A realidade começou a se deformar ao redor de Zach, mas, desta vez, não foi imediato.
O ar não se rasgou de uma só vez, nem o espaço cedeu abruptamente como antes. Foi algo mais lento, quase orgânico. Como se o mundo estivesse sendo pressionado por uma força invisível, esticando-se além de seus próprios limites até começar a ceder.
Victor percebeu primeiro, deu um passo para trás, o instinto gritando antes mesmo da razão conseguir acompanhar.
— O que está acontecendo aqui? — sua voz saiu mais alta do que ele pretendia, carregada por uma tensão que já não conseguia esconder.
Zach não respondeu, apenas avançou, um passo firme, pesado, como se cada movimento fosse inevitável.
Seus olhos já não eram olhos. Pequenas labaredas escapavam das cavidades da caveira, dançando com uma intensidade silenciosa, quase hipnótica. Não era fogo comum não aquecia, não iluminava. Era algo mais antigo, mais profundo, algo que queimava sem consumir.
Victor hesitou, foi o suficiente.
Elara surgiu atrás dele como uma sombra que sempre esteve ali, não houve som de passos. Nenhuma indicação de movimento. Apenas… presença.
Victor desviou o olhar por um instante, e esse instante custou caro.
Algo falhou, um detalhe mínimo, um atraso imperceptível. Mas, para alguém como ele, aquilo era impossível.
— Você já está vendo — disse Elara, sua voz baixa, firme, como uma verdade que não precisava ser provada.
Victor franziu o cenho.
— …o quê?
Ela sustentou o olhar, inabalável.
— As consequências.
Então o mundo acabou, não houve explosão, nem colapso visível. Simplesmente deixou de existir, a cidade, o chão, o céu, tudo foi engolido por um vazio absoluto. Um espaço sem cor, sem forma, sem som. Um nada tão completo que parecia pressionar os pensamentos.
Restaram apenas três figuras. Zach. Elara. E Victor.
Victor deu um passo à frente, o coração agora acelerado de forma irregular.
— Não.
Outro passo.
— Eu já vi isso antes.
Mas não era verdade, ou, pelo menos, não completamente. Porque, desta vez… era diferente, mais profundo, mais real.
Elara inclinou levemente a cabeça, aproximando-se apenas o suficiente para que sua presença se tornasse inevitável.
— Então veja.
Victor piscou.
E o mundo respondeu, ele viu a si mesmo, de joelhos, respiração falha, irregular, puxando o ar como se cada inspiração fosse uma batalha, seu corpo estava coberto de sangue, não de um único ferimento, mas de vários. Cortes, perfurações, marcas de impacto.
— …não. — Sua voz saiu quase inaudível.
Outra visão.
Zach estava de pé, com corpo de Victor estendido no chão, imóvel, vazio.
— Não.
Outra.
Um disparo, o impacto seco de uma bala de rifle atravessando seu corpo, arrancando o ar de seus pulmões antes mesmo que pudesse reagir.
Outra.
Queda, da torre mais alta da cidade se erguendo ao fundo enquanto ele despencava, o vento cortando seu rosto antes do impacto final.
Outra.
Punhos. Dor, golpes sucessivos esmagando qualquer tentativa de resistência até que não restasse nada.
— NÃO!
Victor recuou abruptamente, pela primeira vez… desestabilizado.
— Isso não é o futuro…
A voz falhou no final.
Zach apareceu atrás dele.
Perto demais, próximo o suficiente para que o calor inexistente de suas chamas fosse sentido, um sorriso torto surgiu em seu rosto.
— Este é o seu futuro.
As visões se multiplicaram, mas não eram caóticas, não eram aleatórias, eram precisas, detalhadas, possíveis.
Cada uma delas carregava um peso insuportável: plausibilidade.
Elara se aproximou, agora ao lado de Zach.
— Você vê finais, Victor.
Ela ergueu levemente o queixo, como se estivesse observando algo além dele.
— Eu mostro o peso deles.
Victor levou a mão à cabeça.
Seus olhos dourados, antes firmes e confiantes, começaram a oscilar. A luz neles tremulava como uma chama prestes a se apagar.
— Eu… já vi isso… — murmurou, mas agora não havia convicção.
Zach inclinou a cabeça, curioso.
— Viu?
Outra visão atravessou sua mente.
Ele caía, e caía de novo, e de novo, mas nunca da mesma forma, nunca com o mesmo fim.
— Não…
Seu olhar começou a se mover rápido demais, tentando acompanhar algo que já não obedecia a lógica alguma.
— Isso não… isso não pode ser o futuro…
Elara deu mais um passo, calma e fria.
— É exatamente isso.
Victor respirou fundo, ou tentou, o ar entrou, mas não trouxe estabilidade.
— Eu vejo finais… — disse, forçando controle — eu vejo todas as possibilidades…
Zach respondeu com um leve sorriso:
— Será?
Então veio uma visão diferente de todas as outras.
Victor viu Zach morto, mas, ao mesmo tempo… viu Zach sorrindo, as duas imagens coexistindo, sobrepostas, impossíveis.
Ele recuou instintivamente.
— Não.
Outra.
Ele atacava. Errava.
Atacava novamente. E morria.
Tudo ao mesmo tempo, sem sequência, sem ordem.
— NÃO!
Victor abriu os olhos com força, e algo novo estava ali, algo que nunca existiu antes, a dúvida.
— Isso não é o meu poder… — disse, mais baixo — ou é?
Seu olhar foi de Zach para Elara.
— …vocês mexeram… — sua voz falhou — nas minhas visões.
Elara respondeu sem hesitar:
— Não.
Ela sustentou o olhar.
— A gente só tirou você do controle.
Victor tentou respirar novamente, dessa vez, pior, seu peito subia e descia rápido demais.
— Isso… isso não é possível… — murmurou — eu vejo antes… eu sempre vejo antes…
Zach deu um passo à frente, lento.
— Mas “antes” … você não nos conhecia.
Aquilo atingiu como um golpe direto.
Victor travou.
Seus olhos se arregalaram.
— …não.
Agora ele não sabia mais, sua mão tremeu, sutil, mas real.
— O que… você fez comigo?
Zach girou o revólver entre os dedos.
— Eu?
Um sorriso leve.
— Eu não fiz nada.
O som do engatilhar seco do revólver ecoou no vazio.
— Só te mostrei finais… que você não conseguia prever.
E então aconteceu, o pior de todos.
Victor piscou, e não viu nada, nenhuma visão, nenhuma possibilidade, nenhum futuro. Apenas vazio.
Seu corpo travou completamente.
— …não tem… nada…
Sua voz saiu quebrada.
— Eu não… consigo ver…
Elara sussurrou:
— Agora você entende.
Zach completou:
— Como é lutar contra nós.
Victor permaneceu imóvel, os olhos abertos, mas sem foco. Como alguém procurando desesperadamente por algo que simplesmente deixou de existir.
Então ele riu, baixo.
— Hah…
Levou a mão ao rosto, cobrindo parcialmente os olhos.
— Sempre teve alguma coisa… — disse, mais para si mesmo — sempre teve um caminho… uma saída… um resultado…
Seus dedos deslizaram lentamente pelo rosto.
— Mesmo quando eu perdia… eu via.
Ele abaixou a mão, seus olhos voltaram, mas não eram mais os mesmos.
— Agora… não tem nada.
Zach não respondeu, apenas apontou o revólver.
Elara permaneceu imóvel, observando.
Victor respirou fundo, dessa vez… funcionou.
Não para recuperar o poder, mas para aceitar.
— Então é isso…
Deu um passo à frente, sem pressa e sem medo.
— Eu não vejo o fim de vocês aqui.
A frase caiu diferente, pesada, definitiva.
Zach estreitou levemente os olhos.
Victor continuou:
— Não importa o quanto eu insista… não importa quantas vezes eu tente forçar…
Ele os encarou.
— Não existe um final de vocês… nesse lugar.
Elara não desviou o olhar.
— Então você já entendeu.
Victor assentiu.
— Entendi.
Uma pausa.
— Eu perdi.
Zach manteve a arma apontada.
— E agora?
Victor soltou um leve suspiro.
— Agora…
Ergueu o olhar para o céu inexistente.
— Agora o jogo acabou.
Então voltou a encará-los, um leve sorriso surgiu.
— Na próxima vez…
Seus olhos carregavam algo novo.
— Eu vou estar preparado.
Zach respondeu, quase no mesmo tom:
— A gente também.
E então, o vazio colapsou, o mundo voltou.
A cidade de Areia Perdida reapareceu como se nunca tivesse desaparecido. O calor seco, a poeira suspensa no ar, o som distante do vento atravessando as construções.
O rosto de Zach voltou ao normal, humano.
Silas e Gaspar estavam próximos.
Victor estava caído no chão, rendido.
Gaspar olhou de Victor para Zach.
— O que vão fazer com ele agora?
Zach estendeu a mão para Victor.
— Eu não vou fazer mais nada. Agora ele está sob sua jurisdição, Gaspar.
Uma pausa breve.
— A cidade de Areia Perdida é seu lar… não é?
Gaspar assentiu.
Zach olhou novamente para Victor.
— Sua sorte é que você se rendeu antes.
Um pequeno silêncio.
— Senão, eu teria te matado ali mesmo.
Victor apenas sorriu de canto.
Zach completou:
— E seu azar… é que eu não posso garantir o mesmo com ele.
Gaspar agarrou Victor pelo colarinho, puxando-o para cima.
— É bom você se comportar, desgraçado…
Ele puxou um canivete e aproximou do rosto dele.
— Ou eu arranco suas bolas fora.
Zach apenas ajeitou o chapéu, limpando a poeira da roupa, olhou para os companheiros.
— Acho que terminamos por aqui, não é?
Gaspar franziu o cenho.
— Espera… ainda falta uma coisa.
Corte.
Noite.
A pequena cidade agora respirava aliviada, o bar estava cheio.
Risos, vozes, vida.
Gaspar ergueu a voz:
— A deles é por minha conta!
Apontou para Zach, Elara e Silas.
— Eles ajudaram a salvar a cidade!
Zach riu, pegou um copo de uísque, levantou-se.
— Um brinde a Areia Perdida…
Ergueu o copo.
— Por ter sido liberta das garras da Trupe Explosiva.
O bar inteiro respondeu em coro, copos se chocaram.
Elara puxou Zach de lado.
— Dá pra acreditar que ele prendeu a cidade inteira?
Silas riu.
— Agora ele que tá preso.
Gaspar se aproximou.
— Eu queria agradecer… de verdade.
Zach deu um gole.
— Só fizemos o certo.
Gaspar balançou a cabeça.
— Mesmo conhecendo os Marcados… eu não teria conseguido sozinho.
Elara respondeu:
— Então você sabe que isso era inevitável.
Ela bebeu calmamente.
Gaspar levantou o copo.
— Então… vamos beber.
E, por aquela noite…
A guerra podia esperar.
Continua...