CAPÍTULO 3 - ENTRE CORDAS E SEGREDOS
Parte 2 – Caminhos que se cruzam
Os dias seguintes ao esclarecimento entre Felipe e Marina seguiram numa estranha cadência. Por mais que a conversa tivesse trazido alguma clareza, o ar ainda carregava algo não dito. Ele mantinha os mesmos gestos atenciosos, mas havia uma distancia calculada, como se cada palavra fosse medida antes de atravessar o ar. Marina sentia o peso desse silêncio, e talvez fosse justamente por isso que as saídas em grupo começaram a se tornar tão frequentes: uma forma de quebrar aquilo que não se resolvia dentro de casa.
O convite surgiu numa tarde qualquer, no grupo de mensagens que quase nunca ficava em silêncio.
Grupo "Café & Caos"
Thiago: Galera, sexta tem bala sertaneja no Racho 21. Bora?
Rafael: Sertanejo?? Achei que fosse coisa de tiozão.
Susi: Para de pagar de cult, Rafael. É diversão, e pronto. Marina, você vai comigo!
Marina hesitou diante da tela, mordendo o lábio. O coração ainda pesava com a lembrança da conversa com Felipe, mas a ideia de sair, dançar e rir soava tentadora.
Marina: ok, mas sem exageros. E nada de aprontar comigo de novo.
Susi respondeu com uma chuva de emojis de risada. Felipe demorou um pouco a manifestar, mas acabou cedendo.
Felipe: Se é pra sair, tô dentro. Mas não me façam dançar, não sou baiano de novela.
A sexta-feira chegou carregada de expectativa. O grupo se reuniu no apartamento de Thiago antes de seguir para a balada. Marina estava diferente: jeans justo, blusa preta simples, mas que realçava sua figura de um jeito sutil. Susi, por outro lado, apareceu como quem sabia exatamente o efeito que causava: saia curta, botas de cano alto e um sorriso atrevido.
— Tá linda, Mari. — disse Susi, ajeitando o batom diante do espelho da sala. —Mas, sério, precisa soltar mais o cabelo. Você tem esse jeitinho certinho demais… vou dar um jeito nisso hoje.
— Eu não vou virar vitrine da tua loucura. — retrucou Marina, corando, mas sem conseguir disfarçar o sorriso.
Felipe observava de longe, encostado no batente da porta, rindo baixo da cena.
O Rancho 21 era amplo, com chão de madeira polida e um palco iluminado por refletores amarelos. A dupla sertaneja da noite já aquecia os instrumentos quando eles chegaram. O ambiente fervilhava: cheiro de churrasco, perfume barato, risadas que se misturavam à batida animada das músicas.
— Isso aqui sim é vida! — exclamou Thiago, erguendo a garrafa de cerveja recém-comprada. — Bora, galera!
Rafael ainda torcia o nariz. — Eu devia estar em casa treinando CS…
— Cala a boca, cabeça. — retrucou Thiago, já arrastando o amigo para perto da pista.
Susi foi a primeira a se soltar, puxando Marina pela mão.
— Vem! Hoje você vai dançar nem que seja forçada.
Marina resistiu nos primeiros passos, rindo sem jeito, mas logo a batida da música e o entusiasmo a envolveram. As duas se perderam entre giros desajeitados, risadas altas e palmas no ritmo da batida.
Felipe, sentado em uma das mesas ao lado de Thiago e Rafael, observava. A cerveja escorria devagar pelo copo, mas o que realmente o deixava distraído era o jeito de Marina sorrir. Diferente do habitual. Livre. Talvez até bonito demais para ele encarar sem se perder por alguns segundos.
— Tá ferrado, baiano. — murmurou Thiago, percebendo o olhar dele. — Não adianta disfarçar.
Felipe bufou, virando a garrafa. — Cala a boca, maromba.
Enquanto isso, Susi percebeu a troca de olhares e, provocadora como sempre, fez questão de colar ainda mais em Marina, segurando-a pela cintura ao fim da música e cochichando alto o bastante para Felipe ouvir:
— Se ele não te pega, eu pego.
Marina quase engasgou de rir, empurrando a amiga. — Para Susi!
Mas Felipe desviou o olhar, fingindo não ter ouvido.
A noite seguiu intensa. Entre rodadas de bebidas, passos de dança desajeitados e fotos mal iluminadas, o grupo se perdeu no turbilhão da balada. Para Marina, era como se por algumas horas o peso dos últimos dias tivesse ficado do lado de fora. Para Felipe, cada risada dela era um lembrete incomodo de que talvez estivesse se afastando demais de algo que, no fundo, desejava.
Quando a balada terminou, já de madrugada, caminharam juntos até a rua lateral, onde os carros esperavam. O frio cortava a pele, mas a euforia da noite ainda aquecia o grupo.
— Próxima vez vai ser pagode! — anunciou Thiago, com a voz meio rouca de tanto gritar.
— Se tiver churrasco, eu topo. — completou Rafael, arrancando risadas.
Felipe ajudou Marina a ajeitar o casaco sobre os ombros. O gesto foi rápido, quase automático, mas suficiente para que ela sentisse o coração acelerar outra vez. Susi percebeu, claro, e lançou aquele sorriso maroto que prometia provocar ainda mais.
Na volta, Marina encostou a cabeça no vidro no carro de Susi, olhando as luzes da cidade passarem rápidas. Talvez fosse o calor da música ainda vibrando na memória, mas pela primeira vez em dias ela sentiu que ainda podia respirar.
E, no fundo, sabia que aquela era apenas a primeira de muitas noites em que o grupo deixaria suas tensões para trás, tentando viver como se a vida não fosse tão complicada.
Mais uma semana se iniciava de forma tranquila, quase previsível. O peso da conversa entre Marina e Felipe parecia ter se dissolvido, ao menos em parte, na correria dos dias. Cada um se ocupava de suas responsabilidades, mas o grupo mantinha os encontros regulares, como se tivesse se tornado natural que as agendas girassem em torno deles.
Na segunda-feira, Marina chegou cedo ao trabalho. O uniforme do escritório nunca deixava de lhe dar uma aparência mais séria do que gostaria, mas ela se acostumara ao ritmo das manhãs. Ao meio-dia, já estava com a mochila nas costas e o caminho pronto até a escola. No trajeto, parou numa lanchonete de esquina — pequena, com cheiro constante de pão fresco e café passado na hora. Pediu um misto quente e um suco de laranja, refeição rápida que já havia se tornado rotina. Gostava do ambiente simples, do atendimento familiar e até do sino preso à porta que anunciava cada cliente. Era um momento curto, mas suficiente para respirar antes de encarar as aulas da tarde. O colégio, a poucas quadras dali, fervilhava com o barulho dos alunos.
Na sala, Susi já aguardava com o celular em mãos. A ruiva levantou a cabeça, deu aquele sorriso debochado de sempre e puxou uma cadeira.
— Você anda muito pensativa demais, Mari. O que foi?
Marina tirou o estojo da mochila, fingindo concentração no caderno. — Nada… só cansada.
Susi apoiou o queixo na palma da mão, inclinando-se — Cansada ou apaixonada?
— Para, Susi… — Marina corou, rabiscando no caderno para não encarar a amiga.
— Não adianta fugir. Eu vejo como você olha pro Felipe quando acha que ninguém tá vendo. — ela sorriu, maliciosa. — E, cá entre nós, não tem nada de errado nisso. O cara é gente boa, cuida de você sem nem perceber…
Marina mordeu o lábio, tentando se defender:
— Ele é só… atencioso. Faz isso com todo mundo.
— Ah claro. — Susi riu, descrente. — Faz até café da manhã, deixa bilhetinho, cobre com coberta no sofá… com todo mundo, né?
Marina resmungou, mas não tinha argumento. A amiga cutucava as feridas certas, como sempre.
— Eu só acho que você devia parar de pensar tanto e se deixar viver, Mari. — completou Susi, mais suava agora. — Você merece alguém que te olhe do jeito que ele olha.
Marina ficou em silêncio, fingindo revisar os exercícios de matemática, mas o coração acelerado denunciava que a provocação tinha surtido efeito.
Enquanto isso, a rotina dos rapazes também seguia em paralelo. À noite, Felipe, Thiago e Rafael dividiam as mesmas carteiras na faculdade. Os corredores cheiravam a café requentado e papel de xerox, as vezes dos alunos ecoavam até o último andar.
Em sala, Felipe chamava atenção sem esforço. Nas matérias especificas da área de tecnologia, respondia perguntas antes mesmo de os professores terminarem de formular. Seu sotaque baiano destoava em meio ao tom monótono da turma, mas era justamente isso que dava cor às discussões.
— Esse cara é uma máquina. — murmurava Rafael, copiando rápido do caderno de Felipe.
Thiago, por outro lado, não escondia a dificuldade. Naquela noite, encarava a tela do computador com cara de poucos amigos. — Eu juro que não entendo como vocês decoram esses comandos tão rápido.
— Não é decorar. — explicou Felipe, paciente. — É entender a lógica. Vem cá. — puxou a cadeira do amigo e começou a teclar no notebook. — Olha: se você pensar como se fosse uma receita, cada passo leva a um resultado. Se pular um, dá errado.
Rafael completou, com tom mais leve: — Ou seja, cozinha e programação é a mesma coisa. Vai ver por isso o Felipe manja tanto das duas.
Thiago riu, aliviado, mas seguiu atento à explicação. Aos poucos, com a ajuda dos dois, foi conseguindo acompanhar.
Corrigiu seu código com as instruções dos amigos, e… obteve sucesso na execução do programa.
No intervalo, os três desceram até o pátio aberto. O frio da noite fazia o vapor do café subir em nuvens, iluminado pelas lâmpadas. Entre goles, riam das próprias histórias e combinavam os próximos encontros.
— Sábado tem show de pagode. — anunciou Thiago, animado. — Quero ver vocês reclamarem dessa vez.
Felipe arqueou a sobrancelha em tom pensativo. — Show de pagode?
— Exato. Música boa, gente animada, cerveja gelada, churrasquinho. Não tem como dar errado. A gente vai e convida as meninas, caso elas queiram aparecer.
Rafael já estava convencido. Felipe fingia resistência, mas no fundo já sabia que ia acabar indo.
O tempo passou e logo o sábado chegou, amanhecendo com um sol preguiçoso, mas o grupo parecia mais animado do que nunca. O local escolhido para o show de pagode ficava numa região conhecida da cidade: mesas de madeira espalhada sob toldos, cheiro de churrasco no ar e um palco improvisado pronto para receber o grupo que faria a roda de samba da noite.
Os três amigos decidiram chegar cedo. Thiago, sempre empolgado, insistiu:
— Se a gente não for na frente, vamos acabar em pé no canto. Quero mesa boa, perto do palco.
Rafael, já no carro, ria. — Tá mais animado que no campeonato de CS.
Enquanto isso Felipe se mantinha encostado ao vidro com a mente vagando. o ambiente de pagode o fazia refletir, mas parecia que havia algo de diferente naquela tarde. Uma expectativa que não queria admitir.
Chegaram um pouco antes das quarto. A casa já começava a encher, mas ainda havia mesas livres. Escolheram uma próxima ao meio do salão, boa visão pro palco, perto do suficiente para sentir o ritmo da percussão vibrar no peito. Pediram petiscos, e cervejas bem geladas, preparando o terreno para a noite.
Enquanto isso na casa de Susi, Marina e Susi ainda se arrumavam. No quarto, a ruiva espalhava maquiagem e roupas pela cama, como sempre indecisa.
— Anda logo, Mari. Eles já devem estar lá. — disse Susi, passando batom de última hora. — E olha, não me venha com essa cara de “não sei se vou”. Você vai, sim. E vai se divertir.
Marina ajeitou a blusa clara no espelho, simples, mas elegante. — Eu não sei… não tô acostumada com esse tipo de lugar.
— Justamente por isso. — rebateu Susi, firme. — Você precisa sair da rotina, parar de viver só de trabalho, escola e apartamento. E, convenhamos, o Felipe vai estar lá.
Marina suspirou, sentindo o coração acelerar só com a menção.
— Eu não bebo, já sabe disso.
— Relaxa, você cuida do refrigerante, eu cuido da cerveja. — piscou Susi, rindo. — Agora vem, antes que eles comecem a dançar sem a gente.
O pai de Susi as aguardavam dentro do carro para leva-las até o local. Seguiram pela avenida iluminada. Do lado de fora, já era possível ouvir o batuque animado das caixas e tantãs ecoando pelo ar. Marina ajeitou a bolsa no colo, respirou fundo. Não sabia se o frio na barriga era pelo show ou pelo que a aguardava lá dentro.
O pagode já rolava solto quando Marina e Susi chegaram. As mesas estava quase todas ocupadas. O cheiro de churrasquinho se misturava ao da cerveja gelada e o batuque do tantã e do pandeiro vibrava no peito como se cada batida fosse o próprio coração da festa.
Lá no meio, Felipe, Thiago e Rafael já ocupavam uma mesa. Thiago agitava os braços. Cantando em coro com a multidão; Rafael sorria, mas permanecia mais contido; Felipe, no entanto, surpreendia. O baiano parecia em casa — batucava na mesa com as mãos, cantarolava cada verso, e em pouco tempo já levantava para dançar com o copo de cerveja na mão.
— Eu não acredito… — Marina murmurou, surpresa, observando-o de longe. — Ele disse que não curtia…
— Mentiroso charmoso. — Susi riu, empurrando a amiga. — Bora, antes que ele arrume outra parceira de dança.
Marina revirou os olhos, mas seguiu a amiga até a mesa. Assim que chegaram, Felipe abriu um sorriso largo, o rosto já levemente avermelhado pelo álcool.
— Mariii! Até que enfim! — disse, abrindo os braços como se fosse abraça-la, mas se contendo no último instante. — Tava esperando vocês pra mesa ficar completa.
Marina corou, sentando-se ao lado. Você parece… bem animado.
— Animado? — ele gargalhou. — Tô em casa, menina! Pagode é minha praia.
Thiago encostou nelas e sussurrou de leve:
— Ele nunca disse a vocês? Ele ama pagode.
Thiago deu um tapa no ombro dele. — Finalmente tá mostrando quem é de verdade. Esse é o Felipe que eu conheço!
Rafael, por sua vez, apenas ergueu o copo. — Até demais, se continuar nesse ritmo vai ter que ser carregado.
E não demorou. Com o avançar da noite, Felipe se soltava ainda mais. Cantava junto com a roda de samba, ria alto, batucava no ombro dos amigos e, inevitavelmente, bebia em excesso. As rodadas de cerveja iam e vinham, e cada gole parecia acender ainda mais o brilho em seus olhos.
Marina, que se manteve firme no refrigerante, apenas observava. A cada risada exagerada, a cada tropeço disfarçado na dança, percebia que logo seria ela quem teria de cuidar dele.
Num dos intervalos, chamou o garçom e pediu algo diferente. Minutos depois, chegaram à mesa dois copos altos, coloridos, decorados com fatias de frutas e canudos.
— Pra vocês. — disse Felipe, empurrando um deles na direção de marina e o outro para Susi.
Marina arregalou os olhos, hesitando. — Não… eu não bebo, Felipe. Você sabe.
Antes que pudesse insistir, Susi já puxou o copo dela, deu um gole longo pelo canudo e soltou uma risada satisfeita. — Hmmm! Que delícia! — exclamou. — Doce, refrescante…
Felipe riu, voltando o olhar para Marina. — Confia, vai. Pode beber.
Ela apertou o copo entre as mãos, desconfiada, mas a curiosidade falou mais alto. Levou o canudo aos lábios e tomou um gole pequeno. No mesmo instante, os olhos dela se arregalaram. A mistura doce e frutada desceu suave, surpreendendo-a.
— Nossa… — murmurou, quase sem acreditar.
Felipe inclinou-se levemente, observando sua expressão maravilhada. — Bom, ne? É uma bebida bem versátil. Tem versão com álcool e sem álcool. Uma ótima opção pra você não ficar só no refri.
Marina olhou de volta para ele, ainda surpresa, e sorriu discretamente. — Eu… realmente não esperava isso.
Susi, claro não perdeu a chance de cutucar:
— Viu só? — tomou outro gole, estreitou os olhos e completou, com aquele sorriso malicioso de sempre:
— O mesmo cuidado que ele tem como todo mundo, né, Mari? Café da manhã, cobertor, bilhetinho e… agora até drink especial. É muita “atenção geral” pra uma pessoa só.
Marina corou na hora, desviando o olhar para o canudo, ainda degustando a novidade, como se pudesse se esconder dentro do copo.
Enquanto isso, Felipe apenas voltou ao seu copo de cerveja, mas sem deixar de notar a expressão dela, aquela mistura de surpresa e satisfação que, por algum motivo, parecia valer mais do que qualquer gole da noite.
Por volta da meia-noite, Felipe já cambaleava levemente ao voltar para a mesa, apoiando-se no encosto da cadeira com um sorriso bobo.
— Acho que… tô meio… — ele começou, mas parou para rir de si mesmo.
— Você tá bêbado, Felipe. — Marina disse, cruzando os braços.
— Nãããão… só tô… feliz. — rebateu, com a convicção de uma criança negando travessura.
Susi gargalhou, cutucando Marina. — Boa sorte, amiga. Esse aí agora é teu fardo.
Marina suspirou, mas sorriu em seguida. Segurou o braço dele e disse: — Vem, vamos embora antes que você caia aqui no meio.
Chamaram o garçom e pediram a conta. A mesa foi tomada por risadinhas, notas e moedas sendo empurradas de um lado para o outro, até que todos concordaram em rachar o valor igualmente. Entre comentários sobre quem “bebeu mais” e quem “comeu menos petisco”, Thiago decretou que ninguém sairia injustiçado e, no fim, pagaram de forma justa, com aquela bagunça típica de amigos.
Rafael sacou o celular, abriu o aplicativo e chamou um carro grande o suficiente para levar todos juntos. Assim que confirmou a corrida, levantou o braço em triunfo.
— Pronto, já solicitei. Agora é só esperar.
Marina manteve Felipe de pé, apoiando-o pelo braço. Ele, ainda risonho, murmurava coisas desconexas enquanto a música da casa de pagode vazava pela rua. Para ela, o caminha de volta parecia mais longo do que nunca.
O caminho até o carro foi uma mistura de drama e comédia. Felipe tentava manter a postura, mas a cada dois passos soltava alguma pérola.
— Ei, sabia que você é muito… muito organizada? — disse, tropeçando na própria sombra. — Parece uma planilha de Excel… bonita.
— Excel, Felipe? Sério isso? — Marina resmungou, mas não conteve a risada.
— Mas é verdade! — ele ergueu o dedo, tentando manter seriedade. — Você brilha até quando briga comigo.
Susi quase caiu de tanto rir, mas se despediu no estacionamento. — Boa noite, casalzinho! — gritou, entrando no carro do pai que acabara de busca-la.
Já em casa, Marina guiou Felipe até o sofá. Ele caiu sentado, bagunçando o cabelo e soltando uma risada frouxa.
— Você devia ter parado na terceira cerveja. — ela disse, colocando um copo d’água na frente dele.
Felipe bebeu em silêncio, respirou fundo, e de repente a expressão mudou. Mais séria.
— Mari… eu preciso te contar uma coisa.
Ela se sentou ao lado, surpresa pelo tom repentino.
— Eu não sou tão… leve quanto pareço. — ele começou.
— Já namorei alguém. Alguém que fazia parte do time. E quando a gente terminou… não foi só o namoro que acabou. Foi como se tivesse quebrado tudo. O time rachou, a final… — ele fechou os olhos por um instante. — Eu não consegui jogar. Não consegui ser eu mesmo.
Marina ouvia em silêncio, absorvendo cada palavra.
— Desde então… eu fico com medo de misturar as coisas. Medo de gostar de alguém e… estragar tudo de novo.
O coração dela apertou. Respirou fundo e, com uma calma inesperada, respondeu:
— Eu tenho meus problemas também. — disse, encarando-o firme.
— Mas você não é um deles. Como eu disse naquele dia… esses são meus reais sentimentos. Eu sinto bem com você e mesmo sem ter a mesma experiencia… eu quero tentar.
Antes que Felipe pudesse reagir, Marina se inclinou e o beijou. Não um beijo tímido como antes, mas espontâneo, cheio de certeza.
Ele revidou, puxando-a com mais força, deixando que a intensidade guardada transbordasse. O tempo pareceu suspenso, ate que Marina se afastou de repente, rindo.
— Você tá fedendo a álcool.
Felipe arregalou os olhos, fez uma careta exagerada e depois caiu na risada. — É mesmo. Acho melhor eu tomar um banho.
— Bom… eu vou na frente. — disse Marina, levantando-se. — Te aviso quando terminar.
Meia hora depois, os dois se encontraram na sala. Marina de pijama, cabelos soltos e ainda úmidos; Felipe de camiseta limpa, o semblante mais relaxado apesar do álcool ainda pesar nos olhos. Sentaram-se lado a lado no sofá, conversando sobre coisas pequenas, músicas, planos, até bobagens do trabalho.
Mas logo o cansaço venceu. Felipe bocejou, recostando0se contra o encosto.
— Acho… melhor descansarmos. — disse, a voz arrastada.
Marina o observou por um instante. Ele parecia vulnerável, diferente do Felipe seguro de sempre. Sorriu baixinho.
— Boa noite, Felipe.
— Boa noite, Mari.
Ele adormeceu quase de imediato, mas a mente ainda trabalhava. “Será que… dá pra tentar de novo?”, pensou antes de mergulhar no sono.
Marina, por outro lado, deitou-se feliz. Pela primeira vez, sentia que Felipe tinha se aberto de verdade com ela. Não importava que ele estivesse bêbado. O que importava era que, naquela noite, haviam dado um passo enorme para mais perto um do outro.
No escuro, um pensamento a fez sorrir ainda mais.
“É como num mangá… quando finalmente o protagonista começa a mostrar suas falhas. É aí que a história fica boa.