Zach caminhou lentamente em direção ao altar. Cada passo ecoava pela capela agora vazia, não mais envolta no silêncio controlado de antes, cuidadosamente sustentado por rituais e aparências, mas por algo distinto… algo real, cru, quase palpável.
Ele retirou o chapéu com um gesto contido. Permaneceu imóvel por um breve instante, segurando-o junto ao peito, como se o objeto carregasse um peso maior do que deveria. Havia hesitação ali, não física, mas interna. Então, sem pressa, ajoelhou-se. A madeira antiga sob seus joelhos respondeu com um leve rangido, quebrando a quietude.
— Ó Pai… perdoe-me pelos meus pecados…
A voz saiu baixa, firme, desprovida de qualquer ironia ou provocação. Não havia desafio naquela prece, apenas um raro vislumbre de vulnerabilidade.
Ao fundo, Gaspar trocou um olhar rápido com Silas, inclinando-se ligeiramente na direção do companheiro.
— …desde quando ele faz isso? — murmurou, quase inaudível.
Silas não respondeu. Seus olhos estavam fixos em Zach, atentos, analíticos, como se tentasse decifrar algo que não se revelava facilmente.
Elara também observava, mas, ao contrário dos outros… ela compreendia.
Zach permaneceu ajoelhado apenas o suficiente. Quando se levantou, não houve cerimônia, nem sinal de conclusão. Apenas se virou e caminhou em direção à saída, sem olhar para trás.
Santa Carmesim ficou para trás.
Diferente do que haviam experimentado em Areia Perdida, não houve comemoração, tampouco alívio. Não houve sensação verdadeira de vitória. A cidade havia sido libertada, disso não havia dúvida, mas o gosto que permanecia não era de conquista. Era de algo incompleto. Algo que não havia sido resolvido de fato.
Do lado de fora, o som ritmado dos cascos dos cavalos assumiu o lugar do silêncio. Seco. Constante. Quase hipnótico.
Ninguém falava. O vento ainda carregava, de forma cada vez mais tênue, o aroma das rosas que marcara Santa Carmesim. Aos poucos, o perfume se dissipava, enfraquecendo até desaparecer completamente. Em seu lugar, restava apenas o cheiro árido da poeira.
Silas mantinha o olhar fixo no horizonte. Sua postura permanecia ereta, disciplinada como sempre, mas havia algo diferente. Mais fechado. Mais distante.
Gaspar percebeu.
— Você ficou quieto demais.
Silas demorou a responder. Seus olhos não se desviaram da estrada.
— Só tô pensando.
A resposta foi simples. Curta. Mas carregada de peso.
Gaspar soltou um leve som nasal, um “hm” discreto, sem insistir. Sabia reconhecer quando o silêncio era necessário.
Logo atrás, Elara seguia em absoluto recolhimento. Seus olhos não estavam na estrada, nem no horizonte. Estavam voltados para aquilo que já não existia, para as pessoas que haviam ficado para trás, Santa Carmesim, os rostos vazios. Os movimentos mecânicos. A ausência de escolha.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Aquilo não era paz — disse, de repente.
Zach, à frente, não se virou.
— Eu sei.
O silêncio retornou, mas não da mesma forma.
— Era controle — completou ela.
— Eu sei — repetiu Zach.
Desta vez, porém, havia algo diferente em sua voz. Menos convicção. Mais peso.
O grupo seguiu por mais alguns minutos, até que a paisagem começou a se transformar, de maneira sutil, quase imperceptível à primeira vista.
O solo permanecia seco, mas agora exibia marcas. Muitas marcas. Trilhas de rodas cruzavam o caminho em diferentes direções, mais numerosas do que seria esperado para uma rota esquecida como aquela.
Silas foi o primeiro a notar.
— Tem gente passando por aqui.
Zach reduziu levemente o ritmo do cavalo. Seus olhos desceram para o chão, avaliando com atenção.
— E não faz muito tempo.
Gaspar inclinou o corpo, tentando enxergar melhor os detalhes.
— Cidade próxima.
Elara ergueu o olhar pela primeira vez em algum tempo.
No horizonte, uma nova silhueta começava a se formar.
Era diferente de Santa Carmesim. Não havia imponência, nem qualquer traço de beleza planejada. As construções eram baixas, irregulares, espalhadas sem organização clara, como se tivessem surgido por necessidade, não por escolha.
Mas havia algo mais.
Antes mesmo de conseguirem ver com clareza… eles sentiram, um cheiro, não era pólvora. Não era morte recente. Era… doença.
Silas foi o primeiro a reagir de forma concreta. Sua expressão mudou, sutilmente, mas o suficiente.
— …isso não tá certo.
Gaspar franziu o cenho.
— O que foi?
Silas respirou fundo, como se buscasse confirmar a própria percepção.
— O ar… tá pesado. Seco demais… e ainda assim…
Ele interrompeu a frase. Seus olhos se estreitaram.
— Tem gente doente ali.
Zach não respondeu de imediato. Seu olhar já estava fixo na cidade.
— Vamos ver.
À medida que se aproximavam, o silêncio mudou de natureza, não era mais vazio, era evitado.
As primeiras pessoas começaram a surgir nas ruas. E, diferente de Santa Carmesim… elas olhavam, mas não como deveriam, os olhares não percorriam o grupo de forma uniforme. Eles paravam. Fixavam-se em um ponto específico.
Silas.
Uma mulher puxou o filho pelo braço ao vê-los se aproximando. Um homem virou o rosto, cuspindo no chão. Outro simplesmente interrompeu o passo, encarando sem disfarçar, sem vergonha, sem dizer uma palavra.
Gaspar percebeu primeiro, seu maxilar se tensionou.
— …ah.
Silas continuou andando, como se nada daquilo lhe dissesse respeito, mas o silêncio agora era outro, mais denso. Mais pessoal.
Elara observava, não os olhares isoladamente, mas o padrão que eles formavam. Quem olhava. Como olhava. Quem evitava.
— Eles não estão com medo — disse, em voz baixa.
Zach respondeu, sem desviar o olhar da rua à frente:
— Eu sei.
Uma breve pausa.
— Eles só decidiram não gostar.
O som dos cascos pareceu mais alto agora. Ou talvez fosse apenas a tensão que o amplificava, ninguém lhes deu boas-vindas. Ninguém falou diretamente com eles. Ainda assim, tudo já havia sido dito. E, pela primeira vez desde o início daquela jornada… o perigo não estava oculto, estava exposto, diante deles, eles avançaram pela rua principal sem reduzir o ritmo. As conversas ao redor cessavam gradualmente conforme passavam, não de forma abrupta ou chamativa, mas de maneira calculada, como se ninguém quisesse ser visto reagindo, embora todos reagissem.
Silas mantinha o olhar à frente. Nem mais rápido, nem mais lento. Constante, um homem encostado na parede de um estabelecimento soltou uma risada baixa quando o grupo passou.
— Olha só…
Não terminou a frase, não era necessário.
Gaspar virou levemente o rosto, apenas o suficiente para encarar de volta. O homem sustentou o olhar por um segundo… então desviou.
Gaspar quase sorriu.
— Cidade simpática — murmurou.
Zach não respondeu. Seus olhos percorriam o ambiente com precisão: portas, janelas, telhados, possíveis saídas, padrões de movimento… ameaças.
Elara, por sua vez, observava outra camada da realidade, as pessoas, não havia apenas hostilidade. Havia cansaço, rostos pálidos demais. Movimentos lentos. Respirações pesadas. Uma mulher sentada à beira da calçada levou a mão à boca e tossiu, um som seco, prolongado. E ninguém se aproximou para ajudá-la.
Silas viu, por um instante, apenas um, seu olhar mudou.
— A gente precisa ajudar — disse, em voz baixa.
Gaspar soltou um leve suspiro pelo nariz.
— A gente acabou de chegar.
— Eu sei.
Silas finalmente desviou o olhar da frente, examinando o entorno.
— Mas isso aqui não vai esperar.
Zach parou o cavalo, os outros o acompanharam, ele observou a rua por mais alguns segundos antes de falar.
— Primeiro, a gente entende onde está pisando.
Silas sustentou o olhar. Não havia confronto direto, mas tampouco concordância plena.
— Enquanto isso… eles continuam piorando.
Zach não respondeu imediatamente. Seu olhar passou novamente pela mulher que tossia. Depois pelos outros. Depois… pelas pessoas que fingiam não ver.
— Certo — disse, por fim. — Então vamos direto ao problema.
Gaspar inclinou levemente a cabeça.
— E qual deles?
Zach ergueu o olhar.
Um prédio maior que os demais se destacava ao fim da rua. Na fachada, uma estrela indicava autoridade.
— Autoridade.
Sem acrescentar mais nada, ele voltou a avançar.
O escritório do xerife não diferia muito do restante da cidade. Madeira envelhecida. Estrutura desgastada. Ainda assim, havia sinais de organização, uma tentativa visível de manter ordem, mesmo quando ela claramente falhava.
Zach empurrou a porta sem bater. O rangido da madeira ecoou pelo interior, lá dentro, dois homens, um sentado. Outro de pé, encostado na parede. Ambos olharam, o silêncio se instalou imediatamente.
Os olhos passaram por Zach.
Depois por Elara.
E então… Pararam em Silas, tempo demais.
O homem sentado, o xerife, apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Posso ajudar?
A voz era firme. Mas não acolhedora.
Zach deu alguns passos à frente.
— Talvez.
Silas entrou logo atrás.
O olhar do xerife mudou. Sutil, mas inegável.
— A cidade está doente — disse Silas, direto, sem rodeios, sem pedir permissão.
O homem encostado na parede soltou um riso curto.
— E você é médico?
Silas não se virou para ele.
— Não.
Uma breve pausa.
— Mas posso ajudar.
O xerife descruzou as mãos lentamente.
— Já temos gente cuidando disso.
Elara falou pela primeira vez:
— Não está funcionando.
O homem da parede se endireitou.
— Cuidado com o tom.
Gaspar riu, baixo.
— Calma… ainda nem começou.
O ambiente pesou, o xerife levantou-se devagar. Não era um gesto agressivo, era uma decisão.
— Eu não sei quem vocês pensam que são — disse, encarando diretamente Zach —, mas aqui nós resolvemos nossos próprios problemas.
Zach sustentou o olhar.
— Estão resolvendo mal.
O homem da parede deu um passo à frente.
— Acho melhor vocês irem embora.
Gaspar virou o rosto, agora encarando-o diretamente.
— Acho melhor você pensar antes de falar de novo.
— Gaspar — chamou Zach, sem elevar a voz.
Foi suficiente.
Gaspar recuou meio passo, ainda mantendo o olhar.
O xerife voltou a falar, agora com menos paciência.
— Vou ser claro.
Seus olhos se voltaram para Silas.
— Ele não vai encostar em ninguém desta cidade.
A frase caiu como um peso morto, sem ambiguidade. Sem disfarce.
Silas não reagiu, nenhuma expressão. Nenhuma mudança de postura, apenas… silêncio.
Elara percebeu.
Zach também.
Gaspar travou o maxilar.
Zach soltou um leve suspiro.
— Entendi.
Virou-se.
— Vamos.
Silas hesitou por uma fração de segundo, mas obedeceu, sem discutir, sem insistir, sem olhar para trás.
Continua...