontade de chama-lo crescendo dentro de si. Mas não teve coragem. Recuou, fechou a porta devagar e voltou à mesa.
Jantou em silêncio, cada garfada pesava como se mastigasse os próprios pensamentos. Depois guardou o prato apagou as luzes e foi para o próprio quarto. Abraçou o travesseiro e encarou o teto por longos minutos, sentindo o coração acelerar sem motivo aparente.
No escuro, percebeu que a dúvida era mais cansativa do que qualquer ressaca: não saber se deveria acreditar nas palavras simples que Felipe deixara no bilhete ou nos sentimentos que ela mesma não sabia como controlar.
No dia seguinte, a rotina da casa tentava disfarçar o peso do fim de semana. Marina trocou de roupa às pressas, evitando o espelho. Encontrou Felipe na cozinha, ocupado em preparar o café para si mesmo. O ambiente estava carregado de um silencio desconfortável. Ele parecia natural, mexendo na chaleira, mas cada gesto parecia calculado para não se aproximar demais.
— Você vai… sair hoje? — arriscou Marina, apenas para quebrar o vazio.
Felipe ergueu os olhos, rápido. — Trabalho. E depois… talvez passe na casa de Thiago. — Pausa curta. — Quer que eu traga algo?
— Não precisa. — A resposta foi seca demais, e ela se arrependeu imediatamente. Ele apenas assentiu e voltou ao café. Marina pegou um pedaço de pão e comeu sem fome, querendo apenas ocupar as mãos.
À noite, quando se encontrou novamente com Felipe na sala, a tensão ainda pairava no ar. Ele mexia no notebook, fones de ouvido no pescoço, enquanto ela fingia se distrair com um livro. Os olhares se cruzavam em lapsos rápidos, como se ambos buscassem palavras, mas recuassem no último instante.
A lembrança do beijo permanecia viva demais para ser ignorada. E, mesmo com a afirmação dele de que “não aconteceu nada”, Marina não conseguia decidir o que a inquietava mais.
O fim de semana chegou arrastado mais uma vez. Marina já não suportava o peso do silêncio entre eles. Por mais que Felipe mantivesse o mesmo jeito tranquilo, os gestos calculados e o olhar que evitava o dela, havia algo não dito pairando entre os dois. E era isso que a corroía.
Naquela noite, sem conseguir dormir, tomou coragem. Caminhou até o quarto dele e bateu na porta com firmeza.
— Felipe? — chamou. A voz saiu trêmula, mas decidida.
Ele abriu, surpreso com a visita. Estava sentado à beira da cama, mexendo no celular. Ao vê-la ali, de braços cruzados, tentou sorrir, mas o gesto morreu antes de nascer.
— Marina… aconteceu alguma coisa?
Ela entrou sem esperar convite. Cruzou os braços ainda mais fortes e lançou o olhar que vinha guardando.
— Chega, Felipe. Eu quero saber. O que realmente aconteceu naquela noite? — a voz embargou. — Eu acordei com a sua blusa, só de calcinha, e você… nunca me explicou nada direito.
Felipe respirou fundo, passando a mão pelos cabelos. O olhar fugia dela, mas a firmeza na voz mostrava que tinha decidido falar.
— Sabe… algumas noites não se contam pelo que aconteceu, mas pelo que quase aconteceu. E esse quase pode pesar mais do que qualquer verdade — disse Felipe em tom sério.
— Marina… você passou mal aquela noite. — ele continuou. — Quando a gente chegou no quarto, você teve ânsia de vômito. Eu te levei pro banheiro, segurei seu cabelo, fiquei do seu lado até você melhorar.
Ela arregalou os olhos, surpresa. — Eu… não lembro disso.
— Eu sei. — ele assentiu devagar. — Depois que você se acalmou, sua blusa ficou toda suja. Eu não ia deixar você dormir daquele jeito, então ia buscar uma roupa sua para que você pudesse se trocar. Mas você já foi tirando a blusa dizendo que não queria ficar assim suja. Não tive escolha senão pegar uma blusa minha que estava perto.
Marina corou, apertando os braços contra o peito. — E depois?
Felipe hesitou, o silêncio ficando pesado entre os dois. — Depois você insistiu em voltar pro quarto. — A voz dele baixou, quase num sussurro. — Se deitou na cama… e me puxou pelo pescoço.
Ela levou a boca, surpresa, sem conseguir encarar os olhos dele. — Eu… eu fiz isso?
— Fez. — Ele confirmou, mas rápido acrescentou: — Só que, quando você me puxou, eu… tive um flash, uma lembrança de um passado não muito legal. Foi como levar um soco. Eu congelei.
— Eu não consegui, Marina. — Ele respirou fundo. — Eu não podia. Recuei. Você acabou apagando de bêbada. Então eu te deixei na minha cama, te cobri… e fui dormir no sofá.
O silêncio que se seguiu parecia gritar mais do que qualquer palavra. Marina apertou as mãos contra o peito, tentando assimilar tudo.
— Então… não aconteceu nada? — perguntou, quase sem voz.
Felipe balançou a cabeça. — Não. Nada além do que você lembra.
Marina ouviu em silêncio, o coração aos saltos. Quando ele terminou, as palavras escaparam como um sussurro:
— Então, você tem algum problema comigo?
Felipe ergueu os olhos, surpreso — Não, claro que não. O problema não é você, Marina. O problema… sou eu.
Ela desviou o rosto, sentindo o rubor subir pelo pescoço até as bochechas. As lembranças do que dissera bêbada voltaram à mente, e antes que pudesse conter, deixou escapar:
— Apesar de bêbada… o que eu disse… aqueles sentimentos… não saem. Eu não sei o que pensar. Não sei como agir.
As palavras ficaram suspensas no ar, mais pesadas que qualquer silencio. Marina não esperou resposta. Corada, virou-se e saiu, fechando a porta atras de si. Encostou-se nela por alguns segundos, respirando fundo, o coração descompassado.
— Vamos jogar umas partidas… — murmurou para si mesma, quase como um escape. Naquela noite, o time estava todo online. Marina colocou o headset e mergulhou no jogo com uma intensidade diferente. Suas mãos deslizavam pelo teclado e mouse com precisão quase profissional. A cada rodada, sua sinergia com Felipe parecia crescer, movimentos combinados, olhares silenciosos que agora se traduziam em estratégias perfeitas. Eles dominaram partida após partida, até que até mesmo Thiago e Rafael começaram a brincar dizendo que estava sendo “carregados” por Marina.
Quando a sessão terminou, ela retirou os fones, ainda com a adrenalina percorrendo as veias. Caminhou até o quarto de Felipe, abraçada ao travesseiro como se buscasse coragem nele. Bateu suavemente na porta.
— Felipe? Posso entrar?
A porta se abriu. Ele estava lá, tenso, sentado à escrivaninha, como se ainda digerisse cada palavra da conversa anterior.
Marina hesitou. O silêncio entre eles pesava de novo. Então, sem coragem para sustentar o olhar dele, apenas disse:
— Boa noite, Felipe.
E saiu antes que pudesse responder, fechando a porta devagar. O coração dela batia acelerado, mas, por alguma razão, havia um sorriso discreto escondido em seu rosto.