A estrada que levava até Areia Perdida não era apenas longa, era, sobretudo, traiçoeira, como se cada metro percorrido cobrasse um preço silencioso de quem ousasse avançar por ela. Desde as primeiras horas da manhã, o céu permanecia densamente encoberto por nuvens pesadas, de um cinza profundo, como se o mundo ainda estivesse preso aos resquícios de uma tempestade recente. O ar carregava o cheiro úmido da terra revolvida, misturado ao frescor cortante deixado pela chuva da noite anterior.
O solo, encharcado e instável, dificultava o avanço dos cavalos. Cada passo afundava levemente na lama espessa, produzindo um som abafado e irregular, enquanto respingos escuros eram lançados para trás, marcando o caminho como cicatrizes frescas. Não havia trilha definida, apenas uma sequência de pegadas que, com o tempo, desapareceriam sob o peso da própria natureza.
O grupo avançava em silêncio, mantendo um ritmo constante, porém cauteloso. Não era um silêncio confortável, mas sim carregado de atenção. Cada um mantinha os olhos atentos ao horizonte e aos arredores, como se esperassem que algo, ou alguém, pudesse surgir a qualquer momento.
Havia algo no ar.
Uma sensação difícil de descrever, quase imperceptível, mas persistente o suficiente para incomodar. Não era apenas tensão. Não era apenas cansaço. Era algo mais profundo, mais instintivo, uma presença invisível que pressionava os sentidos.
Zach já havia aprendido, ao longo dos anos, a não ignorar esse tipo de sensação.
Sem virar a cabeça, sem alterar o tom de voz, ele quebrou o silêncio:
— Estamos sendo seguidos.
A afirmação caiu no ar com um peso imediato.
Silas, que até então mantinha uma postura relaxada na sela, endireitou-se de forma quase automática. Sua mão apertou as rédeas com mais firmeza, e seu olhar percorreu rapidamente a paisagem ao redor.
— Desde quando você percebeu? — perguntou ele, mantendo a voz baixa, mas firme.
— Desde que saímos de Santa Esperança — respondeu Zach, com naturalidade. — Só não tinha certeza até agora.
Elara, que cavalgava alguns metros à frente, franziu levemente o cenho. Seus olhos se estreitaram enquanto observava a paisagem. As árvores ao redor eram tortuosas, com galhos retorcidos que se estendiam como dedos deformados em direção ao céu. Suas sombras, alongadas pela luz difusa, criavam formas inquietantes sobre o chão irregular.
— Quantos? — perguntou ela, sem desviar o olhar do horizonte.
Zach fechou os olhos por um breve instante, como se estivesse tentando ouvir algo além do alcance comum.
— Três… — murmurou. Em seguida, corrigiu-se com precisão: — Não. Quatro.
Silas soltou um suspiro contido.
— Você consegue vê-los?
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios de Zach.
— Não exatamente… — respondeu ele. — Mas consigo fazê-los aparecer.
Antes que qualquer um pudesse reagir, Zach ergueu a mão de forma sutil, quase despreocupada.
O efeito foi imediato.
O ar ao redor do grupo pareceu se distorcer, como se a própria realidade tivesse sido levemente dobrada. Por um instante breve, mas absoluto, o som do vento desapareceu completamente. O mundo ficou suspenso em um silêncio antinatural.
E então, quatro figuras surgiram entre as árvores, quatro homens. Vestiam mantos escuros que se confundiam com as sombras ao redor. Seus rostos estavam parcialmente cobertos, mas um símbolo era claramente visível nos ombros de cada um deles: uma serpente entrelaçada a um bastão de dinamite.
Silas cerrou os dentes.
— Trupe Explosiva…
Um dos homens deu um passo à frente. Seu movimento era calmo, quase entediado, como se aquilo fosse apenas mais uma tarefa rotineira.
— “Red.” — disse ele, em um tom firme, porém desprovido de emoção. — Você causou mais problemas do que esperávamos.
Zach inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando a situação com interesse genuíno.
— E vocês demoraram mais do que eu imaginei.
O homem não respondeu de imediato. Em vez disso, agachou-se levemente e tocou o chão com a palma da mão.
O efeito foi instantâneo.
Sem qualquer aviso, sem qualquer transição, a terra começou a tremer violentamente.
O solo sob os pés deles cedeu.
Não rachou lentamente, não abriu com gradualidade, simplesmente colapsou, como se tivesse perdido toda a sua sustentação de uma vez só.
— CUIDADO! — gritou Elara.
Sua égua, Cinzenta, reagiu por puro instinto, saltando para trás no último segundo. À frente deles, o caminho havia sido completamente destruído, transformado em um abismo irregular, como se uma explosão subterrânea tivesse rasgado o solo de dentro para fora.
Pedras e detritos começaram a despencar ao redor.
Uma das rochas, maior e mais pesada, atingiu Silas com força, derrubando-o da sela.
— SILAS! — gritou Elara, o coração acelerado.
— Fique tranquila… — respondeu ele, com esforço, enquanto se levantava. — Eu estou bem. Cuide deles.
Uma luz suave, quase etérea, começou a emanar de sua mão assim que ele a levou até o ferimento. A pele se regenerou quase que imediatamente.
Sem perder tempo, Silas pegou o rifle preso às costas, apoiou-o com firmeza e mirou.
O disparo ecoou pelo vale.
Um dos homens caiu imediatamente.
Enquanto isso, Zach desmontava de sua égua com uma calma quase desconcertante, como se estivesse alheio ao caos ao redor.
— Interessante… — murmurou ele, observando o homem que havia iniciado o ataque. — Então você também é um marcado.
O inimigo sorriu, desta vez com um traço de arrogância.
— E isso é só o começo.
Ele fechou a mão.
Outra ruptura se abriu, desta vez diretamente sob Zach.
O chão cedeu.
Mas, antes que ele fosse engolido completamente, seu corpo se dissipou no ar… como fumaça.
Uma ilusão.
O verdadeiro Zach surgiu atrás do inimigo, já com uma adaga em mãos, movendo-se com precisão letal.
— Você devia prestar mais atenção ao que está ao seu redor.
O homem reagiu com velocidade surpreendente. Girou o corpo e bloqueou o ataque com o antebraço, como se já esperasse aquele movimento.
Zach recuou um passo, genuinamente surpreso.
— Então você não depende apenas do seu poder…
— Eu não estaria aqui se dependesse — respondeu o homem, firme.
Antes que o confronto pudesse continuar, dois dos capangas avançaram simultaneamente na direção de Zach.
Dois disparos ecoaram quase ao mesmo tempo.
Ambos caíram.
Zach virou-se, confuso por um breve instante.
Foi então que viu Elara.
Ela segurava dois revólveres, um em cada mão. Seus olhos estavam fechados por um momento… e, quando se abriram, havia algo diferente neles. Algo mais profundo. Mais distante. Como se estivesse enxergando além do que era visível.
— Eles não vieram apenas para lutar — disse ela.
Zach desviou de outro ataque, mantendo o foco dividido.
— Como assim?
Antes que ela pudesse responder, um som cortou o ar.
Todos pararam.
Era o som de passos — lentos, firmes, seguros.
Um homem caminhava em direção a eles. Um chapéu largo cobria parcialmente seu rosto, e uma longa túnica repousava sobre seus ombros.
O membro restante da Trupe Explosiva recuou imediatamente.
— Não… — murmurou ele, em um tom que misturava medo e incredulidade.
O recém-chegado ergueu a cabeça.
Era um homem mais velho, com barba e cabelos grisalhos. Seus olhos, porém, destoavam de todo o resto — brilhavam com uma luz dourada intensa, quase hipnótica.
Ele sorriu.
— Ei… — disse, com um tom casual. — Quem mandou receber meus convidados desse jeito?
Zach girou a adaga entre os dedos, atento.
O vento voltou a soprar, mais forte desta vez.
O homem da trupe virou-se e começou a correr.
— Ah, mas não vai mesmo — disse o estranho, com tranquilidade.
Ele levou dois dedos à boca e assoviou.
No instante seguinte, quatro espingardas surgiram debaixo de sua túnica, levitando no ar como se fossem extensões de sua vontade.
— Mas o que…? — murmurou Silas, visivelmente impressionado.
O homem apenas apontou na direção da fuga.
As armas dispararam em sequência, movendo-se pelo ar com precisão assustadora.
Segundos depois, quatro tiros ecoaram à distância.
Silêncio.
— Eu disse que, se te encontrasse aqui de novo, iria te matar — sussurrou o homem, quase para si mesmo.
As armas retornaram, acomodando-se novamente sob sua túnica como se nunca tivessem saído de lá.
Ele então voltou sua atenção para o grupo.
— Olá, forasteiros — disse, ajustando o chapéu. — O que fazem por essas bandas?
Elara não respondeu de imediato. Seu olhar permanecia fixo nele, analisando cada detalhe, a postura relaxada, o controle absoluto da situação, a ausência total de esforço ao lidar com a violência.
— Isso depende… — respondeu ela, por fim. — Quem está perguntando?
O homem soltou uma leve risada.
— Justo.
Com um gesto elegante, inclinou levemente o chapéu.
— Podem me chamar de Gaspar.
Silas ainda mantinha o rifle erguido, desconfiado.
— Você sempre resolve seus problemas assim?
Gaspar deu de ombros, despreocupado.
— Só quando eles insistem em existir.
Zach permaneceu em silêncio, observando atentamente cada movimento, cada nuance.
— Você sabia que eles estavam aqui — afirmou ele.
Não era uma pergunta.
Gaspar sorriu de lado.
— Claro que sabia.
Ele começou a caminhar lentamente ao redor do grupo, avaliando-os com olhar experiente.
— A Trupe Explosiva não costuma agir sem motivo… muito menos enviar quatro homens.
Ele parou atrás de Zach.
— E definitivamente não manda qualquer um atrás de você.
Zach não se virou.
— Então você sabe quem eu sou.
— Sei o suficiente — respondeu Gaspar.
Houve uma breve pausa.
Então, com um leve sorriso, ele completou:
— Zach “Red.” Griff.
E, naquele instante, ficou claro que aquele encontro estava longe de ser um acaso.
Continua…