Zach inclinou levemente a cabeça.
— Quem te ensinou a controlar tanta gente assim?
Dessa vez… O padre demorou, um único segundo, quase imperceptível, mas suficiente.
Zach viu.
Elara viu.
Silas sentiu.
E, em algum lugar nas sombras… algo se moveu.
Elara foi a primeira a reagir.
— Zach… — murmurou, com a voz baixa, carregada de alerta.
Tarde demais, o padre deu um passo à frente… e parou abruptamente, seu corpo travou.
Não como alguém hesitando, mas como algo que havia sido interrompido à força. Seus músculos ficaram rígidos, a postura desalinhada, como uma marionete cujas cordas foram puxadas além do limite.
Silas franziu o cenho, desconfiado.
— …tá vendo isso?
Um som baixo começou a ecoar pela capela, não vinha do padre. vinha das sombras.
Zach não se virou, seus olhos permaneceram à frente.
— Eu sabia.
As sombras próximas às colunas começaram a se alongar. Não era um fenômeno natural causado pela luz, era movimento com propósito. Intencional. Controlado.
Algo se desprendeu da escuridão. Primeiro, um contorno, depois… forma. Uma figura surgiu lentamente, como se estivesse sendo desenhada pelo próprio escuro. Alta. Imóvel. Silenciosa.
O rosto parcialmente coberto pela sombra. Mas o sorriso… o sorriso era visível.
— Não precisava ser tão agressivo — disse a figura, em um tom calmo demais para a situação.
Silas já estava com o rifle em mãos, postura firme, dedo pronto no gatilho.
— Então você resolveu aparecer.
A figura inclinou levemente a cabeça.
— Eu sempre estive aqui.
Elara estreitou os olhos.
— Observando.
— Aprendendo — corrigiu a entidade.
Zach deu um passo à frente, sem pressa, sem hesitação.
— Então é você quem está por trás disso.
A figura não respondeu imediatamente. Seus olhos percorreram os três, analisando, medindo, calculando possibilidades com precisão quase mecânica.
— Vocês são… diferentes.
Zach ignorou o comentário.
Num movimento brusco e calculado, ele avançou, agarrou o padre pelo colarinho e pressionou o cano do revólver contra sua cabeça. O impacto seco do gesto ecoou pela capela, rompendo qualquer resquício de tranquilidade.
Silas travou por um instante.
— Zach—
— Fica — cortou ele, sem desviar o olhar da figura.
O padre não reagiu, seus olhos permaneciam abertos…, mas completamente vazios.
Zach voltou a encarar a entidade.
— Se você está vendo tudo… então já viu o que acontece com ele.
A figura permaneceu imóvel.
— Você não vai atirar.
O clique do gatilho ecoou alto demais naquele silêncio.
— Quer apostar?
Por um breve instante… A capela inteira pareceu prender a respiração.
Então a figura suspirou.
— Não precisa.
Deu um passo à frente. A luz dos vitrais finalmente tocou parte de seu rosto — revelando traços humanos… mas não naturais. Havia algo artificial na maneira como sua expressão se sustentava.
— Eu estou aqui.
Zach estreitou os olhos, mas não abaixou a arma.
Elara observava, algo não encaixava.
— Zach… espera—
Tarde demais, a figura moveu-se, rápido, rápido demais.
Silas puxou o gatilho, o disparo ecoou violentamente pela capela.
A figura desviou…, mas não como alguém que reage, como algo que já sabia, o movimento foi seco. Preciso e artificial.
Zach não soltou o padre. Girou o corpo e disparou três vezes consecutivas, todos os tiros foram evitados, de maneira absurda.
— Errou — disse a figura, com um leve tom de ironia.
— Será? — respondeu Zach, com uma frieza calculada.
O mundo ao redor pareceu distorcer levemente, as cores dos vitrais se arrastaram no ar, o tempo hesitou, e, por um instante… a figura hesitou. Um erro... pequeno, mas real.
— …peguei — murmurou Zach.
— Agora — disse Elara.
O ambiente se dobrou sobre si mesmo, as sombras se fragmentaram. A figura travou, não fisicamente, mas em possibilidades. Como se múltiplos caminhos colidissem ao mesmo tempo, forçando uma falha momentânea.
Silas avançou.
Outro disparo, dessa vez, acertou, o impacto fez a figura recuar.
Mas não houve grito, nem reação humana.
Zach já estava à frente.
Alinhou o revólver, disparou, o corpo foi arremessado contra o chão da capela.
Silêncio pesado.
Silas respirou fundo.
— …acabou?
Ninguém respondeu.
Zach continuava observando.
— Não.
Deu um passo à frente.
O corpo começou a se erguer, sem apoio, sem esforço, como se a gravidade não fosse mais relevante.
— Eu sabia porra — murmurou Zach, irritado.
Instintivamente, deu um passo para trás, em um movimento fluido, puxou as duas escopetas escondidas sob o sobretudo e disparou, o impacto foi brutal.
A figura caiu novamente, dessa vez… imóvel, sangue escorria lentamente pelo chão, tudo parecia… certo, perfeito demais. Então… Ela riu.
Um som baixo, errado.
Silas congelou.
— …não.
O riso aumentou, mas não era natural, a voz falhava, duplicava. Como se mais de alguém estivesse falando ao mesmo tempo.
A figura virou levemente o rosto, seus olhos… não estavam mais ali, estavam distantes.
— Vocês realmente acham… — a voz falhou — que chegaram até mim?
Elara deu um passo para trás.
— Zach…
— Eu não estou aí.
O silêncio caiu como um golpe.
Zach não se moveu, mas algo em seu olhar mudou, o sorriso da figura se distorceu.
— O Imperador… não pisa no tabuleiro.
Uma pausa.
— Ele move as peças.
E então:
— Mas… obrigado.
Zach manteve o olhar fixo.
— Eu respeito vocês.
A figura voltou os olhos diretamente para ele.
— Podem me chamar de… Don Soberano.
Um estalo seco ecoou, o corpo tremeu, e então… relaxou completamente. Morto.
E então, o padre caiu, seu corpo desabou no chão, sem qualquer controle, ao redor, um som começou a surgir, confuso, desorganizado, as portas da capela se abriram abruptamente.
Lá fora… as pessoas estavam… acordando.
Algumas caíam de joelhos, outras olhavam ao redor, perdidas, como se tivessem voltado de um lugar distante demais.
Silas olhou ao redor.
— …o que acabou de acontecer?
Elara analisava a cidade.
— Ele perdeu o controle.
— Não — disse Zach, em voz baixa.
— Ele soltou.
Elara virou o rosto lentamente.
— Você sentiu isso também?
Zach assentiu.
— Ele estava vendo tudo.
Um vento atravessou a capela, levando consigo o cheiro suave de rosas misturado ao resquício de pólvora.
Silas soltou o ar.
— Então… a gente não matou ele.
Zach guardou as armas.
— Não.
Seus olhos se voltaram para a saída, para a cidade, para algo além.
— A gente matou… só uma peça.
Elara fechou os olhos por um instante.
— Imperador…
— Não — corrigiu Zach, com um sorriso breve e sem humor.
Uma pausa.
— Don Soberano.
E, pela primeira vez desde que chegaram… Santa Carmesim parecia real. Mas a sensação não era de vitória. Era de aviso.
O som de passos sobre terra seca rompeu a tranquilidade recém-restaurada, Gaspar não tinha pressa. A silhueta de Santa Carmesim já se erguia à sua frente, recortada contra o céu do entardecer. De longe… parecia exatamente o que prometia ser.
Ao cruzar os primeiros limites da cidade, seus olhos percorreram tudo com atenção silenciosa. Não havia correria. Não havia gritos. Nem sinais de conflito recente. Mas havia… confusão.
Moradores caminhavam sem direção definida. Alguns conversavam em tom baixo, tentando entender o que havia acontecido. Outros apenas observavam, como se estivessem voltando de um sonho longo demais.
— Cheguei tarde… — murmurou.
Seus passos o levaram naturalmente até o centro... a capela.
Gaspar parou diante da entrada, seus olhos subiram lentamente pela construção… até as torres.
— Hm.
Um leve sorriso de canto surgiu.
— Eles passaram por aqui.
Ele entrou.
O cheiro de incenso ainda estava no ar, misturado agora com algo mais seco… mais real, pólvora, seus olhos encontraram primeiro o padre, caído no chão, inconsciente. Depois… o corpo.
Gaspar parou, observou, não houve surpresa, só análise.
— …não é ele.
Silêncio.
— Claro que não seria.
Um leve riso nasal escapou.
— Nunca é.
Passos ecoaram atrás dele.
Zach.
— Demorou.
Gaspar não se virou de imediato.
— Resolvi dar uma volta.
Olhou mais uma vez para o corpo no chão.
— Vejo que vocês não esperaram.
Silas se aproximou, apoiando o rifle no ombro.
— A gente tentou.
Elara permaneceu alguns passos atrás, observando Gaspar com atenção.
— Você já sabia.
Gaspar finalmente se virou, seus olhos passaram pelos três.
— Não exatamente.
Uma pausa.
— Mas eu tinha um palpite.
Zach cruzou os braços.
— Fala.
Gaspar tirou o chapéu por um instante, limpando a poeira com a mão.
— Victor falou.
Silas franziu o cenho.
— O vidente?
— Exato.
Gaspar recolocou o chapéu.
— Disse que a Trupe já estava jogando de outro lugar.
Olhou ao redor da capela.
— E que envolvia alguém de patente alta.
Elara completou, em voz baixa:
— Um general…
Gaspar assentiu.
— Ele não sabia o nome.
Uma pausa breve.
— Só o arcano.
Zach já sabia a resposta, mesmo assim, perguntou:
— Qual?
Gaspar sustentou o olhar.
— O Imperador.
O nome caiu pesado… mesmo já sendo conhecido.
Silas olhou para o corpo no chão.
— Então isso aí…
— Não era ele — cortou Zach.
Gaspar apontou levemente com o queixo.
— Marionete.
Elara estreitou os olhos.
— Ele tava vendo tudo.
Gaspar sorriu de canto.
— Claro que tava.
Deu alguns passos dentro da capela, observando as marcas do confronto.
— Um cara desses não entra no campo.
Parou ao lado do corpo.
— Ele joga de longe.
Zach encostou em um dos bancos.
— Don Soberano.
Gaspar soltou um leve riso.
— Nome pomposo.
Silas cruzou os braços.
— E perigoso pra caralho.
— Mais do que vocês acham — respondeu Gaspar.
Ele se agachou ao lado do corpo, analisando com mais atenção.
— Isso aqui…
Tocou levemente o braço do morto.
— Nem era pra vencer.
Elara inclinou a cabeça.
— Era pra observar.
Gaspar ergueu o olhar para ela, um pequeno sorriso de aprovação.
— Exatamente.
Zach soltou o ar lentamente.
— Então ele conseguiu o que queria.
Gaspar levantou.
— Talvez.
Ajustou o casaco.
— Mas vocês também.
Silas arqueou a sobrancelha.
— A gente matou o capanga dele.
— E libertou a cidade — completou Elara.
Gaspar deu de ombros.
— Pra alguém que joga com peças… perder uma ainda conta.
Zach descruzou os braços.
— Então agora ele sabe quem a gente é.
Gaspar respondeu sem hesitar:
— Agora ele tem interesse.
Do lado de fora, vozes, gente viva, confusa, livre.
Elara olhou na direção da porta.
— Pelo menos… isso aqui acabou.
Zach acompanhou o olhar.
— Não.
Uma pausa.
— Isso aqui começou.
Gaspar colocou as mãos no bolso do casaco.
— Finalmente.
Um leve sorriso surgiu, mas não era de humor, era de expectativa.
— Eu tava começando a ficar entediado.
O vento atravessou a capela mais uma vez, eles não estavam sendo observados ali. Mas em algum lugar… alguém estava.
Zach caminha até dentro da capela, retira seu chapéu como sinal de respeito, anda até a frente do altar e se ajoelha.
— ó pai, me perdoe pelos meus pecados...
Continua...