O silêncio caiu como uma sentença, pesado, denso, definitivo.
Corpos imóveis jaziam espalhados pela rua. O sangue escorria lentamente sobre a terra seca, desenhando caminhos irregulares que logo eram absorvidos pelo chão. Nenhum movimento. Nenhuma reação. Nenhum som.
Uma cena perfeita demais.
Gaspar observava.
Não havia pressa em seus gestos, nem choque evidente em sua expressão. Ainda assim, algo em sua postura denunciava atenção absoluta. Seus olhos permaneciam abertos, fixos, sem piscar, como se qualquer fração de distração pudesse custar mais do que a própria vida.
— …não — murmurou ele, quase inaudível.
Algo estava errado, não era a morte, era a perfeição dela.
O vento permanecia constante, sem oscilar, sem reagir ao cenário. O cheiro metálico do sangue não se espalhava pelo ar como deveria. Nenhum inseto surgia. Nenhum som secundário quebrava a cena.
O tempo… não avançava.
Gaspar estreitou os olhos lentamente.
— Isso não é execução…
Uma leve distorção atravessou o ambiente. Sutil. Breve. Quase imperceptível.
Como um reflexo mal posicionado em um espelho invisível.
E então… O corpo de Zach tremeu.
Por um instante, sua forma pareceu perder densidade, como se estivesse sendo puxada para fora da realidade. Em seguida, dissipou-se, não com violência, mas com suavidade — como fumaça levada pelo vento.
Silas foi o próximo.
Seu corpo vacilou, fragmentou-se em pequenas distorções de luz e desapareceu da mesma forma.
Depois, Elara.
O cenário inteiro começou a rachar. Primeiro em linhas finas, quase decorativas. Depois, como vidro sob pressão, as fissuras se expandiram em todas as direções, cruzando paredes, chão, corpos e céu.
E então… quebrou. A realidade se estilhaçou em silêncio absoluto.
Zach surgiu de pé, respirando fundo, limpo e inteiro.
Seus pulmões se encheram de ar com força, como se tivesse acabado de emergir debaixo d’água. Ele passou a mão pelo rosto, ainda assimilando a transição, e então deixou escapar um leve sorriso.
— Ufa… essa foi por pouco.
Silas apareceu ao lado dele, com a respiração irregular e os olhos arregalados, ainda tentando reconstruir o que havia acabado de acontecer.
— Que… que porra foi essa?!
Elara surgiu logo depois, levando a mão à cabeça, claramente afetada.
— Eu senti… — murmurou — eu vi… tudo…
Cada detalhe, cada dor, cada morte.
Gaspar soltou um riso baixo, quase satisfeito.
— Hah…
Ele inclinou levemente a cabeça e olhou diretamente para Zach, agora com interesse genuíno.
— Então foi você.
Zach deu de ombros, despreocupado.
— “Talvez” …
Ele girou o revólver entre os dedos com habilidade, num gesto casual que contrastava com a tensão do ambiente.
— Uma ilusão bem construída engana qualquer um.
Seus olhos então se voltaram para o vazio da rua, e mudaram, as pupilas adquiriram um tom vermelho intenso, quase incandescente, como brasas vivas.
— Até quem vê o futuro.
A voz retornou, mas desta vez, mais fria, mais atenta, menos confiante.
— Interessante…
Zach sorriu, mas havia algo diferente agora, não era provocação, era controle.
— Não.
Ele deu um passo à frente.
— Agora sim virou um jogo.
Silas virou-se abruptamente para ele, incrédulo.
— Você enganou ele?!
— Não — corrigiu Zach, com calma.
Seus olhos continuavam fixos no vazio, como se encarassem algo invisível aos demais.
— Eu só deixei ele acreditar que acertou.
Gaspar abriu um sorriso verdadeiro dessa vez, claramente impressionado.
— Você é pior do que pensei.
Elara respirou fundo, ainda organizando as próprias percepções.
— Então… aquela morte…
Zach respondeu sem hesitar:
— Era o futuro dele.
Houve uma breve pausa.
Então ele completou, com um leve tom de soberba:
— Eu só mudei o final.
Gaspar inclinou a cabeça, refletindo sobre aquilo.
Seus olhos percorreram o ambiente mais uma vez, agora com nova perspectiva.
— Então quer dizer que…
Ele fez uma pausa breve.
— Pela primeira vez…
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Ele não sabe exatamente o que vai acontecer.
Zach ergueu o revólver.
— Exatamente.
Seus olhos brilharam com intensidade.
— Agora é justo.
Silas puxou o rifle com um movimento decidido.
— Finalmente.
Elara, porém, fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, sua expressão era mais grave.
— Não…
Ela respirou fundo.
— Agora é perigoso pra ele também.
Um disparo cortou o ar, mas Zach já não estava mais lá. O projétil atravessou o espaço vazio onde ele estivera um instante antes e se cravou na madeira de uma fachada próxima, estilhaçando parte da estrutura.
Silas reagiu imediatamente.
Girou o corpo, apoiou o rifle no ombro e disparou na direção da origem do tiro.
O recuo reverberou pelo seu corpo.
— Telhado, três horas! — gritou.
O som do impacto veio, mas não houve queda.
Elara já estava em movimento, seus olhos brilhavam novamente, mais intensos, mais precisos. Ela não apenas observava, ela buscava entre possibilidades.
— Não é só um! — alertou. — Dois… não, três pontos diferentes!
Gaspar soltou um assovio baixo.
— Eles aprendem rápido…
Sob sua túnica, quatro armas emergiram, flutuando ao seu redor como predadores aguardando comando. Giravam lentamente, ajustando ângulos impossíveis.
— Então vamos acelerar isso.
Ele apontou.
As armas dispararam em sequência, movendo-se no ar com precisão sobrenatural, corrigindo trajetórias no meio do percurso.
Um grito rasgou o silêncio, desta vez, real.
Um corpo despencou de um dos telhados.
— Um a menos — murmurou Gaspar.
Mas Zach não reagiu.
Ele permanecia imóvel, observando.
— Não… — disse, em tom baixo.
Silas recarregou o rifle com rapidez.
— “Não” o quê?!
Zach estreitou os olhos.
— Isso aqui… ainda faz parte.
Elara congelou por um instante.
— Do quê?
Zach respondeu:
— Do plano dele.
O vento mudou de direção, sutilmente, mas o suficiente.
Gaspar percebeu imediatamente.
— …tem mais alguém.
Antes que qualquer um reagisse, um som cortou o ar, não era tiro, não era passo, era… um deslocamento.
Como algo atravessando o espaço.
Zach virou o corpo no reflexo. Tarde demais.
Uma figura surgiu a centímetros dele, rápida e violenta.
Um impacto seco atingiu seu abdômen, o ar saiu de seus pulmões na hora.
— Tch…
Ele foi arremessado contra a parede de uma construção, quebrando madeira ao impacto.
— ZACH! — gritou Elara.
O atacante não parou, avançou novamente em velocidade absurda.
Silas puxou o gatilho.
Uma, duas, três vezes... e nada
A figura simplesmente… não estava mais onde deveria estar.
— Rápido demais… — murmurou.
Elara arregalou os olhos.
— Não… isso não é só velocidade…
A figura parou, no meio da rua, de costas para eles. O casaco longo balançava com o vento.
Devagar… ele virou o rosto, com um sorriso leve, confiante.
— Então vocês conseguiram passar da primeira tentativa…
Zach se levantou entre os destroços, tossindo.
— …segunda — corrigiu, limpando o sangue do canto da boca.
O homem riu baixo.
— Melhor ainda.
Gaspar observava em silêncio, mas seus olhos já tinham reconhecido.
— Então é você…
O homem abriu os braços levemente.
— Victor Faísca.
O nome caiu como peso.
Silas travou o maxilar.
— Ele veio até a gente…
Elara não tirava os olhos dele.
— Não…
Sua voz saiu baixa.
— Ele sempre esteve aqui.
Victor inclinou levemente a cabeça.
— Vocês são interessantes.
Seus olhos passaram por cada um deles.
Pararam em Zach.
— Especialmente você.
Ele ergueu a mão, apontando diretamente.
— Você conseguiu quebrar a visão de morte com uma ilusão.
Zach deu um sorriso torto.
— E vou quebrar você também.
Victor riu.
Mas não havia humor naquilo.
— Não.
Ele deu um passo à frente, e, por um instante, o mundo pareceu… atrasar.
— Você ainda não entendeu.
Outro passo.
— Eu não estou tentando vencer vocês.
Mais um.
— Eu só estou escolhendo…
Ele parou em frente a Zach, os olhos dourados brilhando.
— …como vocês perdem.
Elara avançou um passo.
Determinada.
— Não dessa vez.
Victor voltou o olhar para ela, curioso.
— O julgamento… interessante.
Ela ergueu a mão lentamente.
— Eu já vi o suficiente.
Deu um passo para trás, firme.
— E você também errou.
Pela primeira vez, Victor estreitou os olhos.
— …mostra — sussurrou Elara.
Zach sorriu, e seus olhos arderam em vermelho intenso.
— Com prazer.
E então… Seu rosto começou a se transformar.
A pele se distorceu, retraindo-se de maneira antinatural. As feições humanas deram lugar a algo mais profundo, mais antigo, mais ameaçador.
Uma caveira, nada comum, mas completamente demoníaca.
A realidade ao redor começou a se contorcer novamente, mas dessa vez, não era defesa, era ataque, e, pela primeira vez…
O jogo deixou de ser invisível.
Continua...